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terça-feira, 23 de junho de 2009

Governo peruano volta atrás e tenta novo diálogo com os índios

Passadas duas semanas desde que a Polícia Militar do Peru avançou, por ordem presidencial, sobre uma concentração de mais de 1.000 indígenas Awajun, que estavam embarrerando uma estrada federal numa província onde inicia a parte norte da Amazônia peruana, em protesto por não serem ouvidos a respeito de projetos de desenvolvimento em suas terras, o rescaldo de mortes não resultou em evidências a mais do que aquelas anunciadas poucos dias depois. Isto é, morreram 34 pessoas, sendo 24 policiais, 8 indígenas e 2 jornalistas. Tenho tentado saber como morrem 24 policiais num ataque desse tipo, cheio de armamentos, contra indígenas portanto arcos e flechas e porretes, mas os relatos são variados. Os índios dizem que foram mortos por fogo cruzado dos próprios policiais; os policiais e o governo peruano dizem que foram assassinados pelos índios depois de presos em emboscada. O relator da ONU para direitos indígenas, James Anaya, esteve no local e declarou que não houve massacre, nem genocídio, confirmando de certo modo as alegações do governo peruano.

Na semana passada, o presidente Alan Garcia, pressionado pela opinião pública nacional e internacional, decidiu cancelar dois de seus atos discricionários (poder que lhe fora concedido pelo próprio Congresso peruano) em que abria e loteava a Amazônia peruana para a exploração de petróleo e gás, sem levar em consideração a quem pertencia ou estavam destinadas essas terras. Isto é, os povos indígenas. Pediu ao Congresso peruano que revogasse esses decretos, o que foi feito sexta-feira p.p. E convidou os índios ao diálogo.

Uma tentativa de diálogo havia sido entabulada durante algumas semanas anteriores ao ataque policial, já que os índios tinham se levantado em protesto e fechado essa estrada desde abril p.p. Entretanto, o primeiro-ministro do Peru não se deu bem nesse diálogo. Era um diálogo de senhor para servo, próprio da elite peruana. Os índios endureceram e apostaram na radicalização. Deu certo. Isto é, excetuando as mortes, o resultado é que o governo vergou à demanda indígena, que agora quer instituir um diálogo verdadeiro, em diálogo entre partes respeitantes.

Os índios, ou pelo menos aqueles ligados à Aidesep, que é uma das três principais associações indígenas amazônidas do Peru, dizem que não são contra o desenvolvimento da Amazônia. Apenas querem ser ouvidos e participar. Ser ouvidos não como ato displicente, feito com ouvidos de mercador, mas ouvido em diálogo, onde suas opiniões se tornem contraditório a serem incorporadas. Querem também participar dos benefícios das riquezas que das suas terras, ou mesmo de terras vizinhas, da região sejam extraídas. Querem uma racionalidade nova na economia amazônida. Querem participar com garantia de receber dividendos e alferir ganhos.

Tudo isso é novidade no Peru, acostumado a tratar os índios do altiplano como se camponeses fossem. Talvez estes sejam sociologicamente camponeses, como interpretava José Carlos Mariátegui, o grande marxista peruano da década de 1920, mas os índios da Amazônia não o são. Têm consciência de suas diferenças culturais fundamentais em relação aos indígenas descendentes do Império Inca, e do caráter colonialista com que são tratados.

É interessante notar que, ontem mesmo, o governo da província de Cuzco, que foi a capital do Império Inca, declarou ter cancelado um investimento japonês de mais de 300 milhões de dólares para a construção de uma hidrelétrica na região de Canchis porque os índios da região protestaram que não a queriam em suas terras. Se a moda pega...

Um novo diálogo não vai ser fácil para o governo peruano incorporar. Não há tradição indigenista naquele país. Mas, temos que desejar boa sorte a todos. Talvez de onde não tenha tradição saia alguma coisa de novo. Difícil, porém não impossível.

No Brasil, está chegando a hora em que o diálogo com os índios terá que rejuvenescer de um modo diferente do que vem acontecendo ultimamente. Nem um diálogo paternalista, seja pelo lado do governo, seja pelo lado das Ongs, nem um diálogo inter-classe. O Brasil tem uma tradição indigenista que não é para ser descartada. Seu resultado é o reconhecimento dos povos indígenas como parte essencial da Nação. É tradição premente, real, objetiva e subjetiva, mas, dentro da história, é para ser superada, transcendida, reincorporada com o aprendizado do presente, com a presença manifesta dos povos indígenas em busca de um espaço digno na nação.

sábado, 6 de junho de 2009

Confronto na Amazônia Peruana: pelo menos 33 mortos


Um grave conflito de proporções ainda desconhecidas se deu ontem na região amazônica do Peru. Segundo informações da Reuters e outros jornais, pelo menos 24 índios e 9 policiais teriam morrido por ferimento de balas. Outros 50 estariam em hospitais regionais.

O confronto vinha se desenhando há alguns semanas. Os índios amazõnidas, em uníssono, vinham protestando contra alguns decretos do presidente Alan Garcia que abriam a exploração de petróleo com amplas vantagens para as empresas.

Os índios, liderados pela organização Aidesep, tinham já fechado algumas estradas e invadido alguns canteiros de obras e instalações petrolíferas.

A negociação, levada pelo primeiro-ministro, andava morna, sem resultados.

O presidente Garcia resolveu abrir as estradas e enviou tropas para isso. Na manhã de ontem um destacamento policial foi atacado de surpresa por um grupo de 1.000 índios, resultando na morte de 5 policiais e 4 indígenas. Em seguida vieram reforços e as escaramuças penderam favoravelmente para o lado dos policiais.

Mais notícias virão nos próximos dias. O que sobra é um impasse muito grave. Os índios não abrem mão de sua participação no desenvolvimento econômico de suas regiões. São contra as empresas petrolíferas e não admitem a imposição. Já o governo do Peru está acostumado à repressão de índios sem tréguas.

A BBC de Londres colocou esse pequeno video no seu site.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Líder indígena peruano explica invasão de poços de petróleo na Amazônia peruana


O Peru decretou "estado de emergência" em quatro estados da Amazônia Peruana: Cuzco, Loreto, Ucayali e Amazonia. Está havendo uma grande disputa nessas regiões entre as companhias petrolíferas e os povos indígenas que habitam as terras em cujo subsolo há abundante fontes de petróleo. A disputa é, com licença do trocadilho, crua e dura.

O governo Alan Garcia até que buscou negociar com os índios, mas de um modo tão ineficiente, com tanta incapacidade de conversação, que só causou mais revolta entre as lideranças indígenas. O governo peruano não abre mão do poder sobre a exploração do petróleo outorgada a quem quer que ele queira. Já disse isso diversas vezes. Hoje são pelo menos três locais de poços de petróleo explorados por empresas estrangeiras que foram tomados por índios, além da interdição de diversas pontes e estradas, motivos pelos quais o governo decretou emergência. A principal alegação do governo é que uma minoria de índios não pode prejudicar o Estado peruana e a maioria de sua população que dependem dos royalties e impostos do petróleo. É desculpa muito grosseira.

Na entrevista abaixo, o principal líder da associação Aidesep, Alberto Pizango, esclarece a questão do ponto de vista dos povos indígenas. Argumenta que há exploração sem respeito ao meio ambiente e aos direitos dos povos indígenas. Até que não é contra o ato em si de explorar petróleo, mas quer participação e reconhecimento.

É certo que esta celeuma vai continuar e é bem possível que as disputas se tornem mais ásperas, com prisões e mortes, se o governo peruano não encontrar uma fórmula de negociação adequada.

O mapa ao lado mostra a divisão geográfica do Peru em três grandes regiões, que correm de norte a sul, e explicita as áreas da Amazõnia Peruana que estão "loteadas" para empresas de petróleo. Não esclarece exatamente onde há terras indígenas, uma concepção bem diferente do que temos no Brasil.

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Indígenas se rebelam contra empresas petrolíferas na Amazônia peruana
Índios tomaram três poços na região e querem revisão de concessões.
Leia entrevista com líder de nativos amazônicos peruanos.


Dennis Barbosa, do Globo Amazônia, em São Paulo


Indígenas peruanos estão mobilizados contra a forma como é feita a exploração petrolífera na porção amazônica de seus país. A Amazônia peruana foi praticamente toda loteada e leiloada a empresas nacionais e estrangeiras de exploração (veja mapa abaixo). Os índios reclamam dos impactos ambientais e sociais, e de não terem sido consultados sobre a extração de petróleo em terras que consideram suas.

No momento, eles mantêm três poços ocupados e prometem radicalizar sua oposição ao governo de Alan García, como relata em entrevista ao Globo Amazônia o presidente da entidade que encabeça nacionalmente o movimento, a Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep), Alberto Pizango. Leia abaixo entrevista do líder indígena:

Globo Amazônia: Na última semana, vocês bloquearam o Rio Napo no departamento (estado) de Loreto para impedir a passagem de barcos petroleiros, mas a Marinha rompeu o bloqueio com uma embarcação de guerra. O que aconteceu?

Alberto Pizango: Isso foi na terça-feira (5). As 5h30 da manhã, a Marinha de Guerra irrompeu o Rio Napo, que haviam fechado os irmãos secoyas e quechuas. Felizmente não houve danos humanos, apenas materiais. Fizeram afundar botes e barcos a motor, porque tinham que passar duas barcaças da [companhia francesa de petróleo] Perenco.

Globo Amazônia: Foi a reação mais violenta do governo até agora?

Alberto Pizango: Essa é uma clara provocação do governo aos povos que estão reclamando seu direito à vida, à liberdade e à soberania dos territórios do Peru.

Globo Amazônia: Em que exatamente a atividade petroleira afeta os indígenas da Amazônia peruana?

Alberto Pizango: Toda a Amazônia está quadriculada. Por isso todos os povos indígenas estão mobilizados e não vão permitir mais que o governo siga entregando os territórios dos legítimos peruanos.

Globo Amazônia: Pode exemplificar que tipos de problemas as petroleiras causam?

Alberto Pizango: Poluição de rios. São mais de 36 anos de exploração de hidrocarbonetos no Rio Corrientes sem que a [empresa de capital argentino] Pluspetrol tenha indenizado ou remediado. Ali segue-se poluindo e nossos irmãos achuares estão contaminados com chumbo e cádmio em seu sangue. Estão condenados a morrer.

Na província de Urubamba também houve, com a mesma Pluspetrol, sete rupturas de tubos e derramamentos sem que até agora nada tenha sido feito. Lá está poluído e os irmãos matsiguengas estão condenados a morrer. O Estado peruano está matando os povos indígenas. Há uma clara violação de direitos humanos, um claro genocídio em pleno século 21.

Globo Amazônia: E se o governo ou as empresas pagassem aos indígenas pela exploração dos recursos naturais? Neste caso, vocês aceitariam a presença dessas companhias?

Alberto Pizango: Talvez. Não se trata de que paguem ou não, mas de direitos. Trata-se de que não houve consulta a esses povos e de que o Estado peruano não tem uma lei que garanta que estas empresas, quando trabalhem na Amazônia, quando causem impacto ambiental e social, reparem ou indenizem. Simplesmente matam os povos, os seres humanos que estão ali.

Estamos dizendo ao governo que sentemos e reavaliemos isso, para que essas empresas entrem em igualdade de condições e que, se houver algum derramamento ou impacto, se possa pagar ou indenizar. A questão fundamental é o não cumprimento da convenção 169 [da ONU ] sobre o direito dos povos indígenas e dos cidadãos. (O convênio foi adotado em 1989 para garantir os direitos territoriais, sociais, culturais e econômicos dos povos indígenas e tribais.)

Globo Amazônia: Onde vocês estão concentrados para protestar contra a exploração petroleira?

Alberto Pizango: Estamos em toda a Amazônia, em 11 departamentos.

Globo Amazônia: E até agora não houve diálogo com o governo?

Alberto Pizango: Até agora não. Tentamos dialogar. Há acordos com o Legislativo e o Executivo, que se comprometeram a solucionar [a questão], mas não foi resolvido. Por isso, os povos indígenas radicalizaram e tomaram estações de bombeamento e anunciaram que também vão bloquear a estrada que liga o [departamento de] Amazonas com a costa.

Globo Amazônia: Quantas estações foram tomadas até agora?

Alberto Pizango: No momento há três ocupadas: duas no departamento de Loreto e uma no departamento de Amazonas.

Globo Amazônia: E se não houver diálogo há o risco de que se chegue a um confronto futuramente?

Alberto Pizango: A violência quem vai cometer é o governo. Nossos povos são pacíficos, apesar das contínuas agressões de que são alvo por parte dos governos republicanos. Mas as provocações do governo não vão ficar sem resposta, já que não consentimos a presença das empresas. Portanto, consideramos o governo de Alan García responsável pelas consequências que tenham suas provocações. Convocamos os organismos de defesa dos direitos humanos e as forças patrióticas e democráticas deste país a se unirem nesta luta pela derrogatória dos decretos legislativos e das leis entreguistas e anticonstitutcionais que este governo perpetrou.

O Globo Amazônia entrou em contato com o Ministério de Energia e Minas do Peru para ouvir o governo a respeito da exploração de petróleo na região em questão, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Empresários se dispõem a ajudar a preservar a Amazônia

Ao lado da crise financeira mundial, os empresários no mundo todo estão preocupados com o aquecimento global. Muitas indústrias, especialmente as derivadas do petróleo (incluindo a automobilística), são as maiores causadoras da emissão de gases que provocam o efeito estufa na Terra.

Essa semana o empresário sueco-britânico Johann Eliasch, o mesmo sobre o qual o Fantástico fez uma matéria mostrando que ele tinha um grande pedaço de terra na Amazônia, vem de propor um plano para a salvação da Amazônia.

Seu plano consiste em pagar pela preservação da Amazônia e vem com um certo apoio do primeiro-ministro inglês Gordon Brown, que desesperadamente precisa de mídia para sair da situação de impopularidade em seu país.

O plano segue a linha de que os chamados "serviços florestais" devem compensar financeiramente a manutenção da floresta de pé. Modelos incluídos no estudo estimam que os custos gerados pela perda de florestas crescerão a passos largos até 2100, quando chegarão a US$ 1 trilhão por ano, se medidas não forem tomadas a tempo.

Como obter recursos para esse plano? O documento pede um acordo internacional que tenha como objetivo reduzir à metade as emissões causadas pela perda de matas tropicais até 2020, o que geraria ganhos de US$ 3,7 trilhões em longo prazo pelas estimativas citadas pelo estudo.

É mais um plano de um empresário que quer aparecer de qualquer jeito. É o que parece, pois as Ongs ambientalistas, tais como o Greenpeace e a WWF cairam de pau no plano. Dizem que vai provocar mais corrupção, má governança, e falta de fiscalização nos países onde há floresta amazônica.

Ademais, será que o Brasil está de braços abertos a esses planos?

Por outro lado, os empresários de São Paulo se uniram em torno de um plano para diminuir a demanda dos paulistanos por produtos amazônidas, tais como carne, soja e madeira. Se a demanda diminuir, calculam os empresários liderados por Oded Grajew, um ex-assessor do presidente Lula e empresário progressista, a destruição também diminuirá.

As Ongs estão unidas em torno dessas idéias. A questão é: parecem tão inviáveis como as dos empresários europeus.

Uma outra situação inusitada vinda da classe empresarial foi a notícia de que Eike Batista, o dono da empresa EBX, que agrega diversas outras empresas metalúrgicas, minerais e que tais, fez uma doação de R$ 11,4 milhões ao Ministério do Meio Ambiente para cobrir as despesas de três parques nacionais: o de Fernando de Noronha, o dos Lençóis Maranhenses e o Pantanal. O plano foi aprovado pelo Ministério do Meio Ambiente, isto é, pelo ministro Minc, mas não inclui o perdão das dívidas que a empresa de metalurgia de Eike Batista teria em função de multas pelo uso de carvão vegetal feito de mata derrubada no Pantanal.

Sobre essas multas, Batista disse que as pagará, caso sejam consideradas legais pela justiça, já que ele entrou em ação judicial contra elas. Disse também que possivelmente irá fechar sua usina metalúrgica que fica perto do Pantanal pois só está lhe dando dor de cabeça.

É, o mundo está rodando de uma forma interessante e inesperada. Essa crise financeira mundial, que resultou até na compra de ações bancárias por parte de países (EUA, Inglaterra, Alemanha) que antes jamais teriam feito isso por considerarem "coisa de socialista", representa mais mudanças do que o mero espectador do capitalismo haveria de pensar pelos parâmetros de análise tradicionais.

O mundo muda, como dizia Camões. Os sinais estão por aí.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Vale não quer se submeter a ordem judicial

Mais uma vez a Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa privada do país, com valor estimado em 130 bilhões de dólares, cujo capital básico são as minas de ferro, ouro, cobre e estanho que possui em virtude de concessão do Estado brasileiro, mais uma vez essa companhia, que foi privatizada em março de 1994 pelo valor de 3 bilhões de dólares, se recusa a cumprir uma ordem judicial para ressarcir os índios Xikrin das perdas que tiveram em virtude de parte de suas terras terem sido entregues à companhia quando ainda era empresa estatal.

Quando era presidente da Funai briguei muito com a Vale em função de sua atitude de achar que não deve nada aos índios nem ao Estado brasileiro por ter recebido 411.000 hectares da mais pura terra de minérios já encontrada na face da terra, a Serra dos Carajás. Os índios Xikrin também não estão nada satisfeitos e, em dado momento, invadiram o pátio da mina de ferro e lá ficaram até serem prometidos de que os recursos que vinham recebendo fossem reativados. Mesmo assim, logo depois a Vale os traiu e se recusou a fazer qualquer acordo. Mesmo depois que o juiz Carlos Henrique Haddad a obrigasse a tanto.

Esta nova sentença do juiz Haddad parece que não convenceu a Vale a cumpri-la. Já declarou que vai recorrer com seus inúmeros advogados.

Um decreto legislativo do Senado Federal, de 1997, confirmado e homologado por um decreto presidencial do mesmo ano, exige que a Vale preste assistência aos povos indígenas que estão ao redor da Serra dos Carajás. É uma simples cláusula, que, junto com outras duas, constituem o preço por tão rica doação.

A Vale, desde a nova presidência do ex-banqueiro do Bradesco, Luiz Agnelli, vem se recusando a aceitar essa cláusula da concessão desse território. Veja suas justificativas logo abaixo da matéria.

Isto constitui um acinte ao Direito brasileiro, um despautério próprio da atitude soberba e arrogante do poder econômico brasileiro.

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Vale é condenada a pagar pensão de R$ 650 mil para índios no Pará

Valor deve ser pago até que comunidades 'alcancem autonomia financeira'.

Empresa informou em nota oficial que vai recorrer da decisão.

O juiz Carlos Henrique Borlido Haddad, da Justiça Federal de Marabá, condenou a Vale a repassar mensalmente mais de R$ 650 mil a duas comunidades indígenas xikrin que habitam a região sul do Pará. Além disso, a empresa também deve reparar uma estrada que liga aldeias indígenas. Da sentença, cabe recurso ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília (DF).

A decisão é um julgamento de mérito em ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Fundação Nacional do Índio (Funai) contra a empresa.

Os recursos, segundo a sentença judicial, deverão ser despendidos pela mineradora até que os próprios índios alcancem a autonomia financeira.

Na mesma decisão, o juiz condenou a Vale a recuperar a estrada indígena PA-279, com extensão de 160 quilômetros, que interliga aldeias. Se as obras não iniciarem, a Vale ficará sujeita à cobrança de R$ 100 mil, “a cada 15 dias de inércia da ré.”

Para o juiz federal, compete à Vale amparar as populações indígenas existentes nas proximidades da área que explora, de acordo com os termos de convênio formalizado com a Funai. A empresa, segundo o magistrado, “tem a obrigação de prestar assistência às comunidades indígenas”, o que vinha sendo feito, durante anos, com o repasse de recursos financeiros, para atender a regulamentação contida em decreto de março de 1997.

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Em nota oficial, a Vale afirma que “continua entendendo que não está obrigada a prestar apoio às comunidades xikrin” e reitera que deixou de prestar a assistência às comunidades após a invasão dos índios à Mina de Ferro de Carajás, em outubro de 2006. A empresa pretende recorrer da decisão.

Leia a nota oficial na íntegra:

“Nota de Esclarecimento

Sobre a decisão da Justiça Federal em Marabá (PA) no processo judicial movido pela Funai e MPF envolvendo comunidades indígenas Xikrin, a Vale esclarece:

1 - A decisão judicial determina que as partes deverão apresentar ao juiz as propostas de novo modelo de gestão das comunidades indígenas e que a compensação financeira que a Vale deve fornecer até a auto-sustentabilidade deste novo modelo “não é infinita e tem limites na razão”. Determina, portanto, que a empresa mantenha, por período certo, embora ainda não determinado, o apoio que vem prestando as comunidades indigenas Xikrin;

2- A Vale sustenta que, embora contenha esta limitação temporal para a manutenção do apoio às comunidades indígenas Xikrin, a sentença destoa dos fatos, já que o decreto número 2.486, de 1998, encerrou a possibilidade de celebração de um contrato de concessão de direito real de uso em favor da Vale;

3 - O decreto transformou a área que seria concedida à Vale na Floresta Nacional de Carajás, não exigindo da empresa qualquer obrigação legal de prestar assistência aos indígenas. Portanto, a Vale continua entendendo que não está obrigada a prestar apoio às comunidades Xikrin;

4 - A Vale reitera que deixou de prestar a assistência, voluntária, às comunidades Xikrin, após a invasão à Mina de Ferro de Carajás, em outubro de 2006. Na ocasião, os indígenas quebraram o convênio existência com a Vale, trazendo grandes perdas à empresa. Nos dois dias de paralisação, deixaram de ser embarcadas cerca de 650 mil toneladas de minério de ferro, um prejuízo de cerca de US$ 10 milhões, além de danos materiais causados nas instalações da empresa. O impacto na receita foi de US$ 23,6 milhões;

5 - A Vale irá recorrer da decisão judicial apresentando os recursos judiciais que forem pertinentes.”

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A VALE baixa a crista e ressarce os índios Krenak

O relacionamento da Companhia Vale do rio Doce -- VALE -- com povos indígenas que são afetados por seus empreendimentos, especialmente na Serra dos Carajás e no vale do rio Doce, tem sido muito difícil desde que ela foi privatizada.

Quando a Vale recebeu, via decreto presidencial e decreto legislativo, 411.000 hectares de terra onde se situava a maior mina a céu aberto de minérios de ferro, cobre, ouro e outros metais, ela ficou comprometida a cuidar da assistência dos povos indígenas que se encontram ao redor dessa imensa gleba de terras.

E o fez, até se tornar privada, vendida no início do governo Itamar Franco por 3 bilhões de dólares (quando hoje vale mais de 100 bilhões). Aí passou a dizer que ia fazer essa assistência por benemerência, não por questão contratual. Os índios Xikrin e Gaviões, daquela região de Marabá, no sudeste do Pará, passaram a sentir discriminados e tratados com desleixo. Também eles estavam recebendo dinheiro vivo, desbragadamente, sem controle da Funai (porque seus amigos onguistas os tinham convencido a retirar a Funai das negociações) e de qualquer outro órgão. A Vale se aproveitava da péssima imagem que esses índios estavam adquirindo para si exatamente para fazer corpo mole. Quando eu era presidente da Funai, os índios Xikrin invadiram o pátio central da empresa, no coração da mina de ferro e do escoamento do minério. A Vale endureceu as negociações. O juiz federal Haddad obrigou a empresa a cumprir sua obrigação. A Vale entrou com recurso. Enfim, foi um tremendo desgaste para os Xikrin, para a Funai e para a própria empresa. Ela, porém, se acha inabalável.

Acontece que também na região do rio Doce a Vale fez um consórcio com a Cemig, a empresa de energia elétrica de Minas Gerais, e construiu uma Usina Hidrelétrica na beira do rio, a poucos quilômetros a jusante da pequena terra indígena que sobrou para os índios Krenak, antigos senhores dessa região.

A Funai, o Ministério Público e o finado Dom Luciano Mendes de Almeida entraram no meio de campo para ajudar os índios Krenak a receberem uma compensação por isso. Foram vários meses de negociação. Fui a Belo Horizonte três vezes conversar com o grupo que Dom Luciano, com seu prestígio de pastor católico, conseguiu arregimentar, inclusive o governo do estado de Minas Gerais.

O consórcio viu que não podia ser arrogante para sempre e começou a tratar de ajeitar aquilo, ou parte daquilo, que os Krenak pediam. Na verdade, os Krenak pediam uma compensação de 30 milhões de reais e novas terras para si. Conseguiram agora um montante que, no total, incluindo o que já receberam, chega a 12 milhões de reais.

Não sei os detalhes do acordo final. Deve ter sido aquilo que foi possível. Espero que os Krenak possam ter algo que lhes dê condições de se erguer no mundo em que vivem.


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VALE E CEMIG PAGARÃO QUASE R$ 12 MI A ÍNDIOS DE MG

AGENCIA ESTADO

O Ministério Público Federal (MPF) firmou hoje acordo com o Consórcio da Usina Hidrelétrica de Aimorés (UHE-Aimorés) - formado pela Vale e pela Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) -, encerrando ação civil pública na qual pediu indenização por danos morais coletivos causados ao povo indígena Krenak. O acordo foi firmado na Justiça Federal em Governador Valadares, no leste de Minas, e a indenização total a ser paga é de quase R$ 12 milhões, segundo o MPF.

Na ação, ajuizada em abril de 2005, o MPF e a Fundação Nacional do Índio (Funai) acusaram as empresas e o consórcio - formado pela Vale (51%) e Cemig (49%) - de ignorarem, no contrato de construção da usina, os direitos e interesses dos índios Krenak que habitam a área de influência do empreendimento, na zona rural do município de Esplendor.

No estudo de impacto ambiental, conforme a Procuradoria da República no Estado, as empresas e o consórcio não fizeram qualquer consulta à comunidade indígena - formada por aproximadamente 100 famílias - e muito menos obtiveram o seu consentimento para a construção. "Na verdade, os índios sequer tinham conhecimento do empreendimento que ali seria implantado", afirmou o MPF por meio de nota.

Conforme o MPF, os réus já pagaram até o momento R$ 2,749 milhões a título de valores de apoio mensal, construção de uma ponte, apoio emergencial e cestas básicas. Hoje, se comprometeram a pagar mais R$ 9,182 milhões. Os recursos deverão ser aplicados na implementação de projetos para o desenvolvimento das famílias atingidas e de preservação ambiental das 54 nascentes existentes na terra indígena. Procurada, a Vale não comentou o acordo. A Cemig indicou o consórcio para falar sobre o assunto.

Projetos

O diretor de Relações Institucionais da UHE-Aimorés, Antônio de Pádua Matheus, afirmou que o consórcio pretende aplicar um montante de aproximadamente R$ 4 milhões em um projeto para dar sustentabilidade econômica à aldeia, por meio de um programa de pecuária de leite, incluindo a compra de gado de alta qualidade, equipamentos de formação de pasto e de beneficiamento. Estão previstos ainda o repasse de R$ 1 milhão em espécie e R$ 2 milhões por meio de bolsas-alimentação.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Mato Grosso do Sul se arma contra Funai; Mato Grosso vai na lábia

Durante toda a semana passada os jornais de Mato Grosso do Sul repercutiram, em um só tom, negativo e alarmante, o assunto da criação de portarias de identificação de novas terras indígenas naquele estado.

A FAMASUL, que é a entidade de produtores rurais do estado, está levantando todos os fazendeiros contra essas portarias e suas possíveis conseqüências. Chega a dizer que o Mato Grosso do Sul vai perder 10 milhões de hectares para os índios Guarani!

O governador do estado, André Pulcinelli, faz discursos inflamados contra essas portarias. Arregimenta deputados e secretários de estado para fazer campanha contra. Vai ao presidente Lula e exige o fim das portarias.

E olha que elas nem deram início aos seus trabalhos. Seus componentes nem chegaram ao Mato Grosso do Sul!

A matéria abaixo sintetiza o espírito dessa resistência que está se formando no Mato Grosso do Sul. Os fazendeiros e seus políticos e advogados querem levar às últimas conseqüências a resistência ao propósito da Funai de criar grupos de trabalho para inspecionar fazendas que teriam sido terras dos índios Guarani em épocas passadas. Vão chegar ao ponto de propor a extinção da Funai, a estadualização da questão indígena, o que for.

Um detalhe curioso é que a FAMASUL contratou o filósofo Denis Rosenfield para assessor a entidade na questão fundiária. O filósofo tem escrito contra o MST e a reforma agrária com muita veemência, mas até agora não tinha se metido com a questão indígena. Quer dizer, até recentemente, pois, outro dia, ele esteve em Roraima, conversou com os índios da SODIURR, que é a organização contrária à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, e escreveu um artigo no Estado de São Paulo em que põe dúvidas sobre a legitimidade dessa homologação. Porém, não traz argumentos especiais contra e se retrai um pouco na sua visão da questão. Vamos ver o que ele dirá sobre o caso Mato Grosso do Sul.

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Já no estado vizinho, Mato Grosso, o governador Blairo Maggi, com mais poder e moral no governo federal, usa uma estratégia mais inteligente. Está convencendo o governo de que os fazendeiros têm modos de desenvolver o estado, incrementar sua produção agrícola, e, ao mesmo tempo, proteger o meio ambiente, com tecnologias inteligentes.

O ministro Mangabeira Unger passou o fim de semana visitando diversas cidades do Mato Grosso, como Sinop, Sapezal, Juína, Tangará da Serra. Até andou de colheitadeira para ver como os grãos são colhidos e ensacados pela mesma máquina. As matérias estão em diversos jornais do Mato Grosso.

Não se sabe, pelas matérias dos jornais, qual a reação de Mangabeira Unger sobre essa visita, sobre o que viu e sobre o que ouviu dos fazendeiros. Ouviu, inclusive, um grupo de índios Pareci que há uma dezena de anos vem produzindo soja e milho em suas terras através de um consorciamento com fazendeiros locais. Uma espécie de arrendamento em que os índios dão não somente as terras mas também sua mão-de-obra, enquanto os fazendeiros dão os insumos e a tecnologia de produção e venda.

As declarações do ministro Mangabeira têm sido até menos incisivas do que outras feitas anteriormente. É possível que ele esteja em vias de reformular suas idéias iniciais sobre o que pensa da Amazônia e da produção agro-pastoril. De declarações genéricas sobre a necessidade de dar emprego aos seus habitantes e trazer o progresso pela economia intensiva, Mangabeira deve estar vendo a realidade com outros olhos. O buraco é bem mais embaixo. Os custos ambientais para qualquer realidade são imensos. Os custos humanos ainda maiores. Mangabeira deve estar sentindo o quanto há concentração de renda nesses empreendimentos.

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Questão indígena: FAMASUL vai orientar juridicamente produtores rurais

Jornal Dia Dia, por Fabiano Sato

A assessoria jurídica da Federação da Agricultura e Pecuária de MS (FAMASUL) orientará os produtores rurais quanto às vistorias da Fundação Nacional do Índio (Funai), determinadas pelas Portarias da Funai, divulgadas no último dia 14 de julho, no Diário Oficial da União (DOU). Esta foi uma das estratégias deliberadas neste sábado (29) pela comissão de advogados que defendem os produtores com propriedades rurais que tem litígios indígenas.

“A preocupação da entidade está nos efeitos dessas portarias. Nós temos uma suspeita que as análises dessas portarias já estão prontas”, comentou o presidente da Comissão de Assuntos Indígenas e Fundiários da FAMASUL e diretor-secretário da entidade, Dácio Queiroz.

A assessoria jurídica da entidade também aconselha que a entrada desses grupos técnicossó podem ser autorizadas com um mandado judicial. “Também é possível entrar com uma ação na justiça, pedindo que o judiciário faça esta análise e reconheça que a propriedade rural não é terra indígena. O Judiciário faria uma perícia judicial”, comentou o assessor jurídico da FAMASUL, Gervásio Alves Oliveira Junior.

Conforme o presidente da Comissão, o Governo do Estado deve entrar na justiça para derrubar as portarias. A Associação dos Municípios de MS (Assomasul) já reuniu as prefeituras dos municípios que constam nas portarias que deverão também acionar a justiça numa ação coletiva.

Impacto Econômico

O diretor-secretário da entidade já solicitou uma pesquisa do impacto econômico dessas portarias no estado e nessa região. “Não só os produtores rurais assim como a população urbana devem ter informação do que pode acontecer. Já sabemos que essas medidas desvalorizam as propriedades rurais e também afeta! m os mor adores da área urbana. Queremos saber qual é esse impacto para o município em geral. Ele não pode ser inviabilizado economicamente?”, comentou. As vistorias estão agendadas para começar a partir do dia 10 de agosto.

Reuniões pelo Interior

A Comissão de Assuntos Indígenas e Fundiários da FAMASUL em parceria com os Sindicatos Rurais reúne os produtores daquela região. A primeira reunião já está marcada para segunda-feira (28), em Naviraí, no auditório da Associação Comercial e Industrial do município. O objetivo é conscientizar a sociedade sobre os impactos sociais e econômicos do Termo de Ajustamento e Conduta do Ministério Público X Funai.

O consultor da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Denis Lerrer Rosenfield, será o palestrante desses eventos. Rosenfield é formado em Filosofia, pela Universidade Nacional do México, e é “Doutor de Estado” pela Universidade de Paris I Panthéon Sorbornn. É professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e articulista do Estado de SP, O Globo, além de ser também colaborador da Folha de SP.

Na terça-feira, o debate acontece em Dourados.

Participaram da reunião deste sábado os advogados: Guilherme Ramão Salazar, Julio César Rodrigues, Luana Ruiz Silva, Oscar Luiz Oliveira, Gervásio Alves Oliveira Junior, Newley Amarilha e Marilda Rodrigues Santos. Além deles, também participaram da reunião, o diretor secretário, Dácio Queiroz, a diretora tesoureira da FAMASUL, Maria Lizete Brito, e o coordenador de Unidades da entidade, Robson Souto.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Guarani versus Eike Batista -- caso para o STF

Diversos jornais nacionais repercutiram hoje a notícia de que o TRF da 3ª Região (São Paulo e sul do país) remeteu diretamente para o STF o caso do chamado "Porto Brasil" que o mega-empresário Eike Batista pretende fazer na cidade de Peruíbe, e onde tem problemas com a possível demarcação de uma terra indígena para os índios Guarani.

Já repercutimos aqui notícia anterior sobre esse tema. No ano passado os índios Guarani da região foram abordados por uma equipe de Eike Batista, junto com alguns representantes da Funai. O assunto ficou indefinido. Depois chamaram um pretenso indigenista conhecido pelo apelido de "Cabelo de Milho". Parece que esse tal entornou o caldo ainda mais.

O Ministério Público entrou com uma ação contra a pretensão do Porto Brasil, em favor dos índios Guarani. Eis agora que o desembardador Fábio Preito de Souza se considera incapacitado para julgar o mérito da questão e a envia para o STF.

Mais uma ação sobre a questão fundiária indígena para ser resolvida pelo STF. Há dois anos e meio avisei que tudo iria cair no colo do STF. Há muitas ambiguidades e indefinições em conceitos e noções presentes na Constituição brasileira de 1988, muito mais do que no Estatuto do Índio. Os ministros do STF têm agora a faca e o queijo na mão. Poderão decidir o futuro da questão indígena, no que concerne aspectos de interpretação do que é terra indígena.

Tenho para mim que os ministros do STF terão que se debruçar com denodo e inteligência sobre o quê se pode entender por tradicionalidade de terras indígenas. Eis o calcanhar de aquiles da questão indígena brasileira atual. É possível que, no bojo da decisão sobre a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol venha algo mais poderoso e definitivo. Caso contrário, as indefinições vão continuar a provocar celeuma e insatisfações na relação interétnica brasileira.

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Decisão sobre projeto de Eike vai para o Supremo
Desembargador impede Justiça de Santos de julgar processos. LLX nega qualquer ilegalidade no contrato


O GLOBO, Lino Rodrigues

SÃO PAULO. O desembargador federal Fábio Prieto de Souza, da 4ª Turma do Tribunal Regional Federal da 3aRegião, suspendeu ontem as ações movidas pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO (FUNAI) contra o licenciamento ambiental do complexo industrial-portuário Porto Brasil, no litoral paulista. O projeto é da LLX, braço no setor de portos do grupo EBX, do empresário Eike Batista. Em caráter liminar, o desembargador reconheceu a "incompetência absoluta" da Justiça Federal de Santos para julgar o caso, remetendo o processo para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo ele, a existência de conflito federativo entre a União e a FUNAI (autarquia federal) e o estado de São Paulo indica que só o STF poderá decidir a questão.

Souza diz ainda que a decisão (de remeter ao STF) está baseada em precedentes existentes como os casos da reserva Raposa Serra do Sol e da transposição do Rio São Francisco.

A empresa de Eike Batista tem planos de construir um megaprojeto em uma área de 19,5 milhões de metros quadrados dentro da chamada terra indígena de Piaçagüera, em Peruíbe, litoral Sul paulista. O projeto inclui um complexo portuário com 11 berços para atracação, uma ilha artificial e um parque industrial. Os investimentos previstos superam os US$ 2 bilhões. O projeto aguarda autorização da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo.

Na ação para embargar o projeto, os procuradores da República Luiz Antônio Palácio Filho e Luís Eduardo Marrocos de Araújo pediam a suspensão imediata da concessão de licença ambiental e acusavam a LLX de tentar erguer o empreendimento em uma área indígena, reconhecida pela FUNAI desde 2002. Os procuradores também apontaram supostos desvios cometidos pela empresa de Eike Batista para obter a propriedade definitiva da área, habitada por índios da etnia guarani. Segundo os procuradores, a LLX teria oferecido dinheiro e vantagens aos índios para que eles desistissem da disputa pela terra.

Para os procuradores do MPF, o que está por trás do licenciamento não é apenas um porto, mas um complexo de indústrias extremamente poluidoras, já denominado como Complexo Industrial Taniguá". De acordo com os autos do processo (com três volumes e 544 páginas), a empresa teria cometido "violações", "ameaças" e "investidas ilícitas" para obter a propriedade da área.

- O Porto Brasil é uma nova Cubatão - afirmam os procuradores, referindo-se a cidade vizinha a Santos que já foi uma das cidades mais poluídas do mundo.

Em nota, a LLX reafirmou que não houve qualquer ilegalidade no contato entre a empresa e a comunidade indígena que vive no local onde planeja instalar o Porto Brasil. Segundo a nota, o contato com os índios foi feito na presença de representantes da FUNAI local. A empresa alega ainda que o espólio de Leão de Araújo Novaes (proprietário original das áreas), apoiado pela LLX, também apresentou formalmente à FUNAI propostas e alternativas de realocação das famílias indígenas, e que aguarda uma resposta do órgão.

Sobre a liminar de ontem do desembargador Prieto, a empresa informou, também em nota, que ainda não teve acesso à decisão e que, por isso, só vai se manifestar quando for comunicada oficialmente.

Empresário teve residência vasculhada pela PF

A LLX não é a única empresa de Eike envolvida em litígios na Justiça. No último dia 12, a MMX e a Acará Empreendimentos, que atuam na área de mineração no Amapá e são subsidiárias da EBX, foram alvos de uma ação da Polícia Federal (PF) por suposta irregularidades em licitação de estrada de ferro. Na ação, batizada de Toque de Midas, agentes da PF chegaram a vasculhar a casa do empresário, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio de Janeiro.

A ação teria sido antecipada, depois que a Justiça concedeu aos advogados de Eike Batista acesso aos autos da investigação. A intenção original era prender o empresário e o presidente da MMX, Flávio Godinho.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pajé Guaíra filosofa e diz que não sai de Piaçaguera

Atentem para essa entrevista com o pajé Guaíra, um senhor Guarani da comunidade guarani de Peruíbe, litoral de São Paulo, sobre a construção do Porto da empresa LLX, de Eike Batista. (Para complementar as informções, ver logo abaixo uma entrevista com uma índia Guarani que dá mais detalhes do caso da construção desse porto e da possível retirada e transferência de uma comunidade guarani que vive exatamente onde se pretende construir o porto.)

Com uma lucidez impressionante, com uma modéstia estóica e com uma linguagem filosófico-teológica, o pajé Guaíra analisa em poucas palavras o mundo dos brancos e seu próprio mundo. Reconhece o poder da civilização, mas se fia na sua liberdade e no seu sentido de vida. A certa altura diz que o dinheiro pode tudo, mas também não pode nada, dependendo de quem o dinheiro pretende atender. Às pessoas de fé e esperança, o dinheiro não vale nada.

A entrevista foi feita na aldeia Piaçaguera pelo jornalista Bruno Rios para o site PortoGente, da cidade de Peruíbe.



sexta-feira, 13 de junho de 2008

Os índios Awá-Guajá em 2002


Os índios Awá-Guajá, que vivem no oeste do Maranhão, são um povo de fala tupi que vive tradicionalmente da caça e da coleta. Seu território compreende afluentes das bacias dos rios Gurupi e Pindaré. Suas aldeias atuais e suas áreas de convívio, os "tekwá" (semelhante aos tekohá dos Guajajara e dos Guarani) se encontram nas terras indígenas Alto Turiaçu, Awá-Guajá, Caru e Araribóia. Porém pode ainda haver alguns grupos fora dessas terras indígenas.

O relatório abaixo apresentado foi escrito por José Carlos Meirelles, que fez o primeiro contato com um grupo Awá-Guajá em 1973, e pelo presente antropólogo, que contatou outro grupo em 1980. Foi feito a pedido da Secretaria da Amazônia do Meio Ambiente, em setembro de 2002, e intencionava servir tanto à Funai quanto à Companhia Vale do Rio Doce, que tem obrigações de compensação com o povo Awá-Guajá. Algumas das recomendações foram realizadas quando eu fui presidente da Funai, especialmente o fim da demarcação da Terra Indígena Awá-Guajá e a sua homologação.

A foto ao lado foi tirada por um fotógrafo da Folha de São Paulo. Mostra uma índia Guajá dando de mamar a um filhote de porco queixada. As mulheres Guajá amamentam os filhotes dos animais que são pegos nas caçadas. Esses filhotes são chamados de "heimá", palavra cognata de "timbabo", de onde vem "xerimbabo", tal como veio ao português do tupi antigo.


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RELATÓRIO AWÁ-GUAJÁ-2002
Para a constituição de um novo Programa de Proteção,
Assistência e Consolidação Étnica do Povo Awá, do Estado do Maranhão


Apresentado a

Fundação Nacional do Índio
Companhia Vale do Rio Doce
Secretaria da Amazônia do Ministério de Meio Ambiente


Elaborado por

Mércio Pereira Gomes, antropólogo
José Carlos Meirelles, sertanista
Petrópolis, 30 de setembro de 2002

Relatório Awá-Guajá-2002

Apresentação

Este relatório é resultado de uma viagem de campo realizada entre os dias 19 e 26 de setembro de 2002 pelos autores, Mércio Pereira Gomes e José Carlos Meirelles, em conjunto com a administradora da Funai em São Luís, Sra. Elenice Garrido, o indigenista Jackson Mendes e a assistente de administração Wilna Linhares. A viagem foi realizada por carro, lancha de motor de rabeta e a pé. Nessa ocasião foram visitados todos os quatro postos que servem diretamente aos índios Awá – o P. I. Guajá, na T.I. Alto Turiaçu, os P.Is. Juriti, Awá e Tiracambu, na T.I. Caru, além da Base de Apoio aos índios Guajá, localizada na cidade de Santa Inês. Foram entrevistados todos os chefes de postos, auxiliares de serviço, assistentes de enfermagem, além de terem sido consultados os livros de registro de consultas e de atividades do posto. Em especial, o antropólogo Mércio Gomes conversou com todos os índios que se encontravam em suas aldeias e acampamentos perto dos postos indígenas. Com isso, foram coletados importantes dados de ordem administrativa, demográfica, sanitária, econômica (suporte alimentar em geral, tais como caça, pesca e horticultura), bem como foi avaliado o estado geral de bem-estar dos índios Guajá.

A viagem de campo e o presente relatório foram motivados pelo fato de que a supervisão administrativa do Serviço de Apoio aos Guajá em Santa Inês (SASI) havia sido transferida em junho de 2002 da Administração de Belém para a Administração de São Luís. Tal mudança havia sido motivada por um grave problema administrativo criado pelo então chefe do SASI, assunto que sofrera um inquérito administrativo em agosto p.p., cujo resultado já se encontra na presidência da Funai. O presente relatório não vai analisar esse assunto, que tem a ver com desvios de recursos e inépcia de contabilidade do SASI com a Companhia Vale do Rio Doce. De todo modo, a nova administração de São Luís sentiu a necessidade de obter uma avaliação antropológica e indigenista sobre a situação dos índios Guajá, bem como dos instrumentos de ação com que poderia contar daí por diante. O convite feito para os presentes autores se deu através da Funai e da Secretaria da Amazônia do Ministério de Meio Ambiente.

Um dos autores, o antropólogo Mércio Gomes, havia feito sua última viagem de campo em fevereiro de 1996, cujo relatório endereçado à Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) já captara alguns dos problemas que constam do presente Relatório. Fica evidente que dos vários problemas levantados em 1996 e que permanecem em 2002, nada ou muito pouca coisa foi feito a respeito. Por isso mesmo, o presente relatório é reiterativo e se reveste de uma urgência ainda maior.

A notícia mais alvissareira que o presente Relatório constata é a decisão da Procuradoria Regional do Ministério Público de mandar a Funai proceder a demarcação da Terra Indígena Awá, tornando prejudicadas as alegações feitas por uma ação civil representada pelo gerente-diretor de uma fazenda que se dizia possuidora de terras que estão nos limites da referida terra indígena. A determinação da Funai para realizar essa tarefa é a prioridade máxima para os próximos dias, já que o prazo de 45 dias, a partir de 27 de agosto, para o início da demarcação deve se expirar proximamente.

O presente relatório está sendo encaminhado para a Fundação Nacional do Índio, a Secretaria da Amazônia do Ministério do Meio Ambiente e a Companhia Vale do Rio Doce. As sugestões aqui apresentadas necessitam de uma resposta conjunta desses três órgãos, sem o que a situação atual dos índios Guajá inevitavelmente irá piorar.

Os Índios Guajá na Atualidade

Breve Caracterização e Histórico do Relacionamento Interétnico

Os índios Guajá, que se autodenominam Awá, palavra que significa tanto “ser humano” quanto “homem”, são dos últimos povos indígenas no Brasil que tradicionalmente vivem da caça, pesca e coleta de animais e vegetais da floresta amazônica. Falam uma língua da família lingüística tupi-guarani e seus mitos de origem vêm da mesma tradição cultural. Por isso mesmo, e pela presença de palavras cognatas de horticultígenos, como mandioca, farinha, jerimum, milho, algodão, banana e outros, é bastante certo que um dia foram também horticultores como outros povos tupi. Deixaram de viver da horticultura em função de acontecimentos históricos que se deram no baixo Tocantins, de onde provavelmente vieram em migração para o Maranhão após a rebelião da Cabanagem (1835-40). Como os Guajá também vieram os Urubu-Ka’apor, que hoje também habitam no Maranhão.

A presença dos Guajá no Maranhão foi primeiramente registrada em 1853 em um relatório do então presidente da província. Viviam entre os rios Caru e Turiaçu, precisamente onde hoje se pretende demarcar a Terra Indígena Awá. Provavelmente suas pequenas aldeias se situavam na Serra do Tiracambu e no Morro Azul, região de pouco interesse agrícola para os demais povos indígenas da região. Os Guajajara dominavam então grande parte do médio rio Pindaré e do médio Caru, enquanto os Urubu-Ka’apor tinham suas aldeias no alto Turiaçu e nos afluentes do médio Gurupi. A partir do século XX, sobretudo depois dos anos 1930, quando se deu uma substancial queda populacional daqueles dois povos, os Guajá passaram a migrar para o rio Turiaçu e afluentes do Gurupi, bem como para o Caru e de lá para o Pindaré, sempre nos seus afluentes menos destacados. Assim foram se expandindo e, ao mesmo tempo, se separando em pequenos grupos auto-suficientes. Na década de 1910 já se encontravam também entre o Pindaré e o rio Zutiua. Na década de 1940, foram vistos diversas vezes por índios Guajajara e funcionários do antigo Serviço de Proteção aos Índios na beira do rio Pindaré, onde hoje está a cidade de Alto Alegre. Alguns deles foram levados para o Posto Indígena Gonçalves Dias, o atual P. I. Pindaré, no município de Bom Jardim. Outro grupo foi visitado por um antropólogo francês perto da atual cidade de Araguanã. Na década de 1950 haviam chegado até o médio Buriticupu, na altura de onde hoje está a parte noroeste da Terra Indígena Araribóia.

Portanto, podemos especular, com alguma inteligência, que os Guajá constituíam uma população provável de uns 500 a 600 indivíduos por volta de 1960. Daí por diante, seu território, bastante esparso, foi diminuindo com a entrada de imigrantes nordestinos, especialmente na região do baixo Zutiua, onde hoje se situam as cidades de Santa Luzia e Alto Alegre, e no atual município de São João do Caru. Muitos Guajá morreram então de doenças contraídas em contatos esporádicos com esses imigrantes. Muitos mais foram perseguidos e mortos quando da construção da Rodovia Santa Inês - Açailândia. Diversos grupos foram escorraçados de seus territórios, refugiando-se nas cabeceiras dos igarapés, em lugares mais remotos, isolando-se ainda mais nos centros das matas, nas últimas pontas de terra não invadidas.

Posto Indígena Guajá

Em 1973, fez-se o primeiro contato formal e permanente entre a Funai e os Guajá. Os sertanistas José Carlos Meirelles, Florindo Diniz e Jairo Patusco contataram o grupo que ainda hoje é liderado por Tamaikamã, que mora no atual P. I. Guajá, no alto rio Turiaçu, na Terra Indígena Alto Turiaçu. A história do contato com esse grupo e com outros grupos que a ele se agregaram já foi contada pelo antropólogo Mércio Gomes em diversos relatórios e artigos. Resumidamente, eram cerca de 56 indivíduos em 1978, quando começaram a contrair fortes gripes que resultavam rapidamente em pneumonias. Quanto o antropólogo esteve com eles em fevereiro de 1980 estavam reduzidos a apenas 26, ainda sofrendo de fortes malárias, alta mortalidade infantil e desproporção entre os sexos (dois homens para uma mulher). Porém, a partir de uma assistência mais de perto, estancaram sua queda demográfica, passaram a crescer e hoje (setembro de 2002) somam 67, sendo 32 do sexo masculino e 35 do sexo feminino.

A esse grupo foram agregados dois Guajá que vieram de lugares diferentes, tendo sido contatados de forma dramática, num caso por pistoleiros de uma fazenda no município de Porto Franco, no outro caso por lavradores num pequeno afluente do rio Caru. São os Guajá Txiramuku (Benvindo Guajá) e Kamitxaitxá. O primeiro casou-se com uma índia Urubu-Ka’apor, da aldeia Zé Gurupi, o que estreitou o relacionamento entre esses dois povos, com algumas influências negativas sobre os Guajá, tais como o uso do tabaco, a bebida e as visitas ocasionais aos povoados vizinhos, fora da terra indígena. O segundo está casado com uma mulher Guajá do grupo local. Um outro menino Guajá foi recebido neste posto em 1977, tendo sido apanhado de uma família de posseiros que viviam no Igarapé dos Índios, afluente do rio Caru, cujos pais haviam morrido de doenças respiratórios nas proximidades. Esse menino, hoje homem com uns 34 anos, chamado de Jeí, foi levado a São Luís, onde se criou, aprendeu português e daí foi enviado ao P.I. Guajá, onde passou alguns anos. Em 1980, ajudou a fazer o contato com o grupo Guajá que vivia nas cabeceiras do igarapé Timbira, afluente do rio Pindaré, que desce no povoado Mineirinho. Hoje, depois de ter vivido seguidos anos no P.I. Awá, de ter se casado e separado com três mulheres brancas, com quem teve vários filhos, vive no P.I. Tiracambu, onde é funcionário da Funai. Nas décadas de 1960 e 70, outros Guajá foram contatados, em pequenos grupos, mas logo morriam de doenças intestinais e respiratórias. Às vezes algumas crianças sobreviviam, eram levadas para os postos indígenas e para São Luís, mas não resistiam. Tamakaimã, Txapanamhu, Ipirãhetxiá e Takydjia são as principais lideranças tradicionais do P.I. Guajá. Airutxiá, também conhecido como Iapó, filho de Tamaikamã, e Makahi, enteado de Txapanamhu, são as principais lideranças jovens em virtude de seu conhecimento de português. Makahi, inclusive, é contratado da FUNASA como agente de saúde, atitude que faz parte da política daquele órgão.

Posto Indígena Awá

Em 1980, um grupo de Guajá foi visto por lavradores que estavam querendo botar roças nas cabeceiras do igarapé Timbira, afluente do rio Pindaré, que desce na altura do povoado Mineirinho. A Funai enviou uma equipe, à frente o presente antropólogo, que fez o contato em março. Eram 28 Guajá em dois grupos, já apertados por lavradores por todos os lados. Na impossibilidade de demarcar uma área indígena na região, foi decidida sua transferência para dentro da Terra Indígena Caru, onde se sabia haver outros grupos Guajá, na altura do igarapé Presídio. A transferência foi traumática. Um grupo seguiu junto à equipe de transferência, enquanto o outro grupo com oito pessoas ficou para trás, talvez com receio de estar muito perto de brancos. Todos contraíram uma forte gripe, mas os que estavam com a equipe da Funai foram medicados. Alguns dias depois, quando o outro grupo foi procurado por membros do primeiro grupo, já curados, apenas três estavam vivos, tendo cinco deles morrido por conta da gripe, e que não puderam ser socorridos. Pouco depois, mais um Guajá morreu e ao cabo 22 foram transferidos para o igarapé Presídio.

Logo nos primeiros dias outros Guajá que viviam pela região se aproximaram desse grupo e passaram a conviver pacificamente. Na década de 1980, três pessoas do grupo transferido morreu de conseqüências de malária. Nos anos seguintes outros grupos que viviam na região banhada pelo igarapé Presídio e outros mais dentro da Terra Indígena Caru também se confraternizaram, passando a viver próximo do P.I. Awá, e assim a população foi crescendo. Um grupo que foi contatado em 1985 em regime de urgência na beira do rio Pindaré, na altura onde a Estrada de Ferro Carajás estava sendo construída, e que havia ferido um tratorista com uma flecha, também foi trazido para viver nesse local. Em 1988 e 1989 mais dois Guajá, vindo dos sertões da Bahia e de Minas Gerais, sobreviventes do grupo que havia sido atacado em 1978 (cujo primeiro sobrevivente era exatamente o menino Txiramuku, que já vivia há anos no P.I. Guajá), também foram trazidos para o P.I. Awá. Um deles, Karapiru, é o próprio pai de Txiramuku, que vivera só por dez anos. O outro, Iakaretxi, era primo de Txiramuku, e vivera também só por mais um ano. As sagas desses dois Guajá, que viveram sós por mais de 10 anos, um como jovem de menos de 10 anos, são testemunhos da força espiritual de todo o povo Guajá.

Hoje, os Guajá que vivem no P.I. Awá constituem um macro-grupo composto por cinco ou seis grupos. Somam no total cerca de 145 pessoas, das quais 73 são do sexo masculino e 72 do feminino. Entretanto, desde 1994, 32 deles passaram a viver no P.I. Tiracambu, que antes era um posto de vigilância localizado a 17 km rio Pindaré acima. Assim, são 113 os Guajá do P.I. Awá, havendo aqui um certo desequilíbrio demográfico, já que há 60 do sexo masculino para 53 do feminino. As principais lideranças tradicionais que estão no P.I. Awá são Txipatxiá, com sua primeira mulher Mirakedjiá, considerada por todos como “a mãe verdadeira” (amtxiátê), sendo ela mãe de dois homens (Txibohá e Tataikamaha) e uma mulher (Marakanã) que tiveram ao todo 12 filhos e filhas, todos do grupo que veio do igarapé Timbira; Txiami e Kamana’i, ambos com largas famílias, bem como Uritxi e Mitõ, estes naturais da T.I. Caru. Jovens que vêm se destacando em virtude do aprendizado do português são Irakatako e Takamã, ambos filhos de Tataikamaha; Haikaramukã, filho de Txiami, e Takamãtxiá, cujo pai morreu antes dele vir viver no igarapé Presídio.

Posto Indígena Tiracambu

Os 32 Guajá que vivem neste posto são originários recentes do P.I. Awá. Vieram para aí por influência da chefia do posto para que pudessem ter mais condições de continuar a caçar e pescar, já que a população do P.I. Awá estava crescendo e assim tornando mais difícil. Vivem aqui famílias do grupo transferido do igarapé Timbira (Kamairu), bem como famílias tradicionais da região e outros Guajá trazidos de outros locais, inclusive Karapiru. Treze são do sexo masculino e 19 do feminino, a grande maioria sendo ainda de crianças.

Os Guajá dos postos Awá e Tiracambu constituem um grupo mais ou menos coeso, compartilhando bens e casamentos. Seu crescimento demográfico tem sido estupendo. Os casamentos se dão logo após a primeira menstruação e as jovens estão tendo filhos com espaçamento mínimo de dois ou três anos. Assim, com 15, 16 anos uma mãe já tem dois filhos, algumas três gravidezes. Sem cuidados médicos, elas pagam um preço alto por este crescimento. Diversas jovens estão perdendo seus dentes com muita rapidez. Há diversos casamentos poligâmicos.

Posto Indígena Juriti

Este posto foi criado na margem esquerda do rio Caru, 3 km a jusante da boca do igarapé Água Preta, que é o marco sudeste da projetada Terra Indígena Awá, que faz divisa e ao mesmo tempo interliga as Terras Indígenas Caru e Alto Turiaçu. Sabia-se desde o início da década de 1980 que havia diversos grupos Guajá que viviam na região dos igarapés Juriti e Água Preta, cujas embocaduras no rio Caru distam 2 km, sendo que o primeiro vem do interior da T.I. Caru, e cai na margem direita, enquanto o segundo cai na margem direita.

Em 1989, dois grupos Guajá foram contatados com a ajuda dos Guajá To’o e Takamã, que vieram do P.I. Awá para servir de intérprete. Somavam 22 pessoas. Logo depois, de causa inespecificada, morreram dois homens e uma velha; nos anos seguintes foram morrendo mais dois homens e duas jovens mulheres, restando somente 15 pessoas do grupo original. A partir de 1992 começaram a nascer crianças, inclusive do casamento de To’o com uma jovem do grupo original. Já Takamã, que também casou-se com uma jovem deste grupo, retirou-se para onde seus parentes, no P.I. Awá, desfalcando uma jovem do grupo da Água Preta. Em 1998, um pequeno grupo de 4 Guajá foi contatado no igarapé Seco, dentro da projetada T.I. Awá. Seu líder é Kamará, que trouxe esposa e dois filhos. Kamará tem dito que seu grupo era maior e sofreu ataques de brancos nos últimos anos. Conta ainda que entre esse igarapé e o igarapé Mão de Onça ficaram mais alguns Guajá, que estão passando por maus momentos.

Ao lado, mas não compartilhando das atividades desse grupo, vive uma família Guajá composta por um homem de uns 50 anos, Takãrenhentxiá, sua jovem mulher e três filhos, sendo que dois nasceram após sua transferência a esse local. Estes e mais um homem e um rapazote compunham um grupo que foi contatado em 1991, nas águas do rio Pindarezinho, formador do alto Pindaré, fora de área indígena, Dos cinco transferidos, um rapaz hoje vive no P. I. Awá e um homem morreu de acidente de uma queda de um cajueiro. Eram sobreviventes de um grupo bem maior, de mais de 30 pessoas, que vinha sofrendo perseguições de fazendeiros desde 1978. As histórias de três de seus membros originais, Txiramuku, Karapiru e Iakaretxi, já foram mencionadas anteriormente. O isolamento auto-imposto de Takãrenhentxiá e sua família provavelmente acabará quando seus filhos estiverem em idade de casar.

Portanto, no total, os Guajá que vivem nas imediações do P.I. Juriti somam atualmente 33 pessoas, sendo 22 do sexo masculino e 11 do feminino. Esse desequilíbrio demográfico significa que terão dificuldades para crescer. Entre 1966 e 2002 nasceram 6 crianças. Entre todos os Guajá do P.I. Juriti, não se pode dizer que haja uma liderança sobressalente. Os índios Mitõnhumtxiá, To’ó e Pira’íma’a parecem ter uma ascendência sobre os demais, especialmente os dois últimos, que têm algum conhecimento do português e um traquejo no relacionamento com os funcionários do posto.

Resumo Demográfico

Somando os quatro grupos, portanto, temos 245 índios Guajá em contato e convívio com postos indígenas da FUNAI. É um número expressivo, se considerarmos que os índios Guajá há muito vinham sendo ignorados pelo antigo Serviço de Proteção aos índios e pela FUNAI. Mas é um número que reflete muitas perdas demográficas e muitas recomposições. O admirável é que o grupo de Txipatxiá tenha sido capaz de absorver pacificamente tanta gente. Isso o fortalece, mas também o deixa a mercê de epidemias e de falta de alimentação protéica.

Territorialidade e territórios Awá

Freqüentemente se escuta dizer que os Guajá não têm território. Às vezes o que está por trás dessa afirmação é a suposição de que, sendo “nômades,” os Guajá não teriam território fixo, podendo assim estarem em qualquer lugar. O fato de grupos Guajá terem sido encontrados em tantas e diversas partes, do alto rio Turiaçu até afluentes do Tocantins, sem falar nos dois Guajá que vieram bater nos cerrados de Minas e Bahia, leva as pessoas a pensarem dessa maneira. Mais grave é quando se afirma, talvez em conseqüência desse modo de pensar, que os grupos Guajá atualmente em contato estão em terras de outros índios - Guajajara, no caso das T. I. Caru e T. I. Araribóia, e Ka’apor, no caso da T. I. Alto Turiaçu.

É preciso reverter esse modo de pensar duplamente errôneo. Em primeiro lugar, é preciso conceituar a territorialidade Guajá. Os Guajá vivem em grupos formados por duas ou mais famílias que se comunicam com outros grupos num determinado território. Juntos eles formam um macro-grupo que permite a reprodução biológica e dá sentido mais amplo à etnia. Cada grupo reconhece como seu uma parte do território que compartilham, o qual chamam de hakwa, e que usam integralmente como fonte de vida e conhecimento. Determina os seus limites e reconhece os seus pontos e tempos de permanência e exploração. A incursão de um grupo ou indivíduo no hakwa de outro grupo constitui motivo de cautela que deve ser observada e respeitada. Assim, o chamado nomadismo guajá não se dá de forma aleatória, mas regular.

Acontece, no entanto, que as circunstâncias históricas vieram desfazer muito desse tratamento cultural que conceitua o território Guajá. Diversos grupos foram perdendo as condições de sobrevivência em meio à invasão de posseiros e fazendeiros. Com isso fugiram para outros hakwa ou regiões dantes não conhecidas. Grupos inteiros foram extintos na bacia do rio Turiaçu, no igarapé Zutiua e certamente nas margens do rio Gurupi. Outros sobrevivem em condições de petição de miséria, como foi o dramático caso do grupo de Takãrahetxiá. Porém, pode-se observar como os diversos grupos Guajá que vivem na T. I. Caru reconstituíram os seus hakwa pela absorção dos grupos que já viviam lá. Todo a pequena bacia do igarapé Presídio agora é o hakwa deles, em contraste com as terras banhadas pelos igarapés Juriti ou Bandeira, que pertencem a grupos que não se incorporaram. Esses diferentes grupos Guajá vivendo naquela terra indígena têm o seu hakwa respeitado pelos demais. Aliás, esse é um motivo pelo qual é possível conviverem numa mesma terra indígena grupos que estão em contato com postos indígenas e grupos que permanecem autônomos, sem que se cruzem uns com os outros. Isso se dá, naturalmente, porque o conceito e os limites de uma terra indígena não fazem sentido para os grupos Guajá autônomos.

Em conseqüência dessa conceituação, torna-se claro, então, que os territórios onde vivem os atuais grupos Guajá são seus hakwa, portanto suas terras. Que elas estejam em terras indígenas que originalmente foram demarcadas como se fossem de um outro grupo - não importa. São hakwa Guajá, são terras indígenas pertencentes aos Guajá. Isso implica uma mudança de tratamento que a FUNAI deve ter em relação a essas terras reservadas. Quando uma dessas áreas sofre ameaças de invasão, ou mesmo uma verdadeira invasão, como vem acontecendo na T. I. Alto Turiaçu. Cabe à FUNAI tomar a responsabilidade de olhar para a segurança dos Guajá, pois são seus territórios que estão sendo invadidos.

Atualmente, nenhum dos territórios Guajá tem a segurança que deve ter para dar tranqüilidade ao povo Guajá. A parte sudoeste da T. I. Alto Turiaçu, já demarcada e registrada desde fins da década de 1970, foi invadida entre 1992 e 1993 por uma quantidade enorme de posseiros iludidos por um grileiro da cidade de Imperatriz. Foram expulsos por uma força-tarefa de funcionários da FUNAI e índios Tembé, Timbira e Ka’apor, mas voltaram em 1995, tendo por trás a força dos madeireiros. Só em 2001 é que foram expulsos deixando um estrago imenso na altura do igarapé Araçatiua.

A Terra Indígena Caru, onde vive a maioria dos Guajá contatados, tem sofrido imensa invasão, desde 1992, na sua parte sudoeste, onde se situa a linha seca que liga os igarapé Água Branca às cabeceiras do rio Caru. Uma vez mais, essa invasão se deu com o apoio de madeireiros, que se aproveitavam dos interesses de fazendeiros e de pobres posseiros. Só em 2000 é que uma força da Política Federal, junto com índios Guajajara e auxiliares da Funai, conseguiu realizar a expulsão dos invasores. A presença do líder Guajajara Cipriano Viana na região, onde colhe os frutos dessa invasão, pode ajudar na sua preservação, se for bem orientado.

Já na parte norte, ao longo do rio Caru, e na parte nordeste, no rio Pindaré até a altura do igarapé do Chico Mocó, há enormes clareiras na mata. Em 1994, agentes da Polícia Federal foram enviados pela FUNAI e estiveram em alguns desses povoados para colher dados sobre quem estava invadindo. Porém, sentindo-se inseguros, não deram continuidade à sua investigação. Em 1995, continuou-se a fazer roças e tirar madeira. Um Guajajara calculou em mais de 3.000 hectares a devastação somente na área do rio Caru. Em fevereiro de 1996, podia-se ver uma vasta devastação ao longo do rio Caru, desde a sua confluência no rio Pindaré até próximo a Conceição do Caru, talvez uns 30 a 40 quilômetros de extensão por um quilômetro de largura.
Nos anos seguintes e até o presente, o processo de arrendamento parece ter continuado. Alguns Guajajara arrendam lotes a moradores dos povoados do outro lado dos rios Caru e Pindaré para fazer roça, tirar madeira para fazer casas, caçar, quebrar coco babaçu. Esses moradores sempre desejaram, e ainda alimentam a esperança de que essa área indígena venha a ser “liberada“ para eles e para os madeireiros.

Os principais líderes Guajajara que vivem nos postos indígenas Caru e Pindaré estão preocupados com a dificuldade que sentem de desfazer os acordos feitos e expulsar esses invasores-arrendatários. Um conflito armado resultou em duas mortes e diversos feridos em 1995. Tudo indica que a situação poderá piorar se algo urgente não for feito.
Tradicionais madeireiros da região, como os irmãos Galetti, donos da madeireira Sunil, com sede em Açailândia, estão comprando terras de lavradores na beira do rio Caru e pretendem montar serraria para usar de madeira da T. I. Caru e, certamente, da T. I. Awá, caso não sejam tomadas providências a respeito.

Por sua vez, os Guajá do P. I. Awá se preocupam com gente fazendo roça numa área que eles aprenderam a entender que também lhes pertence, porque pertence a índios. Em 1995, um grupo Guajá que estava caçando se deparou com um grupo de brancos fazendo um variante a três quilômetros do posto, no seu próprio hakwa. O variante vinha em linha reta da altura do povoado São João do Caru, no rio Caru, e se dirigia para a altura do povoado Altamira, no rio Pindaré, cortando uma boa parte da T. I. Caru. No momento de tensão em que se depararam com esses brancos, os Guajá conseguiram se impor e eles fugiram. O incidente foi confirmado pelo chefe do posto e comunicado para Santa Inês e Belém.

A Terra Indígena Awá

Em agosto-setembro de 1985, uma equipe da FUNAI, na qual se incluíam os autores deste Relatório, fez um rigoroso levantamento das regiões e áreas que faziam parte da Reserva Florestal do Gurupi, decretada pelo presidente Jânio Quadros em 1961, e que ainda estavam relativamente incólumes ou suficientemente florestada para que fosse possível aproveitá-las em prol dos Guajá ou ainda do IBDF, hoje IBAMA. A idéia era reconhecer quais áreas ainda permaneciam com grupos Guajá para que se pudesse criar uma terra indígena para esses grupos. A certeza histórica, documentada desde a década de 1850, era de que grande parte dessa região continuava a ser território Guajá, na verdade, o território original a partir do qual os grupos Guajá foram se espalhando pelo oeste maranhense.

Verificou-se que a região situada nas margens dos rios Pindaré e Caru, agora pertencente a diversos municípios recém-criados, como São João do Caru e Alto Alegre, além de Bom Jardim e Santa Luzia, fora invadida desde fins da década de 1960, comportando inúmeros pequenos povoados e uma população de quase 30.000 pessoas. Essa invasão foi tão rápida que nem deu tempo para alguns grupos Guajá que lá viviam se refugiar em outra área. É importante notar que essa frente de expansão agrícola, majoritariamente de pequenos lavradores, embora médios fazendeiros estejam comprando terras já derrubadas de mata para criar gado, continuou e continua a avançar rumo oeste e tem alcançado diversos grupos Guajá que, por sua vez, continuam a buscar refúgio onde sobra mata.

Outra região verificada, desta vez in loco, foram os contrafortes da Serra do Tiracambu, que serve de divisor das águas do Gurupi, Turiaçu e Pindaré, mais precisamente, de seu afluente, o rio Caru. Este é um maciço de serras de pouco valor agrícola mas de grande valor ecológico, pois foi uma das ilhas de refúgio florístico e faunístico durante o período geológico do Pleistoceno, quando a floresta amazônica, devido a mudanças no clima, se encolheu e formou pequenas ilhas de vegetação e fauna. Aí permaneceram e sobreviveram diversas espécies que, mais tarde, foram reflorestando as áreas que haviam perdido sua cobertura original.

Foi constatado que essa região, que os Guajá chamam de Wytyramãi, ou “montanha grande,” vinha sendo invadida desde 1972 por parte de grileiros advindos de outros estados, à revelia do estado do Maranhão, pois não pagavam impostos sobre a madeira que retiravam da região e transportavam para a cidade de Paragominas, no Pará. Todos os fazendeiros e peões de fazenda contatados sabiam que essa região era uma reserva florestal, mas agiam com certeza absoluta de que não seriam fiscalizados e punidos. Já uma grande parte das áreas beirando o rio Gurupi estavam tomadas de fazendas de porte médio, com algum gado e alguma infra-estrutura, sobretudo naquelas que ainda tinham madeira para tirar. O levantamento visava buscar sinais de presença de índios Guajá. Verificou-se que havia sinais claros em diversas bacias de água, sobretudo nos igarapés Panema, Aparitiua e Mão de Onça, além do alto Turizinho, Mutum e Água Preta, que desembocam no rio Caru.

Com esses dados foi elaborada uma proposta de terra indígena que abrangia territórios de grupos Guajá, ligava as duas terras indígenas que haviam sido instaladas separadamente, por motivos desconhecidos, desde 1978, e alocava diversas áreas para serem preservadas pelo então IBDF, hoje IBAMA. O total da área proposta era de 260.000 hectares. Infelizmente, por diversos motivos administrativos e outros mais, essa área nunca foi efetivada pela FUNAI. Continuaram as invasões e ampliação das fazendas na área proposta. Ao invés, surgiu uma outra proposta que diminuiu enormemente a área projetada. Mesmo assim, a demarcação dessa nova proposta foi embargada em 1993, quando já havia sido contratada a empresa de demarcação.

Nesse meio tempo, uma equipe do Banco Mundial visitou por duas vezes o Posto Indígena Juriti, localizado na altura da confluência do igarapé Água Preta com o rio Caru, onde efetivamente fora contatado o grupo Guajá de Mitonhumtxiá, em 1989. Fiscalizava o compromisso da Companhia Vale do Rio Doce, pelo empréstimo que fizera em 1981, de garantir a integridade dos territórios indígenas. Um ato positivo havia ocorrido em 1990, quando uma equipe da FUNAI, dirigida pelo sertanista Wellington Figueiredo, abriu uma picada de 20 quilômetros margeando o igarapé Água Preta, como marco inicial da demarcação da Terra Indígena Awá. Isso permitiu que, quando essa área foi invadida por 18 homens armados que intencionavam demarcar lotes de terra para derrubar, fosse possível à pequena equipe do posto indígena pedir reforço para expulsar esses invasores, o que eventualmente foi feito com presteza.

Enfim, os esforços de diversos funcionários de campo da FUNAI mantiveram a chama viva da defesa da pretendida Terra Indígena Awá. Ao que tudo indica, continuou também a disposição da Companhia Vale do Rio Doce de financiar essa demarcação. A presença da FUNAI na altura do igarapé Água Preta é uma pequena garantia de que não se pode invadir o que já foi feito. Pelo menos até a altura de 15 ou 18 quilômetros a montante daquele igarapé não há sinais de invasores, embora já se sabe que mateiros e agrimensores estão fazendo picada de loteamento de terras naquela altura. Agora que a Procuradoria do Ministério Público determinou a imediata demarcação de uma área de 119.000 hectares ligando as duas terras indígenas, resta apenas a urgente obrigação da FUNAI cumprir sua obrigação para com a justiça brasileira, mas especialmente para com os Guajá que habitam aquele território.

Grupos Guajá autônomos

Além dos grupos Guajá conhecidos por manterem contato permanente com algum posto indígena da FUNAI, há pelo menos seis ou sete grupos que estão vivendo autonomamente. (Para os autores desse Relatório autonomia é um conceito mais apropriado do que o de isolamento, que, em geral, é usado pela Funai para definir grupos indígenas que não estão sob a intervenção e proteção do Estado ou da sociedade brasileira.) O primeiro, já conhecido há bastante tempo, vive na Terra Indígena Araribóia e soma de 30 a 40 pessoas, pelo número de tipá, sua casa tradicional, que são vistas por índios Guajajara em suas excursões de caça. O território em que vivem foi palco de intensa retirada de madeira nos últimos 12 anos, mas, milagrosamente, não se submeteram a nenhuma forma de contato. O segundo vive na Terra Indígena Alto Turiaçu, nas proximidades do igarapé Jararaca, onde são vistos por índios Ka’apor e Tembé quando lá vão caçar. São talvez 15 a 20 pessoas e estão bem protegidos, embora essa parte da terra indígena vem sendo invadida por posseiros nos últimos anos. Um terceiro, que pode ser também um quarto, vive no centro da Terra Indígena Caru, na altura das cabeceiras do igarapé Juriti. As viúvas do grupo de Mirimiri já tiveram contato com esse grupo e nomeiam como líderes os índios Tatukararuhumtxiá´á e Txipatxiá, acrescentando no seu relato que há um número bastante grande de homens e mulheres. Serão talvez 30 pessoas e estão relativamente bem protegidos, se é que não está havendo invasões naquela área da terra indígena.

Um quinto grupo vive nas imediações dos igarapés Aparitiua e Mão de Onça. A existência desse grupo já havia sido prevista em relatórios anteriores do antropólogo Mércio Gomes, inclusive naquele que constituiu a base de argumentação para a criação da Terra Indígena Awá. Parte desse grupo foi contatado e trazido para viver no P. I. Juriti, restando ainda uma família ou mais pessoas que são parentes destes últimos. Esse grupo corre perigo de vida, pois são inúmeras as informações de perseguições contra índios nessa área e os fazendeiros não deixam dúvidas de que não querem ver sinais de índios em suas alegadas terras. Portanto, não há porque se esperar mais para se tocar o processo de demarcação dessas terras.

Enfim, há um total de 70 a 80 índios Guajá vivendo autonomamente em terras indígenas, embora uma delas não esteja demarcada. Não estão isolados dos demais, nem do contato com brancos e outros índios. Exceto para o grupo do igarapé Mão de Onça, não há urgência para que sejam contatados. Há, no entanto, que se precaver com a possibilidade de virem a ser contatados por pessoas fora da FUNAI e assim surgir a necessidade de dar-lhes assistência médica e indigenista. Como já é bem sabido da FUNAI, esses primeiros meses e anos de contato com grupos autônomos são os mais cruciais para a sua sobrevivência e bem-estar. Contatos mal feitos por pessoas despreparadas leva o grupo à rápida desconfiança e a muitas mortes.


Grupos Guajá autônomos fora de terras indígenas

Consta haver pelo menos dois grupos Guajá vivendo em territórios que ainda não foram reconhecidos como terras indígenas. Um deles tem seu hakwa no igarapé Varjão, localizado a uns 20 quilômetros do limite sul da T. I. Caru. Esse grupo, com talvez 15 membros, parece ter tido algum relacionamento com o grupo de Mirimiri. Há anos são mencionados por peões das fazendas daquela área, mas nunca se chegou a fazer um contato. No relatório de estudos e propostas da Terra Indígena Awa, de 27/09/1985, essa região, chamada Bacia do Varjão e Varjinha, é reconhecida como território Guajá. Uns 30 quilômetros mais ao sul havia outro grupo Guajá que foi contatado e trazido para viver no P. I. Awá.

Outro grupo Guajá parece estar localizado nos limites sul da antiga reserva florestal do Gurupi, uma área que era prevista para constituir a Terra Indígena Awá. Nas imediações daquela área havia, na década de 1980, um núcleo de prospecção de bauxita da Companhia Vale do Rio Doce. As informações sobre a continuidade desse grupo são esparsas e indefinidas.

Não se pode, de boa fé, concluir pela inexistência de outros grupos Guajá autônomos e vivendo fora de terras indígenas reconhecidas. É possível que, dada a sua capacidade de sobreviver em pequenas “bolas” de mata, como assim o fez o grupo de Takãrehentxiá, haja outros grupos Guajá autônomos nas matas localizadas no alto Pindaré. É mais do que provável que diversos deles já tenham sido contatados e desaparecidos por madeireiros que vêm explorando essa região há pelo menos 25 anos.

Enfim, pode-se concluir que existem, entre conhecidos e não conhecidos, cerca de 350 índios Guajá no estado do Maranhão. Tal número é provavelmente pouco mais metade do que havia no início da década de 1960.

Perigos à vista

Considerando todos esses dados, é preciso fazer um alerta explícito a cerca de alguns perigos mais iminentes que correm os Guajá:

1. O grupo Guajá do igarapé Mão de Onça corre perigo de vida!

2. A projetada Terra Indígena Awá tem de ser demarcada o quanto antes! Invasores estão se articulando para impedir esse ato!

3. A Terra Indígena Alto Turiaçu precisa de reforço para consolidar seus limites e evitar novas invasões!

4. A Terra Indígena Caru precisa se ver livre dos posseiros-arrendatários que lá estão!

5. Os Guajá precisam de atenção especial para consolidar seu crescimento demográfico e sua identidade étnica!

6. Os Guajá que estão fora de terras indígenas devem ser avaliados para possíveis transferências!

Recomendações

É esperançoso para a sobrevivência do povo Guajá que hoje se conte 245 índios vivendo sob a assistência da FUNAI, com potenciais condições para crescer e projetar seu futuro. Porém mesmos estes continuam a sofrer as conseqüências do contato recente e do relacionamento desigual com a sociedade regional. A FUNAI, atualmente, tem o conhecimento para fazer aliviar esse impacto sofrido e continuado; é necessário obter condições para agir no sentido de dar uma assistência de saúde mais adequada e planejar e executar um programa que inclua medidas de ação urgente, de curto prazo e de longo prazo.

O planejamento estratégico é o método mais adequado para se buscar preservar o povo Guajá e projetar a sua continuidade no futuro do Brasil. Para isso, há que se começar com a idéia de que os Guajá, que hoje são 350, deverão ser 500 em dez anos e 1.000 até o ano 2.020. Assim, um planejamento de 18 anos, na medida em que for possível conceber variáveis de desenvolvimento regional e nacional, seria um passo importante para se pensar o futuro dos Guajá.

Deve-se ter sempre em mente que os Guajá são, quiçá, o último povo indígena no Brasil que vem sobrevivendo sem agricultura há pelo menos 200 anos, e que sua adaptação a uma vida semi-sedentária acarreta novas dificuldades. Deve-se sempre estar alerta para eventualidades de contato forçado e manter planos de transferência e planos de convivência entre grupos diferentes.

Por enquanto, cabe-nos fazer um pequeno esboço de recomendações que são mais de ordem de urgência e curto prazo do que de longo prazo.

1. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a condição dos Guajá é a de povo indígena autônomo, ou isolado, na terminologia da FUNAI. Essa condição foi abolida em abril de 1995, provavelmente com a idéia de que os postos que estavam em funcionamento davam conta da situação global. Com isso as ações que estavam sendo executadas ficaram desguarnecidas de uma figura mais importante, como a do sertanista, e de recursos necessários para desenvolver um programa adequado. Igualmente, é preciso regularizar a situação administrativa da base de Santa Inês, que deve ser ligada à Administração de São Luís, com supervisão de Brasília.

2. Ao se reativar a condição de povo autônomo, deve-se estabelecer um Planejamento Estratégico de Metas, baseado em um programa inicial de urgência e de programas de médio e longo prazos, com recursos para bancar as seguintes ações imprescindíveis:

2a. Fortalecimento do Posto Indígena Juriti para servir de base à demarcação da Terra Indígena Awá. É preciso ter mais pessoal, melhores condições de transporte e meios para acompanhar a demarcação, tendo o cuidado de procurar contatar os pequenos grupos Guajá que ainda lá se encontram. Esses grupos devem permanecer em seus hakwa, onde se deve criar um novo posto indígena.

2b. Criar pelo menos três postos de vigilância na T.I. Awá, sendo dois no lado ocidental e um no lado oriental, próximo de onde lavradores e posseiros têm roças. Esses postos devem ser capazes de manter relacionamento constante com os postos indígenas da região. Portanto, devem ser bem estruturados de pessoal e condições de transporte.

3. Sem a realização dos itens 2a e 2b tornar-se-á extremamente difícil se partir para a demarcação da T. I. Awá, muito menos consolidá-la. Ela vai requerer ainda uma negociação com as forças de apoio aos Guajá, incluindo o CIMI, antropólogos, jornalistas, enfim a sociedade civil de São Luís, bem como as forças políticas em vigor e apoio de força militar.

4. Retirar os arrendatários da T. I. Caru. Para isso é preciso a ajuda da Polícia Federal e um diálogo franco com os Guajajara que lideram e dirigem o P. I. Caru para que seja terminantemente desautorizado qualquer ato de arrendamento por parte de índios.

5. Considerando que o P. I. Awá tem 113 Guajá vivendo quase que em modo de aldeia sedentária, criando condições inóspitas de higiene e falta de caça, é preciso que se condicione o Posto Indígena Tiracambu, localizado a 17 km ao sul, para receber uma parte maior desses índios. Um novo sub-posto deve ser criado mais a jusante, perto do igarapé Água Branca, que faz a divisa sul da T.I. Caru, para receber outras famílias Guajá. Assim, ao mesmo tempo em que se povoa de Guajá aquela parte da terra indígena, criam-se oportunidades para o surgimento de novos agrupamentos, com caça abundante, e se desafoga o P. I. Awá.

6. Determinar os limites dos territórios de grupos Guajá que vivem fora de terras indígenas reconhecidas. Avaliar a possibilidade de demarcar novas terras ou buscar a solução de transferência.

7. Estabelecer um plano de ação para o caso do contato com o grupo Guajá da T. I. Araribóia. Há que se indagar se eles poderão sobreviver naquelas terras e garantir seus territórios, considerando-se que os mais de 3.000 Guajajara que lá vivem vêem essas terras como exclusivamente suas. Nesse caso, talvez seria mais prudente transferi-los para a futura Terra Indígena Awá.

8. Há que se elaborar um plano de médio e longo prazo para a economia Guajá. É preciso estar atento e monitorar a maneira como está se processando a transição da economia de diversos grupos que vivem ao lado de postos indígenas. Se é que o uso da agricultura vai se tornar uma parte substancial da economia Guajá, é preciso que esta venha de uma forma mais racional, mesclando as tradições da agricultura maranhense com outros métodos e plantios. Deve-se incentivar o cultivo de certos tipos de legumes de alto poder nutritivo, como feijões, milho, abóboras e jerimuns, o uso de frutas e, talvez, em algum momento, algum tipo de criação. Jamais deve-se incentivar os Guajá a plantar para ganhar dinheiro, como parece ter acontecido entre 1993 e 1996 no P. I. Guajá. É certo que alguns grupos Guajá podem ser incentivados a ter recursos próprios, mas a obtenção de dinheiro deve ser tentada através da economia de coleta de produtos da floresta, como óleo de copaíba e cipó titica, muito abundantes naquela região. Por outro lado, não se deve tentar apressar o processo de adaptação às condições de auto-sustentação, nem querer se relacionar com os Guajá como se fossem índios de longo contato. Não cabe ser paternalista, no sentido comumente dado à palavra, mas também não cabe tratar os Guajá como se fossem índios Guajajara. Alguns itens de necessidade atual dos Guajá devem ser supridos gratuitamente até que chegue um tempo em que eles próprios possam obtê-los.

9. Por fim, as três instâncias a que este Relatório se dirige – a Fundação Nacional do Índio, o Ministério do Meio Ambiente e a Companhia Vale do Rio Doce – devem se unir para formular um novo Programa de Proteção, Assistência e Consolidação Étnico do povo Awá. As bases desse programa podem advir das recomendações acima. Seu prazo deve ser até o ano 2020. Seu orçamento deve ser compartilhado conforme a melhor negociação. Para o presente, é preciso que disponibilizem um montante seguro para preencher as urgências referidas acima.

Considerações finais

Um planejamento de longo prazo para o povo Awá deve começar com a idéia de que sua existência deve se manter autônoma cultural e socialmente. O povo Awá é formado por grupos autônomos que se relacionam entre si na medida em que seus territórios se avizinham. Muitos não se conhecem mutuamente simplesmente porque foram afastados pelas circunstâncias que invadiram e ilharam seus territórios. Aos poucos estão se conhecendo e aos poucos irão constituir o sentimento mais profundo de se pertencerem a si mesmos como uma nação.

A auto-consciência de ser um povo único e a convivência mútua deve ser a meta mais alta da ação indigenista por parte da FUNAI e das forças de apoio aos Guajá. Em termos econômicos, a FUNAI deve trabalhar para que os Guajá do futuro tenham uma economia híbrida que consista na manutenção do costume tradicional da caça e coleta, no uso adquirido da agricultura seletiva e na coleta e venda de produtos florestais. Isso pode ser alcançado se as medidas de curto prazo aqui propostas começarem a ser efetivadas. A começar pela garantia de terras, pela assistência à saúde e por um relacionamento digno, cordial e compreensivo.



Mércio Pereira Gomes, antropólogo
José Carlos Meirelles, sertanista
Petrópolis, 30 de setembro de 2002

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Índios protestam Brasil afora

Os jornais amanheceram assanhados hoje com tantas notícias de índios invadindo sedes regionais da Funai e da Funasa. A matéria abaixo, publicada no Globo Online, com assistência de diversas agências de notícias, é a última versão sobre as invasões em Cuiabá, Dourados, Curitiba e a interrupção do tráfico de caminhões em Carmésia, Minas Gerais.

São muitos protestos para apenas os primeiros três dias da semana. Dois deles são contra a Funasa por motivos já mais do que conhecidos: o atraso de verbas para as Ongs que terceirizaram a saúde indígena. Nem sei mais o quê dizer sobre isso. Poucas Ongs conseguem manter um bom serviço de saúde. Entre eles está o CIR, em Roraima.

Um protesto é precisamente contra uma administradora da Funai, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Há algum tempo diversas lideranças indígenas da terra indígena mais difícil de todas vêm pedindo a saída dessa administradora. Consideram que ela tem feito desvios de verbas e não atende os interesses dos índios. Só que o protesto vem de lideranças Terena, que são minoria nessa terra, majoritariamente Guarani Kaiowá e Ñandeva.

Outro protesto, desta vez uma novidade, é dos índios Pataxó que há anos vivem na Terra Indígena Fazenda Guarani, que já foi, em épocas longínquas, um refúgio de índios que eram condenados pela justiça, ou que precisavam sair de suas terras por motivo de crimes localizados. Os Pataxó que lá vivem vieram da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu quando foram de lá expulsos por fazendeiros.

(Atenção Ministro Eros Grau, do STF, é urgente que o Sr. decida sobre a legitimidade dessa terra indígena. Os Pataxó Hãhãhãe não agüentam mais!).

A empresa de mineração MMX, do mega-empresário Eike Batista, tem usado a estrada que passa por dentro dessa terra indígena para transporte de materiais. Os índios querem uma compensação à altura do uso dessa estrada. Daí estarem tentando convencer a empresa a prestar-lhe essa compensação. Não agüentaram o pouco caso da empresa e partiram para essa atitude. Fácil de resolver, não?

Post Scriptum

Uma amiga antropóloga que conhece bem a região do vale do rio Doce onde estão os índios Pataxó me enviou o texto abaixo como correção do que escrevi sobre a Terra Indígena Fazenda Guarani:

Estou lhe sugerindo algumas correções na notícia sobre os Pataxó de Minas. Veja abaixo: A fazenda Guarani em Carmésia não foi refúgio dos índios condenados. Era uma fazenda da PM de MG para onde foram levados presos políticos. Numa das muitas expulsões dos Krenak da Reserva em Resplendor, o administrador de Minas Gerais trocou as terras dos Krenak pela Fazenda que não mais era usada pela PM.

O presídio indígena era em terras Krenak no Vale do Rio Doce. Os Krenak abandonaram a fazenda e retornaram para sua área à revelia da Funai e a área ficou mais uma vez abandonada.

Então ocorreu um conflito entre os Pataxó de Barra Velha, em Porto Seguro, e para aliviar a tensão por lá, eles aceitaram se deslocar para a fazenda.

É uma bela área de floresta, com alguns pedaços, onde antes da PM se apossar, se plantava café e criavam gado.


Obrigado!


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Índios desocupam sede da Funasa e libertam reféns no PR

Anselmo Carvalho Pinto, Paulo Yafusso e Ana Paula Carvalho - O Globo; Agência Brasil; RMT Online; CBN Minas; O Globo Online

BELO HORIZONTE, CAMPO GRANDE, RIO, CUIABÁ e CURITIBA - Índios de diversas tribos fizeram ocupações em sedes da Fundação Nacional do Índio (Funai) e da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em quatro estados nesta terça-feira: Paraná, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais.

Em Curitiba, está controlada a situação na sede regional da Funasa, invadida no início da noite desta terça por cerca de 70 índios das etnias Guarani e Caingangue. Por volta das 22h, eles libertaram cem funcionários do Ministério da Saúde, Anvisa e SUS, que eram mantidos como reféns.

O coordenador regional da Funasa , Vinícius Reali Paraná, e alguns diretores permaneceram no prédio. Eles passaram a madrugada negociando com os índios, que concordaram em desocupar o local, depois de estabelecer um prazo de 12 horas para o presidente da Funasa chegar a Curitiba e discutir as reivindicações.

O grupo alega que o atendimento médico foi interrompido há quatro meses por falta de repasse de recursos à Associação de Defesa do Meio Ambiente de Reimer, organização não governamental contratada pela Funasa para prestar o atendimento médico aos índios. Já a Funasa afirma que houve atraso na prestação de contas da entidade, que presta assistência a 12,6 mil índios no Paraná. As negociações devem ser retomadas nesta terça.

Índios desocupam sede da Funai em Dourados, no MS

O grupo de 40 índios que ocupava desde a manhã de terça a sede da Funai, em Dourados, cidade a 220 quilômetros de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, desocupou o prédio no fim da terça-feira. Por volta das 17h, eles decidiram sair do local e mandar ainda na terça-feira uma comissão formada por 18 índios para Brasília (DF). As lideranças indígenas cobram a saída da gerente regional da Funai, Margarida Nicoletti. Eles acusam a gestora de desvio de verbas. Nicoletti nega as acusações. Ainda não há acordo sobre a mudança na direção regional. A decisão depende de um parecer do presidente da entidade.

De acordo com a assessoria de imprensa, a Funai tem conhecimento do movimento para derrubar Margarida Nicoletti do cargo. Segundo a fundação, o motim está sendo conduzido pelo capitão da aldeia Jaguapiru, em Dourados, Renato Souza, e por Celso Maciel. Ainda conforme a assessoria, os indígenas já formaram uma comissão que deve ir nesta quarta-feira a Brasília para pedir a troca de comando da regional.

Renato de Souza já afirmou em recentes entrevistas que lideranças indígenas de 27 aldeias da região Sul do estado são favoráveis a substituição de Margarida por um índio. Eles estão indicando para o cargo um indígena que há 15 anos atua na Polícia Militar de Mato Grosso do Sul.

Eles querem colocar um terena lá, mas a Funai de Dourados é dos guarani-caiuá e nós não concordamos com isso
Mas a movimentação não encontra respaldo entre os guarani-caiuá, que são a maioria absoluta nas aldeias da região sul do estado, sob a administração da Funai de Dourados e Amambai. O cacique caiuá Getúlio de Oliveira, diz não concordar com o movimento.

- Eles querem colocar um terena lá, mas a Funai de Dourados é dos guarani-caiuá e nós não concordamos com isso - afirmou.

Margarida Nicoletti faz parte do Comitê Gestor criado em 2004, quando da formação da força-tarefa para combater a desnutrição de crianças indígenas nas aldeias da região sul. Assistente social, ela passou a integrar o Comitê, formado por órgãos federais, estaduais e municipais. Há um ano, foi nomeada administradora da Funai em Dourados e só neste ano já enfrentou dois movimentos dos índios pela sua substituição.

Em Cuiabá, ocupação desde segunda-feira

Em Cuiabá (MT), a ocupação da sede da Funasa por índios myky e irantxe começou na segunda-feira. Eles cobram melhorias nos serviços de saúde, repasse de verba para uma ONG que terceiriza o atendimento médico nas aldeias, além da presença do presidente do órgão, Danilo Forte, na cidade.

Depois de ficar cerca de 11 horas impedido de sair do prédio na segunda-feira, o coordenador do Distrito Sanitário Indígena de Cuiabá, Paulo Almeida, voltou ao local. A exemplo do que aconteceu no dia anterior, ele passou o tempo inteiro impedido de sair - o que deveria ocorrer no início da noite. A reportagem não teve autorização dos índios para conversar com o dirigente.

A maior queixa dos manifestantes é com relação à demora na liberação de R$ 897,1 mil de um convênio com a ONG Opan (Operação Amazônia Nativa). O repasse está atrasado há mais de três meses, o que, segundo os índios, estaria comprometendo o atendimento médico. A direção da Funasa diz que, apesar do atraso, os trabalhos da ONG não foram interrompidos. O dinheiro ainda não foi liberado porque a prestação de contas do último repasse ainda não foi avaliada pelos órgãos de controle do governo federal.

O convênio da Opan com a Funasa foi assinado em 2004 e, desde então, tem sido renovado. Até hoje, a ONG já recebeu R$ 6,56 milhões para empregar em consultas médicas e odontológicas e no transporte de índios para atendimento nas cidades em casos emergenciais.

É difícil explicar para um índio, que muitas vezes nem sequer fala o português, que o filho dele não foi atendido por causa de um problema burocrático

O coordenador técnico da Opan, Fenando Penna, pediu que os dirigentes da Funasa usem o bom senso e liberem o recurso pendente tomando como base a última prestação de contas, que, segundo ele, não apresentou nenhuma irregularidade.

- É difícil explicar para um índio, que muitas vezes nem sequer fala o português, que o filho dele não foi atendido por causa de um problema burocrático. Nossa preocupação é essa. O sistema não pode parar por causa disso - afirmou.

Desde a semana passada, a prestação de contas da ONG está sendo avaliada pela Controladoria Geral da União (CGU). A Funasa de Mato Grosso quer que o órgão de controle dê prioridade à documentação da Opan.

Pataxós bloqueiam rodovia em Minas

Índios pataxós mantêm bloqueada desde segunda-feira a MG-232, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais. Eles querem impedir a passagem de caminhões de uma mineradora pela aldeia. O grupo de 30 índios passou a noite na estrada, em Carmésia, onde duas carretas estão retidas. Os veículos pertencem à mineradora MMX e estão carregados com tubulações. Os dois motoristas dormiram dentro das cabines. Eles disseram que não foram feitos reféns, receberam comida dos índios e não querem abandonar os veículos.

Segundo os pataxós, há cerca de 40 dias, a mineradora teria se comprometido a doar um trator agrícola para a aldeia mas não cumpriu o acordo. A doação serviria para compensar os transtornos causados pelo tráfego de caminhões de minério dentro da reserva indígena. Agora, além do trator, os índios exigem uma ambulância e querem cobrar pedágio para a passagem de veículos da mineradora.

A Mineradora MMX anunciou que vai entrar com pedido de reintegração de posse da carga e que nunca houve acordo para a cessão de um trator aos índios. A empresa não pretende pagar nenhum tipo de pedágio à aldeia, já que a rodovia é estadual.
 
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