domingo, 7 de dezembro de 2008

Jobim diz que Amazônia não é jardim para deleite dos europeus

O ministro da Defesa Nelson Jobim esteve em Washington esses dias para apresentar ao futuro novo governo americano de Barack Obama a nova visão de defesa que o Brasil está preparando.

Jobim falou grosso e com convicção. Não se sabe qual o efeito que isso pode ter com os americanos. Provavelmente vão interpretar como um pouco de mudança real que está acontecendo com o Brasil e um pouco como bazófia gaúcha e, de certo modo, lulista.

Porém o ministro disse três coisas importantes para nós antropólogos, índios e indigenistas. Uma é de que o Brasil está se preparando para mostrar que tem poder. Por isso está comprando novos aviões de guerra, novas armas e vai fazer um submarino nuclear. Vai defender suas fronteiras territoriais e marítimas. Quer mostrar ao mundo que tem musculação condizente com sua pretensão de ser uma nova potência mundial. Isto virou ordem do dia, não sabemos se real ou volitiva.

A segunda coisa importante que o ministro Jobim falou é que o Brasil tem sua própria visão sobre o que é a Amazônia e está se preparando para exercer total controle e soberania sobre ela. Disse que o Brasil não vai mais se pautar pelas Ong internacionais e suas exigências de que a Amazônia vire um jardim para o deleite dos europeus nos fins de semana. Disse que há 20 milhões de brasileiros morando na Amazônia e que eles precisam de uma economia bem desenvolvida. Disse que o Brasil não quer viver de doações dos outros para se desenvolver.

A terceira coisa dita pelo ministro Jobim, a qual já havia sido dito pela diplomacia brasileira na pequena conferência sobre o clima que está acontecendo na Polônia, é que o Brasil é contra o chamado "crédito de carbono" ou, em inglê, "carbon swap mechanism".

Este é um mecanismo econômico-político pelo qual uma empresa poluidora da Europa ou dos Estados Unidos ou do próprio Japão paga, ou "compra" o direito de continuar poluindo ou emitindo CO2 contando que outro país despolua o equivalente de sua poluição através do florestamento ou reflorestamento ou até simplesmente mantendo sua floresta em pé.

Há muita controvérsia sobre esse mecanismo de compra de carbono. Uns acham que isso termina preservando a poluição. Outros que é o único modo de fazer com que não se queime mais florestas no mundo.

Bem, ao rejeitar as "trocas de carbono" o Brasil joga um balde de água fria sobre as Ongs que estavam se preparando para convencer os índios a colocar suas florestas à disposição desse mecanismo, e com isso receberem algum recurso para preservar seu patrimônio. Alguns índios também estavam começando a pensar seriamente nessa possibilidade.

De todo modo, o que podemos apreender da fala de Jobim é que o panorama político-ecológico brasileiro realmente está mudando. Jobim e Mangabeira formam uma parelha que está dando um novo tom ao governo Lula. Marina Silva, Minc e os conselhos de meio ambiente que estão por aí, ao lado das Ongs e do movimento ambientalista, perderam a luta política nesse governo. A estratégia geral, que alia defesa e desenvolvimento da Amazônia, está com Jobim e Mangabeira.

O que será da demarcação das novas terras indígenas?

No próximo dia 10 de dezembro, no STF, a decisão final sobre a manutenção da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol dará um sinal sobre a disposição da elite jurídica brasileira sobre esse tema. Fala-se que Jobim, como ex-ministro do STF tem estado com muitos ministros falando sobre sua visão dessa homologação. Esperamos que seja de um modo positivo.

2 comentários:

Anônimo disse...

A Amazônia é a última fronteira do Brasil; o último lugar onde, para se entrar, ou se destrói, ou se tem a humildade de se adaptar. Adaptações levam tempo. A adaptação milenar àquele meio é de conhecimento dos índios e dos camponeses da região (ribeirinhos, caboclos). Se não forem ouvidos, um saber precioso será perdido. Enquanto isto, a penúltima fronteira, o Cerrado, vai sendo destruída celeremente. Em Colniza, fronteira entre um e outro bioma, há índios que mal são conhecidos, e outros dizimados, só restando dois "exemplares", como o digno antropólogo bem deve saber. Colniza fica em MT, terra atual do gaúcho Maggi (por trás da manifestação xavantina e demais, esta semana em BSB), como também deve saber. A balança pende não para a adaptação, mas para a destruição, atualizando-se a antiga idéia (dos 70) de "integrar, para não entregar". Por sua vez, os 70, quanto aos índios e a AM, vieram no rastro das linhas telegráficas; uma tradição militar... Cem anos (1910-2010) não foram suficientes para qualquer aprendizado melhor. E isto não tem nada ver com ONGs. Sua presença ou ausência. É uma espécie de DNA brasileiro, em relação aos índios e às florestas. Pena. Abraço, Adriana.

Guilherme disse...

Pena : somente de aves ou até de escritas; DNA brasileiro destruir a natureza ou resistir a sua destruição ?
A morte de vários povos no Brasil, inté que dure até 2, são provocados pelo coronelismo discriminadores e assassinos que imperam nos sertões ocupando latifundios faraônicos defendidos pela atual política de governo e empréstimos financeiros de todos os tipos (Bancos do Brasil, BNDS, BIRD, BID, e até empreendedores de grãos americanos que financiam 80% da soja. E o pior, muitas vezes esses coroneis são os que, como sempre, ocupam as cadeiras do Senado e da Câmara dos Deputados, e de governos de Estado.
A Amazônia ser a última fronteira é para quem não a conheceu, não a conhece e não vai conhecê-la -
quem nunca viveu com as comunidades indígenas para saber o tanto sofrer por tanto descaso e abuso de governo, de ongs, de missões e de regionais - e de todos esses poderosos já citados.
E ainda querem propor mineração em terras indígenas alegando que no Canadá deu certo ....
e o Ministério Público está ou não amordaçado ?
Não tenho visto nenhuma vitória pró índio.

 
Share