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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Senado Federal aprova criação da Secretaria de Saúde Indígena

O Senado Federal aprovou ontem a medida provisória 463, que já tinha passado na Câmara Federal, que cria a Secretaria de Saúde Indígena, como parte do Ministério da Saúde.

A Secretaria de Saúde Indígena vai substituir em quase todas as funções a desmoralizada Funasa, órgão do MS que vinha tomando conta da saúde indígena desde que esta foi retirada da Funai, por decreto presidencial, em 1998. A Funasa ficou tristemente famosa por uma série interminável de irregularidades administrativas e financeiras, onde a saúde dos povos indígenas brasileiros era sua menor preocupação. Nos últimos dez anos não faltaram protestos dos índios contra a Funasa, desde sequestros de funcionários até ocupação de prédios e outras atividades não mencionáveis. Já não era sem tempo que algo verdadeiramente efetivo fosse realizado para se estabelecer novo modo operativo em relação à saúde indígena no Brasil.

Sem dúvida, a nova Secretaria poderá vir a dar um grande passe de melhoramento na saúde indígena brasileira. Os índios que vinham trabalhando na questão da saúde estão muito esperançosos de que um novo modelo de atendimento venha a ser implantado e que melhore em muito a assistência de saúde de que eles tanto necessitam.

Por enquanto há muitas ideias e algum planejamento, mas, como sempre acontece quando se cria um novo órgão público,  a luta agora vai ser por quem ocupará os cargos de assessoria, o primeiro teste do novo modelo.

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APIB LANÇA MATÉRIA SOBRE NOVA SECRETARIA DE SAÚDE INDÍGENA





Senado aprova criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena


O dia 3 de agosto de 2010 entra para a história do Movimento Indígena Brasileiro como uma data histórica. Depois de mais de dois anos de intensa articulação das lideranças indígenas junto ao governo, o Senado Federal aprovou a criação da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Cerca de 100 lideranças indígenas que vieram a Brasília para um esforço conjunto final pela aprovação, lotaram as galerias do Plenário durante a votação do Projeto de Lei de Conversão (PLV) 08/2010, originado da Medida Provisória 483/2010. O PLV transfere a responsabilidade pela Saúde Indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para a nova secretaria, que estará vinculada diretamente ao Ministério da Saúde, com recursos próprios garantidos no orçamento da União e, principalmente, a certeza de que a partir de agora os indígenas terão direito um atendimento diferenciado, que corresponda às suas necessidades.

O projeto foi aprovado por unanimidade, sem alterações, e agora segue para sanção presidencial. A nova secretaria será a sexta do Ministério da Saúde, no mesmo nível hierárquico das demais existentes, e além da saúde também será responsável pelo saneamento nos territórios indígenas, a exemplo do que acontecia anteriormente na Funasa. Após a aprovação, os líderes indígenas presentes comemoraram a conquista com uma dança ritual próximo a rampa do Congresso.



O cordenador da Comissão Intersetorial de Saúde Indígena do Conselho Nacional de Saúde, Valdenir França, acredita que Secretaria de saúde trará mais esperança para a população indígena, frente ao caos que atualmente atinge as aldeias em todo Brasil com mortes de jovens e adultos, falta de atenção adequada e de medicamentos. “Nós temos a certeza de que com essa secretaria se abre um novo olhar para a população indígena. A situação está difícil, mas com essa vitória a gente espera que tudo vá dar certo. Sabemos que não é fácil, mas temos apoio de todo movimento indígena, das lideranças, para que a gente possa auxiliar nessa batalha da nova secretaria”.

Para que a secretaria passe a funcionar será necessário também a publicação de decreto presidencial, que definirá suas competências, estrutura de organização e execução descentralizada das ações de atenção à saúde dos indígenas por meio dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), entre outras questões, o que deve acontecer nos próximos dias. Até que seja publicada a sanção presidencial e o decreto estruturando a Sesai, os DSEI e a nomeação dos novos gestores, a Funasa continuará responsável pela execução das ações de atenção à saúde dos povos indígenas.

O atual Secretário de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do Ministério da Saúde, Antonio Alves, teve participação fundamental junto às comunidades nas discussões que levaram à proposta da secretaria e é o nome indicado pelos indígenas para assumir o comando da Sesai. “É importante esclarecer que o Ministério da Saúde está tomando todas as providências necessárias para que a transição da atenção à saúde indígena da Funasa para a nova secretaria seja feita de forma transparente e responsável, democrática e participativa para evitar transtornos à saúde dos povos indígenas”, afirmou.

Histórico

A luta do Movimento Indígena pela Secretaria Especial teve início em 2008, quando lideranças indígenas criticaram e conseguiram barrar uma decisão do governo de criar, por meio de Projeto de Lei, uma Secretaria de Atenção Primária e Promoção da Saúde, onde a questão da saúde indígena estaria diluída entre diversos outros temas, correndo o risco de não se verem respeitadas as especificidades dos diferentes Povos Indígenas brasileiros.

Ainda no mesmo ano, a saúde indígena se destacou como tema principal do Acampamento Terra Livre e foi criado, dentro do Ministério da Saúde, um Grupo de Trabalho da Saúde Indígena (GT), formado por membros do governo e lideranças indígenas, que logo incorporaram a Secretaria Especial de Saúde Indígena como sua principal exigência.

Dseis

Graças também a mobilização do Movimento Indígena junto a suas bases e ao trabalho dos indígenas no GT foi conquistado, no ano passado, a autonomia administrativa dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), pleiteada já na IV Conferência Nacional de Saúde, em 2006, e essencial para o pleno funcionamento da futura Secretaria.

Os Dseis são as unidades responsáveis pelo conjunto de atividades técnicas de atenção à saúde, que promovem a reordenação da rede de saúde e das práticas sanitárias e organizam as atividades administrativo/gerenciais e estimulam o controle social. Com a autonomia administrativa dos Distritos a comunidade indígena vai estar mais próxima da gestão do recurso no que diz respeito à atenção básica. Com isso haverá maior agilidade na prestação dos serviços, diminuindo o tempo de resposta nas ações desenvolvidas pela instituição


















 

quinta-feira, 25 de março de 2010

Movimento Indígena comemora criação da Secretaria Nacional de Saúde Indígena

Em nota no site da APIB, o movimento indígena comemorou a assinatura, ontem, pelo presidente Lula, da proposta de criação da Secretaria Nacional de Saúde Indígena, a ser ligada diretamente ao Ministério da Saúde.

Desde que a saúde indígena foi retirada a fórceps da Funai e passada para a Funasa, em 1999, os povos indígenas vêm passando por um iô-iô de sentimentos. Ora consideravam uma ideia em funcionamento, com seus conselhos consultivos indígenas, com verbas generosas para distribuir nas terceirizações, ora consideravam uma desgraça para a saúde indígena, com desrespeito às culturas indígenas e principalmente às pessoas indígenas. Nesse sentido, os índios sentiam falta de uma dedicação especial às suas condições culturais e sociais, tão diferentes das gentes das cidades. Por essa razâo, no cômputo geral de reclamações por parte dos povos indígenas a órgãos do Estado, a Funasa tem sido a campeã disparada.

No ano passado, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, após alguns meses de estudos, com participação de indígenas e técnicos da Funasa, além de muitos consultores avulsos, encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de criação de uma secretaria de saúde a ser vinculada diretamente ao ministério. Parece que essa proposta não teve peso político suficiente para movimentar o Congresso. 

Agora, é do presidente da República que vai a proposta de lei, a qual terá prazo de 60 dias para negociação com os congressistas para poder virar lei. É prazo curto, que, portanto, demanda urgência. O presidente Lula, na sua fala de apresentação da proposta, cobrou do ministro Temporão que agora a culpa pelas desgraças embutidas na Funasa, desgraças de má administração, desrespeito aos índios e escândalos de desvio de recursos dos mais escabrosos, não poderão existir mais. Daqui por diante, se houver escândalos, se os índios não forem tratados que nem seres humanos, a  culpa será do próprio Ministério da Saúde. Estranha essa fala e essa atitude presidencial.

Por sua vez, os índios que fazem parte do movimento indígena organizado em associações estão se preparando para ganhar a influência devida que lhes cabe. As negociações vão ser duras. Há interesses variados. E, nesse sentido, vão distrair o movimento indígena da questão da reestruturação da Funai e das negociações que visam mudar ou revogar o decreto de reestruturação. Há que se convir que nem todas as associações indígenas estão emparelhadas e acordes com o decreto de reestruturação da Funai.

Como pegar dois touros à unha ao mesmo tempo? Difícil, não é?

Criando-se a Secretaria Nacional de Saúde Indígena, a próxima demanda será, sem dúvida, a proposta de criação de uma Secretaria Nacional dos Povos Indígenas. Com ou sem a Funai.

Quer dizer, tem muita água a passar por baixo dessa ponte.

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ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB


 
 
Lula assina Medida Provisória que cria Secretaria Especial de Saúde Indígena  
 
 
Depois de muita luta e mais de dois anos de espera, o presidente Lula finalmente assinou, nesta quarta-feira, dia 24, a Medida Provisória que cria a Secretaria Especial de Saúde Indígena, uma das principais bandeiras de luta do Movimento Indígena em todo país. A necessidade de atenção especial do governo à questão da saúde sempre foi um ponto chave nas demandas dos Povos Indígenas. Nos últimos anos, somou-se a esta preocupação a proposta de se criar uma secretaria dedicada especialmente a esta finalidade,  com recursos próprios  e subordinada diretamente ao Ministério da Saúde. Para que a criação da secretaria se efetive, no entanto, a medida provisória terá, agora, que ser aprovada pelo Congresso Federal no prazo de 60 dias. As lideranças indígenas entram, então, em uma nova etapa desta luta, que será a articulação junto aos parlamentares para a aprovação da MP.

Uma vez aprovada, a Secretaria Especial de Saúde Indígena irá substituir a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), atual responsável pelo atendimento aos indígenas, que ao longo dos últimos anos acumulou acusações de corrupção e desvios dos mais variados tipos; além de demonstrar total incapacidade de atender com eficiência até mesmo as necessidades mais básicas de saúde nas comunidades. A nova secretaria será a sexta do Ministério da Saúde, no mesmo nível hierárquico das demais existentes, e além da saúde também será responsável pelo saneamento nos territórios indígenas, a exemplo do que acontecia anteriormente na Funasa.

A luta do Movimento Indígena pela Secretaria Especial teve início em 2008, quando lideranças indígenas conseguiram barrar uma decisão do governo de criar, por meio de Projeto de Lei, uma Secretaria de Atenção Primária e Promoção da Saúde, onde a questão da saúde indígena estaria diluída entre diversos outros temas, correndo o risco de não se verem respeitadas as especificidades dos diferentes Povos Indígenas brasileiros.

Ainda no mesmo ano, a saúde indígena se destacou como tema principal do Acampamento Terra Livre e foi criado, dentro do Ministério da Saúde, um Grupo de Trabalho da Saúde Indígena (GT), formado por membros do governo e lideranças indígenas, que logo incorporaram a Secretaria Especial de Saúde Indígena como sua principal exigência.

Dseis

Graças também a mobilização do Movimento Indígena junto a suas bases e ao trabalho dos indígenas no GT foi conquistada, no ano passado, a autonomia administrativa dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), pleiteada já na IV Conferência Nacional de Saúde, em 2006, e essencial para o pleno funcionamento da futura Secretaria.

Os Dseis são as unidades responsáveis pelo conjunto de atividades técnicas de atenção à saúde, que promovem a reordenação da rede de saúde e das práticas sanitárias e organizam as atividades administrativo/gerenciais e estimulam o controle social. Com a autonomia administrativa dos Distritos a comunidade indígena estará mais próxima da gestão do recurso no que diz respeito à atenção básica. Com isso haverá maior agilidade na prestação dos serviços, diminuindo o tempo de resposta nas ações desenvolvidas pela instituição.

Próxima etapa

 Para Rildo Kaingang, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul) e membro do GT Saúde Indígena, este é um momento de felicidade para todos aqueles que militam pela saúde indígena, sinal de que a luta está avançando, porém ainda não está tudo resolvido. “O principal desafio agora será nos articularmos para aprovar a MP no Congresso e implantarmos realmente a Secretaria, com recursos humanos adequados e a estrutura necessária”.

Ele afirma, ainda, que as demais políticas públicas também precisam avançar em relação às necessidades dos Povos Indígenas, pois as consequências dos problemas em outros setores, como a violência, a questão fundiária e a falta de alimentação, entre outros, também refletem na saúde. O líder Kaingang informa também que já se iniciaram os diálogos para a V Conferência de Saúde Indígena.

Apesar de ainda existir mais uma etapa a ser superada, Rildo mantém a confiança e acredita que, se tudo der certo, a aprovação da Secretaria Especial de Saúde Indígena será “sem dúvida, a principal vitória do Movimento Indígena durante o Governo Lula”.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Xavante se unem para mudar a FUNASA


Os Xavante se uniram para mudar a FUNASA, o DSEI de Barra do Garças. Querem a saída da supervisora local imediatamente.

A situação ficou intolerável para eles. Na matéria da TV Bandeirantes grandes e jovens lideranças, como Jurandir Siridiwé, da Terra Indígena Pimentel Barbosa, Cristóvão, da Terra Indígena Sangradouro, e o vereador Jeremias, da Terra Indígena São Marcos, se pronunciaram com muita calma, mas com muita força também, como os Xavante costumam fazer.

Os documentos que os Xavante fizeram foram entregues ao procurador Mário Lúcio Avelar, que tem demonstrado muita dedicação à causa indígena. No fundo, ele não pode fazer nada a esse respeito, a não ser pronunciar-se contra.

A causa vai cair no colo do Ministro Temporão.

Será mesmo que o presidente Lula vai criar a Secretaria Especial de Saúde Indígena? Estão dizendo que ele vai ao interior do Pará, perto dos Kayapó, para lançar essa Secretaria.

Vamos ver

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Ministro Temporão abre temporada de conversas com os índios

O ministro José Gomes Temporão receberá uma comissão de nada menos que 65 índios do médio Alto Xingu representando os povos Ikpeng, Kayabi, Suyá e Yudjá. Esses índios fecharam há uma semana um escritório da Funasa em Canarana, Mato Grosso, e exigiram uma audiência com o ministro para liberar os presos feitos reféns.

Não há reunião que aguente com tanta gente. O que acontecerá hoje?

O ministro Temporão tem, em minha opinião, a melhor boa vontade possível. Luta contra uma máfia feroz incrustada na Funasa há alguns anos e pena para encontrar uma saída decente para a saúde indígena. Ontem, no jornal O Globo, saiu uma extensa matéria sobre a corrupção na Funasa, inclusive por parte de ex-presidentes do órgão. Muito citado é o ex-deputado federal pelo Ceará, Paulo Lustosa. O jornal mostra as relações de parentesco e de indicações políticas entre diversos diretores da Funasa e políticos como Eunício Vieira, Jader Barbalho, Alcione Barbalho e outros.

Há uns dias o ministro Temporão recebeu uma comitiva de índios ligados a Ongs indígenas, especialmente da região Amazônica, a quem prometeu que iria manter sua decisão de tirar a saúde indígena da Funasa e colocá-la na nova secretaria a ser criada. Só que os índios que estão para falar com ele hoje querem a manutenção de uma fundação, ligada à Universidade Federal de São Paulo (antiga Escola Paulista de Medicina), como sua servidora de saúde. Pelo menos, diz o líder desse grupo, Maraiwe Kayabi, até junho de 2009.

Vai ser difícil contentar todo mundo. O ministro Temporão arriscou esperar muito tempo para fazer as mudanças que previa desde um ano atrás, quando a CGU o avisou de que teria que regularizar os problemas da Funasa, tanto os relacionados com a corrupção quanto aqueles relacionados a pessoal e direitos trabalhistas malbaratados. Agora dificilmente poderá agradar a gregos e troianos.

O ministro subavaliou e subjulgou a questão da saúde indígena e agora paga um preço alto. Quis a cabeça do presidente da Funasa, pediu-a ao presidente Lula e lha foi negada. Teve que engolir a desfeita desse atual presidente ousar, em público, que ele o demitisse.

O Congresso Nacional vai demorar para votar a MP que propõe a criação da nova secretaria para cuidar da saúde indígena. A Funasa vai estar presente até então. Pode ser um ano, pode ser mais. Além disso, a pressão do PMDB por mais cargos vai continuar e certamente um ministro mais flexível aos ditames daquele partido seria mais conveniente. Nesse sentido a cabeça do ministro Temporão está por um fio, mesmo que o presidente Lula tenha dito que não tira ninguém até 2010.

E os povos indígenas, como ficarão?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lula chuta crise da Funasa para o lado

O presidente Lula veio a público para dar seu apoio ao ministro José Gomes Temporão em sua luta para moralizar a Funasa. Disse que Temporão permanece no cargo e que vai se entender com o PMDB. Quanto à saúde indígena, fica para ser negociada aos poucos.

Na reunião que teve com líderes do PMDB, Temporão recuou, aparentemente, de seu intento de demitir o presidente da Funasa que o havia destratado, e conseguiu com que o PMDB aceitasse o esvaziamento da Funasa no que concerne à saúde indígena.

Temporão está mesmo disposto a consertar o erro de a Funasa ter ficado até agora com a saúde indígena. Quer transferir esse assunto para dentro da nova secretaria que ainda está para ser votada. Como? Ainda não sabemos.

Quem imagina quando essa nova secretaria será votada, com menos de quatro semanas de trabalho no Congresso antes do recesso natalino?

Os índios, como havia alertado uns dias atrás, passaram à ofensiva. Do Pará, veio uma carta contundente, publicada no site da Coiab contra os planos do ministro Temporão. Em Canarana, cidade do Mato Grosso, 130 membros dos povos Kayabi, Yudjá, Suyá e Ikpeng prenderam pela manhã de ontem 12 funcionários da Funasa e exigiram a presença do ministro Temporão. À tarde, já os haviam soltado. Estão bem assessorados. Esses índios vivem na parte média do Alto Xingu e são atendidos por um antigo convênio entre a Unifesp e a Funasa. A Unifesp é a antiga Escola Paulista de Medicina, que, no tempo do professor Baruzzi, tinha um convênio com os irmãos Villas-Lobos para cuidar da saúde indígena do Alto Xingu. É uma grande escola e tem prestado um excelente serviço aos índios daquela região. Porém, por motivos diversos, os índios da parte alta do Alto Xingu haviam desistido desse convênio há alguns anos. Hoje eles têm um atendimento médico feito através de um convênio entre uma Ong indígena que criaram e a própria Funasa. Entretanto os índios mencionados do médio Alto Xingu querem a manutenção do convênio.

Mas por que fazer esse gesto tão agressivo? Há tempo bastante para negociação. Não sabemos. Mas logo desistiram e soltaram os reféns.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Funasa é corrupta, diz ministro da Saúde

Bem, agora é oficial. A Funasa foi declarada corrupta pelo próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

Alguém aí já não sabia disso há anos? Algum índio aí já não sentiu isso na pele durante os últimos 10 anos?

O fato é que o caldo entornou de vez. Em reunião com representantes da Comissão de Saúde Indígena o ministro Temporão abriu o verbo, desabafou sua ira e frustração e descarregou tudo na Funasa. Aparentemente membros dessa Comissão estavam pressionando para o ministro manter na Funasa a saúde indígena. Temporão não contemporizou. Reafirmou sua portaria de formação de um GT para estudar o melhor modo de organizar a nova Secretaria, que, aliás, ainda nem foi aprovada pelo Congresso Nacional.

Quer dizer, essa celeuma toda pode ser em cima de conjecturas, de propostas ainda não realizadas. Há três meses os ministérios da Saúde e do Planejamento enviaram ao Congresso um projeto de lei criando uma nova secretaria de saúde. E pronto. Nada mais existe. Agora, quando se pode esperar que o Congresso vote um projeto de lei? Se nem as medidas provisórias ele vota! Quer dizer, armar uma confusão em cima de hipóteses não poderia ser pior descontrole político. O pior é que a Funasa vai ter que continuar fazendo a saúde indígena mesmo já tendo sido esvaziada desse poder e considerada corrupta!

Isto é o que dá procrastinar tanto para tomar uma decisão que precisava ser feita nos primeiros meses do segundo governo Lula. Essa demora piorou a situação e ficará mais difícil arrumar a coisa toda em harmonia. O próprio presidente da Funasa, Danilo Fortes, encarou o ministro e ousou que ele o demitisse. Fortes se fia no apoio de Renan Calheiros e no seu PMDB. Temporão é peemedebista por oportunismo e pode ser rejeitado pelos caciques do partido a qualquer momento.

E a FUNAI? O que acha disso tudo? Está abúlica, inerme, sem opinião. É o momento de retomar sua posição anterior e colocar-se à disposição para retomar a saúde indígena.

A notícia da fala do ministro Temporão se encontra nos principais jornais do dia, especialmente no Estado de São Paulo

sábado, 20 de setembro de 2008

Conversa com Aritana e Raoni sobre saúde indígena


De volta ao Rio, ao passar por Brasília quinta e sexta-feira.

Na sexta-feira fui à Funai a convite de diversos índios do Alto Xingu. Aritana, o grande cacique do povo Yawalapiti, Tabata, do povo Kuikuro, Sapain, grande pajé dos Kamayurá, Yanakulá, um líder e administrador da Associação dos Povos do Alto Xingu, e mais alguns jovens, estavam reunidos na sala da Coordenação Geral de Estudos e Pesquisas. Queriam saber minha visão sobre a mudança que está para ocorrer na assistência à saúde indígena. Estavam particularmente preocupados com a possibilidade da municipalização da saúde indígena. Querem que a questão indígena continue a ser uma obrigação do governo federal!

A conversa foi animada e descontraída. Lembramos dos tempos que passei no alto Xingu, nos últimos kuarup. Aritana estava esguio e bem disposto, mas com um semblante preocupado, concentrado em nossa conversa. Sapain, que tem contato com muitas pessoas na sociedade carioca, prometeu que ia trazer Ivo Pitanguy para o próximo Kuarup. As moças da Funai se alvoroçaram. Sobre a questão da saúde, disse a todos que achava que o fato do ministro Temporão ter proposto a saída da Funasa da saúde indígena era um gesto de coragem dele e um momento de oportunidade para os índios participarem do novo modelo a ser criado. Por enquanto está tudo só em proposta.

Há um projeto de lei que estabelece a criação de uma nova Secretaria e alguns cargos de confiança, e há uma justificativa sobre a necessidade de transferir a saúde indígena para essa Secretaria.

Há também uma portaria ministerial que cria um Grupo de Trabalho para tratar da criação da nova Secretaria. Estão incluídos funcionários do MS, da Fundação Oswaldo Cruz e pronto. Mas onde está a Funai e por que os índios não foram convidados a participar?

É surpreendente que, nessa altura da questão indígena brasileira, a participação dos índios tenha diminuído nos órgãos públicos. A Funai, que no meu tempo tinha dois coordenadores indígenas e que eu planejava aumentar para cinco, hoje só tem um. Na Funasa, ninguém, só nas instâncias propriamente indígenas e nas Ongs indigenistas. Ao se criar uma profusão de conselhos indígenas, deixa-se de lado a participação dos índios nas instâncias de decisão. É o que está acontecendo no CNPI onde os índios participam mas suas idéias não encontram repercussão nos órgãos federais.

Portanto, é preciso que os índios estejam participando desse GT que vai criar o novo modelo de saúde. Quem seriam os índios, me perguntaram? Creio que deveriam ser aqueles cujas participações no modelo anterior tenham sido as mais bem sucedidas. Exatamente para poderem ajudar a apontar os erros metodológicos e buscar novas soluções.

Disse aos caciques xinguanos que eles deveriam buscar uma audiência com o ministro Temporão para falar-lhe isso. Cláudio Romero, ao lado, imediatamente se prontificou a abrir caminho para isso. Disse-lhes também que deveriam convidar outros índios, como Raoni Txukarramãe, Aniceto Xavante, Damião e outros.

Ao me despedir disse-lhes que iria almoçar com Raoni e iria conversar com ele sobre isso. De fato, pouco depois estava conversando com Raoni, Azelene, Ubirajara, Patxon, Rosane e outros. Ao lado, conversei também com Paulo Pankararu, que hoje é coordenador de Direitos Indígenas da Funai.

Raoni continua firme aos 82 anos. Está bem e sorridente, mas tem um ar pensativo. Sabe que alguma coisa importante sobre a saúde pode acontecer, tal como em 1999, e quer ter parte numa melhora. Sabe o quanto seu povo e os demais povos indígenas sofreram com a incapacidade da Funasa em prover uma assistência à altura.

Eis a oportunidade indígena, disse-lhe. Falei-lhe de minha conversa anterior com Aritana e Tabata. Ele então se dispôs a procurá-los na Funai para irem conversar com o ministro Temporão.

A presença de grandes e venerandas lideranças indígenas é importante não somente para os índios, em sua relação com o Estado e a sociedade brasileiros, como também para o movimento indígena em si. Eles têm que ser reconhecidos por aqueles mais jovens que detêm um discurso moderno e sociológico, mas carecem de experiência vivida com o mundo mais complexo da sociedade brasileira.

Desejo que a presença dessas lideranças faça uma diferença com o ministro Temporão. Ele tem que se sensibilizar pela questão indígena não só por causa dos problemas administrativos, que sei que foram os motivos principais da proposta que fez em conjunto com o Ministério do Planejamento, mas especialmente pela necessidade dos povos indígenas. Ele tem que saber que sem a participação efetiva e equilibrada dos índios nada pode ser realizado com dignidade.
 
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