quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Homenagem a Claude Lévi-Strauss -- 1

Claude Lévi-Strauss, o grande antropólogo francês, criador da escola Antropologia Estrutural, está fazendo 100 anos dia 28 de novembro. Em sua homenagem dei um curso de Antropologia na Universidade Federal Fluminense sobre sua obra. Lemos diversos livros deles e os artigos principais sobre suas posições teóricas.

Lévi-Strauss esteve no Brasil entre 1935 e 1938, dando aulas na novíssima Universidade de São Paulo. De lá fez excursões de pesquisa por diversas partes do Brasil. Conviveu com um grupo de intelectuais da época, inclusive Mário de Andrade, que estava buscando se encontrar com as raízes do Brasil.

Lévi-Strauss visitou diversos povos indígenas brasileiros. Entre eles destacam-se seus trabalhos sobre os Kadiwéu, os Bororo e os Nambiquara.

O resultado do curso foi muito bom. Apresentarei a seguir nos próximos dias alguns resultados da 2ª avaliação, que foi sobre os livros Totemismo hoje e O Pensamento Selvagem.

Começo pelo trabalho da aluna Sara Sousa Mendonça, logo a seguir.

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Universidade Federal Fluminense
Instituto de Ciências Humanas e Filosofia
Curso: Ciências Sociais
Matéria: Antropologia III
Prof°: Mércio Gomes
Aluna: Sara Sousa Mendonça
2° Avaliação



Questão 1
Por que, ao final de tantas discussões, Lévi-Strauss chega à conclusão que animais e plantas que são referidos em sistemas totêmicos são "bons para pensar" e não, como achava Malinowski, "bons para comer" ?

Em seu livro O Totemismo Hoje Lévi-Strauss revisita diversos antropólogos que trataram do assunto, com o intuito de provar que o totemismo de que eles falam não existe, o que ele chama de “pretenso totemismo” e “ilusão totêmica”.
Primeiramente acredito ser importante falar sobre as características fundamentais desse totemismo, que é um sistema formado por três elementos: (1) grupos, que são divididos em metade A e B ou em clãs, e se casam exogamicamente, (2) símbolos (os totens), cada grupo é representado por um símbolo diferente, e por fim (3) comportamento, na forma de restrições ou praticas com relação aos símbolos.

O motivo de Lévi-Strauss falar em “ilusão totêmica” é que a empiricidade diversa do totemismo é tão ampla que derruba as teorias então existentes sobre o assunto, como a perspectiva funcionalista de Malinowski, que se atêm unicamente a um nível naturalista, utilitário e afetivo ao dizer que o interesse concentrado no mundo animal e vegetal reflete o fato de que a preocupação primordial dessas sociedades reside no alimento. Assim as sociedades vão adorar coisas se seriam essenciais para a sua vida, escolhendo os animais e vegetais que tivessem importante papel em sua dieta alimentar, ou seja, o totem era escolhido por ser “bom para comer”.

Porém essa tese não se sustenta a luz de sistemas totêmicos cuja os totens não possuem funcionalidade, no sentido dito acima, para a vida social, como o caso da sociedade que tem como totem o vomito, não sendo possível portanto utilizar a perspectiva funcionalista para compreender o fenômeno do totemismo.

Assim sua visão de totemismo é de que os símbolos de um grupo o são não por serem “bons para comer”, mas sim por serem “bons para pensar”.

Para Lévi-Strauss a explicação para o totemismo deve ser vista a partir da interferência natureza/cultura, tendo o papel de conciliar entre dualidades internas da sociedade, que poderiam ser um obstáculo para a vida em grupo. Seria assim a representação do mais profundo inconsciente humano, que enxerga no mundo externo estruturas conflitantes, dualistas e internas, situação na qual o sistema totêmico é criado para organizar e confortar sobre esses conflitos.
Dessa forma os totens não são vistos como “bons para comer”, mas sim como “bons para pensar” as diferenças, e também aceitá-las, não existindo somente um totem em uma sociedade, sendo sempre em conjunto, para poderem ser contrastados.


Questão 2
Discorra sobre as diferenças e semelhanças entre a ciência do concreto e a ciência do abstrato.

Em o Pensamento Selvagem Lévi-Strauss fala contra a visão que diz que o pensamento nas sociedades primeiras é inferior ao da nossa, por não ser abstrato.

Diz que essas sociedades também possuem um raciocínio lógico, no mesmo sentido e maneira que o nosso, com características de cientifico, nada tendo de espontâneo ou confuso como se pensava e que ele chamou de Ciência do Concreto, enquanto nas sociedades (ditas) civilizadas o que existe é a Ciência do Abstrato, com a diferença entre ambos sendo, primeiramente o grau de abstração alcançado.

Defende que a ciência do concreto não é uma forma cientifica primitiva, mas sim a primeira forma, onde o pensamento se dá através de preceitos e signos, que são os intermediários entre a imagem e o símbolo, metonímias que representam um objeto ou imagem. O fato de ser primeira para ele não pressupõe evolução na cultura e no pensamento entre uma forma e outra, existindo apenas o acumulo, ocasionado por variações e possibilidades de modelo, e que estas tem como base a ciência do concreto.

Recorre a inúmeros exemplos para mostrar que esta forma de ciência não está ligada apenas a uma necessidade funcionalista, onde se busca conhecer o que é necessário para a alimentação ou o tratamento de doenças, nela se encontra uma grande curiosidade cientifica, que busca apreender o mundo ao redor pelo simples desejo de conhecê-lo. Nos exemplos utilizados fica clara a capacidade meticulosa de classificação de espécies vegetais e animais, das quais diz que se a nossa ciência as utiliza-se teria muito a ganhar, além de evitar grandes equívocos.

Já a ciência do abstrato é o que conhecemos por ciência, trabalhando com conceitos, símbolos e metáforas.

Uma das diferenças importantes entre as duas formas de ciência é a maneira como são feitas as classificações. Na do concreto elementos exógenos são usados elemento classificatório: a abelhinha que vive em determinada arvore conta para definir que arvore é aquela. Já na do abstrato somente elementos endógenos são utilizados, dentre os quais o DNA é o auge da abstração.

Em seu livro faz analogia entre as duas formas de ciência e duas formas distintas de ver o mundo, que seria a do bricoleur, representando a ciência do concreto, e o engenheiro, representando a do abstrato. É interessante notar que se o pensamento do engenheiro é abstrato para aquilo que foi treinado para ser, para as demais coisas, como a culinária, se assemelha em muito ao pensamento concreto.


Questão 3
Discorra sobre o debate entre Lévi-Strauss e Jean-Paul Sartre a respeito das lógicas analítica e dialética e os sentidos de história e estrutura.

Em a Critica da Razão Dialética Sartre se dedica a afirmar a superioridade desta sobre a analítica, herança aristotélica. Segundo Lévi-Strauss Sartre hesita entre duas concepções da razão dialética, ora a opõe com a analítica, como a verdade e o erro, ora as vê como complementares, duas formas de se descobrir a verdade.

O livro de Sartre, pela visão de Lévi-Strauss, devido as concepções abordadas a cima, parece, ao seguir a primeira, contraditório, e com relação a segunda supérfluo. Seguindo a primeira seu estudo cai em um paradoxo curioso, pois nele o autor define, distingue, classifica e opõe, o que o torna o produto do exercício da própria razão analítica de Sartre. Pelo segundo pois afirma que ambas razões são capazes de alcançar a verdade, não havendo portanto sentido em proclamar a superioridade de uma sobre a outra.

Lévi-Strauss defende que ambas as razões são a mesma (se aproximando da segunda concepção de Sartre), a dialética nada mais sendo do que a razão analítica em dois tempos, que chega a dialética pelo esforço constante de se superar.

A segunda critica feita por Lévi-Strauss é, acredito eu, a razão desta discussão estar presente em um livro chamado O Pensamento Selvagem: diz que Sartre tenta distinguir duas dialéticas, uma que seria a “verdadeira” e é atribuída às sociedades históricas, e outra que seria repetitiva, de curto prazo e muito próxima da biologia, que é atribuída as sociedades primitivas. Ora! Sartre acaba de reconstruir a ponte entre natureza e cultura, que sobre tantos esforços havia sido abolida pela antropologia, além de retomar com as tão repudiadas noções evolucionistas de superioridade e inferioridade.

O estruturalismo de Lévi-Strauss rechaça a historia, não entendendo porque filósofos como Sartre insistem em atribuir-lhe papel preponderante, com a tentativa de restabelecer uma continuidade temporal coletiva, que em sua opinião só pode ser assegurada por meio de traçados fraudulentos, enquanto a abordagem de sua antropologia se desenvolve na descontinuidade espacial.

Procura derrubar a historia de seu lugar preponderante afirmando que ela não passa do mito da civilização ocidental para a passagem do tempo, sendo ela e o historiador sempre parciais. Para ele as mudanças ditas históricas nada mais são do que variações de modelo de uma mesma estrutura, que contem em si própria todas as possibilidades de transformação possíveis.

Questão 4
Quais as grandes ambições do movimento estruturalista dentro da comunidade científica.

O movimento estruturalista não é exclusividade da antropologia, abarcando toda uma serie de disciplinas que tem no homem o horizonte comum, e pretende, através de uma abordagem conceitual, a realização de um programa comum a todas as ciências do homem, abolindo as fronteiras disciplinares, e tendo como objetivo ambicioso maior a construção da unidade paradigmática.

Porém, nesse processo de abolição das fronteiras disciplinares, as disciplinas então existentes não tinham pesos iguais: a História foi renegada (assim como a filosofia), pois para Lévi-Strauss esta disciplina não é verdadeiramente cientifica, sendo simplesmente o mito da civilização ocidental para a passagem do tempo.

Enquanto a História é abandonada, a antropologia ambiciona ser hegemônica nas ciências humanas, não se interessando mais em estudar o que é especifico de cada sociedade, mas sim o que é comum a todas elas (como o tabu do incesto), para através disso descobrir as próprias leis universais da organização social, que para Lévi-Strauss estariam presentes nas estruturas neurológicas do próprio cérebro humano.

Da mesma forma que o estudo do especifico não entre na agenda do estruturalismo, o sujeito também não tem nenhuma importância, sendo apenas um mero executor da estrutura, sem o poder de modificá-la.

Nascido da lingüística, esse movimento pretende ter uma característica desta: a capacidade de prever as variações futuras dos modelos estruturais. Buscando também nesta ciência, que é uma das que mais se assemelha às ciências exatas dentre as humanas, a legitimação de seus argumentos.

Em seu discurso legitimador a antropologia estrutural efetua um caminho semelhante ao da ciência econômica, que se “matematizou” para elevar seu status cientifico e obter maior credibilidade. Semelhantemente a antropologia irá criar modelos sociais e buscar ser uma ciência natural, para se tornar o que é visto como “ciência de verdade”, falando de leis universais (tão características da física e demais ciências exatas), que se encontrariam na complexidade neurológica da biologia humana.
Penetrando pelo território das demais ciências a antropologia estrutural busca obter domínio e legitimidade para assumir a posição, que se atribui, de hegemônica no campo de estudos do homem.


Questão 5
Por que e como o estruturalismo desmoronou do seu pedestal de respeitabilidade e vem sendo substituído por teorias chamadas pós-modernas?

Lévi-Strauss acreditava na existência de estruturas, que uma vez apreendidas levariam as leis universais da sociedade, o que Claude Roy compara a velha e incansável busca pelo Santo Graal dos intelectuais.

A proposta estruturalista, apesar de ser muito tolerante com as diferenças e advogar sua preservação, se atem ao estudo dos universais sociais, o que fica evidente na frase de Lévi-Strauss: “ Não sei o que é a sociedade humana. Ocupo-me de certos modos permanentes e universais das sociedades humanas, de certos níveis isoláveis de análise.”

Aí fica clara a fraqueza do estruturalismo: ele não sabe (e nem quer saber) o que é a sociedade humana, Ora, essa é a proposta (e o que é esperado) das ciências humanas, abandonando isso o estruturalismo se transforma apenas um mero exercício intelectual da busca pelas estruturas, sem nenhuma aplicabilidade para a apreensão do real.

O autor francês Wicktor Stoczkowski, que está lançando o livro “Antropologias redentoras – O mundo segundo Lévi-Strauss”, em entrevista ao Globo (edição de 15 de novembro de 2008), ao responder pergunta semelhante a que aqui me cabe diz: “Para Lévi-Strauss o estruturalismo torna-se uma maquina interpretativa à qual nada resiste. Aplicamos o estruturalismo ao sonho, ao conto de fada, à receita de cozinha, à musica, ao mito, ao sistema de parentalidade, à historia dos extraterrestres. É magnífico: você tem esta maquina e pode escrever livros em cadeia, gera um discurso que parece inteligível aos outros. Mas em que o estruturalismo serviu para compreender o mundo? (Stoczkowski sacode os ombros)”. Acredito que chegamos a um ponto em comum do porque o estruturalismo desmoronou.

O que vêm a seguir desta queda são as teorias pós-modernas, pós-estruturalistas. O que vai ser importante na antropologia no pós estruturalismo é a idéia de que o homem e a cultura, como unidades únicas, não existem, existindo a pluralidade: os homens e as culturas, o que torna esdrúxula a ambição de encontrar as leis gerais do homem.

Se novo pensamento diz que o ser é igual ao não-ser. O que há é apenas discursos sobre o ser (que na realidade é o não ser). Daí deriva a idéia do multiculturalismo, e de que ninguém de fora possui o direito de falar sobre o ser, pois tudo que falasse não passaria de discurso. Assim os antropólogos que compartilham disto acreditam que seu dever não é falar sobre o outro, mas sim lhe dar voz. Essa postura acaba levando a antropologia a outro buraco-negro, pois também se mostra incapaz de abordar o real de modo a compreendê-lo.

2 comentários:

Sara disse...

=D

Mari disse...

vai me ajudar muito na prova de antrop!!!

 
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