Vários amigos e participantes do nosso Blog ¨Índios, Antropologia, Cultura¨ me pediram para esclarecer o que é o mameluco, especialmente o que é o novo mameluco. Eis aqui minhas primeiras reflexões sobre esse assunto.
Em primeiro lugar, o que não é o mameluco. O mameluco não é uma mistura da raça branca com a raça indígena, como dizem os livros de história. Isto não é o importante, embora seja a definição óbvia que se dá ao termo na atualidade.
Agora, o que vem a ser o mameluco. A palavra deriva do árabe ¨mamluk¨, que eram os filhos dos inimigos derrotados que os árabes levavam para serem criados em suas escolas para depois serem enviados de volta aos seus povos para servirem de administradores dos seus povos em nome dos árabes.
Quando os jesuítas viram, por volta de 1550, no Planalto de Piratininga, atual cidade de São Paulo, os portugueses controlando uma grande quantidade de índios Tupinambá, até pouco tempo antes completamente independentes, através de indivíduos Tupinambá ou de mestiços, filhos de Tupinambá com portugueses, chamaram-nos de ¨mamelucos¨. Eram os mamelucos de João Ramalho, um português que havia casado com índias Tupinambá e que facilitou a entrada dos portugueses e especialmente dos jesuítas na região. Ao chamarem essas pessoas de mamelucos, os jesuías não estavam se importando de eles serem mestiços raciais, mas com o fato de eles serem índios que haviam se passado para o lado dos portugueses com a missão de comandar seu povo em prol dos portugueses.
Foi através dos mamelucos que os paulistas perseguiram os índios Guarani reunidos nas missões jesuítas do Guaíra e do Itatins e os trouxeram como escravos para trabalhar em suas fazendas e em seus campos de trigo. Foram os mamelucos que ajudaram os paulistas a entrar pela Amazônia, pelo Nordeste e pelo Sul à procura de índios para a escravidão. Escravidão esta que era proibida pela Coroa Portuguesa, mas que os paulistas praticavam mesmo assim, tal qual os madeireiros hoje em dia, isto é, à revelia da lei.
Em todas as fazendas paulistas, mas também em outras partes do Brasil, os mamelucos eram usados para comandar os índios aprisionados na labuta. Ou eram treinados como comandantes de tropas indígenas organizadas para atacar outros povos indígenas que lhes eram inimigos. Domingos Jorge Velho, que era filho de português, mas que tinha se quase que totalmente à vida de grupos mamelucos, ao ser contratado para atacar o Quilombo de Palmares foi chamado pela autoridade portuguesa em Recife de "mameluco".
Mameluco, portanto, significa aquele que se passou para outro lado, por interesse pessoal, e que não tem nenhum escrúpulo em utilizar-se até de seus patrícios para seu benefício próprio.
Naqueles idos coloniais, passar-se para o outro lado era essencial para a sobrevivência da colônia luso-brasileira, já que os brancos eram tão poucos e precisavam não somente de mão de obra barata, mas de gente leal a eles, já que o perigo de inimigos externos e internos era muito grande e premente.
Assim, os luso-brasileiros faziam o possível para atrair os potenciais mamelucos, dentre os povos indígenas aprisionados, ou que viviam perto das cidades, ou que faziam parte do sistema missioneiro. Ofereciam glebas de terras, vantagens pessoais, privilégios relativos aos outros e o sentimento de que eles eram ou podiam ser iguais aos portugueses, não seus súditos dominados. E sobretudo o emprego de intermediários entre o dominador branco e os povos indígenas, sempre no intuito de quebrar a fibra da cultura e da sociedade indígenas para que eles se submetessem ao poder colonial, ao discurso dominante, às práticas sociais que os colocavam na marginalidade da sociedade.
Os luso-brasileiros davam corda para que os mamelucos aparecessem entre os demais indígenas como se fossem poderosos e amigos dos poderosos. Eis o atrativo de outrora.
O resultado: o domínio dos índios que viviam sob a égide da colonização, sua ¨inserção social¨ no mundo colonial, sua passagem de índio a caboclo, depois a agregado da fazenda, a pescador pobre das vilas de pescadores do litoral brasileiro, a pobre ao redor das vilas e dos engenhos.
O movimento indigenista brasileiro, desde Rondon, se rebelou contra essa situação, e sempre teve muito cuidado em não estimular o surgimento de mamelucos do seu próprio povo. Os antropólogos que começaram a trabalhar no SPI, como Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, os indigenistas, como Orlando e Cláudio Villas-Boas, Noel Nutels e Chico Meirelles, também fizeram o possível para se relacionar com os povos indígenas sem criar hierarquias e ilusões de poder em alguns. O movimento indigenista brasileiro moderno, nas pessoas de indigenistas falecidos como Xará, Zé Bel, Apoena, e atuais, como Porfírio Carvalho, Odenir Oliveira, Slowacki de Assis, José Carlos Meirelles, Antenor Vaz, Marcelo dos Santos, Dinarte Medeiros, Cláudio Romero, Guilherme Carrano, Izanoel Sodré, Rômulo Siqueira, Fernando Schiavini, Wagner Senna, João Valladares e tantos outros, continuou e ampliou essa preocupação pela abertura ao diálogo com os índios, pela atitude de receptividade em dar oportunidade para todos continuarem a falar por todos.
O que o segmento indigenista neoliberal e oportunista almeja é criar lideranças que obedeçam a suas determinações, que sigam suas atitudes e propostas. Fingem que não os querem brancos, e sim militantes radicais em prol de causas que eles os missionários laicos constroem. Frequentemente eles incentivam jovens para serem lideranças, algumas legítimas entre seus patrícios, mas quando elas começam a pensar sobre o mundo com suas próprias categorias, o indigenismo neoliberal as corta e as abandona. Quantas lideranças genuínas eles abandonaram e até detrataram e vilipendiaram, para depois, por única opção de vida, essas lideranças se virarem contra eles.
Quando os índios aquiescem aos objetivos das Ongs neoliberais e vêem vantagens pessoais, eles ficam sob o patrocínio desse segmento indigenista e de outros que estão por aí fazendo seu indigenismo de oportunismos pessoais e corporativos.
Estes são os mamelucos de que estou falando nesse Blog. Eles se encontram em parte do movimento indígena que é tutelado pelas Ongs neoliberais, cujos objetivos em relação aos povos indígenas se esparramam por interesses corporativos, financeiros e políticos. Alguns desses líderes mamelucos adotam o discurso mais radical possível, as atitudes mais duras e espalhafatosas para demonstrar que têm poder, tem cobertura de seus atos. Dele se ouve o discurso inflamado contra o branco, como se ele fosse um aprendiz de revolucionário, tal como os brancos oportunistas fazem o mesmo discurso, sem sentido e sem responsabilidade. Na hora do vamos ver, a traição vem sem escrúpulos, contra seu próprio povo, se possível, contra seus próprios companheiros, porque, na ética do mameluco só existe a força do oportunismo e da cobiça pela vantagem pessoal.
O mameluco prolifera na atualidade com o discurso fácil dos brancos que fazem pose de radicais. Na hora da verdade, fogem. Um mameluco se reconhece fácil. Basta perguntar ao seu povo se ele tem liderança e responsabilidade. Mesmo assim, se a generosidade do povo indígena não o expuser ao ridículo, ficará evidente o seu deslocamento do seu povo pelo discurso empolado e pelo estranhamento social.
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segunda-feira, 24 de setembro de 2007
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
O trabalho entre os Guarani do MS
Esta na hora da Funai levar mais a sério o trabalho fora das aldeias dos povos indígenas como os Guarani do Mato Grosso do Sul.
É preciso que seja regulamentado, que acabe-se com a exploração dos trabalhadores indígenas e o predomínio do "capitão", o recrutador indígena dos seus companheiros.
Essa função de capitão mais parece a do antigo mameluco paulista, o índio que amenizava a exploração dos bandeirantes e, ao mesmo tempo, ascendia no escalão social. O papel do mameluco continua ainda hoje, não somente nesse caso dos recrutadores diretos do trabalho indígena, mas entre índios que vivem na cidade e se aproveitam de sua condição de mais escolaridade para tirar proveito dos seus patrícios.
Como presidente da Funai conheci vários mamelucos. De vez em quando eles apareciam pela Funai. Um deles, um índio bacharel, estava trabalhando para uns fazendeiros que queriam que a Funai não demarcasse uma terra indígena no Pará. Até convencera alguns jovens indígenas a diminuir a terra projetada. E este índio continua por aí, aprontando.
Há também aqueles que jogam duplo, se fazem de vítimas, elaboram um discurso de explorado, obtém dinheiro do exterior para expressar a injustiça da questão indígena no Brasil, e fazem qualquer trato na hora que vier. Viram cínicos e inescrupulosos e estão sempre tramando alguma coisa contra alguém. O contato que têm com seus patrícios é mínimo, só para lembrar-lhes que continuam a ser índios.
Por isso é necessário a Funai trabalhar para encontrar condições dignas para os índios que, de suas terras, saem para arranjar sustento fora. Até que consigam condições de auto-sustentabilidade e produzam excedentes para viver a vida que se lhes é forçoso viver.
__________________________________________
Audiência no dia 17 debate trabalho indígena em Dourados
O MPT (Ministério Público do Trabalho) e a Comissão Permanente de Investigação e Fiscalização das Condições de Trabalho em Mato Grosso do Sul realizam no próximo dia 17, a partir das 19 horas, na Câmara Municipal de Dourados, audiência pública sobre questão do trabalho indígena nas usinas de cana-de-açúcar e álcool do Estado.
Atualmente, segundo estimativas, cerca de 10 mil indígenas trabalham em usinas como cortadores de cana. O problema de maior gravidade da região sul do Estado relaciona-se às questões de saúde e segurança do trabalhador indígena nas usinas de fabricação de álcool, bem como a forma de contratação desses trabalhadores, que deve obedecer à Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Participam do evento como debatedores o Procurador-Chefe do MPT/MS, Cícero Rufino Pereira, o Coordenador da Comissão Permanente, Maucir Pauletti, o Juiz do Trabalho da 2ª Vara do Trabalho de Dourados, Francisco das Chagas Lima Filho, e a professora e advogada Tatiana Azambuja Ujacow Martins, que também é autora da obra "Direito ao Pão Novo: O Princípio da Dignidade Humana e a Efetivação do Direito Indígena".
O objetivo da audiência é recolher opiniões, divulgar informações e tirar dúvidas sobre a atividade dos indígenas nas lavouras canavieiras. Foram convidados a participar do evento representantes da Câmara de Vereadores do Município, Delegacia Regional do Trabalho, Funai (Fundação Nacional do índio), Funasa (Fundação Nacional de Saúde), Ordem dos Advogados do Brasil, da Unigran (Universidade da Grande Dourados), governo do Estado e sindicatos, além de outras instituições.
É preciso que seja regulamentado, que acabe-se com a exploração dos trabalhadores indígenas e o predomínio do "capitão", o recrutador indígena dos seus companheiros.
Essa função de capitão mais parece a do antigo mameluco paulista, o índio que amenizava a exploração dos bandeirantes e, ao mesmo tempo, ascendia no escalão social. O papel do mameluco continua ainda hoje, não somente nesse caso dos recrutadores diretos do trabalho indígena, mas entre índios que vivem na cidade e se aproveitam de sua condição de mais escolaridade para tirar proveito dos seus patrícios.
Como presidente da Funai conheci vários mamelucos. De vez em quando eles apareciam pela Funai. Um deles, um índio bacharel, estava trabalhando para uns fazendeiros que queriam que a Funai não demarcasse uma terra indígena no Pará. Até convencera alguns jovens indígenas a diminuir a terra projetada. E este índio continua por aí, aprontando.
Há também aqueles que jogam duplo, se fazem de vítimas, elaboram um discurso de explorado, obtém dinheiro do exterior para expressar a injustiça da questão indígena no Brasil, e fazem qualquer trato na hora que vier. Viram cínicos e inescrupulosos e estão sempre tramando alguma coisa contra alguém. O contato que têm com seus patrícios é mínimo, só para lembrar-lhes que continuam a ser índios.
Por isso é necessário a Funai trabalhar para encontrar condições dignas para os índios que, de suas terras, saem para arranjar sustento fora. Até que consigam condições de auto-sustentabilidade e produzam excedentes para viver a vida que se lhes é forçoso viver.
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Audiência no dia 17 debate trabalho indígena em Dourados
O MPT (Ministério Público do Trabalho) e a Comissão Permanente de Investigação e Fiscalização das Condições de Trabalho em Mato Grosso do Sul realizam no próximo dia 17, a partir das 19 horas, na Câmara Municipal de Dourados, audiência pública sobre questão do trabalho indígena nas usinas de cana-de-açúcar e álcool do Estado.
Atualmente, segundo estimativas, cerca de 10 mil indígenas trabalham em usinas como cortadores de cana. O problema de maior gravidade da região sul do Estado relaciona-se às questões de saúde e segurança do trabalhador indígena nas usinas de fabricação de álcool, bem como a forma de contratação desses trabalhadores, que deve obedecer à Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Participam do evento como debatedores o Procurador-Chefe do MPT/MS, Cícero Rufino Pereira, o Coordenador da Comissão Permanente, Maucir Pauletti, o Juiz do Trabalho da 2ª Vara do Trabalho de Dourados, Francisco das Chagas Lima Filho, e a professora e advogada Tatiana Azambuja Ujacow Martins, que também é autora da obra "Direito ao Pão Novo: O Princípio da Dignidade Humana e a Efetivação do Direito Indígena".
O objetivo da audiência é recolher opiniões, divulgar informações e tirar dúvidas sobre a atividade dos indígenas nas lavouras canavieiras. Foram convidados a participar do evento representantes da Câmara de Vereadores do Município, Delegacia Regional do Trabalho, Funai (Fundação Nacional do índio), Funasa (Fundação Nacional de Saúde), Ordem dos Advogados do Brasil, da Unigran (Universidade da Grande Dourados), governo do Estado e sindicatos, além de outras instituições.
domingo, 3 de junho de 2007
Mestiço é que é bom!
Vejam essa interessante matéria publicada no Estadão sobre o fato de que o Brasil é um país eminentemente mestiço.
A discussão maior é em relação a uma parte grande do movimento negro, que, junto com uma política de governo, se esforça para realçar diferenças e demarcar posições em relação a quem é branco e quem é negro.
É uma grande e importante discussão, com posições bem argumentadas dos dois lados.
Vale a pena ressaltar que o sangue indígena está em cerca de 28% de todos os brasileiros (na média, é claro). Portanto, ser índio no Brasil não é uma questão de sangue nem de auto-reconhecimento. Continua a prevalecer a definição clássica de que ser índio é pertencer a um povo indígena, ter uma história que remonta a uma período anterior à chegada dos portugueses, e ser reconhecido como tal por outros.
__________________________________
Relaxe. Somos todos mestiços
E isso só traz vantagens, afirma o cientista que é o maior estudioso das diásporas humanas
Pedro Doria
O antropólogo Darcy Ribeiro não viveu para saber, mas a premiada ginasta Daiane dos Santos parece personagem saída de seus livros: mestiça, uma brasileira ideal daquelas definidas antes de Darcy por Gilberto Freyre, por Sérgio Buarque de Holanda, é caso de estudo. Nos números coletados de seu DNA pelo professor mineiro Sérgio Danilo Pena a pedido da BBC Brasil, deu que Daiane é 40,8% européia, 39,7% africana, 19,6% ameríndia.
A antropologia brasileira estudou por muitos anos esta mistura de povos até chegar à famosa conclusão de Darcy - "ser mestiço é que é bom" - mas é só de pouco tempo para cá que as ciências biológicas vêm dizer em detalhes exatamente como ela se dá. O estudo da origem genética dos povos começou nos anos 50, na Europa, realizado por um jovem médico italiano criado nos anos do fascismo.
Luigi Luca Cavalli-Sforza, entrevistado pelo Aliás, não apenas inventou uma disciplina científica. Aos 85 anos, ele é um dos mais importantes e prolíficos cientistas vivos. Um estudioso nos moldes renascentistas, no sentido de que busca informação aproximando áreas de conhecimento que não costumam se encontrar. Por exemplo: antropologia, genética e matemática. Com amplo domínio das três disciplinas, após um estudo coletando amostras genéticas de povos em todo o mundo, Cavalli-Sforza pôde traçar a história daquilo que batizou "a grande diáspora humana".
Nascemos, o Homo sapiens, na África Oriental. Por mais de metade da existência humana, permanecemos lá - e aí nos aventuramos para longe. Do Oriente Médio fomos para a Rússia; de lá, uma parte foi para a Ásia e outro grupo, mais tarde, para a Europa. Da Ásia, outro rumo seguiu para a América. Assim, em algumas dezenas de milhares de anos, fomos lentamente ganhando novos traços. Olhos puxados aqui, pele esbranquiçada ali, pernas mais longas, torsos mais fortes. O próprio europeu já é mestiço- dois terços asiático, um terço africano.
As técnicas do professor Cavalli-Sforza, aplicadas no Brasil, revelam aquilo que ainda nos causa surpresa: mestiço não tem cara. Se parecemos brancos ou negros ou mulatos, índios ou não, esta aparência não diz o que somos. "O Brasil teve a boa sorte de não ver o racismo", diz o velho cientista genovês. "Esta é uma herança dos portugueses", completa, ecoando Darcy. Sim, ser mestiço é bom. A mistura melhora o povo - dá aquilo que os geneticistas chamam de "vigor híbrido".
1. Ser mestiço é que é bom, como dizia Darcy Ribeiro?
Talvez seja surpreendente para algumas pessoas que a aparência física, como cor da pele, não sejam bons indícios da herança genética. Os brasileiros estão certamente entre os povos mais misturados do planeta, embora não sejam os únicos. A diferença é que nenhum dos outros grupos mestiços forma um povo tão vasto. O Brasil teve a boa sorte de não ver o racismo prosperando, como costuma acontecer noutros cantos. Isto provavelmente vem de uma herança portuguesa, povo que já demonstrava predisposição pela mistura racial desde os tempos de suas primeiras colônias, na África. O estudo de nossas origens genéticas apenas confirma o que já estava claro para bons observadores: a mistura entre povos e a produção daquilo que nós geneticistas chamamos de híbridos não traz qualquer desvantagem do ponto de vista genético. Até melhora, traz uma vantagem naquilo que chamamos de "vigor híbrido".
3. A idéia de etnia ainda serve para explicar algo a nosso respeito?
A utilidade do conceito de "etnia" depende de sua definição. Para mim, diferenças étnicas são as diferenças entre os povos, tanto genéticas quanto culturais. As distinções culturais são compostas pelo que aprendemos na sociedade em que somos criados. É natural que tenhamos dificuldades na hora de entender se um comportamento particular é determinado genética ou culturalmente. Por exemplo: o comportamento criminoso é determinado pelos nossos genes ou pela nossa cultura? Está claro que em grande parte o que determina é a cultura. Mas é difícil excluir de todo a tendência inata em alguns casos raros. É aí que o conceito de "etnia" nos ajuda. Ele nos permite deixar para lá a questão de se algo é cultural ou genético, principalmente nos casos em que a ciência não tem ainda a capacidade de definir.
4. Que outras pistas a genética pode oferecer a respeito de nossa história humana?
Em geral, os lingüistas têm uma profunda dificuldade de alcançar um consenso em uma das questões mais importantes de sua disciplina, que é a de se a linguagem surgiu uma única vez, ou se teve múltiplas origens. Isto acontece porque a maioria destes especialistas não têm interesse em estudar línguas de forma comparada. Como geneticista, estou convencido de que houve uma única origem para todas as línguas faladas atualmente. Todos os humanos vivos descendem daquele grupo relativamente pequeno que viveu na África Oriental há 100 mil anos. Esta tribo cresceu numericamente e se expandiu pelo resto do mundo, da África para o Oriente Médio, então para a Ásia e Europa. Por definição, tribos falam a mesma língua, e a linguagem, por conta de seu gigantesco potencial de comunicação, há de ter sido uma força importante sem a qual a grande migração que levou o homem a todos os cantos do planeta não teria sido possível. Todos temos a mesma capacidade intelectual de adquirir esta técnica de comunicação que é a língua. Ela, junto com nossa capacidade de inventar novas máquinas, são as características que nos diferenciam dos outros animais. Embora, sempre é bom lembrar, esta é uma questão de graus. Animais também se comunicam e inventam ferramentas. A diferença na habilidade é que é tremenda.
A discussão maior é em relação a uma parte grande do movimento negro, que, junto com uma política de governo, se esforça para realçar diferenças e demarcar posições em relação a quem é branco e quem é negro.
É uma grande e importante discussão, com posições bem argumentadas dos dois lados.
Vale a pena ressaltar que o sangue indígena está em cerca de 28% de todos os brasileiros (na média, é claro). Portanto, ser índio no Brasil não é uma questão de sangue nem de auto-reconhecimento. Continua a prevalecer a definição clássica de que ser índio é pertencer a um povo indígena, ter uma história que remonta a uma período anterior à chegada dos portugueses, e ser reconhecido como tal por outros.
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Relaxe. Somos todos mestiços
E isso só traz vantagens, afirma o cientista que é o maior estudioso das diásporas humanas
Pedro Doria
O antropólogo Darcy Ribeiro não viveu para saber, mas a premiada ginasta Daiane dos Santos parece personagem saída de seus livros: mestiça, uma brasileira ideal daquelas definidas antes de Darcy por Gilberto Freyre, por Sérgio Buarque de Holanda, é caso de estudo. Nos números coletados de seu DNA pelo professor mineiro Sérgio Danilo Pena a pedido da BBC Brasil, deu que Daiane é 40,8% européia, 39,7% africana, 19,6% ameríndia.
A antropologia brasileira estudou por muitos anos esta mistura de povos até chegar à famosa conclusão de Darcy - "ser mestiço é que é bom" - mas é só de pouco tempo para cá que as ciências biológicas vêm dizer em detalhes exatamente como ela se dá. O estudo da origem genética dos povos começou nos anos 50, na Europa, realizado por um jovem médico italiano criado nos anos do fascismo.
Luigi Luca Cavalli-Sforza, entrevistado pelo Aliás, não apenas inventou uma disciplina científica. Aos 85 anos, ele é um dos mais importantes e prolíficos cientistas vivos. Um estudioso nos moldes renascentistas, no sentido de que busca informação aproximando áreas de conhecimento que não costumam se encontrar. Por exemplo: antropologia, genética e matemática. Com amplo domínio das três disciplinas, após um estudo coletando amostras genéticas de povos em todo o mundo, Cavalli-Sforza pôde traçar a história daquilo que batizou "a grande diáspora humana".
Nascemos, o Homo sapiens, na África Oriental. Por mais de metade da existência humana, permanecemos lá - e aí nos aventuramos para longe. Do Oriente Médio fomos para a Rússia; de lá, uma parte foi para a Ásia e outro grupo, mais tarde, para a Europa. Da Ásia, outro rumo seguiu para a América. Assim, em algumas dezenas de milhares de anos, fomos lentamente ganhando novos traços. Olhos puxados aqui, pele esbranquiçada ali, pernas mais longas, torsos mais fortes. O próprio europeu já é mestiço- dois terços asiático, um terço africano.
As técnicas do professor Cavalli-Sforza, aplicadas no Brasil, revelam aquilo que ainda nos causa surpresa: mestiço não tem cara. Se parecemos brancos ou negros ou mulatos, índios ou não, esta aparência não diz o que somos. "O Brasil teve a boa sorte de não ver o racismo", diz o velho cientista genovês. "Esta é uma herança dos portugueses", completa, ecoando Darcy. Sim, ser mestiço é bom. A mistura melhora o povo - dá aquilo que os geneticistas chamam de "vigor híbrido".
1. Ser mestiço é que é bom, como dizia Darcy Ribeiro?
Talvez seja surpreendente para algumas pessoas que a aparência física, como cor da pele, não sejam bons indícios da herança genética. Os brasileiros estão certamente entre os povos mais misturados do planeta, embora não sejam os únicos. A diferença é que nenhum dos outros grupos mestiços forma um povo tão vasto. O Brasil teve a boa sorte de não ver o racismo prosperando, como costuma acontecer noutros cantos. Isto provavelmente vem de uma herança portuguesa, povo que já demonstrava predisposição pela mistura racial desde os tempos de suas primeiras colônias, na África. O estudo de nossas origens genéticas apenas confirma o que já estava claro para bons observadores: a mistura entre povos e a produção daquilo que nós geneticistas chamamos de híbridos não traz qualquer desvantagem do ponto de vista genético. Até melhora, traz uma vantagem naquilo que chamamos de "vigor híbrido".
3. A idéia de etnia ainda serve para explicar algo a nosso respeito?
A utilidade do conceito de "etnia" depende de sua definição. Para mim, diferenças étnicas são as diferenças entre os povos, tanto genéticas quanto culturais. As distinções culturais são compostas pelo que aprendemos na sociedade em que somos criados. É natural que tenhamos dificuldades na hora de entender se um comportamento particular é determinado genética ou culturalmente. Por exemplo: o comportamento criminoso é determinado pelos nossos genes ou pela nossa cultura? Está claro que em grande parte o que determina é a cultura. Mas é difícil excluir de todo a tendência inata em alguns casos raros. É aí que o conceito de "etnia" nos ajuda. Ele nos permite deixar para lá a questão de se algo é cultural ou genético, principalmente nos casos em que a ciência não tem ainda a capacidade de definir.
4. Que outras pistas a genética pode oferecer a respeito de nossa história humana?
Em geral, os lingüistas têm uma profunda dificuldade de alcançar um consenso em uma das questões mais importantes de sua disciplina, que é a de se a linguagem surgiu uma única vez, ou se teve múltiplas origens. Isto acontece porque a maioria destes especialistas não têm interesse em estudar línguas de forma comparada. Como geneticista, estou convencido de que houve uma única origem para todas as línguas faladas atualmente. Todos os humanos vivos descendem daquele grupo relativamente pequeno que viveu na África Oriental há 100 mil anos. Esta tribo cresceu numericamente e se expandiu pelo resto do mundo, da África para o Oriente Médio, então para a Ásia e Europa. Por definição, tribos falam a mesma língua, e a linguagem, por conta de seu gigantesco potencial de comunicação, há de ter sido uma força importante sem a qual a grande migração que levou o homem a todos os cantos do planeta não teria sido possível. Todos temos a mesma capacidade intelectual de adquirir esta técnica de comunicação que é a língua. Ela, junto com nossa capacidade de inventar novas máquinas, são as características que nos diferenciam dos outros animais. Embora, sempre é bom lembrar, esta é uma questão de graus. Animais também se comunicam e inventam ferramentas. A diferença na habilidade é que é tremenda.
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