sábado, 21 de novembro de 2009

Drops indigenistas -- 16

1. Estudantes da Universidade Federal do Grande Dourados fizeram uma bela e inusitada manifestação de solidariedade e desagravo pela morte do índio Guarani Genivaldo Verá. Há muito tempo que não vejo o movimento estudantil fazendo algo mais humano do que manifestações por causas próprias.

O corpo de Verá foi achado boiando num rio já em estado de deterioração, mas os parentes logo reconheceram de quem era. No laudo cadavérico viu-se que tinha uma perfuração no tórax. A Polícia agora tem o problema de descobrir como ele morreu.

Para os índios Guarani, que tinham invadido uma fazenda e dela foram expulsos por seguranças e pela Polícia Militar, não há dúvidas da origem do assassinato de Verá. Resta mais um sofrimento para os Guarani do Mato Grosso do Sul.


2. Enquanto isso, o governador André Puccinelli, preocupado com as repercussões, declara que tinha avisado que as coisas estavam tensas entre fazendeiros e índios. Será que ele está tentando justificar o assassinato de Verá pelo seu aviso?

O governador fica dizendo que os Guarani necessitam de terras para viver e plantar, mas o que ele faz? Por acaso já conseguiu alguma terra para os Guarani?


3. O desespero dos Guarani é tal que, na sexta-feira p.p. recorreu a uma benção ao ex-governador Zeca do PT para que este intercedesse junto ao Ministério da Justiça para demitir a administradora da AER da Funai de Dourados. Há anos que um grupo de Guarani se incompatibilizou com essa senhora. Agora, a situação é quase unânime. Um grupo de mais de 300 índios fazem vigília na Praça em frente à sede da Funai para ela sair. Já invadiram várias vezes a sede, são retirados e voltam a invadir.

Por que tanto sofrimento de parte a parte? A administradora Margarida já disse que entregou o cargo, mas a atual gestão da Funai não a libera. Quanto agonia a mais.


4. No Ceará, uma notícia boa. O Tribunal Regional Federal, 5ª Região, liberou a Funai para proceder aos estudos de identificação de uma terra indígena para os índios Tremembé. Os estudos tinham sido iniciado há alguns anos, quando eu era presidente da Funai, mas estavam embargados desde 2006.

A disputa dos Tremembé é por uma faixa de terra litorânea, num distrito de Itapicoca chamado Marinheiros, no litoral norte do Ceará. Um grupo de espanhois e o ex-governador Tasso Jereissati alegam que compraram essa terra e pretendem aí construir um grande hotel-resort. Acho que os Tremembé vão ganhar a parada.


5. Em acordo com a Funai, o Ministério Público e os índios Tapeba, foi liberado o licenciamento de construção uma larga e potente rodovia, junto com um trecho de uma ferrovia, em uma faixa de terra que atravessa a terra indígena dos Tapeba. A rodovia ligará o Porto do Pecém a Fortaleza, enquanto a ferrovia sairá rumo a Pernambuco e Alagoas, a chamada Transnordestina.

Parece que os Tapeba ficaram satisfeitos com o acordo. Não sei se os Anacé foram incluídos no acordo, já que, de certo modo, a rodovia e a ferrovia passam também por uma faixa de terras que eles estão pretendendo que a Funai reconheça como indígena.. Talvez este acordo propicie aos Tapeba a renovação do processo de demarcação de sua terra indígena, que está trancada, como tantas outras, no TRF, 5ª Turma.


6. Na próxima semana, os Kayapó estão chegando a Brasília para fazer seu protesto contra a construção da Usina de Belo Monte. Já fizeram um protesto em sua aldeia Piaraçu, no rio Xingu, onde ameaçaram interromper a travessia de carros e caminhões no rio Xingu. A barcaça que faz a travessia é administrada e controlada pelos próprios Kayapó, que auferem lucro razoável. O protesto surtiu efeito no meio ambientalista e indigenista, mas a imprensa não deu muita bola. Parece que considera que o licenciamento de Belo Monte são favas já contadas.


7. O MEC está patrocinando uma grande conferência de educação indígena na cidade de Luiziânia, perto de Brasília. Mais de 500 delegados indígenas estão presentes. Porém, ao contrário do planejado, os protestos internos são muito grandes. Poucos estão satisfeitos com o que se desenrola nessa conferência. Na quarta-feira, um grupo de índios do Nordeste lançou um manifesto contestando o estabelecimento dos tais "territórios etno-educacionais", por não terem supostamente sido discutidos a fundo com todos os grupos. Porém há muitas outras dúvidas de concepção.

A nota mais estranha em relação a educação indígena é que a atual gestão da Funai, que ajudou a patrocinar essa conferência, pretende fazer uma reestruturação em que acaba com os últimos resquícios de educadores no órgão. Toda a educação que ainda há na Funai, todos os anos de experiência e experimentações, de convívio e conhecimento com a pedagogia indígena, seriam apagados ou, supostamente, passariam para o MEC e para as secretarias estaduais e municipais. A Funai ficaria mais capenga do que está.

Acho que as lideranças indígenas de raiz ainda não entubaram esse plano. Muitos ainda querem que a educação indígena seja federalizada. Eu também. Mas o MEC não quer nem ouvir falar nisso.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Foto de Acampamento de madeireiro na Terra Indígena Alto Guamá

Acampamento de Madeireiro na Terra Indígena Alto Guamá, dos índios Tembé-Tenetehara
Estado do Pará



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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Índios Tikuna, na fronteira com Colômbia, criam polícia/milícia indígena

Está muito estranha e ainda muito mal contada essa história de que índios Tikuna, que vivem em uma terra indígena, Umairi, perto de Letícia, quase como um arrabalde da cidade, tenham criado uma espécie de polícia própria para proteger suas aldeias de seus próprios patrícios.

A reportagem de Kátia Brasil, da Folha de São Paulo, traz novas informações. Alguns dias atrás, houve uma entrevista com o secretário de assuntos indígenas do Amazonas, Jecinaldo Barbosa, que declarou ser a favor dessa polícia. Por sua vez, o secretário de segurança rebateu que era ilegal.

Uma questão que ninguém investigou: Quem está financiando os índios como policiais? Será mesmo a FARC colombiana, junto com seu braço traficante? Aí a coisa fica perigosa. Se não forem eles, quem poderia ser?

Até agora, como sempre, a Funai não diz se é a favor ou tolera esse tipo de autonomia, muito pelo contrário. E a confusão rola sem intervenção do órgão indigenista.

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Milícia indígena quer armas e patentes
Ticunas pedem à Procuradoria aval para que seus "policiais" se tornem servidores públicos e possam usar armas de fogo

Procurador negou permissão para uso de armas, mas disse que as outras reivindicações devem ser discutidas pela Procuradoria em Brasília 


Alberto César Araújo - 12.nov.09/Folha Imagem
"Policiais" indígenas revistam homem em Tabatinga (AM)

KÁTIA BRASIL
DA AGÊNCIA FOLHA, EM MANAUS 

Índios ticunas que montaram milícias no Amazonas enviaram ao Ministério Público Federal no Estado pedido de aval para que os "policiais indígenas" se tornem servidores públicos, recebam salários e possam usar armas de fogo.


Folha revelou anteontem que a Polícia Federal investiga dois assassinatos e abusos atribuídos às milícias e o suposto treinamento delas por membros das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Os índios criaram as milícias neste ano, sob a alegação de que combatem o consumo de álcool e o tráfico de drogas nas aldeias do oeste do Amazonas.

No documento enviado à Procuradoria, intitulado "Estatuto Único da Polícia Indígena do Alto Solimões", os ticunas pedem aval para que a organização seja oficializada, com criação de cargos públicos e remuneração para os "policiais" custeada pelo governo federal.

Querem ainda utilizar patentes militares como soldados, cabos e sargentos.

Em resposta já enviada aos índios, o procurador da República em Tabatinga (AM), Juliano Gasperin, negou a autorização para uso de armas de fogo. Mas disse que as outras reivindicações devem ser discutidas pela 6ª Câmara do Ministério Público Federal (que trata de povos indígenas e minorias), em Brasília.

Gasperin disse à Folha que a Procuradoria vai enviar um antropólogo à fronteira com a Colômbia e o Peru para ouvir índios brasileiros sobre a "polícia indígena". Ele afirmou que é prematuro chamar a organização de milícia armada, como faz a Polícia Federal.

"Não vejo assim, é prematuro nesse momento. Essa questão da polícia indígena deverá ser objeto de complexo estudo pericial na área de antropologia, mas ainda não temos prazo para conclusão do estudo."

Em relação ao inquérito da PF para investigar os supostos crimes e o treinamento pelas Farc, Gasperin afirmou que a possível ligação com os guerrilheiros, "se realmente existir, será averiguada pelo Ministério Público Federal".

Os índios alegam que criaram as "polícias" porque a Polícia Federal e a Funai não impediam a alta incidência de crimes na região.

PF e Funai negam e dizem que as milícias são ilegais.

Xavante se decepcionam com pedido de vistas do TRF 1ª Região

Os Xavante da Terra Indígena Maraiwatsede tiveram um momento de alegria, ontem à tarde, em Brasília, quando o relator do processo de contestação movido por posseiros sobre aquela terra indígena apresentou seu voto favorável à legitimidade dos Xavante e a consequente ordem de remoção dos posseiros. Entretanto, a decepção veio em seguida com um pedido de vistas feito por outro desembargador. Uma lástima!

O processo vai se arrastar por mais alguns meses, quem sabe, lá para março ou abril do ano que vem, o que vai aumentar a tensão na área.

Com isso os posseiros vão se aproveitar para derrubar mais mata, de uma área que já sofreu muito com desmatamento. Os Xavante recuperaram sua terra em julho de 2005, depois de um trabalho heroico de suas lideranças e do seu povo, com a ajuda de equipes dedicadas da Funai. Ocupam atualmente tão só cerca de 40.000 hectares, dos 162.000 hectares que foram demarcados e homologados há mais de 10 anos. (Ver notícia logo abaixo, e outras sobre os Xavante)

Acho que os Xavante não vão suportar tanto descaso da Justiça e tanta aleivosia por parte dos invasores de suas terras.

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Julgamento da Terra Indígena Maraiwatsede é suspenso

Agência Brasil


Brasília - O desembargador federal João Batista Moreira pediu vista do processo que julga o recurso de fazendeiros posseiros contra a desocupação da reserva indígena Maraiwatsede no norte de Mato Grosso.

O pedido de vista ocorreu após a declaração do voto do relator do processo no Tribunal Regional Federal 1ª Região, juiz federal Pedro Francisco da Silva, favorável aos indígenas e contrário aos posseiros.

O julgamento deverá ser retomado no início do próximo ano. Além do desembargador João Batista, ainda deve votar a desembargadora Maria do Carmo Cardoso, da 5ª turma do TRF1.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

MEC debate educação indígena. Direção da Funai pretende extinguir educação indígena no órgão

Inicia-se hoje a Conferência Nacional de Educação Indígena, promovida pelo MEC. Após diversas reuniões regionais, com participação de muitas lideranças e professores indígenas, esta Conferência vai discutir, espero, os rumos da educação indígena atualmente implantada no Brasil.

Por coincidência, a atual gestão da Funai está preparando uma reestruturação em que a Coordenação de Educação do órgão vai ser extinta.

Pode??


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Lideranças debatem educação indígena em conferência nacional


A qualificação de professores e a adequação da infraestrutura das escolas são hoje os maiores desafios para levar o ensino fundamental às populações indígenas, de acordo com o coordenador-geral de educação indígena da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad) do Ministério da Educação (MEC), Gersem Baniwa.
O país tem hoje cerca de 2,6 mil escolas para uma população de mais de 200 mil indígenas. Dos 12 mil professores de áreas indígenas, 36% pertencem às comunidades. Segundo Baniwa, a maioria dos docentes precisa de aperfeiçoamento adequado para compreender e implementar características interculturais.
O especialista lembra que, há alguns anos, os professores davam aulas em português para um público que preferia falar a língua nativa e esse era um dos motivos para que os alunos não conseguissem aprender. Ele afirma que os educadores, em vista da realidade cultural desse público, têm que primeiro educá-los na sua língua para depois então alfabetizá-los na língua portuguesa.
Baniwa acredita que a realização da 1ª Conferência Nacional de Educação Escolar Indígena (Coneei), que tem início nesta segunda-feira, 16 de novembro, em Luziânia (GO), é um marco histórico uma vez que discutirá as reivindicações das comunidades - que já fizeram 18 conferências regionais para pautar seus interesses na área de educação. O evento reunirá especialistas, educadores e comunidades indígenas de todo o país e se estenderá até a sexta-feira, 20 de novembro, com a presença de 600 delegados, que representam 210 povos.
O trabalho direcionado aos índios é feito pelo MEC com apoio da Fundação Nacional do Índio (Funai). A educação indígena, hoje, segundo o professor, abandonou a visão integracionista do passado e procura dar foco na valorização das culturas.
Segundo Baniwa, já foi possível avançar significativamente na qualidade do material didático específico, entretanto, é preciso "melhorar mais pois os avanços dos últimos anos vêm em contraponto a centenas de anos em que os índios não contavam com apoio educacional". O fornecimento de material didático específico para indígenas é uma das grandes reivindicações dos povos tradicionais.
O coordenador destacou que o ministro da Educação, Fernando Haddad, está organizando um programa que pretende levar educação volante, em barcos, para populações nômades que se deslocam de suas aldeias sazonalmente, procurando sustento de acordo com a propensão de cada lugar ao longo do ano. A ideia é construir barcos que atendam às populações que se dedicam ao extrativismo da castanha, da piaçava ou que mudam de local quando os rios estão cheios.

sábado, 14 de novembro de 2009

Índios Xavante lutam pela Terra Indígena Maraiwatsede

Os Xavante da Terra Indígena Maraiwatsede estão necessitando de ajuda e apoio para continuar sua luta em defesa de sua terra demarcada, homologada e retomada em 2005.

Estou com os Xavante e não abro. Quem puder, inscreva-se para ajudá-los. A Terra Indígena Maraiwatsede é fruto da persistência do povo Xavante que de lá foi expulso em 1967 por meio de aviões que os levaram para outras terras indígenas. No processo de tentar se adpatar em outros lugares os Xavantes passaram por umas poucas e boas. Inclusive a morte por sarampo de mais de 40 pessoas, em duas semanas, logo que chegaram a outra terra Xavante.

Por largos anos, grupos de Xavante iam àquela terra rica e fértil, de onde foram retirados pela Fazenda Suiá-Missu, e tentavam obtê-la de volta. Por fim, durante a Conferência Internacional de Meio Ambiente no Rio de Janeiro, a RIO 92, a empresa italiana que havia comprado essas terras resolveu devolvê-la. Só que antes os gerentes avisaram aos políticos e espertalhões da região de Alto da Boa Vista que a terra estava sem dono. Ora, com isso, dezenas de pessoas entraram na terra e os mais espertos cortaram grandes lotes para si.

Com muito esforço, com a insistência ininterrupta dos Xavante, que jamais deixaram o fato de lado, indigenistas e antropólogos conseguiram convencer a Funai e o governo a demarcá-la, mesmo estando invadida por dezenas de posseiros e fazendeiros.

Os Xavante, inclusive a nova geração que nasceu em outras terras indígenas, continuaram a voltar todos os anos, mas os fazendeiros não os deixavam entrar. Até que, quando entrei na Funai, em setembro de 2003, me comprometi com os Xavante a ficar ao lado deles e enviar pessoas de grande força e caráter indigenista para estar ao seu lado. A equipe de Edson Beiriz, junto com o apoio de Claudio Romero, esteve ao lado dos Xavante até eles obterem uma liminar do STF para entrar na sua área. Um fazendeiro abriu mão de sua pretensão e foi aí que os Xavante entraram.

A Terra Indígena Maraiwatsede está demarcada e homologada. Entretanto, os fazendeiros, apoiados por alguns políticos muito importantes, continuam a desafiar a lei. Até uma terra foi comprada pelo Incra para abrigar os pequenos posseiros que saiam voluntariamente. É a chamada Fazenda Bordolândia.

O video abaixo mostra a luta dos Xavante, mas também mostra um certo desvio de atenção em prol dos invasores. Apenas o procurador Mário Lúcio é chamado para depor. Por que não puseram os líderes Xavante para falar de sua luta e demonstrar seus direitos? Cadê o Damião, o grande cacique Xavante?

Alta Comissária da ONU diz que Brasil atola índios na pobreza

Sempre me causa um certo espanto e mal-estar quando alguém da ONU visita o Brasil e produz um relatório sobre o que viu e o que ouviu. As análises sempre me parecem simplórias, embora verdadeiras. Meu mal-estar se deve à ligeireza com que as conclusões são emitidas. Parece que estão fora do contexto ou fora da história.

Enfim, por mais que seja verdadeiro, a atitude da Alta Comissária da ONU me deixa perplexo. Confesso que não gosto de ouvir de estrangeiros aquilo que só a nós brasileiros cabe resolver. Isto porque nós brasileiros sabemos muito bem o que se passa entre nós. A grande questão é: por que não fazemos nada a respeito? Ou, por que o que fazemos não é suficiente?

Eis minha inconformação com o modo em que vivemos e atuamos politicamente.

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Afro-brasileiros e indígenas estão "atolados" na pobreza, diz alta-comissária da ONU

Paula Laboissière
Repórter da Agência Brasil

 

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Elza Fiúza/ABr
Brasília - A alta-comissária da ONU para Direitos Humanos, Navanethem Pillay, cumprimenta o Capitão Potiguar, que apresentou relatório sobre a situação dos povos indígenas no Brasil
Brasília - A alta-comissária da ONU para Direitos Humanos, Navanethem Pillay, cumprimenta o Capitão Potiguar, que apresentou relatório sobre a situação dos povos indígenas no Brasil
Brasília - A alta-comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para Assuntos de Direitos Humanos, Navanethem Pillay, voltou a criticar hoje (13), em seu último dia de visita ao Brasil, a situação de negros e indígenas no país. Ambas as populações, segundo ela, estão “atoladas” na pobreza, além de não ter acesso aos serviços básicos e nem a oportunidades de emprego.

Durante entrevista coletiva, Pillay se referiu à questão dos povos indígenas como invisível e lembrou que, de todos os funcionários federais e estaduais que conheceu durante a visita, nenhum deles tinha origem indígena. Para a alta-comissária, o fato serve como um indicativo de uma contínua marginalização.

“A maior parte dos povos indígenas do Brasil não está se beneficiando do impressionante progresso econômico do país e está sendo retida na pobreza pela discriminação e indiferença, expulsa de suas terras na armadilha do trabalho forçado.”

Em relação aos negros, Pillay ressaltou que a violência aparece como uma das principais causas de morte no grupo. Ela insistiu que há, no Brasil, uso excessivo de força tanto de agentes policiais quanto de milícias. “Até que isso mude, a situação vai prejudicar o progresso do Brasil em muitas outras frentes.” A alta-comissária retorna hoje para Genebra, na Suíça, após uma visita de três dias a cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Brasília. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Índio Kaxinawá declara que vai fazer contato com povo indígena autônomo na fronteira com Peru

Notícia preocupante esta que vem abaixo. Um índio Kawinawa, Siã Kanabixi, do Acre, declara que pretende fazer contato com um povo indígena autônomo que vive na fronteira do Acre com o Peru.

A matéria é ambígua: parece que ele vai fazer parte de uma expedição da Funai, substituindo um avô, que já está velho. A expedição está preparada para começar na segunda semana de dezembro. Por outro lado, o teor de sua entrevista é como se ele estivesse pronto para começar uma missão por conta própria.

De qualquer forma, estranha que o repórter não tenha ideia sobre essa expedição, nem tenha falado do indigenista José Carlos Meirelles, que é o representante da Funai em relação a povos autônomos.

A Funai precisa esclarecer essa questão. Preparar tal expedição vai necessitar de muito tempo. Sabemos que a Funai está preparando uma tal expedição de levantamento de povos autônomos no Vale do Javari, mas não sabíamos dessa expedição no Acre.

PS 20:17

Em email enviado, o indigenista José Carlos Meirelles diz, literalmente:

Tá bom da Funai mandar prender esse cara! Isso é tão Kaxi quanto eu sou Chines!!!

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Exclusivo: Índio Kaxinawá vai fazer contato com tribos isoladas
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Índio revelou a missão em visita feita ao Estado do Maranhão. Ele conduzirá a segunda missão com vistas aos contatos com tribos isoladas.

De passagem por São Luís o jovem pajé Siã Kanabixi, 23 anos, que representa a Cultura do Povo Hunikuin (Kaxinawá), localizado no estado do Estado do Acre, falou da importante missão que vai realizar no próximo dia 9 de dezembro.  Ele conduzirá à segunda expedição da Frente de Contato com os Índios Isolados da Fundação Nacional do Índio (Funai), que estão localizados na região do Alto Humaitá, fronteira com o Perú.

"Essa é uma função muito importante para a qual fui escolhido. Trata-se de um crescimento espiritual para minha vida. Espero que eles sejam mais uma família indígena, pela qual poderemos trocar conhecimentos, informações e nos unir por nossa causa. São seres humanos, e por uma falta de comunicação podem ser extintos", disse Kanabixi.

Esses índios, que até agora não foram identificados pela Funai, dispararam flechas contra o monomotor fretado pelo governo do Acre em maio do ano passado (2008).  O objetivo da passagem do avião era fotografá-los do alto, uma vez que o contato direto com eles estava sendo agressivo, chegando a disparar flechas com veneno na ponta das lanças. Há registro da presença deles na região desde 1910.

Os índios que vivem na fronteira do Acre com o Peru estão sob ameaça de morte por parte de outras etnias. A Funai não sabe se são peruanos ou brasileiros, o que pode gerar um problema diplomático entre os dois países. São nômades, vivem nus, em ocas e ainda usam arcos e flechas. Seus roçados são cheios de plantação de macaxeira, milho, algodão, banana, cana, batata, mamão, urucu e possíveis outras variedades que não são detectáveis nas fotos. São seis malocas e pode-se afirmar que desde o primeiro sobrevôo, ocorrido há vinte anos, estes índios não dobraram de população.

Siã Kanabixi vem se preparando espiritualmente para esse encontro, pois conta com a ajuda do seu avô, Tuã, de 100 anos de idade, o pajé mais antigo de sua aldeia.

"Meu avô falou que eu podia ir e que nada ia acontecer comigo. Na expedição, ele ficará na última aldeia, próximo ao local onde os índios isolados estão. Fiz minha iniciação de pajé com ele, por meio de rituais com a ayahuasca, e estou preparado. Aos 12 anos de idade, tinha ido à primeira expedição, com meu tio Xané, agora, como ele não pode ir, fui convocado pela Funai para fazer o contato direto com eles.", explicou.

Jairo Carioca - Js.carioca@hotmail.com
Com informações de gedeon3.3@gmail.com

Desmatamento da Amazõnia é o mais baixo dos últimos 30 anos

O desmatamento da Amazônia entre agosto de 2008 e julho de 2009 foi apurado pelo INPE como o mais baixo da história recente da expansão agropastoril e de exploração da madeira.

Cerca de 7.000 km2 foram desmatados, sendo que os estados do Pará e do Maranhão se destacaram mais. O Mato Grosso e Rondônia diminuíram consideravelmente.

O presidente Lula, o ministro Minc, do Meio Ambiente e a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do governo a presidente, estão tentando demonstrar ao público nacional e internacional que este foi um feito "extraordinário", como costuma se expressar o presidente Lula nesses momentos.

Sem dúvida, foi uma queda substantiva e vale ser comemorada. De quem é o mérito desse feito é outra história. É curioso que o desmatamento de modo geral tenha caído tanto, coincidentemente, depois da saída da ministra Marina Silva do MMA. Por que? Alguma correlação entre sua política, as atitudes de seus auxiliares, versus a política do ministro Minc e as atitudes de seu grupo?

Será que essa queda se deve a uma diminuição da expansão agropastoril? Dá para se saber isso agora ou em pouco tempo? O presidente Lula levará esses dados como um trunfo para a reunião de Copenhague? A ministra-candidata vai destronar o ambientalismo representado pela ex-ministra Marina?

Apesar dos números pequenos em comparação com anos anteriores, há que se preocupar com o fato de o Maranhão, que tem tão poucas terras de floresta, tenha perdido quase 1.000 km2 de florestas. As últimas que restam a esse estado, dois terços do qual é formado por cerrados e caatingas, estão na sua parte oeste, precisamente onde vivem os índios Guajá e Urubu-Kaapor. Só espero que os desmatadores não tenham feito estragos naquelas terras indígenas.

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Amazônia tem menor desmatamento desde 1988, Inpe registrou 7 mil km² de devastação 

Luana Lourenço
Repórter da Agência Brasil

 




Brasília - Entre agosto de 2008 e julho de 2009, a Amazônia perdeu 7 mil quilômetros quadrados (km²) de floresta. É a menor taxa anual de desmate já registrada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), desde o início do levantamento em 1988.

O número, que superou as expectativas do governo – que previa 9 mil km² –  foi divulgado hoje (12) pelo diretor do Inpe, Gilberto Câmara. “É uma queda substancial. De longe a menor [taxa] desde que o Inpe começou a observação”, afirmou durante apresentação dos dados ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ministros e governadores de estados da Amazônia.

A taxa é calculada pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento na Amazônia Legal (Prodes), que utiliza satélites para observação das áreas que sofreram desmatamento total, o chamando corte raso. O menor índice registrado até agora era o de 1991, quando os satélites identificaram 11,03 km².

Em relação ao período anterior (agosto de 2007 a julho de 2008), quando o desmatamento atingiu 12,9 km², a queda foi de 45%.

“É um momento de muita alegria constatar que o esforço da sociedade brasileira de conter o desmatamento da Amazônia chegou a um nível muito satisfatório”, afirmou Câmara.

O Inpe registrou queda em quase todos os estados da Amazônia. Em Mato Grosso e no Pará, tradicionalmente líderes dos rankings de desmatamento mensais, a queda foi de 65% e 35%, respectivamente. Em Rondônia, a queda foi de 55%.

Apesar da redução, o Pará foi o estado que mais desmatou no período, com 3.680 km², seguido por Mato Grosso, com 1.047 km² , e pelo Maranhão, com 980 km² a menos de florestas.

De acordo com o Inpe, a margem de erro da estimativa anual de desmatamento é de 10%, ou seja, pode resultar em uma variação de 700 km² para ou mais ou para menos quando os dados forem consolidados.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Índios Munduruku se manifestam contra usinas no Rio Tapajós

O povo indígena Munduruku, que vive no médio e alto Rio Tapajós, na sua belíssima terra com pouco mais de 2.000.000 hectares, vem de público se manifestar contra os objetivos do governo federal de criar uma série de hidrelétricas naquele rio e em alguns de seus afluentes.

A decisão é forte. Segue os termos da Carta Aberta dos Kayapó contra a Usina Belo Monte.

O fato é que os índios não aceitam mais imposições de desenvolvimento sem sua participação. Criar os empreendimentos e apresentá-los como fatos consumados não bate mais com a realidade indígena e sua consciência de mundo

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O grito dos Munduruku contra as barragens no Rio Tapajós

Local: São Leopoldo - RS
Fonte: IHU - Instituto Humanitas Unisinos
Link: http://www.unisinos.br/_ihu/ 



"Não somos peixes para morar no fundo do rio, nem pássaros, nem macacos para morar nos galhos das árvores.  Nos deixem em paz", clamam os índios Munduruku, em carta ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra a construção de cinco hidrelétricas na bacia do rio Tapajós.

Recebemos de Edilberto Sena, padre, coordenador da Rádio Rural de Santarém, a carta de protesto da etnia Munduruku ao Presidente da República contra a construção de cinco mega hidrelétricas na bacia do Rio Tapajós.  Segundo Edilberto Sena, que escreve do meio da floresta amazônica, (11 horas de voadeira e mais cinco de microônibus) "na Missão Cururu, entre os índios Munudukus, depois de dois dias de encontro sobre a desgraça do projeto Complexo Tapajós do governo Lula".  A carta, narra Edilberto Sena, foi elaborada "por vários jovens que concluíram a 8ª série escrveram e escreveram o esboço que voi corrigido pelo plenário de cerca de 150 pessoas e votado e assinado por vários caciques e lideranças".

Eis a carta.


Missão São Francisco do Rio Cururu 06 de novembro de 2009

Exmo.  Senhor Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva Exmo.
Senhor Ministro das Minas e Energia, Edson Lobão e demais
Autoridades responsáveis pelo setor energético do Brasil.

Nós comunidade indígena, etnia Munduruku, localizada nas margens do Rio Cururu do Alto Tapajós, em reunião na Missão São Francisco, nos dias 5 e 6 de novembro, viemos por meio deste manifestar à vossa excelência nossa preocupação com o projetof ederal de construir cinco barragens no nosso Rio Tapajós e Rio Jamanxim.

Para quem vai servir?  Será que o governo quer acabar todas as populações da bacia do Rio Tapajós?  Se apenas a barragem de São Luis for construída vai inundar mais de 730 Km².

E daí?  Onde vamos morar?  No fundo do rio ou em cima da árvore?

Aximãyu’gu oceju tibibe ocedop am.  Nem wasuyu, taweyu’gu dak taypa jeje ocedop am.  (não somos peixes para morar no fundo do rio, nem pássaros, nem macacos para morar nos galhos das árvores.  Nos deixem em paz.  Não façam essas coisas ruins.  Essas barragens vão trazer destruição e morte, desrespeito e crime ambiental, por isso não aceitamos a construção das barragens.  Se o governo não desistir do seu plano de barragens, já estamos unidos e preparados com mais de 1.000 (mil) guerreiros, incluindo as várias etnias e não índios.

Nós, etnia Munduruku queremos mostrar agora como acontecia com os nossos antepassados e os brancos (pariwat) quando em guerra, cortando a cabeça, como vocês vêem na capa deste documento.  Por isso não queremos mais ouvir sobre essas barragens na bacia do Rio Tapajós.  Por que motivo o governo não traz coisas que são importantes para a vida dos Munduruku, para suprir as necessidades que temos, como educação de qualidade, ensino médio regular, escola estadual, posto de saúde, etc.

Já moramos mais de 500 anos dentro da floresta amazônica, nunca pensamos destruir, porque nossa mata e nossa terra são nossa mãe.

Portanto não destruam o que guardamos com tanto carinho.

TRF 1ª Turma, de Belém, cassa liminar que suspendia licenciamento da Usina Belo Monte

Durou pouco a alegria pelo fato de um juiz federal em Altamira, no Pará, ter suspendido liminarmente o licenciamento da Usina Belo Monte, por petição do Ministério Público Federal.

O Tribunal Regional Federal, 1ª Turma, de Belém, instituição hierarquicamente acima do Juiz Federal, cancelou aquela liminar e liberou uma vez mais o processo de licenciamento e portanto de licitação da referida usina.

A AGU e a Procuradoria do IBAMA foram os responsáveis pelo pedido de revisão da liminar ao TRF 1ª Turma.

E agora? Travar-se-á uma nova batalha de liminares? Haverá novas movimentações por parte do movimento contrário?

Todo esse movimento de última hora deveu-se à decisão dos Kayapó do Mato Grosso, sob a liderança de Raoni Metuktire, de se posicionar firmemente contra a anuência dada pela atual gestão da Funai, de modo intempestivo e irresponsável, ao empreendimento.

Os Kayapó chamaram para si a responsabilidade pelo protesto, convocaram uma grande reunião com lideranças indígenas de todo o vale do Xingu, tiveram o apoio de diversas Ongs nacionais e internacionais, também da Igreja Católica, via Dom Erwin Krautler, elaboraram uma Carta Aberta de clareza ímpar sobre sua visão e seus intentos, e divulgaram-na via internet e ao vivo. Uma comissão foi recebida pelo Assessor para Questões Indígenas do presidente Lula, Paulo Maldós, com promessa de entregar a Carta ao presidente Lula. As associações indígenas se reuniram para tomar partido em favor do cancelamento da anuência da Funai. Aliás, estão em regime de "gabinete de emergência", discutindo todos os aspectos envolvidos nesse processo, sobretudo em relação à Funai.

Mas, parece, está tudo dominado pelo Judiciário. E o Executivo está exultante.

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TRF derruba liminar que suspendeu licenciamento de Belo Monte - 12/11/2009

Local: Brasília - DF
Fonte: Agência Brasil - EBC
Link: http://www.agenciabrasil.gov.br/ 



Luana Lourenço


O Tribunal Regional Federal da 1° Região (TRF-1) derrubou hoje (11) a liminar concedida pela Justiça Federal em Altamira (Pará) que suspendia o licenciamento da Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu.  Em decisão na noite de hoje, o TRF-1 acolheu o pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) para manter o processo de licenciamento da usina.

A liminar determinava a suspensão do licenciamento até a realização de novas audiências públicas para ouvir as comunidades que serão atingidas pelo empreendimento.  A paralisação poderia comprometer o prazo do governo para o leilão da hidrelétrica.  O Ministério de Minas de Energia marcou o leilão para o dia 21 de dezembro.  Para que o edital seja publicado, é necessária a licença do Ibama.

Com a derrubada da liminar que travava o licenciamento, a licença prévia deve ser assinada nas próximas semanas.  O pedido da AGU foi feito em conjunto com a Procuradoria do Ibama.

Principal empreendimento energético do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Belo Monte terá potência instalada de 11 mil megawatts, a segunda maior do Brasil, atrás apenas da Hidrelétrica de Itaipu, no Rio Paraná, que tem 14 mil megawatts.

A polêmica sobre Belo Monte, que vem sendo criticada por organizações ambientalistas e comunidades tradicionais, deverá ser um dos temas da reunião que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará amanhã (12) com os ministros para discutir a construção de hidrelétricas.

Edição: Aécio Amado 
site: Amazonia.org.br

terça-feira, 10 de novembro de 2009

COIAB exige retirada da anuência da Funai a Usina Belo Monte

Finalmente a Coiab vem de público tomar posição a favor do movimento dos Kayapó e outros povos indígenas do Xingu contra o licenciamento dado de mão beijada pela atual direção da Funai a favor da Usina Belo Monte.

Na nota abaixo a Coiab cita a Convenção 169, que fala explicitamente sobre a necessidade de consultar previamente povos indígenas sobre qualquer empreendimento que afete sua vida, sua cultura ou suas terras. Poderia falar também da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas e até do Estatuto do Índio, que também não permite desleixo da autoridade indigenista em relação a interesses fundamentais dos índios. Fala também da visão contrária a Belo Monte da parte de um número expressivo de cientistas que vêm estudando esse projeto energético. Por fim, conclama o presidente da Funai a retirar sua anuência ao projeto. Deixa-o de saia justa, já que deu essa anuência sem consultar nem os índios diretamente afetados, nem o movimento indígena.

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NOTA DA COIAB CONTRA A CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRÉLETRICA DE BELO MONTE




NOTA DE REPUDIO CONTRA A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE


A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), organização representativa e articuladora dos povos indígenas desta região, criada para defender e promover os seus direitos, vem a público manifestar veementemente sua indignação contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que o Governo do Presidente Lula quer implantar a qualquer custo, violando integralmente as normas ambientais do país, os direitos dos povos indígenas garantidos na Constituição Federal vigente e na legislação internacional (Convenção 169 OIT e Declaração da ONU) da qual o Brasil é signatário. O empreendimento, segundo especialistas, é inviável do ponto de vista econômico, ambiental, social e cultural, pois poderá gerar impactos irreversíveis na flora, na fauna, na biodiversidade, e, sobretudo, na vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem na área de abrangência da usina.


Em razão desses fatos, a COIAB assume os termos da “Carta de Repúdio à Construção da Hidrelétrica de Belo Monte”, apresentada na manifestação ocorrida nos dias 29 de outubro a 03 de novembro na Aldeia Piaraçu, da terra indígena Kapot/Jarina, no norte de Mato Grosso, com a participação de 212 lideranças indígenas e de dirigentes da nossa organização.


A COIAB reafirma o seu posicionamento contrário a construção desse empreendimento e de outros, como a pavimentação das rodovias BR-317 e BR-319, e a implantação do Complexo Hidroelétrico do Madeira, pois todas essas obras agridem e violam os direitos dos povos indígenas, direitos esses conquistados ao longo dos anos, com muita luta, muitas vezes com o sangue derramado de nossas lideranças.


Repudiamos a intenção do Governo de nos considerar “forças demoníacas” que impedem o desenvolvimento do país, quando tudo o que queremos é continuar preservando os ecossistemas e a biodiversidade, e sobretudo, condições de vida digna e de qualidade para os nossos povos e suas futuras gerações, bem como o bem-estar do planeta e da humanidade.
Repudiamos ainda a prática autoritária com que o Governo, através do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil e da Fundação Nacional do Índio, pretendem “empurrar este projeto goela abaixo”, contrariando o compromisso em contrário do chefe do Executivo, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.


Exigimos que o Sr. Presidente da Funai, Márcio Meira, cumpra rigorosamente o seu papel de zelar pelos direitos indígenas, suspendendo qualquer decisão voltada a autorizar licenciamentos de obras que impactarão direta ou indiretamente as terras indígenas. A Funai não pode se achar no direito de falar pelos povos indígenas nem alegar que os está ouvindo, porque isso realmente não tem acontecido, conforme o estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que já é lei no país, e que nos assegura o direito à consulta prévia, livre e informada.


Por tudo isso, reivindicamos que o governo brasileiro respeite a vontade dos nossos povos e organizações, e desista de construir a Hidrelétrica de Belo Monte, e muitos outros projetos que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltando-se a assegurar os nossos direitos, o respeito à diversidade étnica e cultural do nosso país, criando condições para que este seja efetivamente um país democrático, justo e igualitário.



Coordenação Executiva da COIAB

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Drops indigenistas -- 15

1. Semana difícil na Funai. Os servidores estão chateadíssimos com uma proposta de reestruturação proposta pela direção do órgão feita em cima do joelho. Poucos estão satisfeitos com o que pode vir por aí. Outro dia alguém perguntou: se nem terra indígena a Funai não demarca, para que serve? Devagar, ainda tem saída.

A atual gestão da Funai teve desde o início o propósito de minar a Funai. Dominada por pessoas ligadas a Ongs indigenistas que sempre se aproveitaram das informações e da legitimidade do órgão para crescer em cima dele, agora que dominam o órgão aproveitam para enfraquecê-lo ainda mais. A ficha está caindo para os servidores e indígenas.

A reestruturação pretende acabar com as Coordenações Gerais de Educação e de Arte Indígena. Em todos esses anos em que a grande parte do orçamento da educação foi retirado da Funai sobrou um pequeno núcleo de educadores experientes na Funai que fez essa parte essencial da assistência ao índio funcionar minimamente. Deixar a educação só com o MEC será um desperdício ainda maior que prejudicará ainda mais os índios. O exemplo da Funasa está aí para comprovar.

Já acabar com a Arte Indígena é pura maldade e desorientação. Ninguém sabe como os índios que vendem seus artesanatos serão tratados daqui por diante.

Outra insatisfação é com a possível saída de grande parte dos arquivos da Funai para o Museu do Índio, no Rio de Janeiro. E para onde irá o Museu do Índio, do jeito que ele é dirigido atualmente? Fala-se em ser transferido para o Minc. Isto estava planejado para acontecer quando entrei na Funai como presidente e consegui sustar esse propósito nefasto. Agora, quem defenderá a permanência do Museu do Índio na Funai?

Os servidores da Funai, incluindo indigenistas e quadros burocráticos, querem reatar um relacionamento com as lideranças indígenas de raiz. Sabem que o órgão corre perigo e que sem a ajuda dos índios, o governo leva adiante a insensatez da atual direção da Funai.

2. Por sua vez, a Funai ganhou mais 85 cargos comissionados para distribuir a quem quiser. É o preço cobrado pela reestruturação. Cargos de DAS são sempre benvindos para qualquer órgão. Só não se sabe para que servirão. Tudo indica que será para acomodar pessoas na tal reestruturação planejada.

3. O movimento das lideranças de raiz contra a Usina Belo Monte chamou a atenção de meio mundo ambientalista e indigenista. A grande reunião foi realizada no dia 1º de novembro e teve a participação de mais de 200 líderes de várias aldeias do Xingu. Inclusive de pessoas de muito prestígio do Alto Xingu. Muita gente de fora, especialmente Ongs, apoiaram-no, sobretudo depois que viram o quanto de irresponsável foi o licenciamento dado pela atual direção da Funai. Até os técnicos da Funai que fizeram o parecer ficaram chateados pois se sentiram traídos pela direção do órgão, já que em seu parecer apontam para várias falhas e questionamentos dos relatórios feitos pelos antropólogos contratados pelas CNEC. Porém os pareceristas foram ingênuos e não exigiram o tanto que seria necessário para reabrir uma discussão. Já os índios, fica evidente que eles não querem nada do que lhes prometeram.

4. Os Kayapó estão aliados firmemente aos Xavante e aos demais povos indígenas de todo o vale do Xingu contra a Usina Belo Monte. Prometem que não vão deixar a Usina passar. Só que o leilão de licitação para o início das obras está planejado para 21 de dezembro. O que farão os índios sobre isso?

5. As associações indígenas, antes indecisas, estão agora apoiando o movimento dos xinguanos de qualquer jeito. Estão aos poucos se afastando dos comprometimentos que haviam acertado com a atual direção da Funai por conta da ideia ilusória de que estavam fazendo política indígena de verdade. A decepção está formada e as consequências virão.

6. No Mato Grosso do Sul a situação está pegando fogo. Os índios Guarani e Terena estão se dando conta da enganação a que foram submetidos com a promessa de que novas terras indígenas seriam demarcadas. Um grupo grande de índios não aceita mais a administradora de Dourados, colocando toda a culpa das decepções sobre essa pobre pessoa. O fato é que ela também se iludiu e está pagando o pato.

7. Ah, e que tal essa. Os índios Tikuna pretendem criar uma delegacia indígena, com indígenas policiais e métodos próprios de controle policial, ao lado da cidade de Tabatinga. O secretário de assuntos indígenas do Amazonas diz que é a favor. Que coisa, hein? Nessa altura do campeonato! Socorro Ministério Público!

domingo, 8 de novembro de 2009

A morte de Claude Lévi-Strauss é lembrada por muitos: Ondina Fachel Leal

Mais um antropólogo fala da vida e obra de Claude Lévi-Strauss. Desta vez é a professora de antropologia da UFRGS, Ondina Leal, num resumo sucinto de algumas de suas principais obras: parentesco, mitos e totemismo.

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Dos totens, mitos e tabus à universalidade do homem


ONDINA FACHEL LEAL *




Claude Lévi-Strauss abriu novas possibilidades de interpretação ao discutir a cultura, seus símbolos e 

suas questões formais. Ofereceu uma ruptura muito radical no modo como as Ciências Sociais até então 

pensavam a realidade


Lévi-Strauss inaugura na Antropologia uma tradição: o estruturalismo. Sua proposta é buscar os princípios lógicos universais que dão ordem à diversidade de experiências humanas. A noção central ao pensamento de Lévi-Strauss é a de que realidades culturais são interessantes porque expressam configurações básicas do pensamento humano. A cultura é tomada como um sistema de significados, e essa ideia é a base do fazer antropológico.

Para Lévi-Strauss, seguindo a tradição de sociologia francesa no início do século 20, o totem não é a coisa que ele representa em si, mas é emblemático da organização em clãs de determinados povos. Se animais e plantas são considerados sagrados, ou se são tomados como tabus, são porque representam alguma coisa, a sociedade que fazem parte. Nos diz Lévi-Strauss, rompendo com uma visão utilitarista sobre tabus totêmicos, até então vigente na Antropologia: os animais e vegetais usados como totem, não o são porque “são bons para comer”, mas porque “são bons para pensar”.

Para Lévi-Strauss, o totemismo é irrelevante como sistema de organização social real, empírico. Para ele, o totem é um sistema social que classifica seres e coisas em espécies e gêneros, do mesmo modo que os homens ao viver em sociedade se classificam. A capacidade de erigir totens é um fenômeno muito mais geral. É, por um lado, uma forma de selecionar, organizar, representar intelectualmente e estruturar semelhanças e diferenças que os homens percebem na natureza e no mundo social; por outro lado, é uma forma de relacionar objetos culturais com objetos naturais.

O mito, para Lévi-Strauss, é também uma modalidade discursiva que organiza uma explicação a respeito de realidade social. O mito nos fala do homem e de sua inserção no mundo da natureza: apresenta-nos uma explicação sobre o lugar do indivíduo no mundo. Estabelece um conjunto de significados e prescreve condutas que são condições para que um indivíduo constitua-se enquanto pessoa e, portanto, seja, em um determinado grupo.

Assim como o totem, o mito é tomado por Lévi-Strauss como composto por elementos que funcionam como operadores lógicos de classificação social – uma realidade discursiva que opera uma ruptura com o real, mas é pleno de coerência ao referir-se a uma realidade de outra ordem. Mitos exprimem sentimentos fundamentais, tais como amor e ódio, relativos em última instância, ao desejo do indivíduo e à interdição social do desejo; ou ainda, à dicotomia básica organizadora do mundo, da natureza e da cultura. Trata-se de sentimentos universais, comuns à condição humana. O não compromisso do mito com o real é o que permite a este contemplar uma dimensão estética, afetiva – e, reside aí a sua verdade.

Outro caminho percorrido por Lévi-Strauss em sua coleta de diversidades etnográficas, em As Estruturas Elementares de Parentesco, nos remete à noção de reciprocidade social. Ele aplica o termo reciprocidade ao sistema de prestação total: as obrigações de dar, receber e retribuir os presentes nas chamadas sociedades “primitivas”. Reciprocidade indica estabilidade através de troca entre agentes ou grupos sociais desiguais e rivais. Sistema de parentesco para Lévi-Strauss é um sistema de alianças, do qual os indivíduos e grupos dependem. Relações de parentesco são um conjunto de regras, por exemplo, aquelas de exogamia e de proibição do incesto, que regulam as relações sexuais, o casamento, a reprodução e os padrões de descendência na sociedade. Essas regras que estabelecem tabus são funções do princípio de reciprocidade, que dizem respeito à circulação de mulheres como um objeto valioso.

A partir do momento que existe a proibição do uso de uma mulher para um homem, essa mulher se torna disponível para outro homem. Então, há em algum lugar um homem que renuncia a uma mulher (sua irmã ou sua filha), que daí se torna igualmente disponível. O que Lévi-Strauss nos ensina é que existe um sistema inteiro de prestação social, junto com a troca de mulheres: há uma troca de pudins e de comida cozida do lado feminino, por caça e peixe do lado masculino. Isso coloca a mulher na posição de agente transformador da natureza – ela é quem cuida do fogo e cozinha. Ela é quem torna a cultura uma instituição. Para Lévi-Strauss, o papel feminino é o de reprodução social (de forças produtivas, isto é, de homens), com a capacidade de gerar cultura. Homens teriam que dominar as mulheres para se fazerem parte da cultura, para terem controle sobre a reprodução social.

O argumento principal de Lévi-Strauss é que sistemas de aliança de parentesco, em suas variações, na exogamia ou no tabu do incesto, desempenham o papel de um princípio único. São, de fato, um conjunto de regras, estabelecidas socialmente, que prescrevem com quem o indivíduo pode casar, ou com quem ele não pode casar. Ambas as limitações são fenômenos do mesmo tipo. É claro que, como a metade poderosa (mulher/natureza) é dominada pela metade não-poderosa (homem/cultura) permanece uma questão não resolvida. Os mitos, que Lévi-Strauss analisou extensamente, legitimam o domínio e o poder masculino, mas não o explicam.

Estudando totens, mitos, tabus ou arranjos matrimoniais, Lévi-Strauss constituiu o estruturalismo que marcou um rompimento radical com as formas que as ciências sociais pensavam a realidade. Com Lévi-Strauss, o foco da análise deslocou-se para a formalidade do sistema, para a sua estrutura.

Totens, mitos ou ritos são “ordens” ou níveis de um princípio estrutural subjacente que Lévi-Strauss chama de a “ordem das ordens”: a Cultura. Em outras palavras, é a estrutura de pensamento humana que permite aos homens categorizar e relacionar símbolos e coisas, e é isso o que faz o homem parte da cultura e algo diferente da natureza.

Perplexos com a universalidade da condição humana, resta-nos desejar que, encompassados com a reprodução da ordem simbólica, os elementos de transformação desta ordem sejam também reproduzidos. Sem estes, a própria eficácia da ordem simbólica estaria comprometida.

* PhD em Antropologia pela University of California, Berkeley, professora titular do Departamento de Antropologia da UFRGS