No período inicial da transição da ditadura para a democracia, por volta de 1977-78, surgiram muitos movimentos em prol de minorias e dos direitos humanos. Um deles foi o movimento dos antropólogos que, juntos com o CIMI, jornalistas e advogados que começavam a defender os povos indígenas, se puseram contra o projeto de emancipação dos índios que o governo Geisel pretendia implementar por volta de 1978. Outro movimento que se galvanizou foi o dos indigenistas da Funai, que pretendia liberar a Funai da presença maciça dos militares, especialmente depois que o primeiro civil, Ademar Ribeiro da Silva, foi nomeado presidente em março de 1979, mas demitido em novembro do mesmo ano. O movimento dos indigenistas e antropólogos da Funai tinha o apoio de muitas lideranças indígenas que despontavam no panorama político brasileiro e de muitos antropólogos fora da Funai. Criou-se a Sociedade Brasileira de Indigenistas, em princípios de 1980, logo alguns dos líderes foram demitidos e, em seguida, pela solidariedade demonstrada por outros, cerca de 68 deles foram demitidos. Alguns conseguiram escapar dessa demissão em massa.
A história da formação da Sociedade Brasileira de Indigenistas (SBI) ainda está para ser contada. Na verdade, a história do indigenismo brasileiro ainda está para ser contada, e espero que venha a ser por pessoas que participaram e participam dessa história. Na matéria que se segue, Rubem Valente, da Folha de São Paulo, analisa os dados encontrados nos arquivos da ASI, da Funai baseados em relatórios de espiões e infiltrados no movimento. É a continuação das matérias anteriores que saíram ontem no mesmo jornal. (Ver logo abaixo.)
O entrevistado dessa matéria é o antropólogo e indigenista Cláudio Romero, um dos líderes da SBI. Ele esclarece alguns pontos interessantes dos dados apresentados por Rubem Valente, mas é discreto quanto às atividades de supostos espiões que trabalhavam na própria Funai e que poderiam estar a serviço dos interesses dos militares. Na verdade, sabia-se que os militares tentaram cooptar indigenistas para espionar os colegas, que ameaçaram muitos com demissões, mas os delatores eram quase sempre gente fora do círculo de indigenistas.
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Funai demitiu antropólogos por protestos durante a ditadura
Documentos de braço do extinto SNI abertos após 30 anos de sigilo revelam espionagem de funcionários do órgão que discordavam das políticas indigenistas
Folha de São Paulo, por Rubem Valente
No segundo semestre de 1980, a política indigenista da ditadura militar sofreu um duro ataque do próprio corpo de especialistas do governo. Um grupo de antropólogos e indigenistas lotados na Funai (Fundação Nacional do Índio) rebelou-se contra a política oficial de "integração" dos índios à "sociedade nacional" e entregou uma carta de protesto ao então ministro do Interior, coronel Mário Andreazza.
Além de pedir a substituição dos coronéis do Exército e da Aeronáutica que comandavam a Funai, os indigenistas protestavam contra a demissão de colegas ligados à nascente SBI (Sociedade Brasileira de Indigenistas), ONG que denunciava mazelas do setor, com repercussão internacional.
A reação foi imediata: 68 indigenistas, antropólogos e outros servidores foram demitidos "por justa causa" ou "indisciplina" nos dias seguintes. Essa é a parte pública do episódio.
A abertura dos arquivos da ASI (Assessoria de Segurança e Informações), o braço do SNI (Serviço Nacional de Informações) na Funai, entregues ao Arquivo Nacional de Brasília após três décadas de sigilo, revela que os antropólogos eram acompanhados por arapongas meses antes do início dessa que é considerada a maior crise indigenista da ditadura.
Ontem, a Folha mostrou que os papéis do SNI também comprovam a espionagem dos missionários que fundaram o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à Igreja Católica, durante o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974). Os militares acreditavam que o conselho queria "subverter" o controle do órgão sobre os índios.
O libelo dos indigenistas, usado pelo regime para justificar as decisões, só foi redigido dois meses depois que uma reunião da SBI foi gravada em fita cassete, transcrita e relatada à Funai. A infiltração na reunião da SBI foi também anterior às primeiras demissões.
O arquivo da ASI contém as 19 páginas datilografadas em papel timbrado que resumiram a reunião. No encontro, os dirigentes foram acusados pela perda de territórios indígenas para colonos e posseiros. Os servidores denunciavam que os principais cargos eram ocupados por militares estranhos aos conceitos da tradição do indigenismo brasileiro.
Em vez de apurar as acusações, Andreazza (1918-1988) entregou a carta à ASI da Funai e iniciou as demissões, executadas pelo coronel João Carlos Nobre da Veiga, então presidente do órgão. Veiga havia sido o coordenador do braço do SNI, uma DSI (Divisão de Segurança e Informações) na então companhia estatal Rio Doce Geologia e Mineração.
Outra evidência veio à tona na época da crise. Segundo Cláudio dos Santos Romero, um dos fundadores da SBI, os indigenistas desconfiaram de um espectador de uma reunião que dizia ser "professor em Luiziânia", Goiás. Depois de interpelado, descobriu-se que o homem era capitão do Exército. Romero tirou foto dele e a enviou anonimamente para o coronel do Exército Ivan Zanoni Hauser, um alto funcionário da Funai que estava investigando a SBI. O coronel ficou furioso, disse à Folha.
O indigenista era um crítico da ditadura. No meio da reunião de 1980, pelo relato do araponga, Romero -que presidiu o órgão nos anos 90- levantou-se para declarar que a "cúpula da Funai é terrível e sutil". Houve também denúncias sobre o comportamento de delegados regionais, que supostamente beneficiavam colonos e posseiros em detrimento dos índios.
Outros documentos mostram que a vigilância se estendeu a indigenistas não relacionados com a SBI. Um "relatório de missão" descreve a ida de policiais federais a uma aldeia em Santa Terezinha (MT), para "investigar as atividades de um indivíduo suspeito de possuir curso superior", mas que trabalhava no posto da Funai "como pedreiro". A PF nada concluiu sobre Lázaro Dirceu Mendes Aguirre, formado em filosofia. Ele, que mora até hoje na região e trabalha com os mesmos índios tapirapés, fazia trabalho voluntário.
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Na ditadura Funai espionava missionários -- I
Nesta terça-feira de Carnaval, o jornal Folha de São Paulo saiu com uma longa matéria sobre as atividades de espionagem da antiga Assessoria de Segurança e Infomação (ASI) da Funai, na época da ditadura militar.
A ASI foi o setor mais temido de todos os órgãos públicos brasileiros. Ela estava em todos, conhecia quase tudo que se passava, vigiava todos e tentava mandar em todos. As ASIs tentavam comunicar-se entre si, mas era através do mais temido SNI que suas informações faziam sentido e alimentava a ditadura militar de informações.
Na Funai não era diferente. A ASI existiu desde o começo da Funai e durante muitos anos coletou informações de todas as delegacias regionais e dos postos indígenas. Sempre havia algum representante dela nas delegacias e essa pessoa era frequentemente quem comandava as ações estratégicas do órgão. As informações coletadas chegavam a Brasília em forma de telegramas e relatórios das delegacias (hoje administrações) regionais e dos espiões e informantes avulsos. Além da ASI, todo delegado regional era obrigado a reportar sobre o que estava acontecendo em sua região a respeito de pessoas ou organizações vistas com alguma desconfiança.
Ao final do período de existência, a ASI da Funai deixou cerca de 92 caixas de informações que foram levadas para o Arquivo Público Nacional e agora começaram a ser liberadas para pesquisa. O jornalista Rubem Valente, da Folha de São Paulo, resolveu começar a pesquisar esse arquivo. O que achou é de muito interesse para a história do indigenismo moderno, bem como reflete o período negro da história recente brasileira.
Na matéria abaixo e nas seguintes Rubem Valente abre a caixinha de pandora e aborda temas sobre a relação entre missionários, especialmente católicos, e a Funai. Na última matéria trata de telegramas enviados por Apoena Meirelles, um dos grandes indigenistas brasileiros, assassinado em outubro de 2004, quando era delegado regional de Porto Velho, Rondônia.
Rubem Valente descobriu um filão de informações as mais diversas sobre esse período negro da história brasileira. Outras matérias seguirão nas próximas semanas, inclusive sobre o período de transição, quando foi criado o movimento dos indigenistas, em 1979, e que resultou na demissão sumária de 40 indigenistas por insubordinação e subversão.
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Funai espionou missionários na ditadura
Folha de São Paulo, por Rubem Valente
Liberados em janeiro para pesquisa, documentos de braço do SNI no órgão indigenista relatam 30 anos de vigilância
Militares acreditavam que o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) pretendia "subverter" o controle da fundação sobre os índios
Guardadas por mais de 30 anos numa sala da FUNAI (FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO) em Brasília, 92 caixas com documentos confidenciais produzidos por um braço do SNI (Serviço Nacional de Informações) no órgão foram finalmente liberadas a pesquisadores em meados de janeiro.
Os papéis demonstram a espionagem feita pelos órgãos de segurança sobre o grupo de padres e bispos que, em abril de 1972, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), fundou o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à Igreja Católica.
As centenas de telegramas, ofícios, relatórios de missão, análises e bilhetes manuscritos foram produzidas ou recebidas pela ASI (Assessoria de Segurança e Informações), que por duas décadas funcionou na FUNAI. A coordenação regional do Arquivo Nacional em Brasília, ligado à Casa Civil, recolheu os papéis em 2008.
O SNI montou uma extensa rede de espionagem na máquina estatal. Cada ministério contava com uma divisão de segurança e informações, enquanto fundações, autarquias, universidades e estatais tinham uma ASI. As unidades se relacionavam com a chefia central do SNI. O Arquivo Nacional já contou pelo menos 248 órgãos diferentes vinculados ao SNI. A FUNAI era um deles.
"Dossiê"
A partir de 1974, com o general Ernesto Geisel (1974-1979) na Presidência, a entrada e a atividade de missionários nas áreas indígenas foram monitoradas por uma rede de informações que começava no alto escalão da FUNAI, passava por delegados regionais dos órgãos e por capitães de postos indígenas e chegava aos índios, coagidos e interrogados sobre a presença dos padres, como indicam vários dos telegramas. Todos os documentos eram enviados à chefia da ASI em Brasília.
O "dossiê Cimi" compreende cerca de 2.000 páginas, incluindo cadernos de formação e textos produzidos pelo Cimi e que eram apreendidos pelos espiões tão logo distribuídos entre os índios.
Os militares acreditavam que o Cimi pregava o comunismo nas aldeias e queria "subverter" o controle do órgão sobre os índios. Os informes -alguns intitulados "atuação da esquerda clerical" ou "infiltração comunista e atuação de grupos religiosos"- serviram de base a inúmeras medidas da presidência da FUNAI contrárias aos missionários.
Na FUNAI, a figura relevante do período foi o controvertido general de Exército Ismarth de Araújo Oliveira, que presidiu a FUNAI entre 1974 e 1979 -o mais longevo da história do órgão. Hoje descrito por parte de antropólogos e indigenistas como defensor das causas indígenas, Ismarth aparece em telegramas e bilhetes ordenando vigilância, proibindo o acesso a terras indígenas e determinando medidas contra os padres.
Em 1978, Ismarth enviou carta confidencial ao general-de-brigada Francisco Batista Torres de Melo, comandante da Brigada Mista de Corumbá (MS), então responsável por uma extensa faixa territorial que ia de Goiás ao sul de Mato Grosso e na qual viviam populosas etnias indígenas acossadas por posseiros e colonos.
"A FUNAI está seriamente preocupada com o recrudescimento da atuação da ala esquerdista da igreja nas áreas indígenas de Mato Grosso, em particular nas que estão sob o controle das missões salesianas", escreveu Ismarth.
Citando os bispos Pedro Casaldáliga e Tomás Balduíno, cofundadores do Cimi, Ismarth escreveu que a intenção "dessa ala esquerdista da igreja [é] usar o índio como instrumento, criando agitação em áreas que estão tranquilas".
Ismarth sugeriu que fosse feita a "infiltração de um elemento da Brigada na área da Missão Salesiana de São Marcos [MT]. Para não despertar suspeitas, o mesmo portaria uma carteira funcional de servidor da FUNAI".
Dias depois, o general respondeu que concordava com a infiltração e encomendou a missão secreta a uma seção do Exército em Aragarças (GO).
Localizado pela Folha em Fortaleza (CE), o general-de-divisão reformado Torres de Melo, 84, disse não se lembrar desses papéis. "Eu me dava bem com a igreja. Não me lembro de nenhum problema na época." Entre 1974 e 1977, Melo comandou a Polícia Militar de São Paulo, na gestão do secretário de Segurança Pública Erasmo Dias.
Às vezes o general Ismarth usava seu poder de veto em simples retaliação às críticas públicas feitas pelos missionários contra o governo. Num bilhete de 1976, por exemplo, o general despachou no canto de um pedido de entrada de um padre a uma aldeia do Amazonas: "As críticas que o Cimi, por intermédio do padre Egydio [Schwade], vem fazendo ao governo e à FUNAI não permitem que o pedido seja atendido".
Em outro bilhete, respondeu a um funcionário que queria saber se a FUNAI fora chamada para uma reunião com o Cimi: "A FUNAI não foi comunicada e mesmo que tivesse [sido], não participaria de reunião do Cimi, face as características de que as mesmas se revestem de ataques ao governo".
Vigilância
Ismarth era sempre informado pela ASI sobre as ações do Cimi. Em resposta, disparava telegramas. Em março de 1978, orientou: "Esta presidência tomou conhecimento de que o padre [do Cimi] Dionísio Egon Heck dirigiu-se a esse Estado a fim de manter contatos com índios dessa região, seja para agitá-los, seja para participação [informá-los] sobre problemas no sul do país. Determinar a todos os PIs [postos indígenas] estreita vigilância, impedindo ingresso do mesmo a qualquer área. Em caso de recalcitrância, acionar autoridades".
As perseguições da FUNAI se estendiam aos índios que aceitavam conversar com os missionários. Em 1976, ao ser informado de que a cúpula do Cimi estava reunida em Rio Branco (AC), Ismarth datilografou carta confidencial ao chefe da ASI. "A reunião está tendo caráter sigiloso e, apesar da vigilância da FUNAI, o Cimi conseguiu arrebanhar dois índios do rio Purus (...). Os órgãos de segurança: Polícia Federal, SNI e do próprio Estado estão atentos. (....) Ao término da reunião, será tentado deter os índios e conseguir que os mesmos informem os assuntos tratados e a orientação dada pelo Cimi."
A ASI foi o setor mais temido de todos os órgãos públicos brasileiros. Ela estava em todos, conhecia quase tudo que se passava, vigiava todos e tentava mandar em todos. As ASIs tentavam comunicar-se entre si, mas era através do mais temido SNI que suas informações faziam sentido e alimentava a ditadura militar de informações.
Na Funai não era diferente. A ASI existiu desde o começo da Funai e durante muitos anos coletou informações de todas as delegacias regionais e dos postos indígenas. Sempre havia algum representante dela nas delegacias e essa pessoa era frequentemente quem comandava as ações estratégicas do órgão. As informações coletadas chegavam a Brasília em forma de telegramas e relatórios das delegacias (hoje administrações) regionais e dos espiões e informantes avulsos. Além da ASI, todo delegado regional era obrigado a reportar sobre o que estava acontecendo em sua região a respeito de pessoas ou organizações vistas com alguma desconfiança.
Ao final do período de existência, a ASI da Funai deixou cerca de 92 caixas de informações que foram levadas para o Arquivo Público Nacional e agora começaram a ser liberadas para pesquisa. O jornalista Rubem Valente, da Folha de São Paulo, resolveu começar a pesquisar esse arquivo. O que achou é de muito interesse para a história do indigenismo moderno, bem como reflete o período negro da história recente brasileira.
Na matéria abaixo e nas seguintes Rubem Valente abre a caixinha de pandora e aborda temas sobre a relação entre missionários, especialmente católicos, e a Funai. Na última matéria trata de telegramas enviados por Apoena Meirelles, um dos grandes indigenistas brasileiros, assassinado em outubro de 2004, quando era delegado regional de Porto Velho, Rondônia.
Rubem Valente descobriu um filão de informações as mais diversas sobre esse período negro da história brasileira. Outras matérias seguirão nas próximas semanas, inclusive sobre o período de transição, quando foi criado o movimento dos indigenistas, em 1979, e que resultou na demissão sumária de 40 indigenistas por insubordinação e subversão.
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Funai espionou missionários na ditadura
Folha de São Paulo, por Rubem Valente
Liberados em janeiro para pesquisa, documentos de braço do SNI no órgão indigenista relatam 30 anos de vigilância
Militares acreditavam que o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) pretendia "subverter" o controle da fundação sobre os índios
Guardadas por mais de 30 anos numa sala da FUNAI (FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO) em Brasília, 92 caixas com documentos confidenciais produzidos por um braço do SNI (Serviço Nacional de Informações) no órgão foram finalmente liberadas a pesquisadores em meados de janeiro.
Os papéis demonstram a espionagem feita pelos órgãos de segurança sobre o grupo de padres e bispos que, em abril de 1972, sob o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969-1974), fundou o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), ligado à Igreja Católica.
As centenas de telegramas, ofícios, relatórios de missão, análises e bilhetes manuscritos foram produzidas ou recebidas pela ASI (Assessoria de Segurança e Informações), que por duas décadas funcionou na FUNAI. A coordenação regional do Arquivo Nacional em Brasília, ligado à Casa Civil, recolheu os papéis em 2008.
O SNI montou uma extensa rede de espionagem na máquina estatal. Cada ministério contava com uma divisão de segurança e informações, enquanto fundações, autarquias, universidades e estatais tinham uma ASI. As unidades se relacionavam com a chefia central do SNI. O Arquivo Nacional já contou pelo menos 248 órgãos diferentes vinculados ao SNI. A FUNAI era um deles.
"Dossiê"
A partir de 1974, com o general Ernesto Geisel (1974-1979) na Presidência, a entrada e a atividade de missionários nas áreas indígenas foram monitoradas por uma rede de informações que começava no alto escalão da FUNAI, passava por delegados regionais dos órgãos e por capitães de postos indígenas e chegava aos índios, coagidos e interrogados sobre a presença dos padres, como indicam vários dos telegramas. Todos os documentos eram enviados à chefia da ASI em Brasília.
O "dossiê Cimi" compreende cerca de 2.000 páginas, incluindo cadernos de formação e textos produzidos pelo Cimi e que eram apreendidos pelos espiões tão logo distribuídos entre os índios.
Os militares acreditavam que o Cimi pregava o comunismo nas aldeias e queria "subverter" o controle do órgão sobre os índios. Os informes -alguns intitulados "atuação da esquerda clerical" ou "infiltração comunista e atuação de grupos religiosos"- serviram de base a inúmeras medidas da presidência da FUNAI contrárias aos missionários.
Na FUNAI, a figura relevante do período foi o controvertido general de Exército Ismarth de Araújo Oliveira, que presidiu a FUNAI entre 1974 e 1979 -o mais longevo da história do órgão. Hoje descrito por parte de antropólogos e indigenistas como defensor das causas indígenas, Ismarth aparece em telegramas e bilhetes ordenando vigilância, proibindo o acesso a terras indígenas e determinando medidas contra os padres.
Em 1978, Ismarth enviou carta confidencial ao general-de-brigada Francisco Batista Torres de Melo, comandante da Brigada Mista de Corumbá (MS), então responsável por uma extensa faixa territorial que ia de Goiás ao sul de Mato Grosso e na qual viviam populosas etnias indígenas acossadas por posseiros e colonos.
"A FUNAI está seriamente preocupada com o recrudescimento da atuação da ala esquerdista da igreja nas áreas indígenas de Mato Grosso, em particular nas que estão sob o controle das missões salesianas", escreveu Ismarth.
Citando os bispos Pedro Casaldáliga e Tomás Balduíno, cofundadores do Cimi, Ismarth escreveu que a intenção "dessa ala esquerdista da igreja [é] usar o índio como instrumento, criando agitação em áreas que estão tranquilas".
Ismarth sugeriu que fosse feita a "infiltração de um elemento da Brigada na área da Missão Salesiana de São Marcos [MT]. Para não despertar suspeitas, o mesmo portaria uma carteira funcional de servidor da FUNAI".
Dias depois, o general respondeu que concordava com a infiltração e encomendou a missão secreta a uma seção do Exército em Aragarças (GO).
Localizado pela Folha em Fortaleza (CE), o general-de-divisão reformado Torres de Melo, 84, disse não se lembrar desses papéis. "Eu me dava bem com a igreja. Não me lembro de nenhum problema na época." Entre 1974 e 1977, Melo comandou a Polícia Militar de São Paulo, na gestão do secretário de Segurança Pública Erasmo Dias.
Às vezes o general Ismarth usava seu poder de veto em simples retaliação às críticas públicas feitas pelos missionários contra o governo. Num bilhete de 1976, por exemplo, o general despachou no canto de um pedido de entrada de um padre a uma aldeia do Amazonas: "As críticas que o Cimi, por intermédio do padre Egydio [Schwade], vem fazendo ao governo e à FUNAI não permitem que o pedido seja atendido".
Em outro bilhete, respondeu a um funcionário que queria saber se a FUNAI fora chamada para uma reunião com o Cimi: "A FUNAI não foi comunicada e mesmo que tivesse [sido], não participaria de reunião do Cimi, face as características de que as mesmas se revestem de ataques ao governo".
Vigilância
Ismarth era sempre informado pela ASI sobre as ações do Cimi. Em resposta, disparava telegramas. Em março de 1978, orientou: "Esta presidência tomou conhecimento de que o padre [do Cimi] Dionísio Egon Heck dirigiu-se a esse Estado a fim de manter contatos com índios dessa região, seja para agitá-los, seja para participação [informá-los] sobre problemas no sul do país. Determinar a todos os PIs [postos indígenas] estreita vigilância, impedindo ingresso do mesmo a qualquer área. Em caso de recalcitrância, acionar autoridades".
As perseguições da FUNAI se estendiam aos índios que aceitavam conversar com os missionários. Em 1976, ao ser informado de que a cúpula do Cimi estava reunida em Rio Branco (AC), Ismarth datilografou carta confidencial ao chefe da ASI. "A reunião está tendo caráter sigiloso e, apesar da vigilância da FUNAI, o Cimi conseguiu arrebanhar dois índios do rio Purus (...). Os órgãos de segurança: Polícia Federal, SNI e do próprio Estado estão atentos. (....) Ao término da reunião, será tentado deter os índios e conseguir que os mesmos informem os assuntos tratados e a orientação dada pelo Cimi."
Na ditadura Funai espionava missionários -- II
Em prosseguimento à matéria central sobre a espionagem que a assessoria de segurança e informação da Funai fez contra missionários e outros, no tempo da ditadura militar, o jornalista Rubem Valente entrevistou o coronel-aviador Paulo Moreira Leal, que foi presidente da Funai entre 1981 e 1983 sobre esse período.
Segundo a matéria, foi o coronel Leal que reatou relações com indigenistas críticos à Funai, depois que 40 deles foram demitidos em abril de 1980, e com missionários do CIMI.
O coronel Leal fala com mágoas desse período. Eis sua entrevista.
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Coronel diz que Funai foi "folha negra na vida"
Folha de São Paulo, por Rubem Valente
Presidente da FUNAI entre 1981 e 1983, o coronel-aviador reformado Paulo Moreira Leal, 94, disse que sua passagem pelo órgão foi "uma folha negra na vida" e não quis fazer mais comentários. Ele foi procurado para falar sobre as funções da ASI, o braço do SNI (Serviço Nacional de Informações) no órgão indigenista. "Não queria voltar a esse assunto [FUNAI] porque o sr. sabe, magoou muito a gente. É a vida", disse o coronel.
Documentos da ASI mostram que a gestão de Leal reatou as relações com indigenistas críticos à ditadura e fez uma distensão com o Cimi, ligado à Igreja Católica. Em 1981, Leal voltou a autorizar a entrada de missionários em áreas indígenas.
Chefe do escritório do SNI em Manaus (AM) no final da década de 70, o coronel reformado do Exército Delcy Gorgot Doubrawa, 79, mandou ofícios à FUNAI, em 1979, para pedir informações à ASI da FUNAI sobre assembleia indígena no Amazonas. "Eu trabalhava em Manaus, que era o ponto central. E os comandantes dessas unidades de fronteira nos abasteciam com informações. Mas, no meu período, ali, não houve atritos." Doubrawa não se recordou do ofício. "Não me lembro, mas se o sr. está lendo, realmente o documento foi expedido. É que a FUNAI tinha mais contato, mais informações, e nós nos valíamos também dos dados da FUNAI, pois eram dados confiáveis."
O general-de-divisão reformado Francisco Batista Torres de Melo, 84, disse não se recordar do pedido feito pelo então presidente da FUNAI, general Ismarth de Araújo Oliveira, para que infiltrasse um militar entre os salesianos. Melo disse que a própria Igreja Católica "tomou providências" contra a parte do "clero à esquerda". "Você viu que a santa igreja foi em cima deles, "não pode ser assim". A santa doutrina da igreja está acima dos homens."
Alvos
O padre Antônio Iasi, 89, cofundador do Cimi, foi dos mais vigiados pela FUNAI nos anos 70. "De início, o Ismarth autorizou o trabalho do Cimi nas aldeias, mas quando percebeu que fazíamos relatórios para a imprensa, ele cortou completamente a autorização. Nós continuamos a fazer o trabalho clandestinamente, e a situação ficou tensa", relembrou Iasi. Os relatórios descreviam as más condições de saúde e alimentação nas aldeias.
O bispo dom Tomás Balduíno, 73, outro cofundador do Cimi, descrito em relatórios da FUNAI como "subversivo", ironizou a palavra. "De certa forma era verdade mesmo, nós fazíamos a subversão nas aldeias porque o índio começava a despertar para seus problemas. Quando o Cimi chegou, foi uma transformação radical. Eles [índios] começaram a buscar a recuperação de suas terras e de sua cultura", disse o bispo. (RV)
Segundo a matéria, foi o coronel Leal que reatou relações com indigenistas críticos à Funai, depois que 40 deles foram demitidos em abril de 1980, e com missionários do CIMI.
O coronel Leal fala com mágoas desse período. Eis sua entrevista.
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Coronel diz que Funai foi "folha negra na vida"
Folha de São Paulo, por Rubem Valente
Presidente da FUNAI entre 1981 e 1983, o coronel-aviador reformado Paulo Moreira Leal, 94, disse que sua passagem pelo órgão foi "uma folha negra na vida" e não quis fazer mais comentários. Ele foi procurado para falar sobre as funções da ASI, o braço do SNI (Serviço Nacional de Informações) no órgão indigenista. "Não queria voltar a esse assunto [FUNAI] porque o sr. sabe, magoou muito a gente. É a vida", disse o coronel.
Documentos da ASI mostram que a gestão de Leal reatou as relações com indigenistas críticos à ditadura e fez uma distensão com o Cimi, ligado à Igreja Católica. Em 1981, Leal voltou a autorizar a entrada de missionários em áreas indígenas.
Chefe do escritório do SNI em Manaus (AM) no final da década de 70, o coronel reformado do Exército Delcy Gorgot Doubrawa, 79, mandou ofícios à FUNAI, em 1979, para pedir informações à ASI da FUNAI sobre assembleia indígena no Amazonas. "Eu trabalhava em Manaus, que era o ponto central. E os comandantes dessas unidades de fronteira nos abasteciam com informações. Mas, no meu período, ali, não houve atritos." Doubrawa não se recordou do ofício. "Não me lembro, mas se o sr. está lendo, realmente o documento foi expedido. É que a FUNAI tinha mais contato, mais informações, e nós nos valíamos também dos dados da FUNAI, pois eram dados confiáveis."
O general-de-divisão reformado Francisco Batista Torres de Melo, 84, disse não se recordar do pedido feito pelo então presidente da FUNAI, general Ismarth de Araújo Oliveira, para que infiltrasse um militar entre os salesianos. Melo disse que a própria Igreja Católica "tomou providências" contra a parte do "clero à esquerda". "Você viu que a santa igreja foi em cima deles, "não pode ser assim". A santa doutrina da igreja está acima dos homens."
Alvos
O padre Antônio Iasi, 89, cofundador do Cimi, foi dos mais vigiados pela FUNAI nos anos 70. "De início, o Ismarth autorizou o trabalho do Cimi nas aldeias, mas quando percebeu que fazíamos relatórios para a imprensa, ele cortou completamente a autorização. Nós continuamos a fazer o trabalho clandestinamente, e a situação ficou tensa", relembrou Iasi. Os relatórios descreviam as más condições de saúde e alimentação nas aldeias.
O bispo dom Tomás Balduíno, 73, outro cofundador do Cimi, descrito em relatórios da FUNAI como "subversivo", ironizou a palavra. "De certa forma era verdade mesmo, nós fazíamos a subversão nas aldeias porque o índio começava a despertar para seus problemas. Quando o Cimi chegou, foi uma transformação radical. Eles [índios] começaram a buscar a recuperação de suas terras e de sua cultura", disse o bispo. (RV)
Na ditadura Funai espionava missionários -- III
A terceira parte da matéria de Rubem Valente, do jornal Folha de São Paulo, trata de alguns telegramas enviados pelo grande indigenista brasileiro, Apoena Meirelles, que, por volta de 1980, trabalhava em Rondônia como delegado regional de Porto Velho e como sertanista que fez contato com diversos povos da região.
Segundo esses telegramas, Apoena comunica à Funai sua opinião negativa sobre a visão de religiosos do CIMI e de outras missões sobre a questão indígena, pede que lhes seja vetada a entrada em terras indígenas, alerta sobre o aborrecimento dos índios com a ausência da Funai nas terras indígenas e em um deles pede a demissão dos indigenistas José Carlos Meirelles, Terri Aquino e Antônio Macedo, supostamente por insubordinação.
Na sequência da matéria, o jornalista Rubem Valente entrevistou Terri Aquino, que não se lembrava de ter tido discussões com Apoena na ocasião para merecer essa comunicação.
Apoena Meirelles, filho de Francisco Meirelles, foi um grande indigenista brasileiro. Fez os primeiros contatos com diversos povos indígenas pelo Brasil, desde os Avá-Canoeiro e especialmente os Suruí, Zoró e Urueuauau, em Rondônia, e tinha opiniões muito firmes sobre diversos temas do indigenismo brasileiro. Um deles era sobre a presença de missionários em terras indígenas, algo que não combinava com sua visão política duplamente de comunista e de rondoniano. Embora amigo de muitos indigenistas que foram contra o domínio de militares na Funai, Apoena não participou ativamente do movimento dos indigenistas que bateram de frente com os militares a partir do final da década de 1970. Talvez isto tenha a ver com o tal pedido para a Funai demitir os indigenistas do Acre. Ou talvez o caso seja explicado por algo mais comezinho, como a indisciplina dos citados. Não sei. Eles poderão explicar melhor. De todo modo, é evidente que Apoena não é um delator, pois sua visão sobre as missões religiosas era conhecida de todos e o pedido de demissão de colegas indigenistas fazia parte da prerrogativa de suas funções de administrador de uma unidade indigenista.
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Sertanista pediu demissões em telegramas confidenciais
Folha de São Paulo, Rubem Valente
Filho do sertanista Francisco Meirelles (1908-1973), referência no indigenismo, Apoena Meirelles (1949-2004) tornou-se também um inspirador das novas gerações de sertanistas. Nascido numa aldeia xavante, passou toda a vida adulta no trabalho indigenista. Em 2004, teve um fim trágico, ao ser baleado e morto numa suposta tentativa de assalto a um banco em Porto Velho (RO).
Antes de integrar o SPI (Serviço de Proteção ao Índio), o pai de Apoena foi filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e acabou preso em 1935 por envolvimento no levante comunista em Recife (PE). Apoena carregou do pai a imagem de "esquerdista" e teve atritos com os militares. Contava ter sido preso na passeata dos Cem Mil, no Rio, em 1968. Segundo seus ex-colegas na FUNAI, Apoena, que viria depois a presidir o órgão, foi demitido na gestão do coronel Paulo Moreira Leal (1981-1983).
O passado político de Apoena não impediu que ele ocupasse um cargo de confiança na FUNAI entre final dos anos 70 e início dos 80, o de delegado da 8ª Regional (RO e AC).
Os documentos da ASI (Assessoria de Segurança e Informações) da FUNAI, agora revelados, contudo, indicam que Apoena concordou diversas vezes com a ditadura em pelo menos dois pontos: detestavam o trabalho dos missionários religiosos em aldeias indígenas e os funcionários supostamente "insubordinados".
Num telegrama confidencial de junho de 1980, Apoena pediu à direção da FUNAI que demitisse sumariamente, por suposta "insubordinação", o antropólogo Terri Valle de Aquino, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior e o auxiliar artífice Antonio Luiz Batista de Macedo. Eles foram de fato demitidos dias depois.
Quase 30 anos depois, Aquino, que foi reconduzido à FUNAI na década de 90, só soube por um telefonema da Folha, há duas semanas, que seu superior havia pedido aos militares sua demissão. "Nunca discuti com Apoena. É uma completa surpresa para mim."
Aquino contou que na época da demissão estava ajudando os índios caxinauás a se organizarem e pedirem ao governo a demarcação de terras. "Eu não tinha problemas com Apoena, os índio que tinham."
Por telegramas, Apoena também pediu da FUNAI, em Brasília, que tomasse medidas enérgicas contra o Cimi e outras missões religiosas. Em 1980, despachou mensagem confidencial: "Encontrei índios revoltados com a ausência da FUNAI na região, completamente sob domínio do Cimi e de outras organizações religiosas".
Talvez o mais duro ataque de Apoena ao Cimi tenha sido o telegrama de 21 de março de 1982. Diz que os "elementos" do Cimi estimulavam "o ressurgimento de focos de tensão, causado pelo sectarismo e pela visão unilateral do problema do índio". Termina pedindo sinal verde para "vetar o ingresso do Cimi nas áreas indígenas".
O papel desempenhado por Apoena na FUNAI era de conhecimento dos indigenistas críticos do governo, conforme indica outro documento do acervo da ASI. O texto da peça de teatro "A Grilagem do Cabeça", que seria exibida no Amazonas e acabou censurada pela ditadura, trazia um personagem chamado Apoena, que, ao conversar com índios apurinãs, procura sempre defender a FUNAI. "Estou aqui enviado pelo presidente da FUNAI para resolver de uma vez por todas a situação", dizia o personagem. A ASI não gostou: "A peça é uma crítica sarcástica, falando sobre terra. (...) Fala do Apoena Meirelles. Percebe-se o veneno nas entrelinhas". (RV)
Segundo esses telegramas, Apoena comunica à Funai sua opinião negativa sobre a visão de religiosos do CIMI e de outras missões sobre a questão indígena, pede que lhes seja vetada a entrada em terras indígenas, alerta sobre o aborrecimento dos índios com a ausência da Funai nas terras indígenas e em um deles pede a demissão dos indigenistas José Carlos Meirelles, Terri Aquino e Antônio Macedo, supostamente por insubordinação.
Na sequência da matéria, o jornalista Rubem Valente entrevistou Terri Aquino, que não se lembrava de ter tido discussões com Apoena na ocasião para merecer essa comunicação.
Apoena Meirelles, filho de Francisco Meirelles, foi um grande indigenista brasileiro. Fez os primeiros contatos com diversos povos indígenas pelo Brasil, desde os Avá-Canoeiro e especialmente os Suruí, Zoró e Urueuauau, em Rondônia, e tinha opiniões muito firmes sobre diversos temas do indigenismo brasileiro. Um deles era sobre a presença de missionários em terras indígenas, algo que não combinava com sua visão política duplamente de comunista e de rondoniano. Embora amigo de muitos indigenistas que foram contra o domínio de militares na Funai, Apoena não participou ativamente do movimento dos indigenistas que bateram de frente com os militares a partir do final da década de 1970. Talvez isto tenha a ver com o tal pedido para a Funai demitir os indigenistas do Acre. Ou talvez o caso seja explicado por algo mais comezinho, como a indisciplina dos citados. Não sei. Eles poderão explicar melhor. De todo modo, é evidente que Apoena não é um delator, pois sua visão sobre as missões religiosas era conhecida de todos e o pedido de demissão de colegas indigenistas fazia parte da prerrogativa de suas funções de administrador de uma unidade indigenista.
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Sertanista pediu demissões em telegramas confidenciais
Folha de São Paulo, Rubem Valente
Filho do sertanista Francisco Meirelles (1908-1973), referência no indigenismo, Apoena Meirelles (1949-2004) tornou-se também um inspirador das novas gerações de sertanistas. Nascido numa aldeia xavante, passou toda a vida adulta no trabalho indigenista. Em 2004, teve um fim trágico, ao ser baleado e morto numa suposta tentativa de assalto a um banco em Porto Velho (RO).
Antes de integrar o SPI (Serviço de Proteção ao Índio), o pai de Apoena foi filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) e acabou preso em 1935 por envolvimento no levante comunista em Recife (PE). Apoena carregou do pai a imagem de "esquerdista" e teve atritos com os militares. Contava ter sido preso na passeata dos Cem Mil, no Rio, em 1968. Segundo seus ex-colegas na FUNAI, Apoena, que viria depois a presidir o órgão, foi demitido na gestão do coronel Paulo Moreira Leal (1981-1983).
O passado político de Apoena não impediu que ele ocupasse um cargo de confiança na FUNAI entre final dos anos 70 e início dos 80, o de delegado da 8ª Regional (RO e AC).
Os documentos da ASI (Assessoria de Segurança e Informações) da FUNAI, agora revelados, contudo, indicam que Apoena concordou diversas vezes com a ditadura em pelo menos dois pontos: detestavam o trabalho dos missionários religiosos em aldeias indígenas e os funcionários supostamente "insubordinados".
Num telegrama confidencial de junho de 1980, Apoena pediu à direção da FUNAI que demitisse sumariamente, por suposta "insubordinação", o antropólogo Terri Valle de Aquino, o sertanista José Carlos dos Reis Meirelles Júnior e o auxiliar artífice Antonio Luiz Batista de Macedo. Eles foram de fato demitidos dias depois.
Quase 30 anos depois, Aquino, que foi reconduzido à FUNAI na década de 90, só soube por um telefonema da Folha, há duas semanas, que seu superior havia pedido aos militares sua demissão. "Nunca discuti com Apoena. É uma completa surpresa para mim."
Aquino contou que na época da demissão estava ajudando os índios caxinauás a se organizarem e pedirem ao governo a demarcação de terras. "Eu não tinha problemas com Apoena, os índio que tinham."
Por telegramas, Apoena também pediu da FUNAI, em Brasília, que tomasse medidas enérgicas contra o Cimi e outras missões religiosas. Em 1980, despachou mensagem confidencial: "Encontrei índios revoltados com a ausência da FUNAI na região, completamente sob domínio do Cimi e de outras organizações religiosas".
Talvez o mais duro ataque de Apoena ao Cimi tenha sido o telegrama de 21 de março de 1982. Diz que os "elementos" do Cimi estimulavam "o ressurgimento de focos de tensão, causado pelo sectarismo e pela visão unilateral do problema do índio". Termina pedindo sinal verde para "vetar o ingresso do Cimi nas áreas indígenas".
O papel desempenhado por Apoena na FUNAI era de conhecimento dos indigenistas críticos do governo, conforme indica outro documento do acervo da ASI. O texto da peça de teatro "A Grilagem do Cabeça", que seria exibida no Amazonas e acabou censurada pela ditadura, trazia um personagem chamado Apoena, que, ao conversar com índios apurinãs, procura sempre defender a FUNAI. "Estou aqui enviado pelo presidente da FUNAI para resolver de uma vez por todas a situação", dizia o personagem. A ASI não gostou: "A peça é uma crítica sarcástica, falando sobre terra. (...) Fala do Apoena Meirelles. Percebe-se o veneno nas entrelinhas". (RV)
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