quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Em Brasília, com a CNPI e amigos Kayapó

De passagem por Brasília, a trabalho, tive hoje a gratíssima surpresa de esbarrar com um grupo de índios de todo o Brasil que estava hospedado no Hotel Nacional para participar de uma reunião da Comissão Nacional de Política Indigenista. Lá estavam Caboclinho, Ciriaco, Akyaboro, Marcos, Priprá, Aarão e outros que mal tive tempo de dar um abraço e um aperto de mãos.

Os membros da CNPI estavam muito preocupados com a recente mensagem de Projeto de Lei da parte do Ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de fazer mudanças importantes na assistência á saúde indígena. Esse PL retira da Funasa a responsabilidade pela saúde indígena e a coloca numa nova Secretaria, junto com outras tarefas do ministério. Eis onde os jovens líderes indígenas estão em desacordo com o ministro. Querem que seja uma Secretaria exclusiva para os povos indígenas.

Estão também bastante sentidos com o pouco caso dos ministérios que fazem parte da CNPI e que nem ao menos comparecem às reuniões. Não gostaram do fato do ministro Temporão ter feito uma proposta de mudança na saúde indígena sem ao menos abrir um processo de consulta. Mas estão dispostos ao diálogo.

Amanhã o ministro Temporão estará na CNPI para explicar com mais detalhes sua proposta. Ponderei com os índios que só o fato de o ministro ter feito uma proposta para retirar a Funasa já era um grande avanço, e que significava um ato de coragem do ministro, haja visto a pressão que os políticos vão exercer sobre ele, com a saída da Funasa da saúde indígena. Para mim, é uma vitória, pois sempre fui contra o tipo de atuação da Funasa.

Porém, é necessário que o ministro inclua em sua portaria que cria um Grupo de Trabalho para desdobrar sua proposta um grupo de índios que tenha experiência com a saúde e que tenha a criatividade de propor idéias de como a nova metodologia de assistência deve ser realizada. É isso que sugeri aos amigos indígenas da CNPI.

Conversei com diversos amigos indigenistas e antropólogos e com amigos índios que são funcionários ou têm trabalhado com a Funai. Sentem muita preocupação pelo que vem acontecendo com a questão indígena brasileira nos últimos meses. Notam um desfavor muito grande por parte da população brasileira, com campanhas ferozes contra os índios e contra a Funai por causa dos erros estratégicos que a atual gestão da Funai vem provocando.

À noite fui jantar com um grupo de amigos Kayapó que veio das aldeias jurisdicionadas pelo Núcleo de Tucumã, o qual criei em 2005. Principalmente das aldeias Aukrê e Pykyny. Foi uma noite muito agradável e alegre em que relembramos minhas visitas às aldeias Kriketum e Piaraçu e minha despedida formal na cidade de Tucumã, em fevereiro de 2007. Eles vieram a Brasília para falar com o ministro da Saúde, já que também vêm sofrendo o pouco caso com que vinham sendo tratados. Querem a garantia de uma melhora e de sua participação nos novos moldes da assistência à saúde.

3 comentários:

Guilherme Carrano disse...

Após tantas mortes indígenas - desde 1999 - e após tantos desvios de recursos públicos, principalmente por ONGs, esperamos que os responsáveis sejam responsabilizados.

Lylia da Silva Guedes disse...

Reconheço o seu compromisso com os indígenas, sem, entretanto, considerar que ele é mais verdadeiro do que o de outras pessoas que estão atuando na política indigenista, de governo ou não governamental. Como historiadora, me surpreende e incomoda o comentário mesquinho e a ausência de visão histórica (real, num antropólogo com a sua história!?), ao atribuir as campanhas ferozes contra os índios aos erros da atual gestão da Funai. Por um acaso na sua gestão os índios foram tratados de forma diferente???

Mércio P. Gomes disse...

Prezada Lylia, o seu reconhecimento ao meu trabalho me é muito reconfortante e lhe agradeço por isso. Acho que a campanha atual contra os índios e contra a Funai ultrapassam de longe as campanhas que sofri como presidente da Funai. No meu tempo houve fato muito fortes que motivaram as campanhas, nenhum provocado pela própria Funai. Exemplos: as mortes de 29 garimpeiros, diversas invasões de terras, a morte de dois policiais no MS, a questão de Raposa Serra do Sol -- temas muito graves -- mas mesmo assim as campanhas foram controláveis. A defesa que fiz dos índios e desses casos foram de algum modo aceitas pela sociedade brasileira. Agora as campanhas juntam quatro bancadas estaduais (SC, MS, MT e RR), a bancada ruralista inteira, grande parte do Congresso Nacional, a Folha, O Globo, o JB e o Estadão e jornais locais. A opinião pública se reflete em cartas às editorias de jornais. Os próprios índios estão sentindo a discriminação como nunca. Propagandear a demarcação de 500.000 ou mais hectares no Mato Grosso do Sul, publicar quatro portarias de demarcação em SC de uma só vez são exemplos de erros estratégicos imensos, movidos por um visão infantil da história do indigenismo brasileiro. Os índios estão pagando um preço alto e não conseguem dar a volta por cima. Por enquanto. Atenciosamente, Mércio

 
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