quarta-feira, 5 de agosto de 2009

ÁLVARO TUKANO publica suas memórias: Parte II

Nesta segunda parte de seu texto, Álvaro Tukano fala de sua volta do IV Tribunal Bertrand Russel, do seu papel na formulação do movimento indígena brasileiro e, especialmente, de seu povo, dos mitos de formação e da legitimidade política de seu clã.

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Manaus, dia 15 de janeiro de 1981.

Depois que fizemos a denúncia no cenário internacional, o Cel João Carlos Nobre da Veiga, Presidente da FUNAI, realizou a visita de desagravo aos missionários salesianos da Prelazia do Rio Negro – PRN e defendeu o Brigadeiro Protásio Lopes Oliveira. Enquanto, o Natal e Ano Novo foram tristes para o meu lado.

O Presidente da FUNAI não viu a realidade dos índios do Rio Negro, só foi para aparecer mais nos jornais, fazer a festa com os missionários e não estava interessado em demarcar as terras indígenas de nossa região.

Por outro lado, por minha causa, os familiares mais próximos de mim foram muito criticados de maneira pesada pelos missionários de Pari Cachoeira. A situação de minha família tornou-se difícil para comprar a roupa, sabão e outros produtos industrializados que se encontravam nas lojas dos padres. Em Manaus fiquei sem acesso a FAB e transporte fluvial que era dos missionários que levava a carga. O jeito foi sofrer calado, passar a fome e sentir a tonteira quando a barriga roncasse.

A cidade de Manaus está cheia de índios do Rio Negro. De tanto sofrer a discriminação, por mais que índio seja feio e/ou com características fortes, todo mundo quer ser “branco”. Alguns índios que trabalham no Distrito Industrial da Zona Franca têm medo de serem identificados como índios e, por isso, não falam as línguas próprias. Esses trabalhadores indígenas se sentem orgulhosos, realizados em se comparando com àqueles que são desempregados que vivem nas favelas. Outros parentes tornaram-se os práticos nas embarcações de comerciantes que fazem linha pelo Rio Negro; outros são os marinheiros de barcos; outros se tornaram os carregadores de carga dos barcos que chegam do interior em vários pontos do Porto de Manaus. Conheci muitos que descarregam os navios e que levam uma vida agitada, perigosa. Outros faziam viagens pelo Rio Amazonas, conheciam as principais cidades da região. Por exemplo, Itacoatiara, Parintins, Óbidos, Santarém e Belém. Os demais ficaram trabalhando nas lojas da Zona Franca e/ou fazendo algum biscate nos bairros para poder sustentar os filhos. Outras famílias se encontravam nas fazendas próximas de Manaus para tomar a conta de gado e granja. Foi assim que o meu povo ficou destribalizado; índio discrimina outro índio, vimos índios super-alfabetizados e analfabetos, todos escondendo a identidade tribal para não serem discriminados. Portanto, em Manaus nasceram muitos índios puros e mestiços; a cidade é habitada pela maioria absoluta de mestiços. E, pela influência da Zona Franca, ninguém diz que tem o sangue índio. A não ser alguns Guias de Turismo só para os gringos verem pegando jacarés e piranhas.

Na cidade de Manaus existem vários Colégios de Missionários Católicos e Evangélicos. Neles estudam alguns seminaristas índios. E, por serem novos têm medo dos missionários para não perderem o estudo e não falam que são índios e vivem como cidadãos comuns. Como os estudantes indígenas não assumem a identidade não dá para tratar da Questão Indígena como pauta importante de nossa luta. Ninguém questiona a FUNAI de Manaus pela omissão à demarcação das terras do Estado do Amazonas. Esses seminaristas estão se preparando para serem padres e freiras; e estão se preocupando com as coisas do mundo branco para defender os padres. Essa gente ainda não entendeu que temos os valores imensuráveis no que se diz respeito aos conhecimentos tradicionais de curandeirismo, de plantas medicinais, de lindas histórias, educação oral em base de socialismo por onde não precisa de moeda para oprimir os pobres.

Eu entendo que seminaristas devem estudar bem, ter uma boa formação para não desprezar o povo e defender a demarcação da terra por onde temos o nosso futuro. Hoje, está mais claro de que os missionários não estão interessados com a demarcação de nossas terras, porque eles querem tomar o nosso poder, e ensinam a religião de branco para os nossos filhos que, certamente, não vão falar de nossos assuntos ancestrais. Certos missionários são pobres de idéias para defender os índios.


Manaus, dia 19 de janeiro de 1981.

Aceitei o Convite do Conselho Índio Sudamérica – CISA, com sede em Lima, Peru, para participar da reunião que trataria sobre a ideologia indígena Tawanta Suyo. E só para fazer o teste perguntei ao Renato Athias o que achava d'aquilo. E ele simplesmente chamou o CISA de “doido” porque os dirigentes não gostavam de antropólogos e missionários que falassem pelos índios. Assim, como estava sem dinheiro, não fui.

Logo em seguida, chegou outro Convite da Austrália, via CIMI. Mais uma vez o Renato Athias boicotou a minha viagem, pois ele ficou com medo de mim por não cumprir a promessa feita para que eu trabalhasse no Jornal Porantim. Ficou com medo do CISA que criticou o CIMI Nacional no Boletim Informativo, por onde dizia que: O RENATO ATHIAS e OUTROS do CIMI NACIONAL não poderiam participar das reuniões do CISA, porque não eram os líderes e nem índios...

Conclusão: O Renato Athias sempre vai querer falar pelos índios. Por isso, ele sempre esconde o jogo e nunca fala a verdade. Esse tipo de antropólogo é muito perigoso e nunca irá dar oportunidades para que os índios falem por si mesmo. Cadê, então, A Autodeterminação dos Povos Indígenas que o CIMI Nacional prega? Esse tipo de antropólogo mentiroso não pode trabalhar no CIMI Nacional.


Manaus, dia 25 de fevereiro de 1981.

Acabou a minha paz na cidade de Manaus. Ontem, os índios que não querem ser índios e que estavam a favor dos missionários me agrediram fisicamente. Nesses dias tenho percebido o comportamento estranho de certos índios que me discriminam só porque critiquei os missionários. Torna-me perigoso andar nas ruas. Aliás, não dá para continuar morando por aqui com tanta perseguição política.

Sem trabalho, sem aula e só vendo outros comer bem... Assim não dava mais para viver em Manaus. O jeito era sair e conhecer outros índios que tivessem os problemas fundiários. Passando o tempo, no dia 6 de março de 1981, fui visitar alguns companheiros do CIMI e fiquei sabendo da I Assembléia Indígena do Nordeste, em Garanhuns, PE. E, no dia seguinte, pela manhã, recebi a visita do Renato Athias na casa de minha tia Ana. Sem dizer muita coisa, este me trouxe a passagem aérea e pouco de dinheiro de ajuda de custo, porque eu faria a viagem durante um mês para organizar o movimento indígena. Assim, às 04:00 horas de madrugada, sai de Manaus com destino a Belém. A moeda era mal cotada e, gastei Cr$100 – Cem Cruzeiros tomando o café no aeroporto de Belém.

Em seguida a Professora Maria Helena Barata, aluna da UnB/Antropologia, foi me buscar. Assim, pude descansar e alimentar na casa dela e, à noite, peguei ônibus para São Luis, MA. Entre os dias 09 a 11 de março passei em São Luis; visitei os meus amigos e companheiros. Foi uma verdadeira festa, muita curiosidade por parte dos colegas e muitos me pediram para que eu esquecesse o que passara comigo, pois gostariam de me encontrar na sala de aula para que eu pudesse garantir o futuro. Foi uma tentação violenta... Pensei muito. Realmente, quase que fiquei novamente entre os amigos. Mas, as velhas histórias de colonialismo tiveram mais peso. Eu tinha o compromisso com o movimento indígena e deixei os conselhos de amigos para prosseguir a luta em favor dos povos indígenas.

No dia 12 de março de 1981, prossegui de ônibus durante 25 horas e cortamos o Sertão de Pernambuco. Em Recife eu me perdi, não conhecia ninguém e fui párar numa pousada.

No dia 15 de março de 1981, segui para Garanhuns e me encontrei com Sr. Fábio dos Santos, Representante do CIMI Nordeste. Até aqui acabou o dinheiro que o Renato me deu. Eu não estava preocupado, porque ele disse que “alguém” me daria o dinheiro para o meu retorno. Fiquei aliviado, pois conheci os líderes Pankararú e outros. Fiquei livre de Manaus e conversamos muito sobre a situação do índio brasileiro. O Fábio queria que eu fizesse de acordo com a vontade dele. Mas, eu neguei. Não gostei, resmunguei num tom merecido e ele me achou ruim. Consegui fazer articulação e percebi que o meu caminho estava se abrindo aos poucos.

Eu estava com pouco recurso próprio que saquei em São Luis. Assim, após a reunião voltei para Recife e fiquei na Casa dos Estudantes. Em seguida fui para Olinda e, mais uma vez, fiquei na Casa dos Estudantes. Aproveitei para visitar o meu amigo Dr. Jarbas Vasconcelos – MDB, e este me colocou em contato com a imprensa para que eu falasse de assuntos indígenas no Diário de Pernambuco. Foi importante falar com a imprensa.

Recebi a Comunicação da Comissão Pró-Indio de São Paulo, dizendo que a reunião fora adiada para 29 de Abril de 1981. Assim, eu fiquei confuso. O jeito foi pegar o ônibus para Brasília e ver como estava o centro de Poderes.

No dia 01º de Abril de 1981, às 13:00 horas, cheguei na Rodo-Ferroviária de Brasília. O destino era complicado, eu não conhecia ninguém. Eu não conhecia o pessoal do CIMI, Brasília e, certamente, a eles não interessava os gastos que fiz. E, por sorte, eu tinha o número do telefone da jornalista Memélia Moreira, Folha de São Paulo. Assim ela me recebeu na casa dela e logo viu a minha dificuldade financeira. Com muito respeito, sim, ela me hospedou e me alimentou. Assim, conversamos bastante. Foi bom.

No dia 03 de abril de 1981, a minha amiga Memélia Moreira, me apresentou o jovem Marco Terena. Conversamos. O nosso pensamento era convergente e tecemos amizade. E, foi assim que encontramos a força política, de passo a passo demos a tonalidade em nossos discursos.


Dr. Peter Silverwood Copper, amigo dos Makú de Nova Fundação, Pari Cachoeira, Rio Tiquié, Município de São Gabriel da Cachoeira, AM.

Também, pude conhecer a UnB – Universidade Nacional de Brasília. No Departamento de Antropologia encontrei o Relatório do Dr. Peter Silverwood Copper, antropólogo muito bom que escreveu sobre as ações dos missionários do Rio Negro.


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A legitimidade política tradicional do povo IMIKHORI MASA/WIRÃ

O Rio Tiquié tem afluente que se chama: Cucura (Pi´kãña). Nesse igarapé mora o povo Desana do Clã DHIPOTIRO PÕ´RÃ. Foi nesse igarapé que nasceu o vovô materno José, DIÁKURUÚ, em nome de cerimônia. O vovô fora um grande pajé, grande curandeiro e respeitado pela sociedade. Ele era de linhagem do povo Imikhori Masa ou Wirã, conhecidos como Desana.

Ainda pequeno, toda vez quando o meu pai Akiîto realizava a visita o sogro Diákuruú, jamais imaginei que um dia eu colocaria estas lembranças de infância nesse texto. Muitos líderes de organizações devem saber como funcional o tratamento político entre os nossos povos. Outros que não puderam aprender com seus pais e avôs não conhecem e se perdem quando tratamos de assuntos tradicionais. E quem souber da importância de comunicação como povos distintos e, irmãos ao mesmo tempo, devemos encorajar aos nossos irmãos para que aprendam a história própria. Somente auto-estima é que pode fortalecer a nossa luta, que podemos melhorar a aprendizagem e resgatar os valores morais éticos e políticos em toda região.

O meu avô Diákuruú sempre tratou o nosso povo nos moldes tradicionais, e vice-versa. A minha mãe é uma Desana do Clã Dhiporó. Ela é Wirãõ (Desana), nome de cerimônia: DIAÂ KARÁPOÓ (Mãe-de-patos das lagoas). Nós sabemos que a Língua Wirã Yé (Desana) é uma daquelas que começou a ser falada a partir do auge da Cerimônia de Kahapiî no local Dia Wiî, hoje, por onde existe o povoado conhecido por Uriri, Rio Uaupés. Foi nesse local que aconteceu Y`emekahaâ Dihikawaseheé – Surgimento de novas línguas, o que na verdade foi a derivação a partir da Língua Yé´pa Masa ( Tukana). Somente na região, hoje, existem 23 Línguas Distintas das Nações Indígenas, povos originários que merecem o Território Demarcado pela FUNAI.

O YEBA (YE´PA) U´AHORI BOREKA era Wirã Dhipoa – o Chefe do Povo Desana. Esse clã é do BO`TEÁ PÕ´RÃ. Dizia o vovô que, antigamente os sábios do povo Desana tinha contato direto com o criador do Universo. Como grandes cientistas eles negociaram com Criador do Universo para conseguir WHIHÕ – objeto sagrado para ser YAIWA (pajés).

Quando os IMIKOHORI MASA se reuniram para fazer os Ritos Sagrados, infelizmente, eles não tiveram o controle psiquíco para usar a inteligência para o bem da Humanidade. Eles consumiram muito WIHIÕ para que suas mentes se abrissem e que seus espíritos se tornassem altruístas. Eles eram sábios; e começaram pensar para realizar coisas boas e más. Quando eles cheiraram WHIHÔ seus corpos necessitavam de novas energias, melhor alimentação, melhor dieta, e etc.

Em vez de realizar as curas nos pacientes estes foram dominados pela tentação e se encarnaram nas onças e começaram atacara os povos indefesos, como por exemplo, Eruria, Wiiroa e outros. As onças comeram todos os homens desses povos, porque os IMIKOHORI MASA estavam cheirando YAIWA WHIHÔ (paricá das onças).

Diziam os meus avôs que no Rio Tiquié não havia segurança para pescar e caçar no tempo em que os Desana cheiravam Paricá para serem pajés. Eram os ritos de iniciação sérios, apareciam na mata muitas onças para atacar os seres humanos. Nessa brincadeira de pega-pega, infelizmente, as onças que tinha o espírito de guerreiros acabaram comendo os próprios irmãos. Comeram todos os verdadeiros Bo´tea Po´rã, isto é, não existe mais na face o clã-chefe do povo Desana. Quando morreram os sábios, também, acabou essa ciência e/ou a pratica de encarnar num espírito numa onça para atacar os homens na face da terra.

O II irmão Bo´teá Po´rãi disse:

- Como onça vou rugir forte e causar o medo. Serei DIRII ( rugidor estridente).

Assim, esse clã participou da cerimônia para virar onça. O primogênito desse clã, hoje, vive no Bairro Tirirical, São Gabriel da Cachoeira, AM. Este se chama: Manoel Penha. O filho desse chefe Desana – Ernesto Penha, nascido em Pari Cachoeira, foi o colega de classe em 1967, no Colégio Dom Pedro Massa, São Gabriel da Cachoeira. Não se sentindo bem com tantas normas do colégio, infelizmente, desistiu de estudar e foi embora na Colômbia e nunca mais voltou.

O III irmão Desana disse: “ Serei Yé Boré ( Yé = Onça, Boré = Branca). Nós, os conhecemos como Yai Bhutirã (Clã de Onça-Branca). Antigamente, os homens desse clã teciam as máscaras mágicas de cores brancas e pretas. Esses vestiram as máscaras mágicas e atacaram os homens na face da terra. Quando eu era pequeno pude conhecer o primogênito desse clã – o Jacinto dos Santos, aldeia Santo Antônio, Pari Cachoeira, Rio Tiquié.

O irmão do meu pai – Henrique Lôbo Sampaio, casou-se com a Catarina dos Santos, filha desse chefe. Se não tivesse recebido tanta influência externa de religiosos, hoje, o filho primogênito desse clã – Veridiano dos Santos que mora em São Gabriel da Cachoeira, não deixaria de valorizar os nossos assuntos cerimoniais. Mas, infelizmente, ele preferiu dar ouvido aos missionários.

E, por outro lado, vemos com muito orgulho os descendentes da II Família desse Clã, Firmiano Lana, Aldeia São João. Portanto, o Sr. Luis Lana é grande escritor e chefe tradicional e seus irmãos constituem uma força política importante do povo Desana.


A minha linhagem por parte de mãe

Escrever sobre os ensinamentos de nossos pais é bom para formação de novas famílias. A informação sobre a educação tribal não pode deixar o papel que nossas mães cumprem cotidianamente, isto é, desde a concepção até a morte elas nos amam. Pude observar isso na minha mãe. Outras, também, fazem o mesmo Em nossas histórias religiosas sempre de mãe protetora. É assim mesmo. Todas as mães são protetoras de seus filhos e filhas. Sem dúvida, elas conhecem bem o nosso jeito.

O IV irmão Desana disse: “Eu farei uma máscara mágica para ser uma Onça de Cabeça-Chata.” Participaram das cerimônias como outros irmãos maiores. Esse clã é dos DHUPU (A Cabeça) TIRÓ (Chata) Põ´rã (Clã). Termina aqui a relação de Famílias de Chefes importantes do povo Desana.

O meu avô materno era o chefe dessa linhagem. Chamava-se: DIÁKURUÚ Era o filho do BORAÂ-TURUÚ (Borá = Esteio, TURUÚ = toco fixo de casa), mais conhecido como Yoanico que morreu na aldeia KARA WERI BU´Á, hoje com mata recuperada e conhecida CASTANHA NU´KURÕ WIAKE, WHEKI YÁ PI`TÓ WIAKE (Capoeiras de Castanhais).

Então, o vovô nasceu no Igarapé Cucura, aldeia KARA-WERI BU´Á e morreu na minha ex-aldeia, São Francisco, rio Tiquié, em meados de 1970. O meu bisavô materno era sedentário. Era KUMU e BAIÁ. O filho dele, o meu avô era BAIÁ, KUMU e YAI.

Este gerou as seguintes filhas:

1-) U´ahó = Espírito das águas, e, Anita em nome cristão;

2-) Miriõ = Espírito era de flautas sagradas e dos pássaros e, Mariquinhya em nome cristão;

3-) Yishirú (Mariquita), A Zeladora do mundo;

4-) Whisú (Emília), Espírito das águas e de peixes;

5-) *Dia-kara Pó (Dia = rio, lago, Kara = khata, pato, Pó = mãe), mãe de encantos dos pássaros – patos e outros. Essa é a minha mãe.

6-) Yu´gi Pó (Ana) e,

7-) Umusi Pó (Umu = Japú, Maria).

Infelizmente, o meu avô só teve um filho que veio a falecer ainda pequeno 1921 no Igarapé Cucura e foi enterrado na Aldeia YISIARI ÑOA, próximo aldeia Maracajá, no rio Tiquié. Segundo a nossa tradição, acabou a raça da linhagem do meu avô materno.

O V Clã: KI SI´BI. Era da família de Matias, nascido do igarapé Cucura e morreu na aldeia São Felipe, no mesmo igarapé e foi enterrado em Pari Cachoeira em 1959. O filho primogênito dele – o Avelino, morreu na aldeia São Francisco no começo de 1960; o segundo filho, Mario Fernandes, foi o comeu colega de classe no colégio interno, em Pari Cachoeira, 1963 e, hoje, vive no Município de Novo Ayrão, próximo de Manaus. Não sei se tem filhos..

O VI Clã: SIBÉ, Liberato, nascido na aldeia KARA-WERI BU´Á, Cucura. Morreu em Pari Cachoeira, em 1956. Hoje, o filho desse clã é o Luis Cabral, vive em Pari Cachoeira sem mulher e não tem filhos. Vai acabar a geração.

O VII Clã: SIRIPÒ, morreu sem ter filhos;

O VIII Clã: UMUSI, morreu ser ter filhos;

O IX Clã: BORÁ TURU, morreu sem ter filhos.

Outro Clã importante é da Família do finado tio BESÉ, TÕ´ÃROMI U´A-HORI, irmãos menores do DHIPU-TIRÓ. Eles vivem no Igarapé MHUSIKAIA, afluente do rio Papuri.

Outro Clã: PHUPIA-PHÉ PÕ´RÃ, o mais conhecido pelo apelido foi BHIPI KEKA ( CANDI = CÂNDIDO ). Esse não teve filhos, a não ser filhas. Uma delas é a tia Maria Helena. Fazem parte desse clã a Família do finado tio Laureano, filho do finado SIRIPÓ (apelido), que foi grande pajé que me curou de reumatismo na aldeia Colina, rio Tiquié no final de 1950.

Outro Clã: BIRIÁ PO`RÃ, da família do FERNANDO, que moram no igarapé MUSIKAIA.

Outro Clã: WHAPI-PIA, trata-se da linhagem do meu sogro, Vitorino Prado, pai da Assunta Marinho Prado, hoje, avô do SEERIBHI, meu filho. Outro Clã: YU´U WIRÃ e,

Encerrando com Clã TO´Á PIAI.

Mas, com a chegada dos missionários todas essas sabedorias e costumes sociais autênticos de povos distintos foram reprovados. Assim, os parentes de minha de mãe, hoje, encontram-se em Santa Isabel e Manaus. O mesmo acontecem por parte de nossa linhagem, pois temos parentes que encontram-se em Santa Isabel, Barcelos e Manaus.

O meu avô DIAKURU teve mais assistência do meu pai e do finado tio Antônio Sampaio por estes serem genros que moravam bem próximo dele. Ele sofreu muita pressão política de missionários católicos quando eles inventaram A AÇÂO CATÓLICA. Esse movimento era coordenado pelos padres Catequistas das Missões que, estes por sua vez, tinham seus ajudantes índios em todas aldeias, também, denominados “catequistas”.

Quando eu era pequeno assisti sem entender o que se passava na mente dos meus avôs. À época os índios que eram catequistas tocavam o sino (enxada sem cabo) cedo e outras às 17:00 horas para rezar. Quem não rezasse era advertido e que não poderia seus produtos na missão para comprar sabão, sal e outros gêneros industrializados.

Infelizmente, não sabendo falar Português, o pobre vovô DIÁKURUÚ enfrentou os processos de colonização cristã católica. Ele ficou bravo com os missionários e catequistas índios. Ele não tinha filho e, portanto, o vovô DIÁKURU teve que jogar o Estojo de Objetos Sagrados (WHIHÔ) num poço fundo do Rio Tiquié, próximo o porto de nossa aldeia São Francisco. Todos os instrumentos sagrados foram jogados, sim, e que não foram entregues aos padres para serem expostos nos museus.

Essa foi a maior derrota cultural que o meu vovô sofreu e, isso lhe fez muito mal e, acabou com as forças espirituais para curar as doenças, acabou a história sagrada e cedeu espaço aos padres que trouxeram costumes educacionais diferentes em nome de Cristo e Integração à Comunhão Nacional.

Eu sei e vi quando o vovô sempre viveu no meio da floresta do igarapé Cucura. Ele Caçava, pescava, fazia grandes festas junto com os parentes e recebia muitas visitas dos Tukano de São Francisco, Maracajá, Santa Luzia, Pari Cachoeira, Santo Antônio e outros.

Ele foi o grande chefe tribal, muito inteligente e carinhoso. Mas, era ruim, no bom sentido, quando queria ver as coisas estarem em ordem. Como já disse, ele não teve filhos. Nasceram somente filhas que receberam o batismo quando já eram grandes e foram registradas como tantos índios com nomes de europeus: Anita, Mariquinha, Mariquita, Emília, Guilhermina (minha mãe), Ana e Maria. O vovô era bom administrador de roças. Tinha muita mandioca, cará, pupunha, pimenta, e etc.

Quem são os TÕ`ÃRÕ PÕ´RÂ?

Como vimos os parentes do vovô morreram sem ter filhos. Acabaram as gerações importantes. Desse jeito outros povos daquela região ganharam o espaço. Foi o que aconteceu e, eu, pude testemunhar a tudo isso quando pequeno estando entre aldeias São Francisco e São Felipe, no Igarapé Cucura.

O vovô YUSÉ (José), BHOHÓ (apelido, que significa fruta/Pupunha amarela) sempre tinha bons amigos: Os Makú, nome pejorativo. Peorã, nome não-pejorativo que quer dizer ajudantes, em Tukano.

Antigamente, a palavra Maku nunca existiu entre os nossos povos. Mas, um dia os brancos/missionários deram ao povo simples o nome: MAKÚ. Sem dúvida, foi uma ação pejorativa, quando na verdade se tratava de um povo nômade que sempre vive nas florestas e povoaram os pequenos igarapés.

Porém, é bom frisar que esses povos fazem parte da Grande História da Conquista juntamente como os demais que se encontram na bacia do Alto Rio Negro. Culturalmente, esse povo sempre foi conhecido como TÕ´ÃRÕ PÕ´RÃ ou NI´KI PÕ´RÃ (Filhos do mesmo Pai). Os mesmos se auto-denominam como TUKANO e DESANA, porque o casamento exogâmigo é primordial para nossas gerações.

Esse povo-irmão não pode registrar os fatos negativos e positivos da colonização cristã. É por esse motivo que coloco os Nomes Sagrados, abaixo;

1 - ) – Masculino: WA´Ú Õ´Ã, era Baiá e Kumú, (Wa´ú, macaco zogue-zogue, Õ´ã, osso), primogênito, equivale Doéthiro no caso Tukano.

Feminino: WHAPI DAIÁ, esta é Miriã Põ´rã Masõ, tem o espírito de Flautas Sagradas e dos sons dos pássaros do mundo. Ela nasceu por ele mesma com a ajuda da Força Divina. O espírito é do tipo Yé´pário em Tukano.

2- ) Masculino: SA´PORÓ ( Espuma). O espírito representa a espuma de sabedoria de KHAPI, KHAPI SA´PORÓ, HORI SA`PORÓ (espuma que dá visões de sabedoria). Este era BAIÁ e KUMÚ.

Feminino: MHEHE, espírito das Flautas Sagradas e dos pássaros.

(3-) Masculino: YEHUPÁ, tem espírito de peixe-cachorro, lembra a transformação da vida que começou nas águas.

Feminino: SIMIÕ ORI. Símio = vacú, árvore frutífera; representa o espírito das Flautas Sagradas, pássaros e das frutas silvestres. É a dona da natureza, da terra fértil que alimenta a humanidade.

4- ) Masculino: Â DHUHISHÉ ou WI´PI-MI. Representa o pouso lindo da águia e de outros pássaros cognatos de Flautas Sagradas. Em Tukano seria WESEMI.

Feminino: YUKI-DHIKÂ. YUKI = árvore, dhika = pedço. Nesse caso ela representa o pedaço da Flauta Sagrada e dos espíritos dos pássaros.

Outros nomes sagrados:

5º WIKÎ ou  DI´POSHERI, (Unhas de Gavião Real), quando tomo a bebida sagrada KAHAPIÎ não cai no chão e não faz nenhuma besteira. Ele seguro o espirito e fica sentado num banco sagrado, cantando e ensinando os jovens. Não sabemos o nome feminino.

6º - PUÛ, este representa o HOMEM PENSADOR de cerimônias sentado num banco sagrado por muito tempo. Não conhecemos o nome feminino.

7º - DOÉ KUÑA, é BAIÁ, representa o espírito dos peixes. Não temos o nome feminino.

8º - THOHÔ, representa a beleza da plumagem/ penugem dos pássaros e de seus espíritos. Não temos o nome feminino.

9º PIRÕ DAIA ou ME´ESI, representa o espírito sagrado de cobra-pequena. Não temos o nome feminino.

Outros três não sabemos e nem feminino, totalizando em 12 nomes. Quem tem esses sagrados são os que habitam nos seguintes afluentes do rio Tiquié: Pi´kã-Ña; Pahasá; Wahapeya; Buhuhaya; Mere-Õ´ãshá, Bo´tea-puriña e Mioña.

A palavra PEORÃ significa: Servidores, solidários, os bons camaradas. Eles por sua vez nos chamam de PE-KHI, PE-MAKHI, PE-WIHËNI.

O HOMEM DA FLORESTA, com a chegada de homens civilizados teve o seu nome deturpado: MAKU. Os próprios índios da região do rio Negro gostam de usar essa palavra quando rebaixam alguém, repetem a linguagem de pessoas de fora que se sentem superiores os povos nativos. O Tõ´ãrõ Maki (Filho de Tõ´ãrõ e/ou Filho do mesmo Pai) e seus descendentes são os companheiros de antigas viagens que nossos antepassados fizeram para conquistar o que é hoje o Rio Negro. É o povo originário do Wãmi Dia (outro lado mundo). É o povo que veio numa canoa mística, a da cobra-grande, o braco de transformação da humanidade juntamente com Tukano, Desana e outras tribos do Rio Negro. A formação sócio-cultural é semelhante a nossa, divididos em clãs maiores a menores, tribos diferentes para que aconteçam os casamentos exogâmico, pois é essa Lei é Antiga que deve ser respeitada e praticada por todos nós. Assim, os Tõ´ãrõ Põ´rã pensam como nós e fazem casamentos exogâmicos no meio da floresta.

Quando eu era pequeno não tive o prazer de ter os colegas Tukano de infância na aldeia. Eu ficava dividido entre os pais e avôs. Por esta razão eu passava o tempo com vovô materno José (BHOHÓ - Pupunha Amarela). Eu conheci o Eremudo (Raimundo); Yoaki (Joaquim); Caraneiro (Carneiro); Yoaki di Bará ( Joaquim di Bará) e Dino (Lino) que eram grandes Baiá (Músicos) e bailarinos que educavam seus filhos em suas Malocas.

Eu falava Tukano (Daseá Yé), Desana (Wirã Yé) e Peorã Yé (hoje, Makú). O povo Peorã vivia nas cabeceiras do Igarapé Cucura e nos seus afluentes, sempre vinha ajudar a fazer roça do vovô. Estes arrancavam a mandioca para por de molho e depois fazer a farinha para o consumo próprio. Outros paneiros de farinha o vovô levava na missão para trocar com óleo diesel, sabão, fósforo, anzóis e outros coisas. Os Peorã levavam uma vida natural, porque não passavam a fome como dizem certos comentaristas católicos que nunca repartiram seus bens com esse povo.

Depois de realizar as tarefas dos dias os homens colhiam as folhas de coca e enrolavam com as folhas de embaúba ou colocava numa cesta própria comprimindo as folhas. Na volta comiam a pimenta com beijú, depois torravam as folhas numa panela de barro apropriada, quando estava bem no ponto ideal retivam do fogo e derramavam numa cesta de warumã. Depois de esfriado pilavam num pilão de pau-brasil; recolhiam o pó verde numa cuia. Em seguida esse pó era enchido num saco vegetal de tururi, colocavam uma haste no saco e amarravam com o barbante na vara. Amarravam a boca do saco vegetal na ponta de haste, depois é que que pegavam Patuú paphi – mais parecido como pilão de 1.2 m, mexiam bem o haste com saco de coca para sair o pó verde. Depois, com muito jeito, recolhiam numa cuia própria e misturavam com cinza da folha de embaúba ou de pupunha, sal vegetal, para temperar a coca.

Feito isso era só servir aos homens ali presentes e ouvir as histórias antigas, as cerimônias, os contos e planejamento de trabalhos coletivos a serem feitos. Esse rito tribal era a mais importante, isto é, quem não tinha coca era visto como pessoa desligada de costumes bons para aprender as cerimônias e conhecer os assuntos das aldeias.

O povo Maku consumia bem a folha de coca e, por isso, o vovô plantava bastante para pessoas amigas consumirem e coordenar vida doméstica. Então, eu ficava brincando com meus colegas, tomava o banho no rio, pescava, caçava os passarinhos e lagartos para fazer assado e matar a fome. Os velhos faziam caçarias sérias, andavam com estojos de curari e zarabatana, arcos e usavam as flechas envenenadas para matar os porcos do mato, veado e anta. Foi uma época de muita aprendizagem e de inocência e nunca pensei que um dia eu teria a saudade desse povo tão forte e belo.

O vovô José sempre se lembrava da grande Maloca dos Peorã, localizada no Eõrõ Sihiti (Espelho Redondo), um dos locais antigos do povo dele que fica no Igarapé Cucura. Quando cansaram de estar nesse lugar eles fundaram outra aldeia no Igarapé Hitãña (Igarapé de Pedra), afluente de Cucura. Depois fundaram outra aldeia: WHEKIYA (Anta Igarapé). Com muito orgulho, estes se consideram os Tukano.

Outro grupo era Desana. O grande chefe HII, nome de Cerimônia do Yoaki (Joaquim) Jehehupá que foi grande Baiá (Cantor); IMIDIO (Emilio), que era grande cantor; Kuin, o grande mestre de cerimônias e de cânticos sagrados. Estes educaram seus filhos no bom estilo antigo, nos ritos de iniciação e viveu no local que se chama Ña pamõ (Urtiga); Wa´ú pamõ (Macaco Zogue-Zogue), localizados no Igarapé Whapeya, próximo a Aldeia de São José, Rio Tiquié.

Esses povos organizados como Tukano e Desana, eram conhecidos como Nikhiri masã – Povos da Floresta. Quando faziam as grandes celebrações com os índios que moravam às margens do Rio Tiquié, estes ofereciam em grande quantidade de frutas silvestres do tipo cunuri, açaí, ucuqui, bacaba e de outras. Faziam a Festa de Dabucuri constante entre si de acordo com a época de frutas.

E, por gostarem de bebidas e músicas, muitas vezes as escalas de seus produtos eram insignificantes. O importante mesmo eram as festas.

Moravam nas grandes Malocas, tocavam as Flautas Sagradas com estilo próprio de toques de melodias. Tocavam o Cariço, Japurutú e outros instrumentos de sopro lindos do tipo caracol, osso de veado e de onça.

Os sábios benziam as florestas para acalmar os espíritos das árvores para viver em paz. Faziam caxiri de beijú que era misturado com caldo de cana, tomava ayuasca e eram os donos das coleções de tabaco. Como se vê esses tinham o espírito religioso forte, foi o povo independente e dava para ouvir o barulho do toque das Flautas Sagradas até na aldeia do vovô José.

Com a chegada dos Missionários Salesianos em suas aldeias, também, estes foram desarmados que nem os nossos passados. Os enfeites e todos os instrumentos sagrados foram desvalorizados pelos missionários, acabaram com a cultura dos Homens da Floresta.

Na década de 1970, o Dom Miguel Alagna, através do Padre Afonso Casanova, espanhol, fundou o Núcleo da Missão Salesiana Nova Fundação, no Cucura Igarapé. Esse padre trouxe um casal de voluntários da Espanha, Paulo, médico. Esse prestou grande serviço aos Peorã da NOVA FUNDAÇÃO que cuidou da saúde e logo aprendeu a língua daquele local. A Nova Fundação tornou-se um novo Centro de Decisão Política dos Povos da Floresta. Vieram morar naquele local os Peorã do Igarapé Muhusikaia, Yeshei, Mioña, Mere Õ´ãshá e Phasá.

O Dr. Paulo comprou muitas folhas de zinco para construir mais de 200 casas; os Peorã realizaram muito trabalho e houve a concentração de gente. Marcou assim o novo capítulo de perda de tradições e, ao mesmo tempo, foi mais para sustentar a ideologia dos missionários salesianos que se sentiam orgulhosos para fazer mais campanhas, a fim de angariar os fundos em nome dos Peorã.

Como os Peorã estavam acostumados de fazer os serviços pesados, em conjunto, coordenaram os trabalhos acelerados, derrubaram toda a capoeira de Tarãkuri Bu´á que, na década de 1940, ali fora aldeia do vovô José. Esse local era conhecido com outro nome: Mo´kã Bu ´á (cego de pênis); os Peorã destocaram para construir as casas, tiraram os postes e caibros. Cada família recebeu o zinco para cobrir o telhado, tiraram os postes para fazer as paredes, embarrearam todas as casas. Foi feita a Nova Fundação.

- O resto da derrubada serviu para introduzir o gado. Fizeram mais as roças comunitárias e particulares. Mas, não sobrou o tempo para caçar e pescar; os filhos começaram passar a fome e houve muita reclamação por parte das mulheres que ficavam com pena das crianças.

- Os jovens começaram se dedicar mais nos jogos de futebol e voleibol; não sobrou o tempo para aprender os conhecimentos tradicionais e não obedeceram mais os velhos.

- Os velhos ficaram sem nenhuma defesa política, porque segundo o Dom Miguel Alagna e Padre Afonso Casanova, os Maku seriam batizados, e iriam receber a Primeira Comunhão, realizar o Casamento na Igreja Católica e receber todos os Sacramentos para poder melhorar a qualidade de vida e tornarem-se verdadeiros brasileiros. Tudo isso aconteceu em curto espaço de tempo, entre 1970 a 1978, os salesianos acabaram com a cultura milenar do Povo Maku. Será que valeu o programa de progresso nacionalista para o povo Maku?

- Houve grande mobilização nas comunidades indígenas do Rio Tiquié: Cucura; São Francisco; Santa Luzia; São José; Floresta; Boca da Estrada; Barreira; Cunuri; Pirarara, Maracajá; Santo Antônio; São Luis; Bela Vista, Pari Cachoeira e outras comunidades para fazer o Grande Congresso da Floresta.

- Os Maku da Nova Fundação fizeram a limpeza geral no Igarapé Cucura, cortaram todos os paus caídos pelo rio para facilitar a navegação do bispo que chegaria de voadeira juntamente com outros missionários. Os Makú fizeram o serviço bruto. A beleza mesmo ficou só para Afonso que não deve Ter cortado nenhum pau.

Outra façanha feita pelo Padre Afonso aconteceu na Vila Fátima, Rio Tiquié. Ali aconteceu grande concentração de Makú, foi um Novo Núcleo da Missão Salesiana. Nessa mesma época ele trouxe os Makú de Igarapé Samaúma, mais conhecidos por nós pelo nome NIMA DIARÂ; os de Rio Ira; os de Phasá; Mere Õ´ãshá, Whapeya e Bhikiya.

O povo trabalhou que só para alegrar o Dom Miguel Alagna e Padre Afonso Casas Novas, espanhol. Certo dia, segundo os Makú, um pajé fez pajelança enquanto ele celebrava a missa. Deu o derrame cerebral nele e foi levado às pressas para Pari Cachoeira. Depois dessa cena, todos os Makú tiveram que abandonar a Missão de Vila Fátima, porque esse povo acredita nas pajelanças perigosas. Hoje, essa missão não existe mais.

Ouvi dizer que assim fez com os Maku que vivem nas cabeceiras dos afluentes que ficam acima de Pari Cacheira. Esse padre era bom, tocava o violão e cantava bem. Pelo que sei, esse foi grande missionário mesmo para dar apoio aos Maku de Cucura Iagarapé/Nova Fundação; Cabari Igarapé, Buhaia, Taracuá, Rio Castanho e Traíra. Nunca vimos ele discutindo com as lideranças indígenas por causa de política de Estado e da Igreja e nem ouvimos dizer que ele brigou com índios Maku. Sim, foi o belo exemplo de salesiano pacífico e nunca ouvimos dizer de ele namorar com as índias Maku, e sim, que sempre tentou fazer o bem. Ele falava a Língua Geral e Maku. Foi um dos estudiosos que admiro e, certamente, dará muita falta quando morrer.

Outro missionário que mais conheceu os Maku que moram na bacia do Rio Tiquié e Pirá-Paraná foi o Padre Eduardo Lagório, italiano, bom músico, pacífico. Tocava o harmônio, sanfona e cantava bem para alunos ouvirem. Ele falava bem a Língua Tukana, e foi um missionário que mais andou nos povoados distantes e não gostava de ficar na missão. Era o padre que gostava de coisas naturais, era o pesquisador e, por isso, publicou um livro denominado 100 Histórias do Povo Tukano.

Como já disse em outras vezes, outro Padre que defendeu os povos indígenas foi o Ezequiel Lopes, baiano, Capelão Militar. Esse padre combateu as presença de estrangeiros brutos no meio das comunidades indígenas, foi nacionalista brasileiro com muito orgulho. Certa vez, quando o Padre João Marchesi, italiano, combatia os nossos costumes, assim disse o Padre Ezequiel: “Deus deu ao Povo Indígena uma sabedoria para curar as doenças. E por que vocês querem acabar com os curandeiros? Depois que vocês acabarem com a cultura os velhos irão morrer de tristeza, os filhos serão vulneráveis para muitas coisas ruins do mundo dos brancos, pois não terão mais a educação tradicional.”

Passado todos esses tempos, de repente surgiu o Dr. Peter Silverwood Copper no meio do povo Maku. Na Aldeias do Baixo Tiquié ouvimos falar dos Maku a respeito do Peter que estava na Nova Fundação. O Peter era um dos aventureiros que gostava de provar as delícias da selva, conhecer o povo e seus costumes. Era um branco de estatura alta, curioso e disposto para lutar se algum bicho o atacasse. Ele andava nas roças para catar as folhas de coca, essa tarefa é de gente sábia, de grandes pensadores e de que pessoas que têm muito cuidado com a dieta para não comer a carne vermelha que faz mal aos homens pajés. Como os Maku não usavam a roupa, este também preferiu ficar sem roupa. Apenas amarrou um barbante na cintura e com uma tira de pano de algodão protegeu o pipi e o saco para não ficar balançando.

Geralmente, os Makú têm pés pequenos e abertos. Eles são caçadores, gostam de criar os cachorros e, por isso, eles têm muito bichos-de-pé. Foi nesse mundo que o inglês Peter veio se meter. Ele ficou muito engraçado, alto e branco no meio dos pequenos curiosos e cheios de piadas.

Sim, os Maku têm os pés mais abertos, alguns têm muito bicho de pé e andam como se fossem apoiando nas pontas dos pés. O Peter imitou o andar dos Maku, aprendeu os caminhos de roça, teve a habilidade para atravessar os igarapés e/ou as curvas do caminho em cima de paus, cortar a folha de sororoca e secar no fogo para fazer o cigarro sagrado. Aprendeu a torrar o epadú e fazer o tempero com folhas de embaúba e de pupunha queimadas. A rede de algodão foi trocado pela a de “Macaco”, traçado com fios de fibra da folha de buriti.

Foi nessa confusão que ele aprendeu a Língua dos Maku, ouvi as conversas fiadas e coisas secretas que só servem para os homens. Aprendeu a observar as pegadas de animais, os caminhos da anta. Observou como os Maku imitam bem az vozes dos passarinhos, o preparo de curare. O Peter virou o homem mais observado pelos Maku de Nova Fundação.

Certo dia um Maku veio visitar o meu pai na aldeia São Francisco. Ele veio mais atrás de epadú, pimenta, sal, fósforo, anzol e de novas mensagens dos povos que vivem às margens do Rio Tiquié. Depois que comeu a pimenta e tomou o mingau, disse: “Tem um branco em nosso meio. Ele é alto, cabelo louro e já está falando a nossa língua. Ele fuma e consome o epadú igualzinho como nossos velhos. Observa muito...Dorme à beira do fogo. Ele usa o cajado dos velhos e, anda igualzinho, e guarda o cigarro e coca num estojo próprio. Ás vêzes ele coça o bicho de pé, reclama em nossa língua igualzinho. Ele não usa o calção, e só anda de cueio. No porto ele toma o banho com os homens pelado e conversa com os amigos. É muito engraçado. Ele come a maniuara e outros insetos, gosta de andar no mato e participa das atividades tribais, principalmente, para preparar o cigarro e coca.”

Os Tukano da Aldeia São Francisco não acreditaram, mas ficaram rindo do Maku que contou a notícia com tom de seriedade. Bem, certo dia o meu pai Casimiro conversou com os lideres das comunidades vizinhas para fazer o trabalho de mutirão para fazer a limpeza do campo. As lideranças Maku da Nova Fundação receberam o Convite do papai numa boa, pois eles estava com poucas roças e queriam tomar o caxiri e ficar numa boa.

O pessoal de Maracajá e de Santa Luzia chegou cedo. Pouco depois veio a turma da Nova Fundação fazendo uma grande fila de homens, mulheres e crianças. Eles vieram mais atrás de peixes, beijus e farinha. O Peter era o último da fila, estava com o cajado nas mãos e andava com jeito de velho que parecia estar cheio de bico de pé. De fato ele tinha o estojo de tabaco e de epadú. Era um branco muito perdido no meio dos baixinhos.

Os Tukano entraram na gargalhada quando viram o teatro do Peter. Já não era mais o boato. Era verdade, o homem branco de cueio no meio dos Maku. Todos foram cumprimentar e dar boas-vindas aos Maku. As mulheres fizeram o mesmo e depois serviram a comida aos Maku. Eles comeram mujeca de peixe, muita pimenta com beijú e logo veio a rodada de caxiri forte para animar os visitantes. Era o momento muito alegre.

Foi nessa confusão de alegria que entrou o meu tio Henrique, e disse:

- Henrique: Quem é esse “guariba branco” no meio de vocês? Perguntou em língua Maku para que o Peter não entendesse.

- Maku: Não! Não!.. ele escuta tudo e não fale assim não, disse o velho.

- Henrique: Poxa! Ele é alto demais, está estranho demais, continuou.

- Maku: Pois não! Ele é Pajé branco, disse o velhinho todo sorridente.

- Henrique: Você tem cigarro e epadú? Perguntou ao Peter em língua Maku.

- Peter: Hutun ni!. Hutun ni! (Tenho o cigarro! Tenho o cigarro!)

Foi assim que acendeu o cigarro e fumou, e depois deu para o tio Henrique. Abriu a lata de epadú e encheu a buchecha e ficou sentado no canto de casa apreciando o movimento de nosso encontro. O Peter conquistou amizade de todos, e continuou no fumo e na coca. Enquanto isso a bebida corria direto, ouvia-se muitas risadas de homens e de mulheres.

Em seguida todos partiram para roçar o campo, organizar a comunidade. O meu pai pediu um favor ao Peter: que consertasse o aparelho de som que estava estragado. Minutos depois os índios ouviram o som tocar. Era o Peter. Todos voltaram para ver o trabalho do Peter e tomar mais outra rodada de caxiri e amolar os terçados. O Peter estava feliz, tomando caxiri, fumando e consumindo a coca.

Depois que terminou o ajuri todos tomaram o banho para comer mais e tomar o caxiri. Fizeram grande festa, todos tocaram as flautas, dançaram e, por volta da 16:00 horas, todos se despediram para voltar nas aldeias. Sem dúvida, foi um dia muito proveitoso.

Antigamente, quando não tinha os padres, os Tõ´ãrõ Põ´rã (Maku) tinha o Chefe-Geral igual a nós. Realizavam grandes festas, convidavam os nossos antepassados para os trabalhos de ajuri e não havia a divisão nas sociedades. Na década de 1960, eles faziam caxiri forte e tocavam as Flautas Sangradas. Tenho a certeza que o Dr. Peter aprendeu bastante com esse povo puro, inocente. Sempre que tiver alternativas de amizades, nós, índios, vamos procurar aliados concretos para resolver os nossos problemas.

A minha visita a UnB, sem dúvida, me chamou atenção. Mais uma vez, vi o Dr. Peter e fui parar na casa dele, comer e beber. Conheci o Leonardo Figoli, argentino, aluno da UnB, que queria conhecer os assuntos do Rio Negro.

Aproveitei o tempo para escrever o texto de 30 páginas sobre o meu povo e depois reproduzir em 100 cópias. Tudo isso aconteceu, hoje, no dia 7 de abril de 1981. Foi o começo de luta de nosso movimento indígena no Brasil. Não havia apoio oficial por parte da FUNAI para nada. Passei por momentos mais difíceis de minha vida por defender a causa indígena, porque o Estado Brasileiro, por enquanto, não aceita a palavra Autodeterminação dos Povos Indígenas do Brasil.

Um comentário:

Gisele disse...

Gostaria de saber se vc ainda existe? O que deu esta luta toda?
Pretendo conhecer o paje curandeiro Kisibi em Manaus, o que vc sugere?
Tudo de bom.
Gislene
gislene@aasp.com.br

 
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