terça-feira, 6 de maio de 2008

Índios ocupam terra e são repelidos a bala por jagunços


Os índios de Raposa Serra do Sol, liderados pelo grande cacique Jacir José Souza Makuxi, resolveram agir. Como, aliás, haviam prometido há alguns dias.

Partiram para a região onde está a fazenda do arrozeiro-mor, Paulo César Quartiero, e começaram a construir algumas casas para abrigar famílias. Querem ocupar a área com a formação de uma aldeia. Aí os seguranças do arrozeiros souberam e vieram em cima tomar satisfação. Os índios resistiram às ordens de evacuar e começou um tiroteiro brabo. Dez índios saíram feridos, três em condições de perigo de morte, tanto que foram retirados da área por avião até Boa Vista. Felizmente passam bem. Os jagunços dizem que foram recebidos à flechadas, mas nenhum saiu ferido. Muito desigual a coisa...

Há dois anos os mesmos índios haviam construído uma aldeia ao sul da terra reivindicada por Quartiero. Pela pressão que sofreram, terminaram abandonando essa aldeia. Agora querem reconstrui-la como tática para a ocupação da área na saída do arrozeiro.

Segundo matéria do jornal Folha de São Paulo, que traz a notícia com mais detalhes do que os demais jornais, o ministro Tarso Genro, que estava ontem em Manaus, vai hoje a Boa Vista comandar a operação de sossega-leão, já que não pode dar conclusão à Operação Upatakon, de retirada dos arrozeiros, por conta da decisão provisória do ministro Ayres Britto.

O embroglio quase deu morte. Este é a primeira conseqüência perigosa da decisão do ministro Britto. Agora ele tem que apressar sua decisão. O Brasil não pode ficar esperando ver um desastre acontecer sem decisão judicial. O pior é que ontem o ministro Marco Aurélio Mello disse que achava que deveria haver novas pesquisas na região para definir o que era e o que não era indígena. Isto é, a coisa pode se manter indecisa por muito tempo e, como sabemos nós os antropólogos, os tempos de indecisão, de liminaridade, são os tempos em que tudo pode acontecer...

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Nove índios são feridos em conflito em reserva de RR
Confronto foi contra seguranças de fazenda de arrozeiro na Raposa/Serra do Sol

Três indígenas em estado mais grave foram levados para Boa Vista; os dois lados têm versões distintas para o início da briga em Roraima

ANDREZZA TRAJANO
COLABORAÇÃO PARA A AGÊNCIA FOLHA, EM PACARAIMA (RR)

JOSÉ EDUARDO RONDON
DA AGÊNCIA FOLHA

Oito índios foram feridos a tiros por seguranças de uma fazenda do arrozeiro e prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero (DEM), no interior da terra indígena Raposa/Serra do Sol, em Roraima. Além deles, outro indígena ficou ferido com coronhadas de revólver.

Segundo o delegado da Polícia Federal Everaldo Eguchi, o conflito ocorreu na região do Surumu, em Pacaraima, após a chegada de cerca de cem índios ligados ao CIR (Conselho Indígena de Roraima) à fazenda Depósito, de Quartiero. Pela manhã, o delegado recebeu a informação sobre a movimentação dos índios. Foi informado também que "pistoleiros" contratados pelo arrozeiro estariam chegando à área. Decidiu, então, enviar uma equipe ao local. Com a chegada dos índios pela manhã, o arrozeiro mandou que funcionários da fazenda os expulsassem.

Segundo Quartiero, eles foram recebidos a flechadas pelos indígenas e reagiram com tiros e bombas. Já o CIR disse que os homens chegaram atirando, munidos, entre outras armas, de espingardas calibre 12 e de bombas de fabricação caseira.

O delegado da PF informou que, dos 9 índios feridos, seis -5 deles com ferimentos provocados por tiros- foram socorridos em um carro da Funai e levados ao hospital de Pacaraima. Outros três índios que receberam tiros, em estado mais grave, foram de avião para Boa Vista. Um deles teria levado um tiro no rosto. Segundo o CIR, eram dez os feridos.

Ontem, o ministro Tarso Genro (Justiça) disse em Manaus que vai se deslocar hoje para Roraima para acompanhar os desdobramentos do conflito. "Orientamos que a PF aja com a mesma cautela que agiu quando ocorreu a resistência paramilitar dos fazendeiros. São resistências inaceitáveis."

"Entrevero"

"Eles [os seguranças] foram lá exigir a retirada [dos índios]. Era uma ordem. Foram recebidos a flechadas. Deu um entrevero e aí teve como resultado vários feridos. A ordem que dei [aos seguranças] é defender as fazendas. Eles atiraram porque foram flechados. Do meu pessoal [os seguranças] não sei se tem feridos", disse Quartiero.

Jacir José de Souza, da coordenação do CIR (Conselho Indígena de Roraima), disse que funcionários de Quartiero chegaram atirando bombas e disparando tiros contra o grupo. "Os índios resolveram agora partir para ocupar sua terra. E vamos ocupar.
A terra é nossa. Desde a homologação [feita em 2005], a terra é nossa. Os jagunços chegaram, todos armados, atirando bombas e disparando contra o grupo." Para Souza, os não-índios que continuam na reserva "têm de ser punidos".

Até o início da noite não houve prisões relacionadas ao caso. Os funcionários de Quartiero fugiram. Quatro índios que estavam na fazenda foram ouvidos pela PF. Um inquérito foi instaurado. Segundo o delegado da PF, o conflito no interior da fazenda do arrozeiro foi registrado por uma filmadora que estava com um dos indígenas.

Para a PF há risco de novos confrontos na região com a chegada de mais índios à fazenda. No local do conflito, indígenas armados com foices diziam que ficariam no local até a saída de Quartiero da terra indígena.

No final da tarde, cerca de 20 homens, entre agentes federais e soldados da Força Nacional de Segurança, reforçavam o policiamento. Mais índios chegaram à fazenda em caminhões.

Em abril de 2005, o presidente Lula assinou o decreto homologando a reserva. Em abril deste ano, a PF chegou à região para a operação de retirada dos arrozeiros, quando teve início uma série de protestos. Roraima pediu e, em caráter liminar, o STF (Supremo Tribunal Federal) suspendeu a ação. O Supremo julgará o mérito da ação neste semestre.

Um comentário:

Guilherme Carrano disse...

O Governo, qualquer que seja seu partido político, não pode continuar tomar providências somente após ocorrências e manifestações graves. Com certeza qualquer Governo, em cada uma das suas instituições, possue informações suficientes para tomar atitudes que não permita essas conseqüências mais graves.
As instituições governamentais, desde 1988, tem sido sucateadas pela política neo-liberal.
Não podemos continuar com essa situação.

 
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