terça-feira, 17 de junho de 2008

Índia Guarani de Peruíbe é contra porto de Eike Batista


A empresa LLX do bilionário Eike Batista vem tentando convencer um grupo de índios Guarani que vive numa área de restinga ao sul da cidade de Peruíbe a sair desse local e aceitar viver em outro sítio, que seria doado pela empresa. Nesse local, chamado Piaçaguera, a LLX pretende criar um imenso e moderníssimo porto com um avançado pier para atracar navios de grande porte, portanto, com mais capacidade do que o atual porto de Santos. Seria o maior porto do Brasil.

A LLX prometeu aos índios obter uma terra ainda melhor e maior, mais para dentro na Serra do Mar, com boas condições de moradia, com terra agriculturável, etc. A empresa contratou pessoal, inclusive, surpreendentemente um antropólogo do Canadá, equipe de advogados, tudo. Em certo momento, parecia que os índios estavam aquiescendo. Por sua vez, a Funai, que no começo fez menção de não deixar isso acontecer, recuou na sua atuação de declarar essa terra indígena e deixou os índios à mercê das negociações com a empresa LLX.

Como no poema de Drummond, acontece que tem pedras no meio do caminho de Eike Batista. Aí é que está a história. Alguma coisa atravessou a conversa entre empresa e índios. Os índios se sentiram enganados e se injuriaram. Faltou a palavra certa e correta para eles decidirem com firmeza por um lado ou por outro. Estão confusos. Por sua vez, a cidade de Peruíbe está dividida a respeito da construção desse porto. Muitos vislumbram desenvolvimento, empregos temporários e fixos, a cidade pacata se movimentando. Outros refutam os argumentos desenvolvimentistas, querem a continuidade da cidade tranqüila. As discussões com ambientalistas varam noites e dias. É um reboliço sem fim.

O jornal eletrônico PortoGente, que aparentemente é contrário ao porto, vem fazendo entrevistas com alguns índios. A que se segue foi feita com a índia Miriam Itamirim, que se apresenta com transparência, reconhece as disputas, as ambições pessoais, a divisão da comunidade.

Leiam a entrevista e se inteirem sobre essa questão.

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Para índia, Porto Brasil desuniu Aldeia Piaçaguera

PortoGente, por Bruno Rios

Após a grande repercussão da entrevista exclusiva do pajé Guaíra publicada na última semana, PortoGente continua a mostrar a rotina dos moradores da Aldeia Piaçaguera, em Peruíbe. Agora, o internauta poderá conferir o depoimento da índia Miriam Itamirim, de 29 anos. Ela conta em detalhes como foram os primeiros contatos da empresa LLX com a aldeia e relata passagens curiosas, como o momento em que ela percebeu de que lado da questão estava a maior parte de seus vizinhos. “Vários não querem terra, mas dinheiro para comprar casas na área urbana. Essa história de Porto Brasil nos desuniu”.

PortoGente: Como foi o contato da LLX com vocês sobre o Porto Brasil?
Miriam Itamirim: Os empresários vieram aqui e nós fomos surpreendidos com isso. Eles nos reuniram e fizeram uma proposta, abriram mapas e deixaram a situação em aberto. Depois, sem eles por perto, nos reunimos e consideramos as possibilidades de negar ou aceitar a proposta. Como a Funai demorou muito para regularizar nossa situação, a maioria aceitou o que a LLX propôs.

PortoGente: E quais motivos não fizeram a conversa evoluir para um acordo?
Itamirim: Ao perceber o interesse da LLX pela área da Aldeia Piaçaguera para a construção do Porto Brasil, a Funai resolveu correr e pensar em nós. Mas aí o impasse já estava criado. As famílias mais tradicionais se recusavam a sair daqui, enquanto os outros toparam abandonar a tribo. Os mais velhos perguntaram à Funai qual era a chance dela vencer a batalha e nos fixar aqui, mas não havia como precisar isso.

PortoGente: E você, chegou a aceitar a proposta da LLX para sair da aldeia?
Itamirim: No início, ainda em 2007, eu queria sim sair daqui. Sei que temos uma história a zelar, mas todos os índios que tentaram resistir ao domínio do homem branco acabaram perdendo a batalha. Nunca tivemos o apoio de autoridades e ninguém nos incentivou a correr atrás dos nossos direitos. Ao juntar tudo isso, vimos com bons olhos uma mudança, um recomeço.

PortoGente: Afinal, o que era essa proposta da LLX?
Itamirim: Vamos ao assunto. Eles nos ofereceram uma mudança para a fazenda do ex-prefeito de Peruíbe, Gilson Bargieri. Lá, teríamos a estrutura que nunca tivemos. Só que, com o passar dos meses, percebemos que as promessas eram pura enrolação. Entraram na empresa e na negociação com nós, índios, pessoas que nada tinham a ver com o processo. Fizeram promessas falas e nos iludiram. Foi nesse momento em que mudei de opinião.

PortoGente: Muitas pessoas mudaram de opinião?
Itamirim: Algumas voltaram atrás por dois motivos. A enrolação da LLX e a história da demarcação da terra ter voltado à tona. Mas nossa vida deixou de ser tranqüila. Um outro advogado em nome do empresário Eike Batista veio aqui na aldeia, nos ofereceu carros, dinheiro e não deu motivo para tal. Depois, nos antenamos e ficamos sabendo da história. O Porto de Peruíbe estava divulgado em todo o País e eles precisavam nos convencer a sair daqui rápido. A partir desse momento, um outro homem, dizendo-se da LLX, disse para nós que a empresa tinha comprado tudo e não teríamos chance.

PortoGente: Analisando os fatos oito meses depois, há algo de positivo nisso?
Itamirim: Sim, eu e outros colegas pudemos conhecer a outra face de muita gente. Os verdadeiros interesses de amigos meus da comunidade apareceram, de maneira triste. Enquanto uns querem tudo de cultura, pensam em nosso futuro, outros não se importam com isso e preferem resolver seu lado pessoal. Teve gente que aceitou até dinheiro da LLX para sair da Aldeia Piaçaguera. Até isso acontecer, eu imaginava que todo mundo queria saber de uma nova terra para nós, mas não. Tinha gente querendo morar no centro urbano, com os brancos.

PortoGente: Você chegou a participar das negociações com a empresa?
Itamirim: Sim, mas desisti de liderar esse movimento porque os intermediários que entraram no processo não queriam nosso bem. Apenas nos tirar da terra e facilitar a construção do Porto Brasil. Um dia, foi até engraçado, um antropólogo dizendo-se do Canadá veio na tribo e começou a palpitar sobre o nosso futuro. Eu não entendi nada, mas coisas piores surgiram depois.

PortoGente: Como o quê?
Itamirim: Eu estava animada porque os primeiros representantes da LLX estavam dispostos a nos ouvir, aceitar nossas sugestões e deixar, até mesmo, que criássemos um projeto cultural, alguma coisa do tipo. Eu até digitei e elaborei um amplo projeto de cultura para nós, mas agendaram uma reunião nossa com a empresa fora da aldeia. Alguns iriam falar em nome da comunidade e eu estava nesse meio. Mas, ao entra no ônibus disponibilizado para nós, ouvi várias indiretas de que os contrários ao porto deveriam ficar quietos. Fiquei tão nervosa que saí e nem fui para a conversa.

PortoGente: Ficou decepcionada com os outros índios?
Itamirim: Sim, mas a raiva passará algum dia. Eu estava certa ao querer mostrar e cobrar algumas coisas da empresa, mas poucos entendiam como eu o que se passava. Acabou que muita gente não fechou com eles e, em uma madrugada, um cara da LLX nos ligou de madrugada, ameaçando e dizendo que deveríamos aceitar a proposta deles de qualquer jeito, e no meio da noite mesmo.

PortoGente: E como vocês resolveram o problema?
Itamirim: Teve gente que saiu batendo de porta em porta perguntando para os vizinhos se eles queriam o porto aqui ou não. A coisa estava sendo feita, de verdade, na calada da noite. Para mim, isso foi o fim, o sinal definitivo de que alguma coisa estava muito errada. O Porto Brasil não saiu do papel, pode se tornar uma coisa imaginária de Peruíbe e só serviu para desunir a comunidade. Sei que não podemos confiar muito na Funai, mas a minha esperança é que eles homologuem logo a terra”.

3 comentários:

Anônimo disse...

moderninha a índia não acham?
ela esqueceu de dizer que somente naõ aceitaram a oferta porque a funai atrapalhou.
esqueceu de dizer também que a funai esqueceu deles de 2000 a 2008
esqueceu também de anotar o numero e nome de quem ligou ameaçando...não seria o SR Plinio?
agora correm o risco de sair sem nada....abs

itamirim disse...

respondendo ao anônimo...
evoluir é direito de todas as culturas;Não foi para mim que ligaram ,foi para outros lideranças que não nos disseram os autores das ligações;O SR Plinio,é um ambientalista que no momento estava em defeza da terra e as pessoas que receberam as ligações não queriam contato algum com ele.

Gilmar Doistempos disse...

Nós, brasileiros, tivemos muita sorte que esse
projeto não tenha acabado com aquela área
preservada.

Nessa reserva, que fica no limite entre os
municipios de Itanhaem/SP e Peruibe/SP o
transito pela praia é liberado.

A primeira vez que passei por lá foi em 2005
e fiquei maravilhado com o que vi. Não avancei
na area de reserva porque existe uma placa
avisando que aquele espaço é exclusivo aos
indios.

De outras vezes que lá fui, vi até um cervo
selvagem no inicio da restinga. É um lugar
único no litotal sul e tem que ser preservado.

Porque a LLX queria construir algo bem ali?
Não há areas em Itanhaem, Mongaguá em Praia
Grande?

Em Praia Grande/SP o desenvolvimento chegou
a 20 anos. O "desenvolvimento" (que é pifio
se comparado ao que ia acontecer em Peruibe)
trouxe o dinheiro.

O dinheiro atraiu uma nova geracao de imigrantes
cuja felicidade reside no consumo. A baixa
formação moral fez a criminalidade explodir.
É impressionante o dominio que o crime tem
sobre Praia Grande/SP.

Hoje em dia levar progresso é justamente isso,
levar o consumo, lixo, degradação ambiental e
o crime

Ninguem leva educação. Controem-se escolas.

Construir hospitais não é levar saude. Em Praia
Grande o "desenvolvimento" trouxe construções.

Existe uma espécie de "espelhinho" notável: no
lugar de medicos, vem ao domicilio assistentes
socias que fazem o acompanhamento medico do
histórico do paciente.

Minha mãe esperou 4 anos em Praia Grande/SP por
uma cirurgia de levantamento da bexiga. 4 anos
urinando nas roupas. 4 anos com a casa com cheiro
de urina. Em 4 anos, promesses e nunca foi atendida!
4 anos! Por sorte um amigo no interior de SP
"agilizou" em 2 anos a cirurgia no hospital Rubião
em Botucatu/SP.

A sociedade desenvolvida do estado de SP demorou
6 anos pra fazer uma cirurgia de levantamento da
bexiga em uma velha.

Só conseguimos cumprir os prazos dados pelo hospital
de Botucatu porque tivemos condição de tempo,
deslocamento e estadia. Coisa que a maioria dos
municipes não tem.

É esse o desenvolvimento que iam levar em troca
daquele patrimonio natural?

Hoje, após o desenvolvimento economico, não posso
arriscar a ir pescar ou praticar aeromodelismo na
Vila Mirim, porque o crime domina aquele espaço.

Na pior das hipoteses, de passagem, se pode ser
vitima indireta da violencia entre os proprios
marginais. Como presenciei no ultimo dia 1 de maio
de 2015. Onde um automovel Corsa trafegou sobre o
calçadão (area exclusiva para pedestres) em
perseguição a um meliante que fugia numa bicicleta.
Tudo muito rápido, se houvesse alguem ali, seria
atropelado. Por sorte nao houve troca de tiros.

Naquele 1 de maio, as 10h da manhã, não vi uma
viatura sequer da Policia Militar na orla da praia
da vila Mirim, até a vila Tupy, numa faixa de 4km
de extensão. As cameras de monitoramento 24h x 7dias?
Se estavam ativas, ninguem fez nada.

O desenvolvimento, nao trouxe a segurança prometida
pelo estado.

Somos obrigados ao um toque de recolher. Ninguem
consciente, mesmo durante o dia, leva consigo
dinheiro ou bens de valor.

Esse é o desenvolvimento que se leva hoje me dia.

Em Peruibe a tragédia ao longo das decadas vindouras
seria ainda pior, porque como aconteceu na capital
de SP (area de mananciais) a Juréia seria certamente
invadida pela periferia do grande negocio.

É necessário que se reconheça os responsáveis pelo
auxilio juridico que os indios tiveram pra que
conseguissem expulsar o grande negócio de uma área
sagrada. Esse homem/equipe merece um busto, uma placa
enorme, bem visivel nessa área de reserva, em memória
ao gesto de visão e bravura que tiveram.

Desenvolvimento economico vale nada sem educação. É o
novo espelhinho que as elites tem usado pra convencer
os ingenuos e os gananciosos. E a destruição do patrimonio
natural não tem reposição.

 
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