segunda-feira, 3 de maio de 2010

Resposta à matéria da VEJA "A farra da antropologia oportunista"


Mais uma vez a revista VEJA traz em suas páginas matéria cheia de injúrias aos povos indígenas brasileiros. 

Não pode passar despercebido ao mais desavisado e ingênuo leitor dessa revista o ranço, o azedume de preconceitos e vícios jornalísticos apresentados sobre a questão indígena brasileira. Porém a factualidade do texto também está comprometida por desvirtuamentos de pesquisa, compreensão e análise que certamente intencionam provocar uma impressão extremamente negativa da questão indígena em nosso país. 

Os autores da matéria “A farra da antropologia oportunista”, ao que tudo indica jornalistas jejunos no trato de tais assuntos, parecem perseguir uma linha editorial ou um estilo jornalístico em que a busca de objetividade possível é relegada ao interesse ideológico de denegrir as conquistas dos segmentos mais oprimidos do povo brasileiro e demonstrar o seu favorecimento aos poderosos da nação. Primam por um estilo sardônico, próprio de jornalistas que fazem de seu ofício a defesa inquestionável do status quo social e econômico brasileiro, aludem a supostos fatos a partir de evidências descontextualizadas e apresentam citações sem a mínima preocupação com comprovação. 

Falta-lhes sobretudo compreensão histórica da questão indígena brasileira, do papel da antropologia e da condição contemporânea da ascensão dos povos indígenas no Brasil e no mundo. Empatia às causas populares e gestos positivos em relação à ascensão das camadas sociais mais oprimidas da nação são atitudes ausentes nesse tipo de jornalismo. 

Ao contrário, estão do lado dos que consideram a nação um quintal a ser usado (e abusado) ao seu bel prazer. Um repertório acanhado, porém virulento, de asserções deslocadas do processo histórico tenciona incutir no leitor uma visão de que os povos indígenas – e também os descendentes de quilombolas – estão aí para surrupiar as riquezas da nação dos destemidos fazendeiros, madeireiros, mineradores e empreiteiros da nação. A continuar esse processo não sobrarão terras nem riquezas naturais para a continuada exploração econômica da nação! 

Os antropólogos estariam a serviço de uma espécie de subversão da realidade empírica, afeitos à criação imaginativa de identidades étnicas e dispostos a reverter o processo histórico nacional. Nem os mais afoitos de nós sonham com tamanho poder! 

Já os índios e quilombolas estão em marcha guerreira para varrer do país aqueles que dariam sustento e sentido à nação. 

É demais. 

Apresento aqui o meu repúdio a esse tipo de jornalismo. 

Denego-lhe o falso direito jornalístico de atribuir a mim uma frase impronunciada e um sentido desvirtuante daquilo que penso sobre a questão indígena brasileira. 

Portanto, conclamo os editores da VEJA a rever sua visão miópica e estigmatizada do processo histórico brasileiro. Fariam bem ao seus leitores se se concentrassem na busca de objetividade jornalística e numa compreensão humanista, científica e hiperdialética da história do nosso país.

Atenciosamente,
Mércio Pereira Gomes, antropólogo, professor da Universidade Federal Fluminense e ex-presidente da Funai

14 comentários:

Hermes disse...

Olá Mércio, sou estudante de ciências sociais, e tenho tendências para a antropologia...Li a matéria da veja e não deu para aceitar. Realmente é de se dá nojo o teor anti democrático ali expostos. Espero que a sua resposta seja divulgada, e muito, e não fique só nisso, até porque ela atribuiu um depoimento seu, que você diz não ser. Algum dia essa revista precisa ser punida, pois como diz um amigo meu "Você tem a liberdade de expressão, mas esqueceram de dizer que tem que se responsabilizar pelo que diz".
Abraço.

Bruno disse...

Mércio, como vai?

Sou mestrando em antropologia social e gostaria de saber se o texto acima foi enviado à Veja e se você pretende entrar com algum tipo de processo por calúnia com relação à citação indevida e difamatória de seu nome na matéria.

Eu e alguns colegas estamos articulando uma resposta e gostaríamos de saber qual a sua posição a respeito de uma ação jurídica contra a revista.

Atenciosamente,

Bruno.

Mércio P. Gomes disse...

Prezado Bruno, estamos consultando um advogado sobre isso, mas ele acha que seria um processo longo e custoso, sem muita esperança de reverter. Enfim, estamos pensando em que fazer. Quanto mais respostas à Veja houver, melhor. Abraço, Mércio

Caetaneando disse...

Oi Professor, bom dia!

Que bomba, hein? Estamos reunidos com o Carvalho e o sentimento é de indignação. E de revolta e preocupação. preocupação porque, nestes casos, consideramos como muito bem "articulada" as ofensas á causa indígena e por tabela, a indigenistas. Suspeitamos que haja informantes de dentro da FUNAI, auxiliando este estratagema todo. O teor da matéria nos leva a pensar assim, e isto nos parece muito mais sério. Vai haver consequências e mesmo que a revista se retrate, as feridas permanecerão abertas. A matéria, parece-nos ter, além do objetivo político, o objetivo racista. Aí o bicho vai pegar. Será que os editores pensaram nisto?

Lamentável, insensata e repugnante a postura da revista.

Caetano, de Altamira-PA

Anônimo disse...

Prezado Professor,

como advogado e ex-assessor jurídico sindical, aconselho que entre em contato com sua entidade de classe, no caso a ADUFF. Eles possuem um bom corpo jurídico, que pode lhe auxiliar nessa empreitada difamatória da Veja. Além do mais, a repercussão do caso no meio acadêmico pode ser muito positiva para a classe do magistério superior.

Um abraço.

Anônimo disse...

Prezado Professor,

como advogado e ex-assessor jurídico sindical, aconselho que entre em contato com sua entidade de classe, no caso a ADUFF. Eles possuem um bom corpo jurídico, que pode lhe auxiliar nessa empreitada difamatória da Veja. Além do mais, a repercussão do caso no meio acadêmico pode ser muito positiva para a classe do magistério superior.

Um abraço.

José Castilho disse...

Caro Mércio,
Tive a satisfação de te conhecer no Memorial da América Latina recentemente
em uma homenagem ao saudoso Darcy Ribeiro. Sou último anista de filosofia da USP e fui recentemente aprovado no concurso da funai para o estado do Mato Grosso. Quero te dizer que a leitura do teu livro Os índios e o Brasil contribuiu em muito para a minha aprovação e classificação em 10º lugar entre os mais de 3500 concorrentes. Este é o primeiro concurso para trabalho na esfera pública federal que fiz e estou com grandes espectativas quanto ao trabalho com comunidades indígenas. Espero muito que você volte para a FUNAI e gostaria de apresentar a você alguamas ideias que tenho para um programa de pesquisa em antropologia filosófica comparada tendo como alvos a civilização industrial ocidental moderna e as culturas indígenas da américa latinaem especial do Brasil e da América andina.
Obrigado pela atenção
José Castilho

Anônimo disse...

MERCIO,EX COLEGA DA FUNAI.EU ESTOU DESAMPARADA PERNAS E MAOS AMARRADAS COM MEU POVO XAVANTE...VAMOS A LUTA.

Paulo Hentique Prado disse...

Mércio, se a Veja mentiu o Eduardo Viveiros de Castro também. O texto que ele disponibilizou na missiva à revista, ele cita a sua frase. E ai? O professor Eduardo é mentiroso?

Bruno Lima, disse...

Professor, o processo judicial é difícil, demorado e, sim, custoso, como disse o advogado consultado. Mas sobre isso recomendo ao senhor a leitura de A Luta pelo Direito, de Rudolf Von Ihering. Escrita ainda no século 19, a obra mostra que a ofensa ao seu direito é a ofensa a todo o ordenamento jurídico. Mostra que lutar pelo direito não é simplesmente uma escolha, mas um dever, sob pena de colocar em risco todo o sistema. Em palavras bem simples, é porque é difícil, custoso e cansativo lutar por isso que existem ainda abusos da liberdade de expressão de natureza tão vergonhosa. Desejo força de vontade e boa sorte para a luta. Meus cumprimentos.

Denise Cantagallo Carreto disse...

Querido professor Mércio, sou formada em Ciências Sociais, na área de Antropologia, mas esse não foi o motivo do meu repúdio ao artigo. Acredito que qualquer brasileiro bem informado (por meios de comunicação confiáveis) sentiria o que nós sentimos ao ler o artigo. Sua indignação deve ter sido pior, pelo fato de ter tido o seu nome citado e uma fala falsamente colocada no artigo. Pois bem, venho por meio deste comentário convidá-lo e também fazer um pedido. Sou do interior de São Paulo, e estamos escrevendo uma Carta de Repúdio ao artigo. Gostaria de convidar o senhor a lê-lo e dizer sua opnião sobre, além de permitir que citemos seu blog.
Dessa forma, também, gostaríamos que esta carta tivesse uma publicação que pudesse abranger tanto quanto o artigo da VEJA abrangeu. Ou seja, um meio de informação que seja veiculado no país todo. Acredito que, juntos, podemos deixar bem claro os interesses deste artigo.
Agradeço desde já.
Denise Cantagallo Carreto

Alejandro disse...

Respeitável amigo e Prof, eu sou estudante de História me formo próximo ano, estou indignado com tamanha falta de respeito da Veja para com a causa indígena, esta revista sempre foi absurda e suas matérias sempre foram a palavra de uma classe social antiquada defasada e ignorante, sem duvida você deve reivindicar o direito de resposta. Em nosso país (você mais do que ninguém sabe disso), ja foi derramado muito sangue indígena por motivos econômicos e políticos. Nós, da área de humanas devemos nos unir contra atitudes de tamanha falta de responsabilidade, segundo o que me consta os meios de comunicação são uma expressão da própria sociedade, sendo assim, não pode haver duvida que estes falsários que se dizem repórteres sejam punidos, por tamanha calunia. Dentro da História o estudo do indígena brasileiro é muito menor que na Antropologia, por isso eu respeito muito esta Ciência, que tem me dado muitas ferramentas uteis em meus estudos.
Sem mais para o momento quero postar um link que talvez ajude, sobre o direito de resposta.

http://www.webartigos.com/articles/26503/1/A-POLEMICA-DO-DIREITO-DE-RESPOSTA-NO-ATUAL-PANORAMA-JURIDICO-BRASILEIRO/pagina1.html

Anônimo disse...

Estas afirmações me chocaram, me causaram uma tamanha dor , isso mesmo, dor:
"Pelas leis atuais, uma comunidade depende apenas de duas coisas para ser considerada indígena ou quilombola: uma declaração de seus integrantes e um laudo antropológico. A maioria desses laudos é elaborada sem nenhum rigor científico"

Estes sujeitos é que elaboram uma reportagem sem nenhum rigor jornalístico. Se eles tivessem acompanhado o processo de confeccção do relatório antropológico do qual eu participei, jamais teriam escrito isso. É uma tremanda falta de respeito com pesquisadoras como eu que viveram em condições precárias, sem água encanada, energia elétrica, e muitas outras por 2 meses imersos numa comunidade. Com um trabalho embasado por mais de 2 técnicas científicas que estão retratadas na minha dissertação de mestrado e num álbum com mais 2.000 fotos que registraram tudo, inclusive as provas materiais de os quilombolas são descendentes de escravos. Isso não é apenas um "laudo antropológico". As equipes são formadas por 6 pessoas capacitadas e tituladas com várias formações e com muito preparo para elaborar um documento imenso.
Que indignação!
Ana Paula Alves, UEPG/PR

Anônimo disse...

Olá,
Ao ler a reportagem de Veja, logo percebe o preconceito racial-étnico, a indignação deles ver esse grupos que sempre viveram marginalizados, com uma pequena oportunidade, causa a inquietação naqueles que sempre oprimiram, o grande desejo da elite é ter a maioria pobres, negros e indígenas sempre mendigando na sociedade, já é passada a hora de se fazer justiça social neste País, construído por mão de obra escrava.

 
Share