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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Memórias Sertanistas comemora 100 anos de indigenismo no Brasil


O indigenismo rondoniano está vivo!

Realizou-se anteontem e ontem (27 e 28 de outubro), no SESC-Consolação, em São Paulo, o seminário Memórias Sertanistas, com a participação de alguns dos principais indigenistas e antropólogos brasileiros para comemorar os 100 anos de atividade e política indigenista republicana, desde a criação do Serviço de Proteção aos Índios, em 1910.

Este foi o único evento comemorativo do centenário do SPI/FUNAI. A própria FUNAI, com a atitude anti-rondoniana que domina sua atual direção, bem como as Ongs e organizações missionários – e até a Associação Brasileira de Antropologia, ABA – fizeram de conta de que não sabiam da efeméride. Lembremos que o Serviço de Proteção aos Índios teve como um dos seus principais quadros o antropólogo Darcy Ribeiro, que lá criou o Museu do Índio e foi presidente da ABA.

Ao que parece, as Ongs et alli acreditam que a política indigenista brasileira não merece ser comemorada, relembrada, rediscutida, atualizada e ampliada, conforme seu surgimento e desenvolvimento. A própria situação atual da Funai, de total descaso com os povos indígenas, é sinal desse desmerecimento. Mas, um dia, os índios terão seu acento, sua redenção na nação brasileira.

O evento começou na tarde do dia 27 com a mostra de dois importantes filmes jornalísticos sobre os primerios contatos com os índios Urueuauau, do cineasta inglês Adrian Caldwell. À noite a abertura deu-se com uma palestra de Elias Bígio, antropólogo que dirige a seção de índios isolados e de recém-contato da Funai, e com uma conversa descontraída entre os líderes indígenas Afukaká, do povo Kuikuro, do Alto Xingu, e Siridiwe Xavante, mediada por Felipe Milanez e Noel Villas-Boas, que também foram os curadores do evento.

O dia 28 foi o grande dia. Intenso, divertido, sábio. Aconteceu uma série de sessões com apresentação dos indigenistas Porfírio Carvalho, Odenir Oliveira, Afonso Alves da Silva, o Afonsinho, José Carlos Meirelles, Marcelo dos Santos e Altair Algayer. Cada sessão foi intermediada por um antropólogo ou jornalista, entre eles, Carmen Junqueira, Betty Mindlin, Mércio Gomes, Roberto Almeida, Noel Villas-Boas, Felipe Milanez, Silvo Danri.

Cada indigenista dava seu depoimento, contando sua vida de lutas e atribulações, todas heroicas pelos tempos que viveram.

Afonsinho, o gentil e intrépido sertanista de Altamira, que entre 1957 e 1966 ajudou a Francisco Meirelles a contatar diversos grupos Kayapó, sofrendo com suas mortes; em 1987 foi flechado duas vezes pelos Arara do rio Iriri, e a partir daí, com passagens no Vale do javari e entre os Waimiri-Atroari, passou a  viver os 20 anos seguintes junto a esse mesmo povo, como seu amigo e assistente indigenista. Porém, em fevereiro de 2010, foi demitido pela atual direção da Funai, porque “não tinha o perfil” do que essa direção acha relevante para o indigenismo que ela quer impor no Brasil, à revelia da experiência acumulada e da tradição renovada. Ao final do encontro, foi feito um documento exigindo que Afonsinho seja reconduzido ao seu posto junto aos Arara, para o bem do indigenismo rondoniano, dos índios que o amam, e da dignidade brasileira.

José Porfírio de Carvalho é o indigenista da audácia, da estratégia administrativa e da dignidade inquebrantável. Lutou em muitas frentes: pelos Guajajara no Maranhão, na criação da Administração da Funai no Acre (onde se dizia em 1975 que não havia índios), foi presidente da Sociedade Brasileira de Indigenistas (1979-81) e hoje dirige um dos mais belos programas indigenistas do país, com os índios Waimiri-Atroari e Parakanã. Esses programas nasceram em emulação à experiência implantada e vivida por 30 anos pelos irmãos Villas-Boas, no Parque do Xingu. Porém, Carvalho dá passos enormes adiante, estabelece metas, emula a participação dos índios para alcançar sua autonomia verdadeira em breve futuro. Eis um exemplo que se projeta na atualidade e para o futuro.

Odenir Pinto de Oliveira é um indigenista de muitas gerações. Seu avô foi companheiro de Rondon, e seu pai trabalhou com os Bakairi, onde recebeu a primeira visita de índios Xavante na região do rio Kuluene. É um indigenista que pensa sua vida duplamente, pensa como índio e como um intelectual brasileiro, e, quando chamado, age com a garra de um queixada. Praticamente nascido no meio dos Bakairi e crescido entre os Xavante, aprendeu ambas as línguas e vivenciou como poucos brasileiros a vida indígena. Fez o primeiro concurso da Funai, em 1969, lutou nos lagos do rio Autazes para que os Mura assumissem sua identidade étnica reprimida; batalhou desesperadamente e sob altíssimo risco de morte na ascensão dos Xavante em sua luta pela demarcação de suas terras; foi fundamental na ocupação que os Pataxó fizeram ao retornar à sua terra na região de Ilhéus.

José Carlos Meirelles é o doce, alegre e renitente paulista que se meteu pelos matos abandonando seus estudos de engenharia, e não arrenda pé de exercer sua vocação de indigenista. Fez o primeiro contato com um grupo Guajá, no alto rio Turiaçu, no Maranhão, pelos idos de 1973; viveu 35 anos no Acre entre os rios Envira e Iaco, alerta para os sinais de povos indígenas em estado de autonomia, sempre respeitando sua presença, dando sinais de boa vontade, mas sem procurar perturbá-los ou forçá-los ao encontro, sempre temido, do primeiro relacionamento interétnico. Meirelles hoje trabalha com os Yanomami, 19.000 deles, um mundo à parte no indigenismo brasileiro.

Marcelo dos Santos é o santista filho de comunistas e anarquistas que, como Francisco Meirelles, Noel Nutels, Darcy Ribeiro e Carlos Moreira, preferiram a vida vivida da igualdade e do amor fraternal encontrado em sociedades indígenas do que o sonho utópico de uma sociedade imaginada. Eis sua vocação político-indigenista, a qual foi vivida, desde 1983, com destemor incomparável, nas florestas devastadas e arruinadas de Rondônia. Marcelo dos Santos se diz o indigenista dos povos indígenas que sofreram os piores ataques genocidas da contemporaneidade brasileira. Os Kanoé, o “homem do buraco”, um índio que vive só e recusa aproximação com os brancos, certamente o último remanescente de um povo arrasado por fazendeiros ignóbeis de Rondônia, são gente com quem ele lidou e ajudou a sobreviver, ou ao menos a viver com dignidade.

E como representante dos novos indigenistas, Altair Algayer, o Alemão, prosseguindo no trabalho de Marcelo, se entrega à vocação máxima de indigenista, cuidando dos 5 Kanoé sobreviventes, de dois remanescentes Kawahyb, visitando com a delicadeza própria do indigenista de coração o “homem do buraco” para que ele, um dia, queira, de livre e espontânea vontade, se relacionar com o mundo que o cerca.

Sentimos a falta de outros valorosos indigenistas que trabalham com povos não contatados ou de recente contato, como Rieli Fransciscato e Antenor Amorim, para mencionar somente dois. São mais, e serão mais ainda, pois vem aí uma nova geração de indigenistas que darão continuidade à tradição rondoniana.

Aliás, falando em vocação, foi perguntado a vários indigenistas o que os teria levado a serem indigenistas. Invariavelmente as respostas vinham da vontade de estar na Natureza, o desejo de aventura e a busca por situações sociais de igualdade e alegria de viver. Todos admitiam que, uma vez picados pelo indigenismo, estavam entregues aos seus deveres, aos seus meneios, aos seus imponderáveis.

Como pano de fundo teórico e histórico desse encontro, o antropólogo Mércio Gomes proferiu a palestra “A Tradição Indigenista Brasileira”, onde frisou que o indigenismo brasileiro nasceu da própria raiz formadora do Brasil. Tem como seu patrono o jesuíta Pe. Antonio Vieira, que não somente se opôs a tudo de mal que acontecia com os povos indígenas, mas também expressou o sentimento de que o Brasil deveria buscar a igualdade de todos pela dignidade reconhecida nos povos indígenas. Eis o sentido mais profundo do indigenismo brasileiro, meta a ser alcançada, sempre num horizonte de ações a cada dia mais conscientes e mais dedicadas.

Na história da formação do indigenismo brasileiro surgem outras grande figuras, algumas esquecidas. Mencionemos José Bonifácio, o Patriarca da Independência. Comparando com os Estados Unidos, ao contrário do que estavam fazendo os americanos, àquele tempo, expulsando os índios das 13 colônias originais e dos novos territórios conquistados, José Bonifácio propôs que os índios deveriam ser respeitados e queria que se misturassem aos demais cidadãos. Certamente não é o que se quer agora, mas a concepção de que os índios fazem parte do Brasil e que devem ter seu espaço é algo de grande novidade para a época.

Na esteira de Bonifácio, surge o grande poeta maranhense, Antonio Gonçalves Dias, que, não somente louva o índio por suas virtudes reais ou imaginárias, mas também afirma que o Brasil só será uma grande nação quando os índios vierem a ser “reabilitados” da condição social em que se encontravam. Gonçalves Dias projetou um futuro grandioso para o Brasil quando os índios tiverem seu espaço digno na Nação.

Na formação da República brasileira, a Igreja do Apostolado Positivista Brasileiro teve o grande papel no indigenismo ao propor que os índios deveriam ser considerados nações autônomas, que seus territórios deveriam ser chamados de “estados autóctones americanos” e deveriam formar uma categoria à parte dos territórios dos estados, inclusive com alfândega própria. O Brasil seria uma grande nação republicana, laica, pela incorporação dos índios de um modo autônomo, preservando seu sentido de ser.

Por fim, surge, inspirado nessas ideias geniais, generosas e ultra-revolucionárias do positivismo brasileiro, o coronel, depois marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que, ao fundar o SPI (Serviço de Proteção aos Índios), declara que os índios são nações autônomas com as quais o Brasil deveria criar laços de amizade, não de imposição. Seu espírito de auto-sacrifício e dedicação ímpar é que inspiram o indigenismo rondoniano, pelo seguimento da máxima: “Morrer se preciso for, matar nunca!”

Por essa injunção, muitos brasileiros morreram em sua vida de indigenista sem levantar armas contra os índios. Afonsinho e Meirelles são dois exemplos vivos.

O que dizer da vida e da obra dos três irmãos Villas-Boas? Muito e muito mais. Eles foram heroicos em sua dedicação aos índios do alto Xingu, e visionários ao defendê-los e protegê-los ao máximo do relacionamento com os não indígenas que estavam se aproximando de suas terras. Fizeram o Parque Nacional do Xingu a partir da ideia esplendorosa deles, juntos com Darcy Ribeiro, o próprio Marechal Rondon, cujo projeto original compunha um paralelograma territorial com cerca de 200.000 km2, que ia da margem esquerda do rio Araguaia até o rio Teles Pires, englobando terras dos Xavante, Bakairi, Juruna, Kayapo, Ikpeng, Suya, Beiço de Pau, Kaiabi, Apiacás e outros. Tal projeto, embora aprovado por Getúlio Vargas, não foi realizado em sua integridade. Ficou o Parque do Xingu, ao qual foram adicionadas as terras dos índios Suyá, Kaiapó, Juruna e Panara, que hoje constitui um território compacto de matas, cerrados e rios com mais de 140.000 km2. Cláudio e Orlando Villas-Boas, conforme já disse Darcy Ribeiro, compuseram as vidas mais incríveis de quantos brasileiros que já houve.

O Encontro dos indigenistas foi um primeiro passo para a recondução do indigenismo rondoniano ao palco político de um novo indigenismo que precisa ser criado. Mas não um indigenismo de fantoche, à base do oba-oba, do privatismo, da ilusão messiânica. O indigenismo rondoniano deve prosseguir respeitando sua tradição, a qual não é um simples poço de água parada, mas um rio caudaloso que cresce pela competência dos novos indigenistas, pela adaptação de sua filosofia aos tempos atuais, pela participação real dos índios, pelo diálogo e pelo amor. Eis a lição que foi tirada desse Encontro.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A ciência do próximo: honra e glória a Rondon


A ciência do próximo

Movido pelos ideais do movimento positivista, Rondon fez de sua vida uma luta pela aceitação dos índios como legítimos brasileiros.

Por Mércio P. Gomes
Foto de Luiz Thomaz Reis/Acervo Museu do Índio
A ciência do próximo
Os parecis estão entre os primeiros povos pacificados no interior do Mato Grosso, antes mesmo da chegada de Rondon (acima, o sertanista distribui brindes aos índios, em 1913). Eles tornaram-se aliados do marechal, colaborando no contato com outras tribos e assumindo o controle de postos telegráficos
Era um dia quente de verão no Rio de Janeiro, em janeiro de 1958, quando Rondon estava às portas da morte, e a família mandou chamar Darcy Ribeiro. O antropólogo fora seu jovem e brilhante escudeiro durante nove anos, de 1947 a 1956, no Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Juntos haviam concebido e construído o Museu do Índio e elaborado o projeto do Parque Indígena do Xingu, o qual transformou o indigenismo brasileiro - a partir daí, o Estado passou a reconhecer terras que eram alocadas aos índios como "territórios tribais". Com Darcy segurando suas mãos, Rondon rezou o credo do positivismo ortodoxo que aprendera, e ao qual fora fiel desde 1898: "[...] Creio[...] que, ao lado das forças egoístas, existem no coração do homem tesouros de amor que a vida em sociedade sublimará cada vez mais. Creio[...] que a missão dos intelectuais é, sobretudo, o preparo das massas humanas desfavorecidas, para que se elevem, para que se possam incorporar à Sociedade. Creio[...] que, sendo incompatíveis às vezes os interesses da Ordem com os do Progresso, cumpre tudo ser resolvido à luz do Amor [...]".

Cândido Mariano da Silva Rondon, nascido em Mimoso, ao sul de Cuiabá, descendente dos índios terena e bororo, não convivera com eles em sua infância nem na juventude. Provavelmente o fato de ter tido avós ou bisavós indígenas não teria sido razão de orgulho naqueles tempos e lugares. Na verdade, não havia motivos, digamos, emocionais para Rondon ser o defensor tão excepcional dos índios brasileiros. Aos 6 anos, já morava em Cuiabá e, aos 15, estava no Rio de Janeiro como aluno da Escola Militar. Foi aí que encontrou sentido em sua vida ao abraçar o positivismo como base filosófica e como princípio de fé. Pois a doutrina do positivismo religioso, criado por Auguste Comte no século 19 e instituída no Brasil pouco antes da proclamação da República, exortava como sua máxima virtude "Viver para outrem!", como um mandamento supremo da religião da humanidade.

No Brasil, a República aconteceu sem revolução, sem ao menos participação vívida da população. Entretanto, para aqueles que lutaram por ela ao longo de duas décadas, que nela projetaram a redenção do povo brasileiro, a República veio carregada de esperanças, de promessas de virtude, de compromissos transcendentais. Para os positivistas, ela chegou por razão histórica, pelo princípio da ordem das coisas.

Na Assembleia Constituinte de 1890-91, os positivistas apresentaram uma proposta inovadora para o federalismo brasileiro, pelo qual as terras indígenas seriam reconhecidas como "Estados autóctones americanos", diferentes dos "estados ocidentais", as províncias tradicionais do ex-Império do Brasil. A proposta dizia que as áreas autóctones teriam fronteiras reconhecidas, e por elas só se poderia passar com licença dos próprios índios. Seriam nações autônomas.

Assim, quando organizou o Serviço de Proteção aos Índios, em 1910, Rondon não somente tinha base filosófica do que deveria fazer como já havia experimentado e aplicado esses ensinamentos em sua lida com povos indígenas sem relacionamento com a sociedade. Desde 1890, Rondon passara a viver praticamente nos sertões do Mato Grosso (que, naquele tempo, compreendia os atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia) espichando fios de telégrafo e abrindo estradas de rodagem, cumprindo a tarefa estratégica de integrar o Brasil. Acompanhado de estudiosos, o sertanista abriu à ciência um campo desconhecido de pesquisas e descobertas, mapeou rios e relevos, refez os traços das fronteiras geopolíticas.

Quando atacado por um grupo de nhambiquaras, Rondon proibiu que seus soldados revidassem ao ataque e os fez recuar, cumprindo a sina de "morrer se preciso for, matar nunca". Essa máxima virou o dístico do SPI e o cálice simbólico do indigenismo brasileiro ao longo dos anos. Muitos morreram nas mãos dos índios como se fossem mártires da humanidade.

Rondon conviveu com diversos povos indígenas, entre eles os bororos, terenas, cadiuéus, parecis, nhambiquaras, umutinas, no velho Mato Grosso, mas também com povos do Amapá, do Pará, do Amazonas e de Roraima. Viveu quatro anos em Letícia, na Colômbia, pacificando grave disputa territorial entre esse país e o Peru. Depois, a partir de 1938, renovou o SPI para consolidar sua obra indigenista. Chegou a ser indicado duas vezes para o Prêmio Nobel da Paz, uma delas por carta de Albert Einstein quando o cientista estivera no Brasil. Nenhum outro brasileiro teve vida tão intensa na labuta, tão dedicada a causas e tão fecunda nas realizações. Seus feitos são extraordinários, e se hoje não parecem visíveis é porque estão incorporados à ordem das coisas.

100 anos de Indigenismo Rondoniano passam em brancas nuvens

Pode ser que o 7 de setembro de 1822 tenha sido uma data meio fictícia, arranjada para valorizar Dom Pedro I, e não os brasileiros que se determinaram a fazer a Independência do Brasil, conforme artigo abaixo de Isabel Lustosa, mas o 7 de setembro de 1910 foi a data verdadeira da inauguração do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. E esta e sua herdeira constituem instituições das mais importantes já feitas pela Nação.

Com esse título, com o propósito de assegurar aos índios um espaço político e cultural dentro da Nação brasileira e de dar vez também aos pobres e desvalidos trabalhadores sem terra do Brasil, o presidente Nilo Peçanha e seu ministro da Agricultura criaram essa instituição que, por obra e graça e sacrifício de muitos brasileiros indígenas e não indígenas permanece até hoje como a representação do Estado brasileiro perante os seus povos indígenas. Cinco anos depois, tirou-se do SPI a incumbência de cuidar dos trabalhadores sem terra, e estes ficaram ao léu por longos anos, até se fazerem presentes nos movimentos da década de 1950.

Deveríamos todos nós estarmos comemorando essa data memorável. Todos nós, digo, o Estado brasileiro, o governo Lula, a Funai como sua principal instituição, bem como outras instituições que assistem aos índios, as entidades particulares chamadas ONGs e as missões religiosas, a Associação Brasileira de Antropologia, nós antropólogos e indigenisas -- e acima de tudo os povos indígenas brasileiros que sobreviveram ao holocausto de 500 anos que lhes foi imposto.

Ao invés, nada está acontecendo, nada acontece. Depois que não se reclame que brasileiro não tem memória. Porém digo que não é a falta de memória, pois muita gente sabe dessa data, e esse Blog não cansa de relembrá-la, mas sim, falta de vergonha e de responsabilidade histórica que atacou o indigenismo brasileiro atual e que a faz deixar passar em brancas nuvens.

O SPI  e depois a FUNAI são uma única instituição, uma a continuidade da outra, que não perdeu sua virtude original: servir de intermediação de favorecimento aos povos indígenas em suas relações inexoráveis com a sociedade nacional, em toda sua complexidade. Ajudar os povos indígenas a atravessar o seu Rubicão, seu maior desafio, que é sobreviver diante da avassaladora, às vezes violenta, quase sempre insidiosa, presença de uma civilização devastadora de povos e culturas. Essa tarefa suprema considero que tem sido realizada com muita dedicação e sacrifício por parte de muitos brasileiros, contra interesses das elites de sua Nação, aos trancos e barrancos, com erros e acertos, mas sempre com uma verve de destemor e visionarismo. Sabemos os quantos e muitos foram os sertanistas, auxiliares de sertanistas, mateiros, simples trabalhadores e índios que morreram tentando cumprir o mandato do Marechal Rondon: MORRER SE PRECISO FOR, MATAR NUNCA. Que ninguém faça pouco dessa injunção moral criada pelo sentimento mais alto do humanismo brasileiro!

O resultado, embora sofrido, não é desprezível. Hoje os povos indígenas detêm cerca de 13% do território nacional e estão em ascensão tanto demográfica quanto político-cultural. Embora haja discriminação nos municípios onde vivem, as instituições federais, especialmente a Constituição Federal, o Estatuto do Índio, o Convênio 169, da OIT, e a FUNAI continuam a dar-lhes garantia de que são reconhecidos como povos específicos e como cidadãos brasileiros.

Muita coisa precisa ser feita pelos povos indígenas. Há diversos povos indígenas cujas terras ainda não foram demarcadas e que por isso sofrem privações inomináveis. A má assistência à saúde continua penalizando a recuperação demográfica e o bem-estar das pessoas indígenas. A educação permanece um dilema e uma esfinge a ser decifrada, e pouco se faz sobre isso, e o que verdadeiramente se faz é pouco caso. (Mas este é um problema crônico brasileiro e que mantém o povo à margem dos seus direitos e de sua inserção na civilização mundial que tomou conta do país).

Entretanto, tudo que venha a ser planejado na área indigenista, para ser realizado tem que se basear na filosofia humanista e transcendental criada pelo Marechal Rondon e nos seus propósitos de respeito aos povos indígenas como nações autônomas que estão integradas à Nação brasileira. Integrados, vejam bem, como nações autônomas numa entidade maior, não assimilados! Essa visão humanista tem sido seguida por dezenas de homens e mulheres dos mais dedicados e brilhantes já dados pela Terra Brasil. Fora do indigenismo rondoniano o que vai prevalecer é o caos provocado pelos interessados espúrios, por uma gente aparentemente de boa fé que entretanto se perde em pendores ilusionistas e em messianismo os quais terminam por prejudicar ainda mais a situação dos povos indígenas a quem elas pretendem favorecer. Eis o que está acontecendo na realidade atual.

Por outro lado, alardeia-se que muitos povos indígenas não precisam mais da assistência do Estado brasileiro. Que o Estado brasileiro e a FUNAI e suas instituições é que os oprimem. Pelo menos é assim que discursam alguns dos porta-vozes de algumas associações indígenas bem como a maioria dos porta-vozes das ONGs e missões religiosas que os bafejam com suas ideias e projetos mirabolantes. Algumas associações indígenas estão tomadas por um discurso de auto-suficiência que, entretanto, não condiz com a realidade vivida por seus povos. Estão tomadas por uma retórica que lhes dão visibilidade no movimento social e os faz serem ouvidos pelo Estado, porém deixam vulneráveis os seus patrícios em suas terras. Essa retórica é que vem enfraquecendo a responsabilidade do Estado federal, que, por diversos meios, abre mão de sua responsabilidade rondoniana, como se fosse sem querer querendo, para dar força política e credibilidade social aos estados e municípios -- estes que são historicamente os principais interessados nas terras e na assimilação dos índios. Nesses últimos anos diversos estados criaram suas próprias instituições indigenistas, algumas com representantes indígenas à frente, com feições de boa fé. O quanto essa boa fé prevalecerá é questão de esperar. O que sabemos é que os índios americanos, que há muito anos têm suas próprias instituições e associações, empresas e iniciativas de negócios, não abrem mão da assistência federal, e não querem saber de ter sua educação ou sua saúde sendo tratadas pelos municípios e estados onde se situam suas terras. Já no Brasil, a retórica da desconcentração federal e da terceirização a ONGs e Igrejas fazem o indigenismo e os povos indígenas avançar um pouco mais para o precipício.

Por tudo isso, não se pode dizer que o indigenismo rondoniano esteja funcionando bem na atualidade brasileira. Ao contrário, neste momento conjuntural em que vivemos, os povos indígenas sofrem uma dura crise de identidade política em relação à FUNAI e as demais instituições que lhes assistem. As ONGs e as missões religiosas tomaram a tarefa de intermediação como sua por direito adquirido e fazem de tudo para que a FUNAI perca as condições para realizá-la. Curiosamente se encastelaram elas mesmas na própria FUNAI e dela não querem sair a não ser fazendo-a desmoronar. Há pelo menos 20 anos, desde o início do governo Collor, que as ONGs vêm tentando se tornar hegemônicas no indigenismo brasileiro com o poder adquirido às custas do despoder da FUNAI. E efetivamente desde o segundo mandato do presidente Lula, conseguiram-no. Eis a razão do desprestígio atual do indigenismo rondoniano.

Não sei quando essa situação vai se reverter. Mas, sem dúvida, ela se reverterá, seja por qual governo vier no próximo ano. O descalabro que os povos indígenas vivem os leva a resistir de muitas formas, e ainda que passivamente, a essa avalanche de desmandos, cujos resultados negativos já se fazem presentes desde 2008. Apesar da retórica presente na atual direção da FUNAI de demarcar terras a todo custo e a qualquer preço, como se fossem os donos da história, como se vivessem num vácuo político, esses últimos 3 anos e meio foram os mais pífios em demarcação de terras desde os tempos do ditador Garrastazu Médici. Em 2009 nenhuma terra indígena foi demarcada ou homologada. Em 2009 o STF, movido por um furor anti-indigenista hipocritamente ingênuo, re-escreveu a normatização de demarcação de terras indígenas e fez a atual direção da FUNAI e as ONGs acólitas engolir suas determinações. Neste ano de 2010 finalmente algumas terras vieram a ser homologadas pelo presidente Lula, mas três delas foram contestadas em juízo. Nenhuma terra nova foi demarcada. Fato inédito: quatro portarias demarcatórias foram suspensas pelo ministro da Justiça, uma delas assinada por ele mesmo! Por fim, um estrambólico decreto de reestruturação da FUNAI, que cortou a FUNAI em pedaços, foi assinado pelo presidente Lula, sem ele aparentemente conhecer do que se tratava, que causou protestos nunca dantes vistos no Brasil, inclusive a tomada da sede da FUNAI em Brasília por parte de mais de 700 índios vindos de diversas partes do Brasil, um conflito de bordunadas explícito entre índios, e oito longos meses de protesto permanente de índios em frente ao Ministério da Justiça.

QUE O ESPÍRITO DE RONDON NOS DÊ PACIÊNCIA E SABEDORIA PARA SUPORTAR ESSA SITUAÇÃO!

QUE OS ÍNDIOS RECUPEREM SUA DETERMINAÇÃO PARA TOMAR SEU DESTINO EM SUAS MÃOS!

QUE VIVA O INDIGENISMO RONDONIANO!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Aniversário de Rondon: texto comemorativo


Dia 5 de maio foi o aniversário do Marechal Cândido Rondon. A revista National Geographic Brasil publicou uma matéria de um jornalista que visitou a paisagem atual das antigas Linhas Telegráficas que ligavam Cuiabá a Porto Velho. Cidades como Vilhena, Ji-Paraná, Pimenta Bueno são antigos postos telegráficos da Comissão Rondon. Ao lado dessa matéria, publicou também um texto de minha autoria feito especificamente para a revista no qual tento demonstrar em poucas palavras o sentido da obra de Rondon naqueles idos anos que estão completando um século e seus resultados atuais.

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A ciência do próximo

Movido pelos ideais do movimento positivista, Rondon fez de sua vida uma luta pela aceitação dos índios como legítimos brasileiros.

Por Mércio P. Gomes

Era um dia quente de verão no Rio de Janeiro, em janeiro de 1958, quando Rondon estava às portas da morte, e a família mandou chamar Darcy Ribeiro. O antropólogo fora seu jovem e brilhante escudeiro durante nove anos, de 1947 a 1956, no Serviço de Proteção aos Índios (SPI). Juntos haviam concebido e construído o Museu do Índio e elaborado o projeto do Parque Indígena do Xingu, o qual transformou o indigenismo brasileiro - a partir daí, o Estado passou a reconhecer terras que eram alocadas aos índios como "territórios tribais". Com Darcy segurando suas mãos, Rondon rezou o credo do positivismo ortodoxo que aprendera, e ao qual fora fiel desde 1898: "[...] Creio[...] que, ao lado das forças egoístas, existem no coração do homem tesouros de amor que a vida em sociedade sublimará cada vez mais. Creio[...] que a missão dos intelectuais é, sobretudo, o preparo das massas humanas desfavorecidas, para que se elevem, para que se possam incorporar à Sociedade. Creio[...] que, sendo incompatíveis às vezes os interesses da Ordem com os do Progresso, cumpre tudo ser resolvido à luz do Amor [...]".

Cândido Mariano da Silva Rondon, nascido em Mimoso, ao sul de Cuiabá, descendente dos índios terena e bororo, não convivera com eles em sua infância nem na juventude. Provavelmente o fato de ter tido avós ou bisavós indígenas não teria sido razão de orgulho naqueles tempos e lugares. Na verdade, não havia motivos, digamos, emocionais para Rondon ser o defensor tão excepcional dos índios brasileiros. Aos 6 anos, já morava em Cuiabá e, aos 15, estava no Rio de Janeiro como aluno da Escola Militar. Foi aí que encontrou sentido em sua vida ao abraçar o positivismo como base filosófica e como princípio de fé. Pois a doutrina do positivismo religioso, criado por Auguste Comte no século 19 e instituída no Brasil pouco antes da proclamação da República, exortava como sua máxima virtude "Viver para outrem!", como um mandamento supremo da religião da humanidade.

No Brasil, a República aconteceu sem revolução, sem ao menos participação vívida da população. Entretanto, para aqueles que lutaram por ela ao longo de duas décadas, que nela projetaram a redenção do povo brasileiro, a República veio carregada de esperanças, de promessas de virtude, de compromissos transcendentais. Para os positivistas, ela chegou por razão histórica, pelo princípio da ordem das coisas.

Na Assembleia Constituinte de 1890-91, os positivistas apresentaram uma proposta inovadora para o federalismo brasileiro, pelo qual as terras indígenas seriam reconhecidas como "Estados autóctones americanos", diferentes dos "estados ocidentais", as províncias tradicionais do ex-Império do Brasil. A proposta dizia que as áreas autóctones teriam fronteiras reconhecidas, e por elas só se poderia passar com licença dos próprios índios. Seriam nações autônomas.

Assim, quando organizou o Serviço de Proteção aos Índios, em 1910, Rondon não somente tinha base filosófica do que deveria fazer como já havia experimentado e aplicado esses ensinamentos em sua lida com povos indígenas sem relacionamento com a sociedade. Desde 1890, Rondon passara a viver praticamente nos sertões do Mato Grosso (que, naquele tempo, com-preendia os atuais estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia) espichando fios de telégrafo e abrindo estradas de rodagem, cumprindo a tarefa estratégica de integrar o Brasil. Acompanhado de estudiosos, o sertanista abriu à ciência um campo desconhecido de pesquisas e descobertas, mapeou rios e relevos, refez os traços das fronteiras geopolíticas.

Quando atacado por um grupo de nhambiquaras, Rondon proibiu que seus soldados revidassem ao ataque e os fez recuar, cumprindo a sina de "morrer se preciso for, matar nunca". Essa máxima virou o dístico do SPI e o cálice simbólico do indigenismo brasileiro ao longo dos anos. Muitos morreram nas mãos dos índios como se fossem mártires da humanidade.

Rondon conviveu com diversos povos indígenas, entre eles os bororos, terenas, cadiuéus, parecis, nhambiquaras, umutinas, no velho Mato Grosso, mas também com povos do Amapá, do Pará, do Amazonas e de Roraima. Viveu quatro anos em Letícia, na Colômbia, pacificando grave disputa territorial entre esse país e o Peru. Depois, a partir de 1938, renovou o SPI para consolidar sua obra indigenista. Chegou a ser indicado duas vezes para o Prêmio Nobel da Paz, uma delas por carta de Albert Einstein quando o cientista estivera no Brasil. Nenhum outro brasileiro teve vida tão intensa na labuta, tão dedicada a causas e tão fecunda nas realizações. Seus feitos são extraordinários, e se hoje não parecem visíveis é porque estão incorporados à ordem das coisas.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Carlos Moreira fala de índios e fronteiras

Quando estava na presidência da FUNAI pedi ao grande etnohistoriador brasileiro, Carlos de Araújo Moreira Neto, que escrevesse um artigo sobre a relação dos povos indígenas com as fronteiras nacionais.

Eis o seu artigo, que merece ser lido por todos interessados, inclusive os militares e os ministros do STF.

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ÍNDIOS E FRONTEIRAS

Carlos Moreira de Araújo Neto


As preocupações que vinculam índios e fronteiras remontam ao período colonial, desde as medidas pombalinas gestadas para a Amazônia, ou às sugestões de José Bonifácio de aldear índios junto a contingentes militares, ou às idéias de Couto de Magalhães de “civilizar” os índios através do aprendizado da língua portuguesa com intérpretes militares.

Na história da formação das fronteiras do Brasil, a presença indígena é uma constante, não só pelo fato de que os índios, pressionados pelo avanço da colonização, se refugiavam nas áreas mais ermas e desertas, como pelo fato de que os índios são freqüentemente mencionados, a exemplo de textos do século XVIII, como os “guardiões da fronteira”. O coronel Manoel da Gama Lobo d’Almada, ideólogo da colonização do Rio Branco, pensava a ocupação da região mediante o estabelecimento de aldeamentos indígenas na fronteira, articulados à construção de fortalezas. Joaquim de Mello e Povoas, em 1759, referia-se aos índios como “Tam bons como os bons soldados”.

Um dos exemplos mais expressivos da participação de grupos indígenas na fixação e consolidação das fronteiras coloniais é o caso dos índios Kadiwéu-Guaicuru, referido por Alexandre Rodrigues Ferreira, para o Mato Grosso. Esses índios, tradicionalmente hostis aos colonizadores espanhóis e portugueses da área do rio Paraguai, desde os primeiros anos do século XVI, transferiram-se ao Brasil em seguida a um tratado formal de aliança celebrado com a Coroa portuguesa durante o século XVIII, graças ao qual se definiu a posse portuguesa sobre os vastos territórios do oeste até então de domínio espanhol.

“Perante o capitão general, no palácio da sua residência e autoridades de prol, compareceram João Queima de Albuquerque e Paulo Joaquim José Ferreira, nomes que tomaram dos chefes acatados dos Guaicurus acompanhados de dezessete súditos e da preta Vitória, ‘crioula portuguesa, sua cativa, que serve de língua’, decididos a firmar convênio de paz com o delegado de S.M. Fidelíssima, consoante registrou o termo lavrado a 1 de agosto de 1791. Com toda a solenidade, o secretário do governo, Joaquim José Cavalcante de Albuquerque Lins, redigiu o documento respectivo que recebeu a assinatura de João de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, autoridade suprema, do tenente coronel Antônio Felipe da Cunha Ponte, seu ajudante de ordens e Dr. Alexandre Rodrigues Ferreira, ‘naturalista, encarregado da expedição filosófica por S.M. nesta capitania’, em nome dos dois maiorais, do Dr. Antônio Soares Calheiros Gomes de Abreu, ‘provedor da fazenda real e intendente do ouro’, pelos outros indígenas, do sargento-mor Ricardo Franco de Almeida Serra, por parte da intérprete. Desde esse ato, silenciaram as crônicas regionais a respeito de hostilidades dos guaicurus, que se tornaram aliados dos luso-brasileiros de Mato Grosso. Rejubilou-se Ferreira ao deixar pacificada a grande nação guaicurus, que lhe conquistara a estima.”

O tratado de limites com a Guiana Francesa, cuja equipe brasileira foi coordenada pelo Barão do Rio Branco, que organizou, anotou e publicou os vários volumes da peça brasileira para arbitragem, marca o período mais produtivo das disputas e vitórias do Brasil nas questões da fixação das fronteiras.

Mesmo a incorporação do território do Acre aos limites brasileiros teve como aliada, além das negociações diplomáticas e da determinação de Plácido de Castro, a presença de populações tradicionais que trabalhavam nos seringais da região e na extração de produtos da floresta.

No caso da questão de limites com a Guiana Inglesa, o destino final foi inverso. Mais uma vez, nesse caso os povos indígenas constituíram-se em elemento pivô na argumentação das partes litigantes em defesa de suas pretensões territoriais. A Inglaterra, avocando-se herdeira dos títulos holandeses, antigos ocupantes da Guiana, prendeu-se firmemente ao argumento de que seu território se estendia até onde iam as alianças que os holandeses, por meio de um sistema regular de trocas, haviam estabelecido com os índios dois séculos antes. Por sua parte, a defesa brasileira – fazendo intencionalmente tabula rasa do esforço dispendido pelos portugueses para a aproximação com os índios no Rio Branco, e ainda de todo o debate que percorre o período colonial acerca da soberania dos povos indígenas – contra-argumentaria que apenas a presença constante dos colonizadores era título suficiente de domínio. Nesse sentido, o contrabando holandês com os índios jamais poderia ser evocado para justificar a soberania inglesa sobre o território disputado.

Assim, a despeito da existência de abundante documentação probatória da prioridade da presença portuguesa entre os índios da região, a exposição final do ministro plenipotenciário Joaquim Nabuco nega-se a utilizar tais títulos sob a visão preconceituosa de que os direitos sobre a terra não se estendiam aos índios: “Portugal não fundamenta seu direito com base em relações com chefes indígenas, aos quais não é reconhecida soberania política. Esse direito não existe. Por isso, não alegamos nenhum título derivado do direito indígena. De acordo com o direito português, uma vez com a posse do território, tudo que estiver sobre ele pertence à Coroa portuguesa. Assim, os índios não podem transmitir um título que eles nunca tiveram.”

Esses episódios serviram para apontar a vulnerabilidade das fronteiras e um possível risco para a soberania nacional. Nesse contexto são formulados os projetos de comissões de linhas telegráficas e construção de estradas de ferro, tornando mais eficientes os meios de comunicação, com intervenção direta na política de povoamento.

A criação de Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, em 1907, é mais uma vertente da relação existente entre a presença indígena e a fixação das fronteiras internas e externas do País. Salta aos olhos o caráter estratégico das linhas telegráficas não só como fator de desenvolvimento, mas também como motor para a ocupação da região, incentivando a migração, e para a garantia da defesa das fronteiras brasileiras, “nacionalizando” os povos indígenas. “Descobrindo”, “amansando” e “fecundando” o interior do País, as linhas telegráficas deveriam fixar, ao longo de sua extensão e em torno de cada estação telegráfica, núcleos de povoamento para “localizar” a população nacional e atrair os índios, “conquistando-os para a civilização”. Nesse sentido, os povos indígenas são elemento decisivo na construção da nacionalidade na medida que desempenham um papel de “avalistas” do domínio brasileiro em territórios tidos como “regiões vazias”.

Em relatório do ministro de Estado da Indústria, Viação e Obras Pública, Miguel Calmon du Prin e Almeida, apresentado ao Presidente da República, em 1907, evidencia-se essa visão:

“No intuito de unir todos os Estados da República pelo Telégrafo Nacional, e, ao mesmo tempo, dotar o território do Acre dos meios mais fáceis de comunicação com o resto do país e com os estrangeiros, autorizou V.Ex. a construção, mediante o concurso de tropas federais, de uma linha telegráfica que partindo de Cuiabá se dirija a Santo Antonio do Madeira, ponto inicial de E.F. Madeira ao Mamoré e daí se bifurque por um ramo, em demanda das sedes das prefeituras do Alto Purus e Alto Juruá, e, por outro, Manaus. A Comissão incumbida de construí-la, deverá estudar ramais para pontos convenientes da Fronteira e, bem assim, proceder ao reconhecimento geral da zona, sob o ponto de vista estratégico, geográfico e econômico, promovendo, ao longo da linha, a formação de colônias de índios convizinhas das estações.”

Nesse contexto alcança grande destaque no cenário político do país e na formulação de uma política indigenista de inspiração humanitária o general (mais tarde marechal) Cândido Mariano da Silva Rondon, que criou, em 1910, o Serviço de Proteção aos Índios. Após a Revolução de 1930, afastado da função pública por sua postura legalista, Rondon recolheu-se ao Conselho Nacional de Proteção aos Índios e, depois, foi levado à Inspetoria de Fronteiras (1927-1934), onde teve desempenho singular em várias questões de limites das nações vizinhas, a exemplo do tratado que dirimiu as fronteiras entre Colômbia e Peru, quando foi delegado do Brasil junto à Comissão Mista Internacional.

Em setembro 1927 o gal. Rondon subiu o rio Tacutu, afluente da margem esquerda do rio Branco. Nessa ocasião ele registra o seguinte comentário sobre as relações entre brancos e índios naquela região:

“Que diferença entre os ingleses da Guiana e os brasileiros da fronteira ! Aqueles procuram chamar para o seu território todos os índios da região; estes escorraçam os seus patrícios das suas próprias terras, obrigando-os a expatriarem-se !
Cousa interessante. Esses índios são ladrões no Brasil; expulsos como maus vizinhos dos fazendeiros, passam para a Guiana, onde são bem recebidos pelos ingleses, que os consideram homens de bem.”

Essa relação torna-se ainda mais explícita quando o SPI passa a ser um departamento da Inspetoria de Fronteiras do Ministério da Guerra. Em relatório do coronel chefe do SPI, Vicente de Paula Teixeira Vasconcelos, ao Ministro da Agricultura e ao CNPI, em dezembro de 1939, registra:

“O regime que preconizamos, de evolução mental natural, sem nenhuma pressão sistemática sobre sua alma dará ao Índio a capacidade de melhor aproveitar os dotes naturais da raça no que diz respeito às suas qualidades primordiais de caráter.
Em conseqüência, melhores elementos para bem servir à Pátria no que ela mais precisa: guarda de suas fronteiras e respectiva defesa, ali o encontraria o Exército.”

Em conferência no Ministério das Relações Exteriores (Palácio do Itamaraty) em 3 de agosto de 1938, rememorando as ações desenvolvidas junto aos índios, Rondon apela “em favor da paz dentro da própria Pátria” e “reclama para os aborígenes os mesmos privilégios de que gozam os outros brasileiros e os estrangeiros vindos da Europa, da Ásia e da África, isto é: respeito à propriedade, o direito de inviolabilidade do lar, o uso e gozo do pátrio poder, a garantia de sua liberdade, inclusive a liberdade de consciência.”

Observa-se, portanto, que, historicamente, os povos indígenas têm se constituído em “guardiões” das fronteiras, contrariando concepções equivocadas que acreditavam que a presença indígena nas áreas de limites representava um risco de formação de enclaves territoriais pouco povoados e dissociador da comunidade nacional.

O Serviço de Proteção aos Índios e em sucessão a Fundação Nacional do Índio procederam demarcações em faixas de fronteiras norteador pelo respeito e garantia aos territórios tradicionais dos povos indígenas e pela certeza de que a presença indígena não representa, em hipótese alguma, um risco à soberania brasileira.

Com base na análise da situação das terras indígenas hoje, constata-se que 191, ou seja, 31% das terras indígenas demarcadas, se encontram em faixa de fronteira, perfazendo 52.680.737 ha, o que equivale a 49% da superfície total. Nessas áreas vivem 43% da população indígena brasileira, isto é, 174.000 pessoas que controlam e mantêm a vigilância de 5.788 km de fronteira, uma vez que essas populações estão diretamente interessadas na manutenção e preservação de seus territórios.

A FUNAI é um órgão da administração pública direta. Não há porque esperar ou supor a existência de oposição ou conflito a outros órgãos do poder público na Amazônia ou outras regiões dentro ou fora das Terras Indígenas, a exemplo das guarnições de fronteira, do SIVAM, para só referir agências militares. Pelo contrário, a presença nessas áreas de representantes do poder público armado só pode reforçar a segurança e a tranqüilidade das populações indígenas, desde que essa presença tenha um caráter esclarecido e benigno.


Brasília, fevereiro de 2004

sexta-feira, 25 de abril de 2008

APELO AO STF PELOS POVOS INDÍGENAS

Apelo ao STF pelos povos indígenas


Mércio P. Gomes
Antropólogo e ex-presidente da Funai


Por mais inverossímel que pareça, o STF está elaborando os argumentos que poderão conduzir a Nação brasileira a um retrocesso sem precedentes na história do indigenismo nacional. As indicações são diversas, mas as mais evidentes são as declarações dadas por alguns dos seus eminentes ministros. Tais declarações são produto da suspensão liminar do processo de desintrusão que estava ocorrendo na Terra Indígena Raposa Serra do Sol, cuja homologação, realizada há precisamente três anos, requeria a retirada dos não indígenas daquela terra. Se esses argumentos se firmarem, talvez a T.I. Raposa Serra do Sol venha a sofrer um desmembramento de sua integridade territorial para satisfazer a permanência de alguns seis arrozeiros que lá penetraram ilegalmente na década de 1990. As justificativas para um tal ato do STF estariam em um suposto perigo à integridade territorial brasileira pela existência de terras indígenas nas fronteiras do Brasil com outros países sulamericanos, na presença ostensiva de Ongs influenciando os povos indígenas com o intuito de os fazerem independentes, e, enfim, em uma afronta a uma frágil soberania nacional.

Enquanto isso, no outro lado da questão indígena, as Ongs indigenistas, que estão dirigindo o movimento indígena nacional, praticam a ilusão de que quanto mais pressão puserem sobre o Governo Federal, o STF e o Congresso Nacional, mais essas entidades irão condescender em atender suas reivindicações.

Santa irresponsabilidade, santa e terrível alienação!

Não bastassem as declarações do ministro Carlos Ayres Britto, que vem sendo o relator de todas as ações pertinentes a essa homologação, do ministro Eros Grau e do ministro Gilmar Mendes, para citar só esses três que chegaram a falar sobre o assunto, o general Augusto Heleno, do Comando Militar da Amazônia, prossegue na sua campanha de demonstrar seu receio sobre as terras indígenas em fronteiras, sobre as Ongs e sobre a possibilidade de guerra no Brasil e mais precisamente na Amazônia.

Por sua vez, os jornais põem em suas manchetes e em seus editoriais notícias e comentários alarmistas, sem abrir espaço para argumentações mais ponderadas, calçadas na história e na antropologia nacionais. Evocam o tamanho da T.I. Raposa Serra do Sol, evocam a presença de terras indígenas em nossas fronteiras, evocam a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas como elementos perigosos para a soberania brasileira.

Não querem se lembrar da importância dos povos indígenas na história brasileira, no papel dos índios de Roraima na inclusão desse território no território brasileiro. Esquecem os militares de um de seus maiores patronos, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, que disse, em 1910, que os índios "são nações autônomas, com as quais o Brasil deve ter relações de amizade".

Quem era Rondon? Um anti-patriota, ou um dos maiores patriotas que a Nação já teve? O que queria dizer Rondon? Que o Brasil deveria ser dividido em pequenas nações?!

Não, nada disso. Rondon propôs à Nação brasileira que os povos indígenas deveriam ser respeitados como coletividades autônomas, que ele honorificamente chama de nações! Vejam bem, nações não no sentido de estados soberanos, mas no sentido iluminista do termo, o qual engloba o sentimento de povo, cultura, territorialidade e autonomia política interna. No mesmo sentido que o Canadá chama seus povos indígenas de First Nations, isto é, as Nações Primeiras. Será que o Canadá é irresponsável a ponto de pôr em perigo sua soberania ao chamar seus povos indígenas de nações?

Os militares brasileiros têm muito de que se orgulhar pela Pátria grande que têm e que eles têm como dever defendê-la. Após cinco séculos de colonização e formação de um povo novo, o brasileiro, a presença de 225 povos indígenas, falando 180 línguas distintas, espalhados na imensidão do território nacional, é a demonstração viva e conceitual do quanto o Brasil é um país especial, extraordinário e único no mundo.

Temer que os povos indígenas levem o País a algum tipo de desmembramento de seu território é algo inacreditável. Nunca aconteceu isso em nossa história. Ao contrário, foi pela aliança de alguns povos indígenas com os portugueses que partes substantivas do nosso território passaram a pertencer ao Reino de Portugal, pelos Tratados de Madri (1759) e de São Idelfonso (1798), e que, com a Independência, passaram ao Brasil. O impressionante Pantanal matogrossense, para dar um exemplo, pertence ao Brasil por causa da aliança espontânea dos Kadiwéu, antes chamados de Guaicuru, com os portugueses. Aliás, com esse povo indígena Portugal fez o único tratado de paz e amizade em toda sua história, o que ocorreu em 1791, no Rio de Janeiro.

O Brasil é o que é e tem o território que tem por causa do bom relacionamento dos estados português e brasileiro com os povos indígenas que viviam no limiar das terras pretendidas por cada um desses estados. Este é o sentido dado por Rondon em sua frase magistral.

Apelo para os ministros do STF para abrirem suas mentes para a realidade superior dos interesses estratégicos do Brasil. O interesse maior do Brasil é ser uma Nação de primeiro mundo em um futuro próximo. Não é uma república de bananas, com medo de ONU, Ongs e OEA. A paranóia que vem tomando conta da opinião pública, por causa de declarações de arrozeiros, editoralistas, militares e políticos menores, não pode tomar conta das mentes dos nossos ministros.

Por sua vez, chega do movimento indígena ser dominado por Ongs sem nenhuma responsabilidade com os interesses maiores do País ! Essas Ongs só pensam nos seus interesses próprios e em levar os índios a seguirem seus ditames. Basta ao estado brasileiro fortalecer seu órgão indigenista, a Funai, para que essa influência esmaeça e desapareça em pouco tempo.

Todos que almejam ver o Brasil respeitado por sua soberania política e econômica, com uma cultura respeitada no mundo, com um povo alegre, digno e igualitário, têm que se unir aos povos indígenas e chamá-los, por atitudes de diálogo e amizade, a integrar a grande Nação brasileira. Num sentido capital, o STF não pode voltar atrás na homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, não só pelo mérito do ato realizado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, mas pelo que o ato de homologação representa como ato jurídico que oficializa o reconhecimento do Estado e da Nação sobre as terras indígenas. A demarcação e a homologação de terras indígenas, nos últimos cem anos, reconheceram 600 segmentos do território nacional como terras indígenas as quais, mesmo sendo de usufruto exclusivo dos povos indígenas, fazem parte essencial e constitucional da União brasileira.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

RAONI & amigos estão em pé de guerra contra presidente da FUNAI

Eis que os índios se juntam aos funcionários e servidores da FUNAI para dizerem ao governo que não aguentam mais os desmantelos, as grosserias, a cupidez, o nepotismo, o filhotismo, o esposismo, o compadrismo, a enrolação barata, o desmantelamento o órgão, enfim, a incompetência da atual direção da FUNAI.

A carta abaixo vem escrita da cidade de Colider, MT, onde está a Administração Regional da Funai, dirigida pelo índio Megaron Txukarramãe.

O recado ao Ministro da Justiça, Tarso Genro, é alto e claro. NÃO ACABEM COM A FUNAI!!!

Uma coisa essa carta já produziu. A direção da FUNAI recuou quanto à extinção da AER Cuiabá.

Agora a artilharia kayapó está a caminho...

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Raoni Kayapó e lideranças Kayapó enviam carta para Ministro da Justiça solicitando providências na Funai

CARTA PARA O MINISTRO DA JUSTIÇA

Com copia p/ PRESIDENTE DA FUNAI

Ministro, nós lideranças reunidos aqui em Colíder não estamos contente com o trabalho do presidente da FUNAI, pois ele não está respeitando o nosso pedido, pois quando ele assumiu a FUNAI nós falamos para ele não tirar os funcionários mais antigos e mais experientes e não extinguir as administrações que atende os índios.

Ministro, o presidente está tirando as pessoas que sempre lutaram pela causa indígena e está trazendo muita gente de fora para trabalhar na FUNAI. E essas pessoas só ficam em Brasília, não saem para as aldeias para ver o que está acontecendo com as comunidades porque não tem nenhuma experiência com os índios, não entendem como são os índios. Temos tido também muitos casos de mau atendimento pela sede em Brasília, as pessoas atendem muito mal o telefone, tratam com desprezo funcionários e índios.

Ministro, não foi isso que ficou combinado, ate agora a FUNAI não teve as mudanças prometidas, continua pior do que estava antes e nós não acreditamos nas pessoas que estão entrando na FUNAI sendo a maioria indicado por partidos políticos e os mesmos estão indo ao contrário do que os índios desejam.

Ministro, este presidente não pode acabar com a FUNAI. Queremos falar para você que nós índios estamos começando a revoltar contra este presidente. Se ele continuar extinguindo administradores e mandando os funcionários antigos e os índios que trabalham com a FUNAI, os índios vão se revoltar contra este presidente. As mudanças que ele está querendo implantar tem de ser discutidos com as comunidades indígenas e não com grupinhos que acham que vão mudar a FUNAI.

Ministro, esse presidente acabou com a FUNAI de Cuiabá. Queremos que a administração da FUNAI continue com a Administração, pois lá é a capital e fica todo o poder do governo do estado de Mato Grosso.

A administração de Cuiabá atende as etnias Bakairi, Bororo, Umutina e Chikitano, Xavante e até nós Menbengokre, Panará, Kaibi, Apiaká e Munduruku e muitas outras etnias que dependem da capital do estado.

Queremos que o presidente da FUNAI respeite nós índios e nosso pedido.

Por que o presidente quer acabar com a FUNAI? Por quê?

Assinam

Raoni Kayapó
Sykiãpanarã Kayapó
Bepkró Kayapó
Koxti Kayapó
Kreton Panará
Barae
Oiti Medukro
Sepapre Meturhe
Kokopieti Yurui Trumai
Eroit Kayalir
Ameié Mgiwltirg
Bepnhôli Metuktire

sábado, 10 de novembro de 2007

Por que sou rondoniano

Por que sou rondoniano

“Os índios não devem ser tratados
como propriedade do Estado dentro de cujos
limites ficam seus territórios, mas como
Nações Autônomas, com as quais queremos
estabelecer relações de amizade”

Cândido Mariano da Silva Rondon, 1910


Mércio P. Gomes
Professor de Antropologia
Universidade Federal Fluminense



Nos últimos 20 anos a torrente de críticas ao Serviço de Proteção aos Índios, ao general Cândido Rondon e aos antropólogos e indigenistas que pertenceram a esse Serviço, que estiveram ao lado de Rondon, que respeitaram-no e, de algum modo, que se consideravam seguidores do velho general, tem sido tão avassaladora, tão dominante nos meios acadêmicos e indigenistas e tão determinante no convencimento de aprendizes e leigos, que há hoje muito poucos antropólogos e indigenistas que se declaram rondonianos ou ao menos que põem a cara de fora para tecer suas considerações ou fazer sua apologia ao trabalho ou às idéias do velho general.

São poucos, mas são alguns. Eu quero aqui me declarar rondoniano em alto e bom som, e quero argumentar que o faço tanto com orgulho moral quanto com convicção intelectual e histórica.

Defino rondoniano. A pessoa que vê na postura moral, nas proposições éticas, nas idéias sobre o valor dos povos indígenas brasileiros, em si e para o Brasil, no trabalho incansável de tentar convencer os brasileiros da importância dos índios para a nação brasileira -- de Rondon -- um exemplo a ser emulado ética e moralmente, a ser seguido na visão do relacionamento dos povos indígenas com o Brasil e a ser respeitado e debatido na sua visão antropológica sobre o índio.

Em outras palavras, ser rondoniano é defender firmemente o aspecto ético da visão de Rondon sobre o relacionamento do índio com o Brasil, é guardar o respeito pelo trabalho que fez dentro do contexto da história do Brasil em que viveu, é admirá-lo pelo que conseguiu realizar ao criar uma nova ética de dedicação à causa indígena e é tê-lo como referência de diálogo e debate sobre o que é o índio em si e o que é o índio diante de seu destino.

Algumas palavras sobre Rondon. Nasceu numa vila perto de Cuiabá, no Mato Grosso, em 1867, e foi criado por um tio, pois perdera os pais ainda infante. Naqueles tempos da Guerra do Paraguai, o Mato Grosso não passava de alguns aglomerados de vilas e povoados ao longo do rio Paraguai e seus afluentes do Pantanal e do rio Vermelho, em meio a uma extensíssima área de florestas, cerrados e terras roxas ainda pouquíssimo desbravadas. Os povos indígenas conhecidos dos tempos das monções e das frotas e tropas que debandavam de São Paulo para comerciar com o ouro dos arraiais do Mato Grosso já se encontravam em paz e aceitação da nova sociedade de aventureiros e suas formas de sociabilidade e controle político. Os famosos Payaguás, que dominavam os rios da região e haviam resistido bravamente à entrada das frotas, estavam quase desaparecidos. Os orgulhosos cavaleiros Guaicurus (os atuais Kadiwéu) e os diligentes agricultores Chané (os atuais Terena) iriam servir ao lado das tropas brasileiras como batedores e tropeiros. Os Kadiwéu foram brindados, no final do Império, com a “outorga” de uma boa parte do seu antigo território, o qual já havia sido reconhecido e legitimado por um tratado assinado no Rio de Janeiro, em 1791, entre representantes desse povo e o vice-rei do Brasil. Aliás, esse foi um dos dois raros tratados feitos pela Coroa portuguesa com um povo indígena. Para os portugueses, ficou garantida a lealdade dos Guaicurus, numa região disputada com a Espanha, e a passagem de um vasto território do Pantanal para o domínio português, seguindo os termos do Tratado de Madri e, mais tarde, consolidando o Tratado de Santo Idelfonso. Hoje esse território é a Terra Indígena Kadiwéu, com 530.000 hectares. Já os Terena, que antes eram submetidos aos Kadiwéu, sofreram um processo de dispersão com a chegada de migrantes colonizadores para a região de Aquidauana, veriam seu domínio de terras se reduzir a pequenos lotes incrustados no meio das novas fazendas, e hoje travam uma luta desigual para ampliar algumas dessas terras, aliás, boa parte delas demarcada com muita dificuldade por Rondon.

Fala-se que Rondon descendia de linhagens Bororo e Terena. Ele mesmo se orgulhava disso. Com efeito, sua fisionomia não desmerece essa atribuição. Porém, na vida infantil e juvenil de Rondon não há convivência com esses ou outros índios que já se relacionavam com brasileiros não indígenas no Mato Grosso. Assim, ao que parece, sua afeição aos índios e sua dedicação ímpar à causa indígena não nasceram de um comprometimento juvenil ou anterior à sua vida profissional. Rondon se tornou admirador, amigo e, ao final, protetor dos índios por outros motivos.

Aos dezessete anos Rondon foi enviado ao Rio de Janeiro para cursar o Colégio Militar. Além de ser excelente aluno tornou-se positivista aos moldes de seu mestre Benjamim Constant, que viria a ser a principal liderança de caráter civil (embora sendo militar) do evento político que levou à proclamação da República. Pensar e agir como positivista para Rondon passou a ser sua principal característica cívica, militar, ideológica e prática.

A República ressoou verdadeira em amplo sentido para os positivistas. Quando chamados à ordem e ao progresso, seguiam sem titubear. Lembremos que o dístico republicano advém do axioma comteano segundo o qual o dever de cada um deve se pautar pelo “amor por princípio, a ordem por meio e o progresso por fim”. Na formulação da República deixaram cair o amor, que um dia será resgatado, certamente. Quanto a Rondon, não se pode duvidar de que o amor não lhe tenha acompanhado em sua trajetória de vida.

Aliás, trajetória nunca dantes existida, para nunca mais ser repetida. Saído da capital da República foi ser adjunto do general Gomes Carneiro, que fora incumbido de implantar a linha telegráfica ligando Cuiabá ao resto do país. Substituiu seu chefe quando este foi combater os revoltosos na cidade do Desterro e por lá se quedou para sempre. Daí por diante, até a Revolução de Trinta, Rondon viveu por mister de esticar fios de telégrafo por todas partes do Brasil desconhecido, de Cuiabá ao Pantanal, e daí para a vilazinha de Porto Velho, na beira do rio Madeira, 1.700 quilômetros de infinidade, e também por partes do Maranhão, do Pará e de Roraima.

Desde o início da empreitada de Gomes Carneiro depararam-se com terras indígenas, com gente indígena, com o tema indígena. Os contingentes dessas expedições de puxa-fios e guarda-fios eram, em geral, soldados conscritos de quase todo o Brasil, na marra, com pouco incentivo e por motivo de penitência e castigo. Para eles, ser índio significava uma condição inferior da existência humana, talvez uma que eles, de algum modo atávico, identificavam com um passado do qual haviam saído e para o qual não queriam cair de volta. Para os oficiais militares, gente com leitura e o senso do dever, o índio era um ser do misterioso brasileiro inconsciente, bon sauvage e bugre, dono da terra e desperdício econômico, herói e vilão. Melhor seria, se não pudesse ser ignorado, afastá-lo e seguir adiante. Mas para Rondon, membro da Igreja do Apostolado Positivista Brasileiro, sabedor de sua proposta à Assembléia Constituinte de que os índios eram cidadãos por originalidade e que deveriam ser tratados como nações, não como reles grupos sociais, para que, por um processo de convivência harmoniosa (como nunca dantes existira, mas com o qual havia sonhado o Patriarca da Independência), pudessem alcançar o estágio positivo da humanidade, que só viria no futuro por vontade organizada dos homens de bem. Para Rondon, os índios eram seres que deveriam ser respeitados, a quem dever-se-ia pedir licença de passagem, porque justamente a República estava passando por terras deles.

Enquanto isso, no sul do Brasil, no Paraná e em Santa Catarina, as terras do oeste estavam sendo loteadas e doadas a empresas de imigração. Alemães e italianos, desvalidos de suas terras e de suas condições de vida por força das mudanças econômicas em suas regiões, estavam vindo aos milhares para o mundo novo do Brasil. Uma América tropical! E os empresários iam se livrando dos índios que lá viviam, ou escondidos e arredios, ou já estabelecidos em aldeias. Os bugreiros, caçadores profissionais de índios, matavam muitos à bala, envenenando suas aguadas, deixando brindes de cobertores contaminados por vírus de varíola e tuberculose.

O mundo ficou sabendo disso através de um imigrante com dores de consciência que deu alarde num Congresso Internacional de Americanistas, em Viena, em 1907. Levantou-se a celeuma entre o novo espírito republicano de justiça (não se falava em direitos sociais ou humanos, então) e o predominante espírito darwinista de “a luta pela sobrevivência e a vitória do mais forte”. Um cientista de renome, alemão de origem, diretor da seção de zoologia do Museu Paulista, Hermann Von Ihering, jogou lenha na fogueira ao vociferar nos jornais que seus compatriotas não estavam fazendo nada errado, e que, tal qual estava acontecendo em São Paulo com a construção da estrada de ferro ligando São Paulo a Corumbá, a Noroeste do Brasil, se os índios continuassem a ficar no caminho da civilização, a atacar os novos imigrantes e a interromper os trabalhos dos operários da Ferrovia, só restaria para eles a via da sua extinção.

A celeuma durou três anos. Será que os índios, brasileiros natos, não mereceriam alguma proteção e assistência, já que o governo vinha gastando tantos recursos há tanto tempo em prol de imigrantes para se estabelecerem em suas terras? Os incipientes centros de debates e divulgação de ciência brasileiros da época, muitos com afiliação positivista, diversos jornais e alguns políticos, certamente formando algo que poderia ser chamado de opinião pública, e junto, em seus boletins, o Apostolado Positivista Brasileiro, levaram a República a tomar uma atitude: criar um órgão para cuidar da questão. E imediatamente convocaram o coronel Cândido Rondon, de quem já se ouvira falar por suas palestras sobre seu trabalho no Mato Grosso, para vir ao Rio de Janeiro e levar essa nova tarefa a cabo.

O SPI -- Serviço de Proteção aos Índios -- foi instituído no Dia da Pátria de 1910 com a sigla SPILTN -- Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. Índios e trabalhadores sem terra eram a preocupação dos nacionalistas republicanos de então, ainda sem ideologia de esquerda ou direita, apenas seguindo uma visão positivista da história. Os nacionalistas, ou patriotas, talvez um termo mais adequada à época, protestavam contra o descaso do governo com os homens sem terra que, ou viviam perambulando pelo país, sem ficarem nas cidades porque os empregos eram poucos e tomados pelos imigrantes estrangeiros, ou estavam sendo expulsos das fazendas por mudanças tecnológicas. Um excedente que não percebia remuneração alguma, os jecas-tatus, que, pouco depois, Monteiro Lobato iria jogar na cara da má-consciência brasileira, para ser redimido de sua preguiça e incapacidade pela solidariedade e por melhores oportunidades de vida.

Alguns críticos de Rondon, anos depois, consideraram que ele aceitou dirigir o SPILTN porque queria ver o índio virar um brasileiro pobre e que demarcar terra para índio e localizar (assentar) trabalhadores sem terra eram a mesma coisa. Não, sete anos depois, os trabalhadores sem terra haviam saído do SPI e movidos para outra seção do Ministério da Agricultura, e ficaram, como demonstrou o desenrolar dos tempos, ao deus-dará, até serem de novo percebidos pelo movimento dos camponeses na década de 1950.

Rondon estabeleceu em pouco tempo as bases administrativas do SPI. A partir de uma sede simples no Rio de Janeiro, criou o sistema de inspetorias nas capitais de estados com muitos povos indígenas, como Manaus, Belém e Cuiabá, e em outras que seriam centro de convergência, como Recife, Governador Valadares e Campo Grande. Nas áreas de maior presença indígena, em locais estratégicos, foram sendo estabelecidos postos indígenas para atender a um conjunto de aldeias em sua circunscrição. Cada posto se constituía em uma infra-estrutura de sede, uma base de transporte, um sistema de produção econômica com equipamentos e ferramentas e, se possível, novas técnicas para melhorar a produtividade ou para produzir bens para venda, alguma farmácia e escola básica de alfabetização, professor houvesse. Por volta de 1950, com sua história de altos e baixos de apoio governamental e de carência de verbas, haviam sido instalados sete inspetorias e cerca de 70 postos indígenas em todo o Brasil. Hoje a Funai tem 60 administrações sediadas em cidades e 337 postos indígenas nas aldeias.

O SPI teve, desde seu início, servidores extraordinários, os sargentos, tenentes, capitães e até generais que trabalhavam com Rondon nas linhas telegráficas e que, ao serem forçados a escolher entre seguir a carreira militar e ficar no SPI, preferiram a opção mais dramática. Alguns positivistas, outros sem ideologia ou linha de pensamento, patriotas todos, sem dúvida, mas, acima de tudo, homens buscando um sentido diferente para suas vidas. Tenente Pedro Dantas, major Estigarríbia, general Jaguaribe de Mattos, Luiz Bueno Horta Barbosa, Pimentel Barbosa, Humberto de Oliveira, José Maria de Paula, Manuel Miranda, Alípio Bandeira, Vicente de Paula Vasconcelos, entre os que trabalharam até a década de 1950. Acima de todos, como o maior etnográfico já realizado no Brasil, Curt Unkel Nimuendaju, alemão naturalizado brasileiro, trabalhando aqui e ali como sertanista do SPI, como colecionador de artesanato encomendado por museus europeus e americanos, como conselheiro e assessor de Rondon e do SPI. Depois, já arejado pela antropologia, vieram Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, Mário Simões, Expedito Arnaud, Carlos Moreira, Hans Foerthman, além do médico Noel Nutels e dos grandes sertanistas das décadas de 1940 a 1970, Orlando e Cláudio Villas-Boas, Francisco Meirelles, Cícero Cavalcanti e Gilberto Pinto. Depois de 1970, já com a Funai (dezembro 1967) substituindo o SPI, iria surgir uma nova geração que não somente continuaria o trabalho de seus antecessores no relacionamento com os índios como se abriria para um diálogo mais próximo e mais político ainda. Ao mesmo tempo, essa nova geração de indigenistas não deixaria que os militares comandassem a Funai como pretendiam. Ao contrário, abriu-a ao conhecimento e a participação dos índios, que logo descobririam como ajudar os seus amigos indigenistas no processo de tornar o indigenismo uma missão de respeito e amizade. O processo de demarcação de terras indígenas em extensões maiores deve a essa nova geração de indigenistas tanto quanto aos próprios povos indígenas e suas lideranças que apareceram no panorama político-cultural brasileiro a partir da década de 1970. São tantos esses novos indigenistas, homens e mulheres, em vários postos na Funai, mas especialmente nos postos indígenas, que qualquer menção de nomes suscitaria novos nomes e talvez algum esquecimento indevido.

Talvez nem todos os indigenistas tenham passado pela provação máxima de se verem cercados de índios em pé de guerra e tenham se comportado pelo axioma supremo do indigenismo rondoniano, “morrer se preciso for, matar nunca”. Mas eu mesmo sei de muitos aí que o fizeram.

“Morrer se preciso for, matar nunca” parece uma frase de tratado de martiriologia. Com efeito, muitos servidores do SPI e da Funai morreram em serviço, em seus postos, frente a ataques de índios ou surpreendidos por alguma sortida de guerreiros ousados. Muitos escaparam por pouco. Muitos que escaparam terminaram voltando aos seus postos, como se o que houvessem sofrido não lhes tivesse afetado, ou como se desejassem passar por nova provação.

Ninguém tem certeza do que se passa no coração do homem que trabalhou sua vida inteira no SPI/Funai para se submeter a tais perigos e se comportar com tal determinação. Certamente que o trabalho de mato é fascinante o suficiente para ele agüentar as pressões de todas as sortes e os perigos de morte. Fascinante ou compensador do ponto de vista de sua cruzada humana. O certo é que quem criou e incutiu na formação do indigenista uma atitude de auto-sacrifício pela sorte dos índios foi Rondon. E é certo que essa atitude ética de alcance extremo tem como fonte filosófica o velho positivismo tal como operado no Brasil por seus adeptos originais e ortodoxos, que o realizaram em suas vidas num sentido de sagração religiosa.

Ao longo da história da humanidade os homens são levados ao sacrifício pessoal extremo por três motivos essenciais: Deus e sua fé, a pátria e sua lealdade, e a família e seu amor e instinto de reprodução. O positivismo religioso brasileiro criou uma quarta modalidade, o auto-sacrifício pelos índios, isto é, por terceiros que representam o Outro, um segmento da humanidade aparentemente alheio à sua cultura e sociedade, mas de algum modo parte de sua identidade histórica mais profunda. Só por tal explicação é que se pode entender esse espírito de sacrifício.

De qualquer modo, configura-se aqui uma atitude ética inesperada no panorama moral brasileiro. Essa atitude é também inédita em outras partes do mundo. Se fosse só por isso já bastaria como justificativa para se ser rondoniano.

Continua: Por que sou rondoniano.

Resultados do SPI

Em que resultaram 48 anos de SPI até a morte do velho marechal de 91 anos? Nesse período diversos povos indígenas foram extintos por força da pressão do homem branco em seus territórios, conseqüência de mortes matadas e de mais mortes morridas de doenças de todos os tipos para as quais não tinham defesas imunológicas naturais: varíola, sarampos, tuberculose, gripes e pneumonias, malárias letais. Muitos foram relegados ao abandono, com seus territórios reduzidos a pequenas glebas de terra e forçados a uma convivência negativa, por autoritária, desmoralizante e assimilacionista. Poucos experimentaram alguma estabilidade demográfica, e isto só a partir de meados da década de 1950, e pouquíssimos foram aquinhoados com a segurança de terras, o crescimento demográfico, a auto-subsistência econômica, a garantia de saúde e a presença de uma educação fortalecedora de sua relação com a sociedade envolvente.

Os críticos de Rondon são useiros em acusá-lo de ter demarcado tão somente pequenas glebas de terra para os Guarani de Mato Grosso do Sul, para os Bororo do Mato Grosso e para os Kaingang de São Paulo e estados sulinos, e com isso ter aberto as terras circunvizinhas para a colonização ou para a instalação de fazendas. Esquecem de propósito de considerar o contexto histórico em que se deu o surgimento e a permanência do SPI.

Em primeiro lugar, as terras a serem demarcadas como indígenas eram consideradas como devolutas, e, desde a Constituição de 1891, tais terras pertenciam aos estados, não ao governo federal. Até que em 1935 um decreto presidencial regulamentou as terras indígenas, já depois do direito indígena às suas terras ter sido reconhecido pela Constituição de 1934. Portanto, era com os estados que o SPI tinha que se entender para obter uma terra indígena, e os estados tinham muito pouco interesse em abrir mão de terras que estavam negociando com imigrantes ou novos fazendeiros e que representavam seus processos de crescimento. Daí a primeira dificuldade do SPI.

Em segundo lugar, os povos indígenas por todas as partes do mundo, e mais ainda no Brasil e nos trópicos, pareciam estar fadados ao extermínio. Suas populações se mostravam declinantes em todas as situações, sejam aquelas de recente contato e relacionamento com a sociedade brasileira, sejam aquelas de longo relacionamento. Deduzia-se assim que os índios não precisavam de tanta terra para sobreviver. Com efeito, em diversos casos, terras que haviam sido reconhecidas e delimitadas, terminavam sendo diminuídas e até abandonadas porque se achava que não haveria mais índios nela morando.

Em terceiro lugar, as condições políticas para a demarcação de terras para os índios eram extremamente adversas durante esses primeiro 50 anos do SPI. Não é só que os governadores não queriam abrir mão de terras negociáveis para doar aos índios, mas as populações locais não o queriam e a opinião pública era, na melhor das hipóteses, indiferente a esse problema. Ademais, desde a Revolução de 1930 o SPI saíra da mira de influência do general Rondon e as demarcações de terras indígenas foram feitas com grande interferência das forças políticas locais. Nessa época é que foram definidos os limites das oito terras indígenas Guarani e das seis dos Terena, ambos do Mato Grosso do Sul, bem como a maioria das terras dos índios Kaingang, de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Este último estado destoava dos demais estados brasileiros pois havia criado sua própria política indigenista, por influência do positivismo político que lá prevalecia desde Júlio de Castilhos e por todo o período de Borges de Medeiros, e assim tinha reservado terras para os Kaingang. Já em outros estados, como o Maranhão, o SPI praticamente desaparecera e o processo de demarcação de terras fora abandonado.

Em quarto lugar, mas não menos importante no caso do Mato Grosso do Sul, as terras dos Guarani sempre foram habitadas por um conjunto pequeno de famílias extensas, em pequenas glebas, onde podiam cultivar, caçar, pescar e coletar frutos, ervas e folhas. Nunca foram concebidos como territórios extensos, como querem alguns antropólogos da atualidade, mesmo porque os Guarani modernos vieram em grupos familiares do Paraguai a partir das primeiras décadas do século XIX, para onde tinham se refugiado depois da destruição das Missões dos Sete Povos. Sua penetração no Mato Grosso do Sul começou a se intensificar na chegada da Companhia Mate Laranjeiras, no início do século XX, que os atraía para o trabalho de coletar e preparar folhas de mate. Eles se espalharam por um vasto território, sem dúvida, mas seu modo de viver culturalmente, seu tekó, como falam, prescindia de espaços extensos, necessitando tanto mais de condições de conexões entre eles para que houvesse convivência entre as famílias extensas.

Não se poderia esperar que Rondon e os indigenistas da época tivessem uma visão mais ampla do que aquela dada pelas evidências históricas e pelos estudos antropológicos. Aliás, a grande maioria desses estudos foi realizada por importantes antropólogos paraguaios que falavam o guarani e tinham um vivência muito próximo com essa cultura e com sua resultante mestiça naquele país. Mais tarde surgiram antropólogos brasileiros, como Curt Nimuendaju e Egon Schaden, que não apresentaram evidência contrária ou sugestões sobre aquilo que o SPI estava fazendo, isto é, constituindo oito terras ou reservas indígenas com uma média de 3.600 hectares para os Guarani da região. Mesmo em pequenas extensões, foi difícil demarcar todas essas oito reservas e, ao final do processo, metade delas ficou com tamanhos ainda mais reduzidos pelas pressões dos fazendeiros vizinhos.

Crise e retomada do SPI

A Revolução de 1930 abafou o trabalho do SPI em quase todas as regiões brasileiras. Primeiro, ele foi rebaixado de serviço para simples seção do Departamento de Fronteiras do Ministério da Guerra. As verbas caíram e o efetivo foi drasticamente reduzido em várias partes do Brasil. Segundo, nos primeiros anos da Revolução, Rondon foi visto como persona non grata por ter-se recusado a apoiá-la, tendo em vista sua convicção de que o Brasil deveria seguir o caminho da evolução e não revolução. Porém, o importante desse período foi a inserção de um artigo na Constituição de 1934 que reconhecia o direito dos índios às terras que habitavam de modo permanente. Isto favoreceu a mudança para o âmbito federal das terras devolutas que fossem reconhecidas como indígenas, retirando-as do poder estadual.

A preservação do SPI e a reabilitação do prestígio político do general Rondon, a partir de 1938, quando Getúlio Vargas reconheceu a estatura humanística de Rondon, começaram a mudar o panorama indigenista brasileiro. Nos últimos anos da ditadura getuliana, com o programa “Marcha para o Oeste”, e até o fim do segundo governo Getúlio, o SPI renovou-se, abriu-se para novos quadros, especialmente antropólogos, e começou o processo de demarcar terras indígenas por critérios antropológicos, enfrentando as injunções políticas com mais destemor. O resultado é que a delimitação das terras indígenas passou a levar em consideração as formas culturais dos povos indígenas, suas áreas de produção econômica, inclusive as áreas de perambulação para caçadas e pescarias, e assim as terras indígenas passaram a ter tamanhos bem maiores do que aqueles realizados nas décadas de 1920 e 1930.

O auge desse processo deu-se com a formulação do projeto do Parque Nacional do Xingu, entre 1953 e 1954. Guiados pelo velho general, Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão e Orlando Villas-Boas elaboraram e apresentaram por consecutivas vezes ao presidente Getúlio Vargas um grande projeto de preservação e proteção de uma imensa área do alto rio Xingu que garantiria não só a sobrevivência dos povos indígenas que lá habitam, com sua cultura de paz impressionante, a qual aos poucos era dada ao conhecimento do público brasileiro por reportagens dos jornais e revistas populares do país, como garantiria a inviolabilidade de uma parte destacada da Amazônia brasileira. Os formuladores desse projeto antecipavam, assim, a preocupação dos brasileiros com a preservação da Amazônia muitos anos antes da onda que nos atinge na atualidade.

O Parque Nacional do Xingu estava pronto para ser aprovado pelo presidente Getúlio quando se deu sua morte. Contemplava toda a bacia do alto rio Xingu e seus formadores, uma área de mais de 50.000 km2, e tinha como objetivo a preservação desse ecossistema e o reconhecimento da territorialidade dos povos indígenas que lá habitavam. Um projeto extraordinário e que, mesmo que não tenha sido aprovado, quando o foi, em junho de 1961, pelo presidente Jânio Quadros, em sua integridade, tendo diminuído para cerca de 27.000 km2, o Parque Nacional do Xingu marcou dois pontos importantes: primeiro, demonstrou que o propósito do SPI era, de fato, dar condições de sobrevivência aos povos indígenas; segundo, estabeleceu novos parâmetros de reconhecimento e regularização de terras indígenas.

A criação do Parque Nacional do Xingu, depois chamado de Terra Indígena Xingu, mas sempre lembrado como Parque do Xingu, é um divisor de águas no indigenismo brasileiro, mas também um divisor de águas no indigenismo mundial. Nunca dantes se reconheceram terras indígenas com a qualificação antropológica dada ao Parque do Xingu. É obra do indigenismo brasileiro como um todo unido, da visão rondoniana, da visão antropológica de Darcy Ribeiro e Eduardo Galvão, e da experiência vivida dos irmãos Villas-Boas, que lá se estabeleceram por volta de 1945 e lá ficaram até a década de 1970.

A presença constante dos irmãos Leonardo (falecido em 1961, em conseqüência de malárias mal curadas), Cláudio e Orlando (falecidos em São Paulo, já aposentados) deu uma segurança aos povos indígenas que lá habitam e estabeleceu um modus operandi indigenista nunca antes experimentado no Brasil e em outras partes do mundo. O reconhecimento desse fato por antropólogos e visitantes é universal. Os irmãos Villas-Boas respeitavam as culturas indígenas de tal modo que, passados os anos, a cultura xinguana tradicional continua viável e vivível em quase todos os seus aspectos essenciais. O diálogo instaurado entre os diretores do Parque e os índios era franco, leal e mutuamente pedagógico, de modo que os índios foram aos poucos aprendendo as coisas dos brancos e vice-versa. Os irmãos Villas-Boas abriram o Parque para a pesquisa antropológica e para a saúde de qualidade. Concomitantemente, o Parque do Xingu era protegido de invasores fazendeiros e madeireiros não por armas ou militares, mas pelo prestígio da sua direção bem como pelo reconhecimento por parte da sociedade nacional e pelos fazendeiros circunvizinhos dos direitos indígenas obtidos pelo indigenismo rondoniano.

Só recentemente é que o Parque começou a se abrir para o mundo dos brancos, onde a política local das cidades circunvizinhas passou a ter influência, até pelo interesse de alguns jovens indígenas que são cooptados a virarem vereadores e viverem nas cidades. Mas este é um processo que também se verifica entre outros povos indígenas, com entusiasmo por parte de alguns e reticências por parte de muitos. Os resultados sociais em relação à integridade das sociedades indígenas e da sua autonomia cultural ainda não foram avaliados devidamente, mesmo porque o processo é muito recente. Certamente os irmãos Villas-Boas iriam achar que todo esse relacionamento está indo muito rápido, e que o Estado brasileiro, através da Funai, se tivesse condições intelectuais, políticas e financeiras para tanto, deveria tomar providências para resguardar a diferenciação étnica no convívio interétnico e para auxiliar os povos indígenas a continuar vivendo suas vidas com o mínimo de interferência de fora.

Depois do Parque do Xingu o indigenismo rondoniano mudou. Deu um salto de qualidade e acenou para ações futuras no mesmo naipe. O salto, porém, só aconteceu porque o SPI se preparou para tanto. A abertura vem, portanto, desde o Conselho Nacional de Proteção ao Índio, fundado em 1939, o qual foi seguido pela abertura do quadro funcional a antropólogos, primeiramente Darcy Ribeiro, e, logo depois, à criação do Museu do Índio, em 1953, na ocasião em que o Parque era discutido nas altas esferas do poder brasileiro.

O Museu do Índio nasceu para combater o preconceito contra o índio divulgando seu valor humano e cultural e chamando a população a compartilhar do sentimento de brasilidade do índio. Darcy Ribeiro foi o responsável por sua concepção e instalação, sob o beneplácito de Rondon, no âmbito do SPI. O Museu criou uma exposição permanente de arte indígena, abriu o primeiro curso de pós-graduação em antropologia do Brasil e em pouco tempo treinou antropólogos como Carlos Moreira Neto, Roberto Cardoso de Oliveira e Roberto Las Casas, que desenvolveram pesquisas importantes em suas áreas. Mais tarde, durante a ditadura militar, já com a Funai, o Museu do Índio, através do esforço de Carlos Moreira Neto, resgatou grande parte do material etnográfico, etnohistórico e administrativo, na forma de relatórios, fotografias, mapas e croquis que ainda restavam nas velhas inspetorias do SPI, espalhadas pelo Brasil (pois um incêndio criminoso havia destruído quase todo o arquivo da sede do SPI em 1967). Este é o material com o qual muitas terras indígenas foram posteriormente reconhecidas e legalizadas, sem o qual não haveria provas suficientes para comprová-las.

Contato com índios autônomos

A fama de Rondon começou quando ele passou a fazer contato com povos indígenas que viviam autonomamente, ou como ainda se diz, “isolados” do relacionamento com a sociedade nacional. O primeiro desses povos foram os Bororo Ocidentais, que viviam ao norte do Pantanal. Os Bororo Orientais já estavam em convívio há mais tempo e era desse ramo que Rondon teria ascendentes. O segundo povo indígena foram os Nambiquara, através de cujo território passava a linha telegráfica rumo a Porto Velho. O nervosismo dos trabalhadores levaram Rondon a reconhecer um conceito muito importante e novidadeiro e, em conseqüência, a tomar a atitude que logo tornou-se sua marca política e ideológica: que a expedição de esticar fios telegráficos estava penetrando território de um povo indígena, dono soberano das terras pertinentes, e que era de inteira legitimidade desse povo tomar satisfações, inclusive agressivas, sobre essa putativa invasão de seu território. Portanto, para um espírito positivista e republicano, restava tão somente aquiescer a esse fato e procurar contorná-lo. Isso só seria possível pela busca do relacionamento amigável que pudesse levar a uma explicação e ao pedido de permissão para realizar a tarefa pretendida.

Assim, a busca do relacionamento, do contato com povos indígenas não nasceu de uma curiosidade extemporânea, etnológica ou sensacionalista. Nascia da necessidade de dar comunicação e explicação a essa intempestiva entrada no território de outrem. Sendo que este outrem não falava sua língua, não tinha uma formalização de poder político, e, é certo, do ponto de vista de Rondon e da época, estava num estágio de compreensão do mundo, o animista, que o deixava aquém da compreensão correta da ação que estava sendo realizada.

Sobre a visão de Rondon, fruto de seu engajamento com o positivismo evolucionista, a Antropologia faz uma forte ressalva. A Antropologia moderna se estabeleceu no início do século contra a visão de que existe evolução cultural tal como fora proposta pelos evolucionistas do século XIX. Assim, dizer que os povos indígenas viviam no estágio animista se tornara, por volta da década de 1920, uma questão superada. Muito menos que seriam incapazes de uma compreensão política, se lhes fosse dado conhecer os pontos do problema. É evidente que compreender a penetração de uma frente armada em seu território, abrindo picadas, plantando troncos de árvores e esticando uns estranhos fios entre um e outro, estava perfeitamente na alçada dos povos indígenas.

Mas, mesmo que Rondon achasse que os índios compreenderiam seus propósitos, ao serem contatados, por que então a morte ceifou tantas vidas como resultado do contato e a sobrevivência dos povos contatados ficou periclitante por tanto tempo?

O indigenismo rondoniano é acusado de não ter conseguido proteger e dar condições de sobrevivência étnica aos povos indígenas que foram contatados na primeira metade do século XX, como os Kaingang de São Paulo e Paraná, os Xetá do Paraná, os Xokleng de Santa Catarina, as diversas tribos hoje chamadas de Pataxó, do sul da Bahia, os Maxakali e Krenak do leste mineiro, os Nambiquara do Mato Grosso, os Ka´apor do Maranhão, os Kaiapó do sul do Pará, os diversos grupos Tupi-Kawahib de Rondônia, os Parintintin do sudoeste do Amazonas, e outros mais.

O próprio Darcy Ribeiro ao escrever sua avaliação do SPI documentou os modos como esses povos indígenas foram contatados, em cima das demandas urgentes da expansão agrícola nessas regiões, às vezes para protegê-los da sana persecutório de fazendeiros e seringueiros, quase sempre para reconhecer a força avassaladora das frentes de expansão. Analisa também como suas populações foram tão negativamente afetadas, a ponto de algumas delas terem chegado ao ponto de não retorno, de incapacidade de reprodução física e cultural. Os Xetá são o caso mais expressivo, junto com os Makurap e os Jabuti. Esses povos têm hoje menos de dez membros e não têm como recuperar-se nem demograficamente nem etnicamente. Outros povos sobreviveram em pequenos números e tiveram de se unir a outros povos para recuperarem suas populações e manterem um nível de sociabilidade e convivência cultural. Outros recuperaram suas populações e hoje assomam mais numerosos e quiçá mais politicamente seguros do que no passado recente. Mas, em muitos casos, os sobreviventes sofreram graves perdas demográficas nos primeiros 30 anos de contato e viram seus territórios reduzidos a porções muito menores do que antes controlavam.

A crítica, portanto, tem procedência, mas as explicações são igualmente compreensíveis para o contexto da época. Nesse tempo, em qualquer parte do mundo, os povos indígenas estavam em processo de queda demográfica e destituição cultural. No Brasil e nos trópicos do mundo isto parecia ainda mais verdadeiro. Os antropólogos que visitavam povos indígenas o faziam na expectativa de que eles, se não fossem os primeiros, certamente seriam os últimos a visitá-los em condições étnicas de sobrevivência. Os estudos etnográficos eram feitos no espírito de salvamento daquilo que podia ser salvado: amostras da cultura material, a coleta de mitos, a descrição de rituais, a análise de parentesco e das condições econômicas e ecológicas de sobrevivência.

Ao final desse período, logo após a Segunda Guerra Mundial, o Smithsonian Institute, uma das instituições científicas e museológicas mais prestigiosas do mundo, publicou, após mais de oito anos de trabalho, o famoso Handbook of South American Indians, uma espécie de enciclopédia dos povos indígenas da América do Sul. Nessa obra quase todos os antropólogos que pesquisavam ou haviam pesquisado com povos indígenas escreveram resumos etnográficos desses povos, incluindo breves etnohistórias. Em todas elas o sentido era de descenso inexorável das condições de sobrevivência étnica.

Por que era inexorável a morte dos povos indígenas? Para os historiadores era mais do que evidente, e a atribuíam à brutalidade da conquista, à miscigenação e à contínua expansão das sociedades pós-coloniais. Para os antropólogos a explicação foi dada pela teoria da aculturação, segundo a qual, quando dois povos se encaram, excluindo a possibilidade da destruição de um dos dois, a tendência é de que o mais forte passe a dominar o mais fraco e influenciá-lo rumo a mudanças culturais que o aproximem cada vez mais da cultura do dominante. O processo de aculturação iniciava-se a partir do momento em que o mais fraco se sentia abalado pela força do mais forte, perdia sua auto-confiança e passava a adotar elementos culturais do mais forte e ir cada vez mais e irrevogavelmente a se acostumar com o novo modo cultural adquirido, até o momento em que deixaria de ser diferente e passaria a pertencer ao contingente humano e cultural da sociedade dominante. No caso do relacionamento entre povos indígenas e a sociedade ocidental (brasileira) havia o agravante da transmissão de doenças que só com muitas dificuldades e a muito custo eram contornáveis, como a varíola, os sarampos e as doenças pulmonares, algumas das quais nem a civilização ocidental tinha curas à época. Assim, a morte por doenças parecia natural e inevitável. As populações indígenas decaíam inevitavelmente nos primeiros momentos do contato e relacionamento, mesmo quando havia alguma assistência médica. E essa queda continuava nos anos subseqüentes exacerbada pela junção fatal entre doenças, baixa auto-estima e o controle da cultura dominante. Aculturar-se tornou-se sinônimo de incorporação à sociedade dominante e foi visto como um processo inexorável. Não bem um genocídio, mas certamente um etnocídio.

Para Rondon, a morte dos índios que ele contatou pessoalmente ou através de seus auxiliares deve ter-lhe tocado tanto quanto ainda hoje toca a qualquer antropólogo ou indigenista que tenha passado pela mesma experiência. Pois, na verdade, os povos indígenas em contato recente continuaram a sofrer mortes substantivas até pelo menos a década de 1990, mesmo com a presença de médicos e indigenistas experientes. O fato é que, no mais das vezes, os contatos iniciais quase todos foram feitos ou sem a presença de assistentes de saúde ou com dificuldades para a prestação da assistência por causa da desconfiança dos índios com as novas e inesperadas doenças e suas conseqüentes fugas dos locais de contato, convivência e assistência à saúde. Nos últimos 40 anos de contatos verificam-se altos índices de mortandade entre quase todos os povos contatados, como os Panará, os Guajá, Avá-Canoeiro, Assurini, Parakanã, Araweté, Waimiri-Atroari, Arara, Kararaô, Txikão (Ikpeng), Cintas-Largas, Suruí, Zoró, Zuruahá, Kanamari, Zoé, Yanomami, Waiãpi, Kanoé, Akuntsu, Uruweuwauwau, e, se algum foi esquecido, também este deve ter sofrido perdas demográficas imensas. Algumas dessas perdas ultrapassaram a faixa de 50% de sua população nos primeiros dois ou três anos. No entanto, afortunadamente, como em vários casos do tempo de Rondon, passados alguns anos, muitos desses povos contatados pararam de perder população e se encontram em franco processo de crescimento tendo recuperado seu efetivo demográfico original e se expandido, exceções em destaque.

O que significa tudo isso? Que, mesmo em condições de conhecimento adquirido e experimentado sobre as conseqüências mortíferas do contato, este nunca se deu em boa paz e sem quedas demográficas, a não ser em casos de pequenos grupos que fazem parte de grupos maiores já contatados. Aí a presença de parentes já contatados ajuda aos recém-contatados a entender o mundo dos brancos, especialmente de suas doenças.

Quer dizer também que o indigenismo rondoniano em relação aos povos que contatou não provocou as mortes que aconteceram por desleixo ou indiferença, como seus detratores atuais sugerem, mas sim, por incapacidade do indigenismo --e, lato senso, da sociedade brasileira e além, da civilização ocidental-- de resolver os problemas das primeiras semanas e meses de relacionamento, onde uma confiança mútua tem que ser construída para que medicina seja ministrada aos moldes ocidentais, inclusive com capacidade de antecipar epidemias e levar a cura (milagrosa, por incompreensível) no calor da agonia e desespero dos índios acometidos de doenças desconhecidas. Tal incapacidade prevalece hoje em dia, e nenhum indigenista de boa cepa se arrisca a fazer um contato esporádico com um povo indígena. Durante minha gestão de três anos e meio como presidente da Funai evitamos de todos os modos contato com povos indígenas autônomos, mesmo aqueles que já tinham parentes contatados, como os Guajá.

Reconheçamos que há várias pressões para se contatar povos autônomos. A principal, por ser a mais urgente, é quando um segmento de um povo autônomo entra em contato espontaneamente com algum segmento de uma frente de expansão, seja agrícola, madeireira, ou de caçadores. A segunda é quando se ouve dizer que algum grupo brasileiro atacou uma aldeia ou um grupo de índios autônomos. A terceira é quando se sabe que há segmentos de frente de expansão por toda uma área em que se conhece a presença de índios autônomos.

Em qualquer desses casos, há que se tomar providências. No caso terceiro, pode-se protelar o contato tentando proteger o povo em causa. A proteção se dará, em primeiro lugar, pela delimitação de um determinado território como sendo do povo indígena autônomo; em segundo lugar, demarcando esse território in loco; em terceiro lugar, obtendo força policial efetiva (Polícia Federal ou Florestal) para retirar e/ou impedir intrusos de invadir esse local e entrar em contato com o povo em causa. Em todos esses pontos o risco é grande, o medo de que não dê certo maior ainda. Mas é uma estratégia que tem dado certo há alguns anos, pois os contatos têm sido evitados. Nos dois primeiros casos mencionados de urgência aí a necessidade leva á formação de equipes de contato, com todas as dificuldades de ter as pessoas adequadas e a melhor estratégia para o contato e, sobretudo, o pós-contato. Eventualmente diversos povos indígenas autônomos serão contatados nos próximos anos e, além da competência dos indigenistas, do trabalho sério, da formação de equipes, das retaguardas financeiras e assistenciais, há que se contar com a boa sorte.
 
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