quinta-feira, 22 de maio de 2008

Polícia Federal abre inquérito sobre Altamira 2


Em conseqüência do ataque ritual desferido por um grupo de Kayapó-Gorotire ao engenheiro Paulo Rezende, na terça-feira passada, durante o Evento "Xingu Vivo para Sempre", promovido pela Igreja e Ongs ambientalistas, sem a presença da Funai, o Ministério Público Federal deu ordens à Polícia Federal para abrir um inquérito. Digo "ataque ritual" porque se fosse de verdade a coisa seria outra.

A matéria abaixo do jornal Folha de São Paulo trata disso e do inquérito. Aqui eu teço outras considerações sobre as repercussões do ocorrido.

De cara, o delegado responsável pelo inquérito diz que não adianta descobrir quem desferiu o golpe e quem estava presente. Abrir um inquérito individualizando os índios seria muito custoso. A grande questão que lhe cabe definir é quem comprou os facões que estavam nas mãos dos Kayapó, já que eles não saem de suas casas com facões nas mãos. Facão é usado para cortar o mato e capinar a roça. Pessoalmente, quando era presidente da Funai, nunca vi um Kayapó na Funai ou em reunião com facão na mão. Com bordunas já os vi em suas reuniões, mesmo porque a borduna é usada como um instrumento do discurso ritual de guerra. Porém facões só se empunham por motivo objetivo.

A repercussão do ataque ritual não poderia ser pior no imaginário brasileiro. Os termos selvageria e doidice saíam das bocas das pessoas e estavam nos editoriais de muitos jornais do país. Não sei as repercussões no Exterior. Porém algumas declarações de autoridades beiraram a irresponsabilidade. Da presidência da Funai saiu uma declaração que condenava o ataque ritual pela violência que representava. Porém não atenuava em nada o ato dos Kayapó pelo fato de estarem passando por uma fase de indefinição de sua relação com a Funai. Esse mesmo grupo que desfechou o ataque ritual tinha passado dez dias na Funai durante a Semana do Índio querendo falar com algum membro da diretoria do órgão e todos tinham se escafedido. Tampouco usou o atenuante de que a presença dos Kayapó naquele Evento tinha como objetivo esperado algo escandaloso para chamar a atenção da mídia.

Por outro lado, o polêmico projeto da Usina Belo Monte (ex-Kararaô) vinha sendo debatido entre Ongs brasileiras e estrangeiras com vistas a ter o voto contrário dos Kayapó. Diversas reuniões foram financiadas por essas Ongs para levar os Kayapó a serem absolutamente contrários a qualquer negociação de compensação, de mudança do projeto, o que fosse. Para os Kayapó, do modo como recebiam as informações sobre as conseqüências de uma tal hidrelétrica, suas terras iriam ser inundadas e, para sobreviverem, eles teriam de viver em cima das árvores. Em outras palavras, os Kayapó vinham sendo incensados a irem contra essa Usina e a agirem nos conformes. O gesto espontâneo de Tuíra, em 1989, era glorificado e só faltava saber quem o repetiria.

Por tudo isso, parece igualmente estranho que a Eletrobrás tenha exposto um seu alto funcionário ao caldeirão de pessoas contrárias a um projeto como se sua palavra viesse a modificar o ânimo dos presentes. Não sei que soberba é essa, ou que tipo de aconselhamento a equipe da Eletrobrás recebeu. O certo é que esse ocorrido terá conseqüências difíceis de serem previstas tanto sobre a questão indígena quanto sobre o desenvolvimento sustentável da Amazônia.

Por fim, há que se lembrar de um fato. Um evento dessa natureza, com a presença de mais de 600 índios, não tinha uma autoridade da Funai, nem para falar, nem para estar ao lado dos índios. Parece que o órgão não existe mais.


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PF investiga quem armou índios do Pará
Polícia quer descobrir quem comprou os mais de cem facões entregues aos caiapós que agrediram engenheiro da Eletrobrás

Delegado responsável pelo inquérito diz ter provas de que ao menos sete facões foram adquiridos antes de encontro que reuniu ONGs

KÁTIA BRASIL
DA AGÊNCIA FOLHA, EM MANAUS

SÍLVIA FREIRE
DA AGÊNCIA FOLHA

A Polícia Federal em Altamira (PA) investiga os responsáveis pela compra de pelo menos cem facões entregues aos índios caiapós que agrediram o engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende, coordenador do estudo do rio Xingu -onde deve ser construída a hidrelétrica de Belo Monte.

Anteontem, Rezende sofreu um corte profundo no braço direito e foi espancado pelos índios quando apresentava o projeto e defendia sua instalação. "Hoje o inquérito está seguindo outra linha, não para identificar exatamente quem desferiu golpes com facão. Mas, como os facões são novos e foram comprados recentemente dentro da cidade [Altamira], estamos investigando quem os forneceu aos índios", disse o delegado Jorge Eduardo Ferreira de Oliveira, coordenador do inquérito que apura crime de lesão corporal contra o engenheiro.

Ele disse ter provas de que sete dos cerca de cem facões foram comprados em estabelecimentos comerciais de Altamira antes do encontro "Xingu Vivo para Sempre", que desde anteontem reúne 2.500 pessoas -das quais de 600 a 800 indígenas- num ginásio da cidade. O encontro terminará amanhã.

Segundo o delegado da PF, é importante saber se houve participação da organização do evento, da Arquidiocese de Altamira, do ISA (Instituto Socioambiental), da Fundação Viver, Produzir e Preservar, além de dezenas de outras ONGs: "Se houve, seria uma incitação à violência. Colocar facões novos nas mãos dos índios é extrapolar o caráter do movimento".

A organização do encontro negou que tenha comprado os facões ou incitado os índios à agressão: "A organização não patrocinou, não comprou nem orientou os caiapós sobre o uso dos facões ou outro artefato", disse Ana Paula Souza, coordenadora-geral da Fundação Viver, Produzir e Preservar.

Segundo ela, não é novidade o uso de facões pelos caiapós nem o fato de eles comprarem os artefatos no comércio local. De acordo com ela, uma nota condenando a agressão foi divulgada logo após o fato: "Foi uma atitude abominável".
O delegado da PF disse que o órgão está estudando as imagens das agressões contra Rezende -que foi ouvido em Altamira antes de ir para o Rio.

O procurador da República Felício Pontes, que participou do encontro, afirmou que Rezende foi inábil e provocador ao se dirigir ao público: "Ele [Rezende] dizia: "Olha, eu moro no Rio de Janeiro. Quem vai ficar sem luz são vocês". Ele foi muito inábil", afirmou Pontes. A reportagem enviou e-mail a Rezende. Segundo a Eletrobrás, ficaria a critério do engenheiro responder ou não aos questionamentos, o que não ocorreu.

Uma das participantes do encontro foi a índia Tuíra, que repetiu com Rezende o mesmo gesto de advertência que fez em 1989 com o hoje presidente da Eletronorte.

O 16º Batalhão da Polícia Militar do Xingu, de Altamira, disse que dez PMs estavam no evento na hora da agressão. Ontem passou a ter 30 policiais.

Cerca de cem índios, de várias etnias, fizerem uma manifestação ontem às 15h, no entorno da sede da Justiça Federal, em Altamira, contra a construção da usina. Alguns estavam armados com bordunas.

Um comentário:

Menandro disse...

olá Mércio. É interessante observar como a mídia brasileira foi parcial e etnocêntrica ao abordar esse incidente. O Fantástico, por exemplo, fez uma reportagem entitulada "índios violentos". Em nenhum momento se falou da "violência" que a construção da hidrelétrica respresenta aos olhos dos índios. O que é um corte no braço comparado a um corte de 440km quadrados na sua terra?
O que me impressionou mais ainda foi a declaração do atual presidente da funai, que apenas condenou e não procurou mostrar o lado dos índios. Não seria esse um dos papéis da Funai, ser uma ponte entre os índios e o resto da sociedade? Fiquei contente em saber que você, como ex-presidente da FUNAI, pensa diferente. Estou escrevendo um trabalho sobre o incidente para um curso de antropologia e seu comentário me foi muito útil e iluminador. Obrigado!
Menandro Gomes, estudante de Relações Internacionais, Tóquio

 
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