Mais informações sobre o assassinato brutal e sem sentido do índio Xakriabá, no norte de Minas Gerais. O jornal O Estado de Minas traz uma reportagem com entrevistas dos parentes do assassinado que refletem o estado de pobreza e o drama em que vivem os Xakriabá da região.
Vale a pena ler a matéria.
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Aldeias clamam por justiça
Morte de xacriabá, agredido a socos e pontapés por três jovens, revolta moradores de reserva, que protestam contra preconceito
Revolta e clamor por justiça são os sentimentos que tomaram conta da comunidade indígena xacriabá, em São João das Missões, com o assassinato do índio Avelino Nunes Macedo, de 35 anos, cujo corpo foi sepultado, no fim da tarde de segunda-feira, dentro da reserva. Ele foi espancado até a morte por três jovens, na madrugada de domingo, na localidade de Virgínio, no município de Miravânia, nos limites da área demarcada.
Avelino era considerado um inocente
"Eu só quero justiça, a fim de que um crime desse não se repita nunca mais", disse, com a voz embargada, Abdias Pereira Lopes, de 44 anos, primo de Avelino e morador da reserva, que vive um clima de consternação. A área é o maior território indígena de Minas Gerais, com 53 mil hectares e 23 aldeias, onde vivem 7,8 mil pessoas, cerca de 70% da população de São João das Missões.
Para o cacique Domingos Nunes de Oliveira, chefe da tribo, a morte do xacriabá foi mais um ato de violência que resultou da discriminação que muitas pessoas ainda têm em relação aos índios, o que precisa acabar. Segundo o cacique, depois do crime, com medo da violência, os índios estão evitando sair da área demarcada, fugindo do contato com o homem branco.
Avelino foi morto na madrugada de domingo, pouco depois de sair de uma festa, promovida por estudantes, na quadra esportiva da escola municipal do distrito de Virgínio. O jovem Edson Gonçalves Costa, de 18 anos, e os menores V. S., de 16, e G. P., de 16, tentaram tirar sua roupa no meio da rua. Ele resistiu, foi agredido a socos e pontapés até a morte. Ainda na manhã de domingo, os suspeitos foram detidos pela Polícia Militar e levados para a delegacia de Manga, onde confessaram o crime. O caso alcançou repercussão em todo país. A polícia revelou ontem que, antes da agressão, os jovens teriam posto fogo numa barraca na quadra de uma escola municipal de Virgínio, durante a festa.
Edson Gonçalves (D) e os menores disseram que queriam assustar o índio
Entre as 23 aldeias da área xacriabá, a Riacho do Buriti, onde morada Avelino, é uma das mais isoladas e de acesso difícil, situada a 62 quilômetros de São João das Missões. Os visitantes só conseguem chegar à aldeia de jipe, depois de superar bancos de areia, que se multiplicam ao longo do caminho, em meio à seca.
O índio Avelino Macedo, que ficou viúvo havia um ano e dois meses, morava na casa do seu primo, Abdias Pereira Lopes, líder comunitário das aldeias Riacho do Buriti e Pedrinhas.
Ao falar sobre o crime, Abdias não resistiu e foi às lágrimas. "O Avelino não sabia ler nem escrever. Era um índio inocente mesmo, não sei porque fizeram tanta covardia com ele", afirmou, anunciando o desejo de que a Justiça Federal agilize o processo para a punição dos acusados envolvidos. Ele disse acreditar que os rapazes tenham se inspirado nos jovens que puseram fogo no índio Galdino de Jesus, em Brasília, em 19 de abril de 1997.
A mulher de Abdias, Melinda Pinheiro da Silva Lopes, de 32, também lamentou o ato de violência. "Ele era uma pessoa que nunca fez mal a ninguém", disse Melinda, que, assim como o marido, era também parente do índio assassinado. "A gente nunca esperava uma coisa dessa. Eu não sei nem o que dizer", lamentou Carmosina Nunes da Silva, de 32 anos, irmã de Avelino. Ela contou que também ficou sabendo pouca coisa sobre o crime. "Só ouvi que, primeiro, os rapazes puseram fogo numa barraca e depois mataram o meu irmão". explicou.
Medo de homem branco
Devido à discriminação e à violência, os índios estão evitando o contato com o homem branco e por isso não querem mais sair de dentro da área demarcada. A informação é do cacique Domingos Nunes de Oliveira, chefe da comunidade indígena xacriabá. Segundo ele, o assassinato do índio Avelino Macedo, integrante da sua tribo, é conseqüência de discriminação e preconceito.
Carmosina Nunes da Silva ficou responsável pelo filho do irmão assassinado
O cacique lembra que a morte de Avelino foi muito parecida com o caso do índio Galdino, que morreu queimado em Brasília. "A gente sofre muita perseguição por parte dos não-índios", afirmou o cacique, cobrando providências das autoridades para a punição dos envolvidos. Abdias Pereira Lopes, primo de Avelino, reclama que a perseguição começou na época em que o Brasil foi descoberto:
"Quando o Pedro Álvares Cabral chegou aqui, as terras eram dos índios. Aí, eles as invadiram e as tomaram".
Outros integrantes da aldeia xacriabá protestaram contra a morte do companheiro. "O Avelino era uma pessoa pura, que nunca mexeu com ninguém. Se existisse justiça para valer no Brasil, os jovens não iriam matar um índio sem motivo", disse José Fiúza da Silva, de 64 anos, morador da tribo.
Para o cacique Domingos Nunes, foi um ato de violência e discriminação
ÓRFÃO
Marcados pela pobreza, os xacriabá sobrevivem quase exclusivamente do programa Bolsa-Família. Eles plantam lavouras, mas, todo ano, convivem com as secas que castigam o Norte de Minas.
Entre a comunidade indígena, Avelino Macedo parece que foi condenado ao sofrimento. Ele era integrante de uma família de 11 irmãos. Há 16 anos, perdeu a mãe, Robertina, que morreu quando daria à luz ao 12º filho. Cinco anos depois, perdeu o pai, Francisco. Em meados de 2006, Avelino teve outra perda: a sua companheira, conhecida apenas por Sininha, com quem ele teve o filho João Marcos, de 5 anos. A mulher morreu de doença de Chagas. Depois, o índio passou a trabalhar para outros moradores da reserva.
Uma das partes mais dramáticas do assassinato do índio tem como personagem o seu único filho. Desde que Avelino ficou viúvo, o menino foi morar com a tia Carmosina, casada com Salvi Evaristo da Silva, que tem cinco filhos e alega dificuldades para sobreviver, pois recebe apenas R$ 95 do Bolsa-Família. Ela relata que João Marcos tem um problema de má formação congênita e até hoje não conseguiu desenvolver a fala. A mulher disse que tentou levar o sobrinho ao médico, mas não consegue consulta no posto da reserva.
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quarta-feira, 19 de setembro de 2007
terça-feira, 18 de setembro de 2007
Brutal assassinato de jovem Xakriabá
Todos os jornais trazem hoje reportagens sobre o assassinato brutal de um jovem Xakriabá, do norte de Minas Gerais, por três ou mais jovens.
O assassinato teve características de linchamento, com socos e pauladas. O motivo parece ter sido o mais fútil possível: um esbarrão numa festa e uma vontade de fazer gozação do índio. As ilações que se fazem é que é parte do anti-indigenismo regional, com tensão na região e que tem a ver com disputa por terras.
A terra dos Xakriabá foi demarcada há mais de 10 anos e tem 54.000 hectares. A Funai ainda está pagando moradores pobres que sairam de lá e que não receberam. Porém, segundo o CIMI, os Xakriabá querem mais terras. Dai a desavença.
Todos os jornais relebram o caso do Galdino Pataxó, morto por queimaduras provocadas por jovens de Brasília, em 1997, enquanto dormia no ponto de ônibus perto da Funai
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Jovens são acusados de espancar índio até a morte em MG
Vítima, da etnia xacriabá, teve roupa retirada e levou socos e pontapés de três rapazes; dois deles têm menos de 18 anos
Segundo a polícia, suspeitos disseram em depoimento que, na saída de uma festa, o índio esbarrou em um dos garotos, o que os irritou
THIAGO REIS
DA AGÊNCIA FOLHA
Um índio da etnia xacriabá foi espancado até a morte na madrugada de anteontem, em Miravânia (714 km de Belo Horizonte), em Minas Gerais.
Três jovens dois deles menores são acusados do crime. O maior de idade foi preso; os menores, apreendidos. Eles confessaram o crime, segundo a polícia, mas disseram tê lo feito sem intenção.
O crime ocorreu por volta das 3h30. Avelino Nunes Macedo, 37, voltava para sua aldeia após participar de uma festa na cidade, no distrito de Virgínio.
Uma escola municipal havia montado uma quermesse para arrecadar fundos para a formatura dos alunos da oitava série do ensino fundamental. Os três garotos de 18, 16 e 15 anos haviam saído do local, depois de causar um incêndio em uma das barracas.
Segundo a polícia, eles disseram em depoimento que, no trajeto, o índio esbarrou em um deles sem querer, o que os irritou. Eles decidiram deixá lo nu.
"O ato demonstra que houve preconceito étnico. Fizeram isso porque ele era índio. Queriam despi lo", disse o delegado Airton Alves de Almeida.
Quando retiravam as calças de Macedo à força, ele reagiu. Os três começaram, então, a dar socos e pontapés no índio, de acordo com a polícia.
Um dos jovens deu uma rasteira em Macedo, que caiu de cabeça no chão e permaneceu imóvel. Os três continuaram, diz a polícia, a agredir o índio.
Um vizinho ouviu o barulho e acendeu uma luz de sua casa. Assustados, os rapazes fugiram. Às 7h, o mesmo vizinho acordou e, ao sair para a rua, viu o índio no chão com as calças arriadas, morto. Ele chamou a Polícia Militar. Testemunhas ajudaram a polícia a identificar os suspeitos.
Edson Gonçalves Costa, 18, foi preso e indiciado sob suspeita de homicídio qualificado (motivo fútil). Ele não tem advogado. Os outros dois garotos, um de 15 (de São Paulo) e outro de 16, também estão na Cadeia Pública do município de Manga, vizinho de Miravânia. Eles podem ser internados provisoriamente por 45 dias.
Segundo o delegado, os três têm ensino fundamental incompleto. Os dois menores não estudam nem trabalham. Costa é funcionário de um supermercado. "Eles são de classe média tendo em vista a região, pobre. São de famílias conceituadas."
Há cerca de 8.000 xacriabás em Minas a maioria em São João das Missões. O coordenador regional do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) Wilson Santana afirma que Macedo era uma das lideranças de uma área não demarcada, invadida em maio e reivindicada pelos xacriabás. "Não é um caso isolado. É fruto de um processo que levou a uma imagem deturpada do índio na região. O clima de tensão ainda existe e é a preocupação agora."
Pataxó Galdino
O assassinato ocorre dez anos após o mais emblemático caso de agressão a um índio no país. Em abril de 1997, quatro rapazes de classe média de Brasília (DF) atearam fogo ao índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que morreu queimado. Em novembro de 2001, um júri popular condenou os quatro rapazes a 14 anos de prisão.
Suspeitos dizem que só queriam fazer brincadeira
DA AGÊNCIA FOLHA
Os três jovens afirmaram, em depoimento à polícia, que não tinham intenção de matar o índio, mas sim de fazer uma brincadeira.
Segundo a Polícia Civil, os garotos confessaram o assassinato, mas disseram que esse não era o objetivo deles. Disseram que tudo começou quando o índio encostou em um deles após a quermesse.
Segundo os garotos, foi um "tranco" não intencional, que não feriu ninguém.
Mesmo assim, os três resolveram fazer uma "brincadeira" com o índio e decidiram tirar a roupa dele. Quando ele reagiu, houve um acesso de raiva, segundo eles, o que provocou as agressões.
Os jovens disseram ainda que saíram da festa bêbados e que, por isso, não tinham plena consciência do ato. O delegado Airton Alves de Almeida negou a embriaguez.
Os três suspeitos, de acordo com a polícia, afirmaram ainda que fugiram porque ficaram assustados.
Nenhum deles havia constituído advogado ontem. Nenhum familiar acompanhou os depoimentos. (TR)
O assassinato teve características de linchamento, com socos e pauladas. O motivo parece ter sido o mais fútil possível: um esbarrão numa festa e uma vontade de fazer gozação do índio. As ilações que se fazem é que é parte do anti-indigenismo regional, com tensão na região e que tem a ver com disputa por terras.
A terra dos Xakriabá foi demarcada há mais de 10 anos e tem 54.000 hectares. A Funai ainda está pagando moradores pobres que sairam de lá e que não receberam. Porém, segundo o CIMI, os Xakriabá querem mais terras. Dai a desavença.
Todos os jornais relebram o caso do Galdino Pataxó, morto por queimaduras provocadas por jovens de Brasília, em 1997, enquanto dormia no ponto de ônibus perto da Funai
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Jovens são acusados de espancar índio até a morte em MG
Vítima, da etnia xacriabá, teve roupa retirada e levou socos e pontapés de três rapazes; dois deles têm menos de 18 anos
Segundo a polícia, suspeitos disseram em depoimento que, na saída de uma festa, o índio esbarrou em um dos garotos, o que os irritou
THIAGO REIS
DA AGÊNCIA FOLHA
Um índio da etnia xacriabá foi espancado até a morte na madrugada de anteontem, em Miravânia (714 km de Belo Horizonte), em Minas Gerais.
Três jovens dois deles menores são acusados do crime. O maior de idade foi preso; os menores, apreendidos. Eles confessaram o crime, segundo a polícia, mas disseram tê lo feito sem intenção.
O crime ocorreu por volta das 3h30. Avelino Nunes Macedo, 37, voltava para sua aldeia após participar de uma festa na cidade, no distrito de Virgínio.
Uma escola municipal havia montado uma quermesse para arrecadar fundos para a formatura dos alunos da oitava série do ensino fundamental. Os três garotos de 18, 16 e 15 anos haviam saído do local, depois de causar um incêndio em uma das barracas.
Segundo a polícia, eles disseram em depoimento que, no trajeto, o índio esbarrou em um deles sem querer, o que os irritou. Eles decidiram deixá lo nu.
"O ato demonstra que houve preconceito étnico. Fizeram isso porque ele era índio. Queriam despi lo", disse o delegado Airton Alves de Almeida.
Quando retiravam as calças de Macedo à força, ele reagiu. Os três começaram, então, a dar socos e pontapés no índio, de acordo com a polícia.
Um dos jovens deu uma rasteira em Macedo, que caiu de cabeça no chão e permaneceu imóvel. Os três continuaram, diz a polícia, a agredir o índio.
Um vizinho ouviu o barulho e acendeu uma luz de sua casa. Assustados, os rapazes fugiram. Às 7h, o mesmo vizinho acordou e, ao sair para a rua, viu o índio no chão com as calças arriadas, morto. Ele chamou a Polícia Militar. Testemunhas ajudaram a polícia a identificar os suspeitos.
Edson Gonçalves Costa, 18, foi preso e indiciado sob suspeita de homicídio qualificado (motivo fútil). Ele não tem advogado. Os outros dois garotos, um de 15 (de São Paulo) e outro de 16, também estão na Cadeia Pública do município de Manga, vizinho de Miravânia. Eles podem ser internados provisoriamente por 45 dias.
Segundo o delegado, os três têm ensino fundamental incompleto. Os dois menores não estudam nem trabalham. Costa é funcionário de um supermercado. "Eles são de classe média tendo em vista a região, pobre. São de famílias conceituadas."
Há cerca de 8.000 xacriabás em Minas a maioria em São João das Missões. O coordenador regional do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) Wilson Santana afirma que Macedo era uma das lideranças de uma área não demarcada, invadida em maio e reivindicada pelos xacriabás. "Não é um caso isolado. É fruto de um processo que levou a uma imagem deturpada do índio na região. O clima de tensão ainda existe e é a preocupação agora."
Pataxó Galdino
O assassinato ocorre dez anos após o mais emblemático caso de agressão a um índio no país. Em abril de 1997, quatro rapazes de classe média de Brasília (DF) atearam fogo ao índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que morreu queimado. Em novembro de 2001, um júri popular condenou os quatro rapazes a 14 anos de prisão.
Suspeitos dizem que só queriam fazer brincadeira
DA AGÊNCIA FOLHA
Os três jovens afirmaram, em depoimento à polícia, que não tinham intenção de matar o índio, mas sim de fazer uma brincadeira.
Segundo a Polícia Civil, os garotos confessaram o assassinato, mas disseram que esse não era o objetivo deles. Disseram que tudo começou quando o índio encostou em um deles após a quermesse.
Segundo os garotos, foi um "tranco" não intencional, que não feriu ninguém.
Mesmo assim, os três resolveram fazer uma "brincadeira" com o índio e decidiram tirar a roupa dele. Quando ele reagiu, houve um acesso de raiva, segundo eles, o que provocou as agressões.
Os jovens disseram ainda que saíram da festa bêbados e que, por isso, não tinham plena consciência do ato. O delegado Airton Alves de Almeida negou a embriaguez.
Os três suspeitos, de acordo com a polícia, afirmaram ainda que fugiram porque ficaram assustados.
Nenhum deles havia constituído advogado ontem. Nenhum familiar acompanhou os depoimentos. (TR)
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