quarta-feira, 4 de março de 2009

Bertha Becker ilumina o tecno-desenvolvimento sustentado na Amazônia

A geógrafa e professora emérita da UFRJ, Bertha Becker, é reconhecida entre os grandes geógrafos brasileiros da atualidade. Sua especialidade é a Amazônia, sobre a qual ela vem estudando desde a década de 1960. Aliás, cabe aqui lembrar e informar a quem não sabe, que, junto com o saudoso Orlando Valverde, eles criaram a primeira instituição não governamental brasileira em defesa da Amazônia, nos idos de 1967! Nunca foi uma Ong motivado por modismo, nem movida por interesses estrangeiros, nem por dinheiro, e sim por uma visão pré-clara e estratégica sobre o papel da Amazônia no Brasil!

Bertha dá uma entrevista lúcida e cortante à revista National Geographic Brasil, neste número de fevereiro de 2009.

Para resumir seu pensamento, sem cair em desvãos de desenvolvimentismo vulgar ou de meio-ambientalismo barato, Bertha Becker afirma que a Amazônia só será salva pela sua inclusão no Brasil através do que estou chamando de tecno-desenvolvimento sustentado, isto é, do desenvolvimento dos potenciais de riqueza da região induzido por tecnologias que compatibilizem a produção com o meio ambiente.

Não é tarefa fácil, mas Bertha vê caminhos sérios e interessantes. Vale a pena ler sua entrevista.


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National Geográphic Brasil, Entrevista com B E R T H A B E C K E R

Como aproveitar esse potencial de forma a ser transformado em desenvolvimento econômico local?

A Amazônia é sempre utilizada para extrair recursos e mandalos para fora, como se fosse um almoxarifado sem fim. Nada sobra para a região. A posição que defendo é que se implante outro modelo de exploração do patrimônio natural, uma nova
perspectiva que tenha como base a ciência e a tecnologia. O que sempre ocorreu historicamente foi a exportação de recursos naturais, sem agregação de valor. Primeiro, para o mercado europeu. Depois, para o americano, como o que houve com a borracha. Isso não cabe mais no século 21. Mas o problema é que a região ainda vive a forma de produção do século 19, em que companhias de mineração queimam a mata para fazer carvão. Precisamos de empresas modernas, de tecnologias avançadas e de grandes investimentos. Mas sempre articulados com a questão ambiental e, sobretudo, social. Existem mais de 20 milhões de pessoas que moram lá e vivem mal, porque os recursos são sempre explorados de forma a mandar as riquezas para fora da região onde é produzida.

É um desafio atribuir valor aos recursos naturais e ao mesmo tempo preservá-los. Como isso é possível?

Existem múltiplas formas de agregar valor aos recursos naturais. O mundo já está mudando, no sentido de sair da “indústria fordista” – megaindústria, megafábricas – para outras mais flexíveis, que utilizem recursos de forma mais eficiente, sem desperdício. Esse é o verdadeiro desenvolvimento sustentável – e não deixar a Amazônia fechada, sem mobilizar seus recursos, como muita gente defende. A questão é moldar novo modelo de desenvolvimento em que ciência e tecnologia definam modos adequados de uso, sem destruição, com distribuição equitativa da riqueza gerada no próprio local.

Como a produção pode contribuir para a preservação?

A Amazônia não entrou na fase fordista de desenvolvimento que afetou São Paulo e o Sudeste do Brasil. Ela ficou à margem desse processo, foi atingida pelas beiradas, pela expansão da fronteira. Podemos, então, implantar uma indústria madeireira
moderna, que não explore a madeira apenas para queimá-la ou exporte toras em estado bruto, sem valor agregado. É possível organizar uma indústria decente? Sim, e madeira é o recurso mais ostensivo da floresta. Outro ponto é a biodiversidade.

O Brasil tem problema sério de saúde pública, e o potencial em biodiversidade é imenso. A floresta possui muitas espécies que podem ser utilizadas para fármacos. No momento servem para produção de cosméticos, óleos essenciais, xampu. Nós temos um mercado doméstico de saúde pública que é carente. Outro potencial é a pesca. A riqueza de peixes é inigualável, e possuem um sabor maravilhoso. Mas não existe cadeia produtiva organizada de pesca, apenas iniciativas embrionárias e dispersas.

A Amazônia ainda vive a forma de produção do século 19, em que mineradoras queimam a floresta para fazer carvão. Precisamos de empresas modernas, de tecnologias avançadas e mesmo de grandes investimentos, desde que estejam sempre articulados com as questões ambiental e social.

De que forma é possível organizar a cadeia produtiva para que os produtos da floresta cheguem aos centros urbanos?

A Amazônia tem poucas cadeias produtivas organizadas. O que se produz efetivamente lá é uma quantidade mínima. O nosso modelo de desenvolvimento sempre foi monopolista – na riqueza, na produção e no acesso ao mercado. A circulação fluvial não é organizada com o objetivo de desenvolver a região. A cadeia produtiva sempre foi voltada à exportação. Nunca se deu atenção para beneficiar o povo. É preciso organizar a cadeia de produção desde o âmago da floresta, envolvendo as populações locais, até os setores que oferecem os serviços. Os empresários se interessam muito mais em exportar o produto, sem agregar valor ao local, e isso nunca gerou desenvolvimento. Organizar a cadeia produtiva é tarefa que exige serviços especializados e indústria. Daí vem a minha segunda tese: há que se fortalecer as cidades da Amazônia, porque é lá que se concentram serviços, indústria e comércio. O município tem de ser o nó da cadeia produtiva em que os produtos da floresta são processados e comercializados. Isso não apenas em Manaus e Belém mas em cidades médias. Os serviços são um dos fatores-chave do desenvolvimento da Amazônia.

Quais tipos de serviço podem ser fomentados?

Aqueles que atendam às necessidades básicas de educação e saúde e sirvam para processar a produção. E também têm de existir serviços avançados especializados, de alto valor agregado – jurídico, gestão, produção de conhecimento, contabilidade, marketing. Na Amazônia, eles têm de dar conta do grande potencial que é o capital natural: os serviços ambientais. Antes se valorizava apenas o estoque de recursos dos ecossistemas: ferro, madeira. Hoje já se atribui valor às funções da natureza. Essa é uma mudança qualitativa: a natureza é transformada em capital natural e oferece múltiplos meios de produção. Um exemplo é o mercado de carbono, que está a pleno vapor e que é essencialmente de serviço ambiental. Temos novo e imenso potencial na transformação da natureza em capital natural. Mas é preciso ter ciência e tecnologia.

Como fazer com que esses serviços sejam prestados nas próprias cidades amazônicas e não no exterior?

Eu sugiro transformar Manaus numa cidade mundial, com base na organização da prestação de serviços ambientais. Isso é uma bomba. Uma hipótese e sugestão únicas. Mas, para tanto, é preciso rechear as cidades na Amazônia de conhecimento científico e tecnológico ligados ao meio ambiente, como advogados que entendam da questão ambiental. Eu proponho uma bolsa de valores em Manaus para negociar o carbono de serviço ambiental. Por que tem de ser em Chicago ou na Europa? Essas informações fazem parte da minha pesquisa atual, e que estou encaminhando ao governo federal.

Problemas básicos, como o caos fundiário, ainda não foram resolvidos. Doar títulos pode ser uma solução?

Eu acho que é preciso encarar de frente esse problema de falta de títulos de terra e resolver a questão fundiária de uma vez por todas. Vivemos numa sociedade capitalista; se não existir defesa da propriedade, sempre ficará a sensação de que é possível avançar sobre terras alheias. Mas não acho que as áreas desmatadas devam ter a mesma regulamentação fundiária que os locais de floresta densa. Nesse caso, penso que não se deveria simplesmente fornecer títulos definitivos de terra, sem custo, para quem tem a posse. O melhor a fazer seria um sistema de concessões públicas a investimentos e projetos que atuem nessas áreas preservadas e contribuam para sua sustentabilidade.

A Amazônia é uma terra sem lei? Falta a presença do Estado?

Esse é um tema interessante, porque não se trata propriamente de ausência, e sim de omissão. Em alguns momentos o Estado é presente, mas omisso porque lhe interessa. É um jogo geopolítico de poder, uma ambiguidade. Faço muita pesquisa de campo e escuto a população reclamar da falta do Estado. Mas isso não significa dizer que ele está totalmente ausente. Em algumas áreas o Estado não está omisso, mas é tolerante e deixa passar situações que não deveria permitir. Já em outras ele está presente como dono das terras dos antigos territórios que se transformaram em governos estaduais, como Tocantins e Amapá.

A senhora sempre vai a campo para suas pesquisas. O que tem observado com base nessa visão interna da região?

Sempre chamei a Amazônia de fronteira. Não apenas como limite territorial mas no sentido de ser fronteira com os mais novos acontecimentos globais. Lá é possível observar as tendências mais recentes em curso no mundo. As grandes transformações mundiais são mais fáceis de ser percebidas na Amazônia do que no Rio de Janeiro e São Paulo, por exemplo, em que a complexidade da vida social, econômica e política é tão grande, entremeada de tantas informações, que é difícil captar algum rumo novo. Novidades que estão começando a acontecer no mundo podem ser sentidas logo lá. O local é ponta-de-lança de ideias inovadoras no que diz respeito às mudanças que o sistema capitalista está tomando, às tendências da economia mundial.

Além da diversidade ecológica, a Amazônia possui igualmente variedade de culturas tradicionais. Como é possível preservar essas culturas amazônicas no mundo contemporâneo?

É um enorme dilema. Temos a obrigação de preservar as culturas da Amazônia, o que não significa deixá-las isoladas. No caso dos índios, que conheço melhor, é preciso estabelecer um programa de atividades que permita obtenção de renda às comunidades para que elas possam preservar sua cultura. Sem formas de manter-se economicamente, nenhuma cultura sobreviverá.

Um comentário:

guilherme disse...

A falta de controle, informação e segurança fundiária na Amazônia é uma das grandes barreiras para a proposta de PSA.
Delineia-se as "vantagens" da PSA para áreas privadas cartorialmente resolvidas - provavelmente acontecerá para as grandes áreas (latifundios), as quais por exemplos históricos prevalece aos políticos do legislativo e executivo, grandes empresários e multinacionais - os quais controlam os acessos cartoriais e a riquesa.
Qualquer proposta para a Amazônia precisa ser muito bem avaliada, para não se permitir que as desigualdades do capitalismo promovam mais injustiças sociais e econômicas,

 
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