Finalmente a Coiab vem de público tomar posição a favor do movimento dos Kayapó e outros povos indígenas do Xingu contra o licenciamento dado de mão beijada pela atual direção da Funai a favor da Usina Belo Monte.
Na nota abaixo a Coiab cita a Convenção 169, que fala explicitamente sobre a necessidade de consultar previamente povos indígenas sobre qualquer empreendimento que afete sua vida, sua cultura ou suas terras. Poderia falar também da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas e até do Estatuto do Índio, que também não permite desleixo da autoridade indigenista em relação a interesses fundamentais dos índios. Fala também da visão contrária a Belo Monte da parte de um número expressivo de cientistas que vêm estudando esse projeto energético. Por fim, conclama o presidente da Funai a retirar sua anuência ao projeto. Deixa-o de saia justa, já que deu essa anuência sem consultar nem os índios diretamente afetados, nem o movimento indígena.
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NOTA DA COIAB CONTRA A CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRÉLETRICA DE BELO MONTE
NOTA DE REPUDIO CONTRA A CONSTRUÇÃO DA HIDRELÉTRICA DE BELO MONTE
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), organização representativa e articuladora dos povos indígenas desta região, criada para defender e promover os seus direitos, vem a público manifestar veementemente sua indignação contra a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que o Governo do Presidente Lula quer implantar a qualquer custo, violando integralmente as normas ambientais do país, os direitos dos povos indígenas garantidos na Constituição Federal vigente e na legislação internacional (Convenção 169 OIT e Declaração da ONU) da qual o Brasil é signatário. O empreendimento, segundo especialistas, é inviável do ponto de vista econômico, ambiental, social e cultural, pois poderá gerar impactos irreversíveis na flora, na fauna, na biodiversidade, e, sobretudo, na vida dos povos indígenas e comunidades tradicionais que vivem na área de abrangência da usina.
Em razão desses fatos, a COIAB assume os termos da “Carta de Repúdio à Construção da Hidrelétrica de Belo Monte”, apresentada na manifestação ocorrida nos dias 29 de outubro a 03 de novembro na Aldeia Piaraçu, da terra indígena Kapot/Jarina, no norte de Mato Grosso, com a participação de 212 lideranças indígenas e de dirigentes da nossa organização.
A COIAB reafirma o seu posicionamento contrário a construção desse empreendimento e de outros, como a pavimentação das rodovias BR-317 e BR-319, e a implantação do Complexo Hidroelétrico do Madeira, pois todas essas obras agridem e violam os direitos dos povos indígenas, direitos esses conquistados ao longo dos anos, com muita luta, muitas vezes com o sangue derramado de nossas lideranças.
Repudiamos a intenção do Governo de nos considerar “forças demoníacas” que impedem o desenvolvimento do país, quando tudo o que queremos é continuar preservando os ecossistemas e a biodiversidade, e sobretudo, condições de vida digna e de qualidade para os nossos povos e suas futuras gerações, bem como o bem-estar do planeta e da humanidade.
Repudiamos ainda a prática autoritária com que o Governo, através do Ministério de Minas e Energia, da Casa Civil e da Fundação Nacional do Índio, pretendem “empurrar este projeto goela abaixo”, contrariando o compromisso em contrário do chefe do Executivo, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Exigimos que o Sr. Presidente da Funai, Márcio Meira, cumpra rigorosamente o seu papel de zelar pelos direitos indígenas, suspendendo qualquer decisão voltada a autorizar licenciamentos de obras que impactarão direta ou indiretamente as terras indígenas. A Funai não pode se achar no direito de falar pelos povos indígenas nem alegar que os está ouvindo, porque isso realmente não tem acontecido, conforme o estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que já é lei no país, e que nos assegura o direito à consulta prévia, livre e informada.
Por tudo isso, reivindicamos que o governo brasileiro respeite a vontade dos nossos povos e organizações, e desista de construir a Hidrelétrica de Belo Monte, e muitos outros projetos que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), voltando-se a assegurar os nossos direitos, o respeito à diversidade étnica e cultural do nosso país, criando condições para que este seja efetivamente um país democrático, justo e igualitário.
Coordenação Executiva da COIAB
terça-feira, 10 de novembro de 2009
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Drops indigenistas -- 15
1. Semana difícil na Funai. Os servidores estão chateadíssimos com uma proposta de reestruturação proposta pela direção do órgão feita em cima do joelho. Poucos estão satisfeitos com o que pode vir por aí. Outro dia alguém perguntou: se nem terra indígena a Funai não demarca, para que serve? Devagar, ainda tem saída.
A atual gestão da Funai teve desde o início o propósito de minar a Funai. Dominada por pessoas ligadas a Ongs indigenistas que sempre se aproveitaram das informações e da legitimidade do órgão para crescer em cima dele, agora que dominam o órgão aproveitam para enfraquecê-lo ainda mais. A ficha está caindo para os servidores e indígenas.
A reestruturação pretende acabar com as Coordenações Gerais de Educação e de Arte Indígena. Em todos esses anos em que a grande parte do orçamento da educação foi retirado da Funai sobrou um pequeno núcleo de educadores experientes na Funai que fez essa parte essencial da assistência ao índio funcionar minimamente. Deixar a educação só com o MEC será um desperdício ainda maior que prejudicará ainda mais os índios. O exemplo da Funasa está aí para comprovar.
Já acabar com a Arte Indígena é pura maldade e desorientação. Ninguém sabe como os índios que vendem seus artesanatos serão tratados daqui por diante.
Outra insatisfação é com a possível saída de grande parte dos arquivos da Funai para o Museu do Índio, no Rio de Janeiro. E para onde irá o Museu do Índio, do jeito que ele é dirigido atualmente? Fala-se em ser transferido para o Minc. Isto estava planejado para acontecer quando entrei na Funai como presidente e consegui sustar esse propósito nefasto. Agora, quem defenderá a permanência do Museu do Índio na Funai?
Os servidores da Funai, incluindo indigenistas e quadros burocráticos, querem reatar um relacionamento com as lideranças indígenas de raiz. Sabem que o órgão corre perigo e que sem a ajuda dos índios, o governo leva adiante a insensatez da atual direção da Funai.
2. Por sua vez, a Funai ganhou mais 85 cargos comissionados para distribuir a quem quiser. É o preço cobrado pela reestruturação. Cargos de DAS são sempre benvindos para qualquer órgão. Só não se sabe para que servirão. Tudo indica que será para acomodar pessoas na tal reestruturação planejada.
3. O movimento das lideranças de raiz contra a Usina Belo Monte chamou a atenção de meio mundo ambientalista e indigenista. A grande reunião foi realizada no dia 1º de novembro e teve a participação de mais de 200 líderes de várias aldeias do Xingu. Inclusive de pessoas de muito prestígio do Alto Xingu. Muita gente de fora, especialmente Ongs, apoiaram-no, sobretudo depois que viram o quanto de irresponsável foi o licenciamento dado pela atual direção da Funai. Até os técnicos da Funai que fizeram o parecer ficaram chateados pois se sentiram traídos pela direção do órgão, já que em seu parecer apontam para várias falhas e questionamentos dos relatórios feitos pelos antropólogos contratados pelas CNEC. Porém os pareceristas foram ingênuos e não exigiram o tanto que seria necessário para reabrir uma discussão. Já os índios, fica evidente que eles não querem nada do que lhes prometeram.
4. Os Kayapó estão aliados firmemente aos Xavante e aos demais povos indígenas de todo o vale do Xingu contra a Usina Belo Monte. Prometem que não vão deixar a Usina passar. Só que o leilão de licitação para o início das obras está planejado para 21 de dezembro. O que farão os índios sobre isso?
5. As associações indígenas, antes indecisas, estão agora apoiando o movimento dos xinguanos de qualquer jeito. Estão aos poucos se afastando dos comprometimentos que haviam acertado com a atual direção da Funai por conta da ideia ilusória de que estavam fazendo política indígena de verdade. A decepção está formada e as consequências virão.
6. No Mato Grosso do Sul a situação está pegando fogo. Os índios Guarani e Terena estão se dando conta da enganação a que foram submetidos com a promessa de que novas terras indígenas seriam demarcadas. Um grupo grande de índios não aceita mais a administradora de Dourados, colocando toda a culpa das decepções sobre essa pobre pessoa. O fato é que ela também se iludiu e está pagando o pato.
7. Ah, e que tal essa. Os índios Tikuna pretendem criar uma delegacia indígena, com indígenas policiais e métodos próprios de controle policial, ao lado da cidade de Tabatinga. O secretário de assuntos indígenas do Amazonas diz que é a favor. Que coisa, hein? Nessa altura do campeonato! Socorro Ministério Público!
A atual gestão da Funai teve desde o início o propósito de minar a Funai. Dominada por pessoas ligadas a Ongs indigenistas que sempre se aproveitaram das informações e da legitimidade do órgão para crescer em cima dele, agora que dominam o órgão aproveitam para enfraquecê-lo ainda mais. A ficha está caindo para os servidores e indígenas.
A reestruturação pretende acabar com as Coordenações Gerais de Educação e de Arte Indígena. Em todos esses anos em que a grande parte do orçamento da educação foi retirado da Funai sobrou um pequeno núcleo de educadores experientes na Funai que fez essa parte essencial da assistência ao índio funcionar minimamente. Deixar a educação só com o MEC será um desperdício ainda maior que prejudicará ainda mais os índios. O exemplo da Funasa está aí para comprovar.
Já acabar com a Arte Indígena é pura maldade e desorientação. Ninguém sabe como os índios que vendem seus artesanatos serão tratados daqui por diante.
Outra insatisfação é com a possível saída de grande parte dos arquivos da Funai para o Museu do Índio, no Rio de Janeiro. E para onde irá o Museu do Índio, do jeito que ele é dirigido atualmente? Fala-se em ser transferido para o Minc. Isto estava planejado para acontecer quando entrei na Funai como presidente e consegui sustar esse propósito nefasto. Agora, quem defenderá a permanência do Museu do Índio na Funai?
Os servidores da Funai, incluindo indigenistas e quadros burocráticos, querem reatar um relacionamento com as lideranças indígenas de raiz. Sabem que o órgão corre perigo e que sem a ajuda dos índios, o governo leva adiante a insensatez da atual direção da Funai.
2. Por sua vez, a Funai ganhou mais 85 cargos comissionados para distribuir a quem quiser. É o preço cobrado pela reestruturação. Cargos de DAS são sempre benvindos para qualquer órgão. Só não se sabe para que servirão. Tudo indica que será para acomodar pessoas na tal reestruturação planejada.
3. O movimento das lideranças de raiz contra a Usina Belo Monte chamou a atenção de meio mundo ambientalista e indigenista. A grande reunião foi realizada no dia 1º de novembro e teve a participação de mais de 200 líderes de várias aldeias do Xingu. Inclusive de pessoas de muito prestígio do Alto Xingu. Muita gente de fora, especialmente Ongs, apoiaram-no, sobretudo depois que viram o quanto de irresponsável foi o licenciamento dado pela atual direção da Funai. Até os técnicos da Funai que fizeram o parecer ficaram chateados pois se sentiram traídos pela direção do órgão, já que em seu parecer apontam para várias falhas e questionamentos dos relatórios feitos pelos antropólogos contratados pelas CNEC. Porém os pareceristas foram ingênuos e não exigiram o tanto que seria necessário para reabrir uma discussão. Já os índios, fica evidente que eles não querem nada do que lhes prometeram.
4. Os Kayapó estão aliados firmemente aos Xavante e aos demais povos indígenas de todo o vale do Xingu contra a Usina Belo Monte. Prometem que não vão deixar a Usina passar. Só que o leilão de licitação para o início das obras está planejado para 21 de dezembro. O que farão os índios sobre isso?
5. As associações indígenas, antes indecisas, estão agora apoiando o movimento dos xinguanos de qualquer jeito. Estão aos poucos se afastando dos comprometimentos que haviam acertado com a atual direção da Funai por conta da ideia ilusória de que estavam fazendo política indígena de verdade. A decepção está formada e as consequências virão.
6. No Mato Grosso do Sul a situação está pegando fogo. Os índios Guarani e Terena estão se dando conta da enganação a que foram submetidos com a promessa de que novas terras indígenas seriam demarcadas. Um grupo grande de índios não aceita mais a administradora de Dourados, colocando toda a culpa das decepções sobre essa pobre pessoa. O fato é que ela também se iludiu e está pagando o pato.
7. Ah, e que tal essa. Os índios Tikuna pretendem criar uma delegacia indígena, com indígenas policiais e métodos próprios de controle policial, ao lado da cidade de Tabatinga. O secretário de assuntos indígenas do Amazonas diz que é a favor. Que coisa, hein? Nessa altura do campeonato! Socorro Ministério Público!
domingo, 8 de novembro de 2009
A morte de Claude Lévi-Strauss é lembrada por muitos: Ondina Fachel Leal
Mais um antropólogo fala da vida e obra de Claude Lévi-Strauss. Desta vez é a professora de antropologia da UFRGS, Ondina Leal, num resumo sucinto de algumas de suas principais obras: parentesco, mitos e totemismo.
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Dos totens, mitos e tabus à universalidade do homem
ONDINA FACHEL LEAL *
Claude Lévi-Strauss abriu novas possibilidades de interpretação ao discutir a cultura, seus símbolos e
suas questões formais. Ofereceu uma ruptura muito radical no modo como as Ciências Sociais até então
pensavam a realidade
Lévi-Strauss inaugura na Antropologia uma tradição: o estruturalismo. Sua proposta é buscar os princípios lógicos universais que dão ordem à diversidade de experiências humanas. A noção central ao pensamento de Lévi-Strauss é a de que realidades culturais são interessantes porque expressam configurações básicas do pensamento humano. A cultura é tomada como um sistema de significados, e essa ideia é a base do fazer antropológico.
Para Lévi-Strauss, seguindo a tradição de sociologia francesa no início do século 20, o totem não é a coisa que ele representa em si, mas é emblemático da organização em clãs de determinados povos. Se animais e plantas são considerados sagrados, ou se são tomados como tabus, são porque representam alguma coisa, a sociedade que fazem parte. Nos diz Lévi-Strauss, rompendo com uma visão utilitarista sobre tabus totêmicos, até então vigente na Antropologia: os animais e vegetais usados como totem, não o são porque “são bons para comer”, mas porque “são bons para pensar”.
Para Lévi-Strauss, o totemismo é irrelevante como sistema de organização social real, empírico. Para ele, o totem é um sistema social que classifica seres e coisas em espécies e gêneros, do mesmo modo que os homens ao viver em sociedade se classificam. A capacidade de erigir totens é um fenômeno muito mais geral. É, por um lado, uma forma de selecionar, organizar, representar intelectualmente e estruturar semelhanças e diferenças que os homens percebem na natureza e no mundo social; por outro lado, é uma forma de relacionar objetos culturais com objetos naturais.
O mito, para Lévi-Strauss, é também uma modalidade discursiva que organiza uma explicação a respeito de realidade social. O mito nos fala do homem e de sua inserção no mundo da natureza: apresenta-nos uma explicação sobre o lugar do indivíduo no mundo. Estabelece um conjunto de significados e prescreve condutas que são condições para que um indivíduo constitua-se enquanto pessoa e, portanto, seja, em um determinado grupo.
Assim como o totem, o mito é tomado por Lévi-Strauss como composto por elementos que funcionam como operadores lógicos de classificação social – uma realidade discursiva que opera uma ruptura com o real, mas é pleno de coerência ao referir-se a uma realidade de outra ordem. Mitos exprimem sentimentos fundamentais, tais como amor e ódio, relativos em última instância, ao desejo do indivíduo e à interdição social do desejo; ou ainda, à dicotomia básica organizadora do mundo, da natureza e da cultura. Trata-se de sentimentos universais, comuns à condição humana. O não compromisso do mito com o real é o que permite a este contemplar uma dimensão estética, afetiva – e, reside aí a sua verdade.
Outro caminho percorrido por Lévi-Strauss em sua coleta de diversidades etnográficas, em As Estruturas Elementares de Parentesco, nos remete à noção de reciprocidade social. Ele aplica o termo reciprocidade ao sistema de prestação total: as obrigações de dar, receber e retribuir os presentes nas chamadas sociedades “primitivas”. Reciprocidade indica estabilidade através de troca entre agentes ou grupos sociais desiguais e rivais. Sistema de parentesco para Lévi-Strauss é um sistema de alianças, do qual os indivíduos e grupos dependem. Relações de parentesco são um conjunto de regras, por exemplo, aquelas de exogamia e de proibição do incesto, que regulam as relações sexuais, o casamento, a reprodução e os padrões de descendência na sociedade. Essas regras que estabelecem tabus são funções do princípio de reciprocidade, que dizem respeito à circulação de mulheres como um objeto valioso.
A partir do momento que existe a proibição do uso de uma mulher para um homem, essa mulher se torna disponível para outro homem. Então, há em algum lugar um homem que renuncia a uma mulher (sua irmã ou sua filha), que daí se torna igualmente disponível. O que Lévi-Strauss nos ensina é que existe um sistema inteiro de prestação social, junto com a troca de mulheres: há uma troca de pudins e de comida cozida do lado feminino, por caça e peixe do lado masculino. Isso coloca a mulher na posição de agente transformador da natureza – ela é quem cuida do fogo e cozinha. Ela é quem torna a cultura uma instituição. Para Lévi-Strauss, o papel feminino é o de reprodução social (de forças produtivas, isto é, de homens), com a capacidade de gerar cultura. Homens teriam que dominar as mulheres para se fazerem parte da cultura, para terem controle sobre a reprodução social.
O argumento principal de Lévi-Strauss é que sistemas de aliança de parentesco, em suas variações, na exogamia ou no tabu do incesto, desempenham o papel de um princípio único. São, de fato, um conjunto de regras, estabelecidas socialmente, que prescrevem com quem o indivíduo pode casar, ou com quem ele não pode casar. Ambas as limitações são fenômenos do mesmo tipo. É claro que, como a metade poderosa (mulher/natureza) é dominada pela metade não-poderosa (homem/cultura) permanece uma questão não resolvida. Os mitos, que Lévi-Strauss analisou extensamente, legitimam o domínio e o poder masculino, mas não o explicam.
Estudando totens, mitos, tabus ou arranjos matrimoniais, Lévi-Strauss constituiu o estruturalismo que marcou um rompimento radical com as formas que as ciências sociais pensavam a realidade. Com Lévi-Strauss, o foco da análise deslocou-se para a formalidade do sistema, para a sua estrutura.
Totens, mitos ou ritos são “ordens” ou níveis de um princípio estrutural subjacente que Lévi-Strauss chama de a “ordem das ordens”: a Cultura. Em outras palavras, é a estrutura de pensamento humana que permite aos homens categorizar e relacionar símbolos e coisas, e é isso o que faz o homem parte da cultura e algo diferente da natureza.
Perplexos com a universalidade da condição humana, resta-nos desejar que, encompassados com a reprodução da ordem simbólica, os elementos de transformação desta ordem sejam também reproduzidos. Sem estes, a própria eficácia da ordem simbólica estaria comprometida.
* PhD em Antropologia pela University of California, Berkeley, professora titular do Departamento de Antropologia da UFRGS
Para Lévi-Strauss, seguindo a tradição de sociologia francesa no início do século 20, o totem não é a coisa que ele representa em si, mas é emblemático da organização em clãs de determinados povos. Se animais e plantas são considerados sagrados, ou se são tomados como tabus, são porque representam alguma coisa, a sociedade que fazem parte. Nos diz Lévi-Strauss, rompendo com uma visão utilitarista sobre tabus totêmicos, até então vigente na Antropologia: os animais e vegetais usados como totem, não o são porque “são bons para comer”, mas porque “são bons para pensar”.
Para Lévi-Strauss, o totemismo é irrelevante como sistema de organização social real, empírico. Para ele, o totem é um sistema social que classifica seres e coisas em espécies e gêneros, do mesmo modo que os homens ao viver em sociedade se classificam. A capacidade de erigir totens é um fenômeno muito mais geral. É, por um lado, uma forma de selecionar, organizar, representar intelectualmente e estruturar semelhanças e diferenças que os homens percebem na natureza e no mundo social; por outro lado, é uma forma de relacionar objetos culturais com objetos naturais.
O mito, para Lévi-Strauss, é também uma modalidade discursiva que organiza uma explicação a respeito de realidade social. O mito nos fala do homem e de sua inserção no mundo da natureza: apresenta-nos uma explicação sobre o lugar do indivíduo no mundo. Estabelece um conjunto de significados e prescreve condutas que são condições para que um indivíduo constitua-se enquanto pessoa e, portanto, seja, em um determinado grupo.
Assim como o totem, o mito é tomado por Lévi-Strauss como composto por elementos que funcionam como operadores lógicos de classificação social – uma realidade discursiva que opera uma ruptura com o real, mas é pleno de coerência ao referir-se a uma realidade de outra ordem. Mitos exprimem sentimentos fundamentais, tais como amor e ódio, relativos em última instância, ao desejo do indivíduo e à interdição social do desejo; ou ainda, à dicotomia básica organizadora do mundo, da natureza e da cultura. Trata-se de sentimentos universais, comuns à condição humana. O não compromisso do mito com o real é o que permite a este contemplar uma dimensão estética, afetiva – e, reside aí a sua verdade.
Outro caminho percorrido por Lévi-Strauss em sua coleta de diversidades etnográficas, em As Estruturas Elementares de Parentesco, nos remete à noção de reciprocidade social. Ele aplica o termo reciprocidade ao sistema de prestação total: as obrigações de dar, receber e retribuir os presentes nas chamadas sociedades “primitivas”. Reciprocidade indica estabilidade através de troca entre agentes ou grupos sociais desiguais e rivais. Sistema de parentesco para Lévi-Strauss é um sistema de alianças, do qual os indivíduos e grupos dependem. Relações de parentesco são um conjunto de regras, por exemplo, aquelas de exogamia e de proibição do incesto, que regulam as relações sexuais, o casamento, a reprodução e os padrões de descendência na sociedade. Essas regras que estabelecem tabus são funções do princípio de reciprocidade, que dizem respeito à circulação de mulheres como um objeto valioso.
A partir do momento que existe a proibição do uso de uma mulher para um homem, essa mulher se torna disponível para outro homem. Então, há em algum lugar um homem que renuncia a uma mulher (sua irmã ou sua filha), que daí se torna igualmente disponível. O que Lévi-Strauss nos ensina é que existe um sistema inteiro de prestação social, junto com a troca de mulheres: há uma troca de pudins e de comida cozida do lado feminino, por caça e peixe do lado masculino. Isso coloca a mulher na posição de agente transformador da natureza – ela é quem cuida do fogo e cozinha. Ela é quem torna a cultura uma instituição. Para Lévi-Strauss, o papel feminino é o de reprodução social (de forças produtivas, isto é, de homens), com a capacidade de gerar cultura. Homens teriam que dominar as mulheres para se fazerem parte da cultura, para terem controle sobre a reprodução social.
O argumento principal de Lévi-Strauss é que sistemas de aliança de parentesco, em suas variações, na exogamia ou no tabu do incesto, desempenham o papel de um princípio único. São, de fato, um conjunto de regras, estabelecidas socialmente, que prescrevem com quem o indivíduo pode casar, ou com quem ele não pode casar. Ambas as limitações são fenômenos do mesmo tipo. É claro que, como a metade poderosa (mulher/natureza) é dominada pela metade não-poderosa (homem/cultura) permanece uma questão não resolvida. Os mitos, que Lévi-Strauss analisou extensamente, legitimam o domínio e o poder masculino, mas não o explicam.
Estudando totens, mitos, tabus ou arranjos matrimoniais, Lévi-Strauss constituiu o estruturalismo que marcou um rompimento radical com as formas que as ciências sociais pensavam a realidade. Com Lévi-Strauss, o foco da análise deslocou-se para a formalidade do sistema, para a sua estrutura.
Totens, mitos ou ritos são “ordens” ou níveis de um princípio estrutural subjacente que Lévi-Strauss chama de a “ordem das ordens”: a Cultura. Em outras palavras, é a estrutura de pensamento humana que permite aos homens categorizar e relacionar símbolos e coisas, e é isso o que faz o homem parte da cultura e algo diferente da natureza.
Perplexos com a universalidade da condição humana, resta-nos desejar que, encompassados com a reprodução da ordem simbólica, os elementos de transformação desta ordem sejam também reproduzidos. Sem estes, a própria eficácia da ordem simbólica estaria comprometida.
* PhD em Antropologia pela University of California, Berkeley, professora titular do Departamento de Antropologia da UFRGS
sábado, 7 de novembro de 2009
A morte de Claude Lévi-Strauss é lembrada por muitos: Gilles Lapouge
Mais um depoimento sobre Lévi-Strauss, desta vez pelo antropólogo e jornalista Gilles Lapouge.
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"Penso o Brasil como um perfume", dizia com sua fala magnífica, econômica, estruturadúltima vez que o vi foi em 2004 ou 2005. Fui visitá-lo na Rue des Marronniers, 2, perto da Praça do Trocadéro, a dois passos do Museu do Homem. Claude Lévi-Strauss recebeu-me no vestíbulo do quarto andar.
Cortês. Sorriso gelado e seco. Jamais alguém o tratou por "você".
Ele me intimidava. Eu tremia. Sua polidez era uma parede de vidro através da qual se podia ver esse homem como se vê uma constelação num telescópio. Procurei, vagamente, como num museu, uma etiqueta identificando o objeto: "Antropólogo do século 20".
Claude Lévi-Strauss era, no início, um filósofo. Foi o Mato Grosso, em 1935, que fez sair desse filósofo um antropólogo. Na época, era casado com Dina, etnóloga (muito extrovertida, muito sexy), que fez diversos filmes sobre os bororos e os vaqueiros. Eles se separaram em 1939 e Lévi-Strauss casou-se novamente. Duas ou três vezes, não sei. Certa vez ele me disse, com aquele sorriso irônico, sarcástico, tão precioso: "Você sabe, sou um homem do neolítico. Com certeza, sou polígamo, mas na França a poligamia é algo complicado. Assim, sou polígamo ao longo do tempo, jamais num mesmo momento".
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'Sou um homem do neolítico'
Lévi-Strauss era cortês, mas o sorriso gelado e seco intimidava. Ninguém o tratava por você
Gilles Lapouge
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André Douek/AE - 18/10/1985
"Penso o Brasil como um perfume", dizia com sua fala magnífica, econômica, estruturadúltima vez que o vi foi em 2004 ou 2005. Fui visitá-lo na Rue des Marronniers, 2, perto da Praça do Trocadéro, a dois passos do Museu do Homem. Claude Lévi-Strauss recebeu-me no vestíbulo do quarto andar.
Cortês. Sorriso gelado e seco. Jamais alguém o tratou por "você".
Ele me intimidava. Eu tremia. Sua polidez era uma parede de vidro através da qual se podia ver esse homem como se vê uma constelação num telescópio. Procurei, vagamente, como num museu, uma etiqueta identificando o objeto: "Antropólogo do século 20".
Ele me conduziu à biblioteca - uma quantidade enorme de livros, japoneses ou tibetanos mais do que brasileiros, em couro e pergaminho, muito bem arrumados, embora esse arranjo obedecesse a lógicas tão obscuras que eu não consegui entender nada. Ele diminuíra de tamanho. Estava mais encolhido. Usado como um tecido antigo, precioso, seda ou cetim. Um perfil de pássaro. O cabelo, ralo e fino, parecia uma pluma eriçada pelo vento dos séculos. A pele quebradiça. O olho arregalado - um olho de águia. Claude Lévi-Strauss era a imagem de um grande professor de francês do século 19. Usava um terno cinza de um tecido muito fino. Clássico.
Pensei no jovem brilhante que, em 1936, lecionou na USP e depois explorou o Mato Grosso, quando produziu algumas obras-primas que foram um divisor de águas na história da etnologia. Por trás dessa silhueta delgada, caída e meio transparente, revi o jovem professor de 1935: um belo homem, altivo, taciturno, levado, por graça de O Estado de S. Paulo, de Julio Mesquita e George Dumas, para o centro de um país vertiginoso, em companhia de outros gigantes, como Pierre Monbeig, Fernand Braudel, Roger Bastide.
Claude Lévi-Strauss era, no início, um filósofo. Foi o Mato Grosso, em 1935, que fez sair desse filósofo um antropólogo. Na época, era casado com Dina, etnóloga (muito extrovertida, muito sexy), que fez diversos filmes sobre os bororos e os vaqueiros. Eles se separaram em 1939 e Lévi-Strauss casou-se novamente. Duas ou três vezes, não sei. Certa vez ele me disse, com aquele sorriso irônico, sarcástico, tão precioso: "Você sabe, sou um homem do neolítico. Com certeza, sou polígamo, mas na França a poligamia é algo complicado. Assim, sou polígamo ao longo do tempo, jamais num mesmo momento".
Pouco tempo depois, Claude Lévi-Strauss prepara uma expedição para a região dos Rios Juruena e Ji-Paraná, o que não é muito apreciado pelo governo de Getúlio Vargas. A permissão é dada, mas retirada em seguida. Homens de peso, entre eles Mário de Andrade, conseguem desbloquear o processo, desde que um etnólogo brasileiro o acompanhe.
Luiz de Castro Faria referiu-se a essa expedição admirando a mecânica intelectual de Lévi-Strauss. Mas sem empatia. "Era um homem polido e distante... uma figura difícil. Silencioso, assumia aqueles ares típicos do pensador". E conclui secamente: "No plano científico, foi um fracasso".
Para Castro Faria, Lévi-Strauss não era um ás em se locomover na pesquisa de campo. Nem dominava muito bem os equipamentos. "Certo dia, desapareceu num atalho. A tensão foi geral." Na realidade, Lévi-Strauss se perdera na mata e deu um tiro para o alto. Mas se esqueceu de descer da mula. Resultado: a mula correu para um lado e ele caiu do outro. E todo o mundo se pôs à procura da mula e do etnólogo.
Essa história é engraçada, mas não maldosa, sobretudo porque Castro Farias reafirma o seu respeito pela autoridade de Lévi-Strauss. Ela serviu apenas para dar crédito às críticas que alguns antropólogos (americanos) faziam ao antropólogo: um gênio, mas etnólogo de gabinete, um homem que após cinco anos de Brasil e da América nunca mais deixou sua biblioteca, o Collège de France ou a Academia Francesa. O que é verdade.
Em suas lembranças, Castro Faria cometeu um erro quando disse que "Lévi-Strauss falava português quase sem sotaque". Não é verdade. Certa vez tentei conversar em português com ele. "Jamais falei muito bem o português", disse. "O que falo é o português do interior, dos caipiras, mas não o das cidades."
No entanto, ele amava São Paulo. E certa vez, uma referência a São Paulo me pareceu tê-lo perturbado. Foi um momento raro, em 1994. Ele tinha acabado de publicar um livro de fotos feitas no Brasil. Esse homem tão frio, tão fechado, comoveu-se. Mas não foi de olhar para aquelas velhas e belas fotos de 1936 (da mesma maneira que escreveu "odeio viagens" ele poderia ter dito "odeio fotos"). Não. O que lhe permitia viajar pelos anos até a São Paulo de 1935 era o cheiro: "Penso o Brasil como um perfume quente".
A fala desse homem taciturno era magnífica. Deslumbrante. Era clara, econômica, rápida, estruturada. Nenhuma imperfeição. Nenhuma repetição. Na verdade, ele não era eloquente. Para ser eloquente é preciso vacilar um pouco, perder-se, ficar transtornado, lutar com as palavras. O discurso de Lévi-Strauss era perfeito, como uma peça de cerâmica saindo do forno. Quando quero lembrar-me dele, é sua voz que me serve de veículo. Uma voz grave, sem ostentação. Como um silêncio, um tremor do silêncio.
De volta à França, em 1948, ele viaja pouco - para o Japão, de vez em quando, no mais, idas e vindas entre o Trocadéro e o Collège de France. Uma vida caseira. Laboriosa. Música. Museus. Alguns amigos selecionados. Escrevia seus livros como um artesão faz marchetaria. Uma primeira versão à máquina. Depois, correções infinitas, de diferentes cores entrelaçadas (como seria interessante ver esse work in progress) e enfim a versão final, impecável. Quase no fim da vida, ele passa pelo Collège de France duas vezes por semana para ver seus alunos, esclarecer suas dúvidas.
Muito jovem, Lévi-Strauss aderiu aos estudantes socialistas. Mais tarde, tornou-se apenas um espectador distante. Só se manifestava para defender os povos nus, os povos ameaçados. As rebeliões de maio de 1968 o divertiram no início, mas depois passou a detestá-las. Elas eram contra todo o sistema ritual da sociedade francesa, e os ritos, aos olhos do antropólogo, não deveriam ser maltratados. Caso contrário, seria o caos.
Era de uma modéstia extrema e orgulhosa. Por volta de 1970, a revista L’Express encomendou-me um trabalho sobre grandes pensadores, como Jacques Lacan, Roland Barthes, Michel Foucault, Claude Lévi-Strauss. Lacan ficou entusiasmado. Lévi-Strauss recusou-se a participar. Disse que não era um grande pensador, mas um especialista em mitos e máscaras. Amava a geografia, a geologia, a música, a poesia, "mas grande pensador, que ideia!" Consequência: não fiz o trabalho pedido pelo L’Express porque o personagem mais fascinante tinha se esquivado.
Creio que Lévi-Strauss já estava farto dessas sociedades destruidoras, insensíveis à beleza das coisas, que acabam com os esplendores da natureza. Ao tumulto, ao caos, às injustiças, como também às próprias fadigas, suas doenças, ele respondia com o estoicismo refinado com que se opunha à injustiça das coisas.
Ele já aguardava, claro, que o soberbo, miraculoso e cambiante tecido da vida se desfizesse. Vivia num mundo submerso, do qual continuava a desmontar os mecanismos, estruturas, constâncias, racionalidades, segmentos de ordem. Mas não sabia muito bem por que ainda se mantinha vivo. Pensava em outras sabedorias que não aquelas da Europa. Sonhava com os pensamentos selvagens, com os tupinambás, o budismo, embora continuasse ocidental. Não era desses intelectuais que esquecem o Ocidente para, repentinamente, abraçar a sabedoria dos brâmanes ou dos bororos. Algumas noites, acho que ele pensava no cheiro das florestas, no cintilar dos rios da Amazônia, talvez em nuvens.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A morte de Claude Lévi-Strauss é lembrada por muitos: Eduardo V Castro
Eduardo Viveiros de Castro é um dos mais brilhantes seguidores de Lévi-Strauss no Brasil. Segundo seus alunos, ele vem renovando os estudos etnológicos brasileiros a partir das ideias de Lévi-Strauss temperadas com as ideias de Gilles Deleuze, o filósofo francês que vem hipostaziando a lógica da diferença. Eis o texto de Eduardo V de Castro sobre Lévi-Strauss publicado como entrevista ao jornal O Globo.
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Eduardo Viveiros de Castro sobre Lévi-Strauss
O texto abaixo foi extraído do manuscrito inédito de "Isso não é tudo: Lévi-Strauss e a mitologia ameríndia", do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, que será lançado em agosto de 2010 pela Cosac Naify, junto à primeira edição brasileira de "O homem nu", quarto volume das "Mitológicas", de Claude Lévi-Strauss.
O título do livro que começo a escrever aqui diante de vocês é Isso não é tudo: Lévi-Strauss e a mitologia ameríndia. “Isso não é tudo”, “ce n’est pas tout” é uma fórmula frequentemente empregada por Lévi-Strauss, a ponto de poder ser considerada um pequeno maneirismo do autor, para introduzir um desdobramento ou uma guinada na análise, ou encerrar uma demonstração com uma sequência inesperada de acordes. Ela aparece, eventualmente nas variantes “não é só isso” e “há mais”, um pouco em toda parte na obra lévi-straussiana, mas (provavelmente) aumentando sua frequência nas Mitológicas.
A “petite phrase de Lévi-Strauss” (chamo-a assim em homenagem à “petite phrase de Vinteuil” da Recherche), marca um passo estilístico típico: o surgimento quase prestidigitatório (se a palavra existe) de sempre mais um eixo, sempre “um outro eixo” de transformação, disposto de través, em diagonal aos vários eixos que vinham até ali guiando a comparação; a produção em finta ou pirueta de uma torção suplementar (a “torsion surnuméraire” ou “double twist” de que falaremos bastante neste curso) completamente imprevista, que abre subitamente uma progressão que tudo encaminhava para o fechamento; a revelação de vínculo extra, implicado, obscuro, compactado no texto sob análise que subitamente se explica e esclarece, e ao mesmo tempo se multiplica e difrata em perspectivas que, literalmente, perdem-se de vista no horizonte. Teremos ocasião de registrar vários momentos da demonstração ao mesmo tempo sinuosa e reticular, barroca e rizomática — le mot est jeté — abertos pelo “Isso não é tudo” nas Mitológicas. Na verdade, o movimento assinalado pela pequena frase ocorre muito mais frequentemente que ela; ela é opcional, mas o movimento, ao contrário, parece-nos necessário, intrínseco ao procedimento lévi-straussiano: “la démonstration peut être poussée encore plus loin.” (CC: 213; ou p. 201: “Il ne suffit pas de dire que, pour les Bororo etc.”; “le problème est loin d’être épuisé” (CC 316)); ou ainda, relativamente comum, a fórmula que desdobra uma oposição ou conjunto simples de oposições/transformações: exemplo típico, o mel e o tabaco em: “en fait, les choses sont beaucoup plus complexes” (MC 55). A petite phrase, eis a nossa tese, cumpre na verdade uma função conceitual fundamental dentro da economia teórica do estruturalismo.
Descobri recentemente que F. Keck [Pléiade 1787] fala no “méthode du ‘Ce n’est pas tout’ qui ajoute à l’intérpretation d’un myhte ou d’un rituel de nouveaux éléments destinés à la confirmer ou l’enrichir” — não fui assim o único a notar o maneirismo metódico. Mas Keck não tira deste método grandes lições, quando ao contrário penso que ele é muito importante. Ele aponta para o inacabamento da análise estrutural, e sugere as razões desse inacabamento: a fractalidade e rizomaticidade de todo objeto determinado pelo método estrutural, na medida em que esse objeto em geral é concebido sempre como um estado particular de um sistema de transformações cujos limites são contingentes. [E mais, definíveis sempre apenas de maneira relacional: ver Maniglier, Des us et des signes] A “in-terminabilidade”, no duplo sentido (sem fim ou término, e sem possibilidade de determinação unívoca do que é um termo e uma relação, do que é literal e figurativo etc. — ver, na Oleira Ciumenta, a analogia com o sexo dos caracóis) da análise mítica é um princípio absolutamente fundamental das Mitológicas, enunciado logo na Abertura do CC. Veremos que LS insiste no caráter aberto, intensivo, iterativo, em nebulosa, poroso, “conexionista” dos sistemas míticos que reconstrói. “Isso não é tudo”, então, porque nada é tudo, em nenhum momento se alcança uma totalização. “Isto não é tudo” supõe um conceito de estrutura e de análise que não privilegia uma vontade de fechamento, compleção, compacidade, a determinação de uma combinatória exaustivamente definida a priori. Com o “isso não é tudo”, começamos a divisar a possibilidade de pensar Lévi-Strauss como um pós-estruturalista. Isso não é tudo = fórmula canônia = devir.
HN 539: le propre de tout mythe ou groupe de mythes est d’interdire qu’on s’y enferme: un moment vient toujours, au cours de l’analyse, où un problème et qui, pour le résoudre, oblige à sortir du cercle que l’analyse s’était tracé. Le même jeu de transformations, qui permet de ramener l’une à l’autre les séquences d’un myhte donné, s’étend de façon quaise automatique à la séquence indécidable [* referência a uma idéia de Buchler & Selby sobre o caráter não-recursivo ou indecidível de uma transformação qualquer tomada como ponto de partida, e que CLS discute, mediante a idéia de que a indecidibilidade é relativa ao grupo de mitos que se toma, mas que toda transformação é recíproca em algum nível, com outra], mais tout de mêmne réductible en dehors du mythe à d’autres séquences indécidables… Toda a continuação dessa passagem crucial deve ser considerada.
HN 539: “…cet être du monde consiste en une disparité… Du monde, on ne peut pas dire purement et simplement qu’il est; il est sous la forme d’une asymétrie prémière…
Ainda a interminabilidade: a passagem do “Sexo dos Astros” em ASII p. 260, onde o autor diz que “Cada transformação mítica não supera a contradição em um eixo senão para reencontrá-la em outro eixo, e o número de parâmetros aumenta com cada tentativa de mediação.
Naturalmente, isso não é tudo… Lévi-Strauss irá insistir repetidas vezes nas Mitológicas sobre o fechamento do sistema que analisa, a redondez da terra da mitologia (mas também sua porosidade…), a completude do círculo que o leva das savanas do Brasil Central às costas brumosas do estado de Washington e da Columbia Britânica,e, localmente, sobre os vários fechamentos de grupos míticos menores. Será preciso então insistirmos, nós, sobre uma tensão interna ao pensamento do autor relativo à mitologia americana, a saber, sobre uma dialética da abertura e do fechamento analítico (e mítico) que caberá explorar, em suas aparentes contradições inclusive. [E note-se, porém, que um sistema não é uma estrutura; cf. a noção de transformação in Eribon] → Isso realmente não é tudo. A pequena frase pode ser usada para fechar a análise por um lado que parecia aberto. A ênfase no fechamento dos grupos, na coerência e homogeneidade do conjunto é sublinhada repetidas vezes no correr do texto, e atinge uma espécie de apoteose enfática no capítulo “O Mito Único” do Homem Nu. Por isso, é preciso sublinhar, eu, que estou fazendo uma leitura parcial, apostando na tensão que ora enfatiza a “vasta máquina combinatória que é todo sistema mítico” (HN p. 501) e o caráter grupal, fechado e coerente do seu “mito único”, ora fala em dinamismo, desequilíbrio, devir perpétuo, assimetria que sempre abre o mito po rum outro lado, etc. (coligir as inúmeras passagens). Essa tensão deve estruturar minha exposição.
Naturalmente, isso não é tudo… Lévi-Strauss irá insistir repetidas vezes nas Mitológicas sobre o fechamento do sistema que analisa, a redondez da terra da mitologia (mas também sua porosidade…), a completude do círculo que o leva das savanas do Brasil Central às costas brumosas do estado de Washington e da Columbia Britânica,e, localmente, sobre os vários fechamentos de grupos míticos menores. Será preciso então insistirmos, nós, sobre uma tensão interna ao pensamento do autor relativo à mitologia americana, a saber, sobre uma dialética da abertura e do fechamento analítico (e mítico) que caberá explorar, em suas aparentes contradições inclusive. [E note-se, porém, que um sistema não é uma estrutura; cf. a noção de transformação in Eribon] → Isso realmente não é tudo. A pequena frase pode ser usada para fechar a análise por um lado que parecia aberto. A ênfase no fechamento dos grupos, na coerência e homogeneidade do conjunto é sublinhada repetidas vezes no correr do texto, e atinge uma espécie de apoteose enfática no capítulo “O Mito Único” do Homem Nu. Por isso, é preciso sublinhar, eu, que estou fazendo uma leitura parcial, apostando na tensão que ora enfatiza a “vasta máquina combinatória que é todo sistema mítico” (HN p. 501) e o caráter grupal, fechado e coerente do seu “mito único”, ora fala em dinamismo, desequilíbrio, devir perpétuo, assimetria que sempre abre o mito po rum outro lado, etc. (coligir as inúmeras passagens). Essa tensão deve estruturar minha exposição.
Claude Lévi-Strauss, fundador do pós-estruturalismo… CLS certamente não é o último pré-estruturalista, mas é o primeiro pós-estruturalista. Ao dizer isso, em certo sentido, estaríamos antecipando a conclusão do presente livro, que tem como uma de suas principais intenções a de mostrar a atualidade do pensamento lévi-straussiano: pensamento da assimetria, da complementaridade, da torção e da abertura. Poderíamos ir para casa agora e dedicar o tempo a ocupações mais amenas. Mas felizmente, ou infelizmente, isto não é tudo… Além de que será preciso demonstrar minimamente o bem-fundado de minha tese, o livro tem uma outra intenção maior, que não se comprime tão facilmente em um ou dois parágrafos, a saber, a intenção de expor a originalidade radical do pensamento indígena, tal como transparece nos discursos míticos analisados nas Mitológicas.
A morte de Claude Lévi-Strauss é lembrada por muitos: Caetano Veloso
Não dá tempo para eu escrever uma análise da obra de Claude Lévi-Strauss, grande antropólogo francês falecido neste sábado passado.
Para começo de conversa, segue aí o lindo texto de Caetano Veloso, esse poeta brasileiro de grande sensibilidade filosófica, publicado hoje na Folha de São Paulo.
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"A visão do Brasil que está em "Tristes Trópicos" esquentou meu coração"
Caetano Veloso relembra como o pensamento de Claude Lévi-Strauss repercutiu em sua música
CAETANO VELOSO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Nosso movimento, que queríamos chamar de "som universal", terminou ganhando o apelido de "tropicalismo" por causa da instalação de Hélio Oiticica que Luiz Carlos Barreto achou parecida com minha canção.
Foi Leon Hirschman quem, tendo visto na casa de um amigo um volume de "Tristes Trópicos", pensou que um livro com esse título deveria interessar a um dos criadores de tal movimento, ainda mais que se tratava de um que gostava de ler livros filosóficos e teóricos. Ele simplesmente roubou o exemplar da casa em que o encontrou e me deu de presente. A palavra "estruturalismo" estava aparecendo em textos de jornais e em conversas. Eu vagamente sabia que o nome de Lévi-Strauss estava ligado a ela.
Abri o livro com uma curiosidade moderada. E fui tomado de um interesse intenso a partir das primeiras frases. "Tristes Trópicos" me arrebatou. Eu era fã de Sartre. Nunca esperei que uma inteligência de ordem tão diferente, mesmo antagônica, se impusesse com tanta rapidez sobre meu espírito. O estilo (eu nunca tinha lido Proust) também me impressionou: a calma dos parágrafos longos e entremeados de observações secundárias que só lhe aumentavam a clareza era educativa, agradável e elegante.
Mas foi a visão do Brasil que apareceu ali que esquentou meu coração.
Um pessimismo relativo à civilização brasileira (mitigado pela bela passagem sobre a USP, em que "num claro instante" pode tornar-se possível uma intervenção relevante nos destinos do mundo, por parte de um bando de jovens paulistas inocentes -mas agravado pela incompreensão total do que seria Oswald de Andrade ou a possibilidade de um modernismo brasileiro que contasse além da repulsa que a suposta beleza do Rio causava no autor) contado paralelamente às descobertas sobre as culturas pré-cabralinas, ensinava novos modos de sentir-se o estar no mundo aqui. Mais do que tudo, aparecia um homem excepcional: sempre modesto, ele mantinha um tom franco e inabalavelmente lúcido. Os esboços das posições originais que o tornariam mais e mais célebre apareciam com vigor, mas sem paixão.
Cheguei a escrever, alguns anos depois, para meu governo, que fazia sentido que, em oposição ao ateísmo apaixonado de Sartre, surgisse uma espécie de misticismo frio. A profecia de que o Islã nunca seria a religião da tolerância que se pretendia (culminando numa impressionante comparação das figuras de Maomé e Buda) repercutiu em mim de modo indelével. Assim como o horror ao "eu" cartesiano, embora a racionalidade que ele sempre manteve nunca pudesse ser abalada, fosse pela "confusão entre sujeito e objeto" dos existencialistas (seguindo Husserl), fosse pela dialética hegeliano-marxista (que os existencialistas franceses terminaram por abraçar).
Marx e Freud eram, para ele, antes exemplos de pensadores que percebiam realidades inteligíveis em planos escondidos.
Enfim, se há alguns livros que ficaram acesos em minha memória desde que foram lidos -e para sempre-, "Tristes Trópicos" é um deles.
Por causa disso, li "O Pensamento Selvagem" (em Londres, em inglês, porque os donos da casa que aluguei tinham esquecido justo um exemplar dele na estante vazia), depois "O Cru e o Cozido". A polêmica com "Crítica da Razão Dialética" no primeiro e os argumentos contra a música atonal no segundo são trechos a que voltei inúmeras vezes através dos anos.
O texto sobre a música sempre foi especialmente instigante para mim. Considero aquilo um momento altíssimo na história do entendimento do que seja a música. Ali também estão embutidos argumentos anti-modernismo e anti-arte de vanguarda a que ele se apegou nas últimas décadas. Sinto uma natural desconfiança dessa inclinação, mas acho estimulante que algumas problematizações não fossem evitadas.
Amo a resposta que Augusto de Campos me deu quando lhe reportei a impressão que me causaram tais argumentos: "São muito inteligentes, mas quem levou a música para além do tom foram os músicos, os melhores entre eles -e eu confio mais em quem está com a mão na massa". Mas aconselho qualquer um a passar primeiro pela "ouverture" de "O Cru e o Cozido", relembrar a frase de Augusto e depois tentar pensar por conta própria.
Lévi-Strauss detestava a promiscuidade entre alta cultura e cultura popular que via sendo praticada por seus famosos contemporâneos mais jovens: "pop philosophie", pensadores citando Bob Dylan e escrevendo sobre cinema, linguistas estudando letras de rock -na entrevista com Didier Éribon, ele diz que jamais voltaria seu armamento teórico para nada abaixo de Baudelaire.
Eu o citei nominalmente numa letra de música (numa entrevista em que lhe perguntaram sobre a citação em "O Estrangeiro" -"O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela"-, ele disse, meio rindo, que tinha escrito essas palavras havia muito tempo); citei-o indiretamente em pelo menos duas outras: o "num claro instante" de "Um Índio" (diretamente do texto sobre a USP) e "amor-mentira" de "Tem que Ser Você" (aprendi com ele que os nhambiquara chamam os atos homossexuais praticados pelos jovens da tribo de "amor-mentira").
Ele possivelmente não gostaria de se ver citado por um músico pop. E brasileiro. Vai saber. Ele cultivava um certo amor pelo Brasil, a terra onde suas descobertas inaugurais surgiram, onde seu trabalho de etnógrafo fez possível suas investidas teóricas e mesmo filosóficas. Mas o título do seu primeiro livro não é tão carregado de ternura quanto de desprezo e desesperança (e aqui me lembro de uma quarta citação que fiz dele em canção: a observação, em "Fora da Ordem", de que "aqui tudo parece que é ainda construção mas já é ruína"): o Brasil é figura grande na geografia de "Tristes Trópicos", mas está incluído numa visão sombria que cobre toda a zona tropical ao redor do globo.
Eu o vi uma vez na BBC falando inglês excelente com perfeito sotaque francês e exibindo um caleidoscópio para ilustrar sua ideia de estrutura e do número finito de possibilidades de arranjo coletivo do homem. Ele tinha uma cara muito bacana de judeu bondoso mas irônico, uma maravilhosa cara de quem tem vocação para a longevidade (coisa de que ele antes se queixava com modesta ironia, mas que a mim me parece uma virtude). Em suma, eu gostava dele. Gostava de pensar que ele, tão distante e tão próximo, estaria ainda sempre por aí, como minha mãe e Niemeyer, o que me dá uma espécie muito tranquila de saudade.
Peço desculpa aos estudiosos sérios por tratar com tamanha familiaridade uma figura tão respeitável. Mas peço essas desculpas por causa do carinho que sinto e sempre senti por ele. Mesmo no seu grande esnobismo contra o esnobismo de massas.
Caetano Veloso é cantor e compositor baiano
Para começo de conversa, segue aí o lindo texto de Caetano Veloso, esse poeta brasileiro de grande sensibilidade filosófica, publicado hoje na Folha de São Paulo.
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"A visão do Brasil que está em "Tristes Trópicos" esquentou meu coração"
Caetano Veloso relembra como o pensamento de Claude Lévi-Strauss repercutiu em sua música
CAETANO VELOSO
ESPECIAL PARA A FOLHA
Nosso movimento, que queríamos chamar de "som universal", terminou ganhando o apelido de "tropicalismo" por causa da instalação de Hélio Oiticica que Luiz Carlos Barreto achou parecida com minha canção.
Foi Leon Hirschman quem, tendo visto na casa de um amigo um volume de "Tristes Trópicos", pensou que um livro com esse título deveria interessar a um dos criadores de tal movimento, ainda mais que se tratava de um que gostava de ler livros filosóficos e teóricos. Ele simplesmente roubou o exemplar da casa em que o encontrou e me deu de presente. A palavra "estruturalismo" estava aparecendo em textos de jornais e em conversas. Eu vagamente sabia que o nome de Lévi-Strauss estava ligado a ela.
Abri o livro com uma curiosidade moderada. E fui tomado de um interesse intenso a partir das primeiras frases. "Tristes Trópicos" me arrebatou. Eu era fã de Sartre. Nunca esperei que uma inteligência de ordem tão diferente, mesmo antagônica, se impusesse com tanta rapidez sobre meu espírito. O estilo (eu nunca tinha lido Proust) também me impressionou: a calma dos parágrafos longos e entremeados de observações secundárias que só lhe aumentavam a clareza era educativa, agradável e elegante.
Mas foi a visão do Brasil que apareceu ali que esquentou meu coração.
Um pessimismo relativo à civilização brasileira (mitigado pela bela passagem sobre a USP, em que "num claro instante" pode tornar-se possível uma intervenção relevante nos destinos do mundo, por parte de um bando de jovens paulistas inocentes -mas agravado pela incompreensão total do que seria Oswald de Andrade ou a possibilidade de um modernismo brasileiro que contasse além da repulsa que a suposta beleza do Rio causava no autor) contado paralelamente às descobertas sobre as culturas pré-cabralinas, ensinava novos modos de sentir-se o estar no mundo aqui. Mais do que tudo, aparecia um homem excepcional: sempre modesto, ele mantinha um tom franco e inabalavelmente lúcido. Os esboços das posições originais que o tornariam mais e mais célebre apareciam com vigor, mas sem paixão.
Cheguei a escrever, alguns anos depois, para meu governo, que fazia sentido que, em oposição ao ateísmo apaixonado de Sartre, surgisse uma espécie de misticismo frio. A profecia de que o Islã nunca seria a religião da tolerância que se pretendia (culminando numa impressionante comparação das figuras de Maomé e Buda) repercutiu em mim de modo indelével. Assim como o horror ao "eu" cartesiano, embora a racionalidade que ele sempre manteve nunca pudesse ser abalada, fosse pela "confusão entre sujeito e objeto" dos existencialistas (seguindo Husserl), fosse pela dialética hegeliano-marxista (que os existencialistas franceses terminaram por abraçar).
Marx e Freud eram, para ele, antes exemplos de pensadores que percebiam realidades inteligíveis em planos escondidos.
Enfim, se há alguns livros que ficaram acesos em minha memória desde que foram lidos -e para sempre-, "Tristes Trópicos" é um deles.
Por causa disso, li "O Pensamento Selvagem" (em Londres, em inglês, porque os donos da casa que aluguei tinham esquecido justo um exemplar dele na estante vazia), depois "O Cru e o Cozido". A polêmica com "Crítica da Razão Dialética" no primeiro e os argumentos contra a música atonal no segundo são trechos a que voltei inúmeras vezes através dos anos.
O texto sobre a música sempre foi especialmente instigante para mim. Considero aquilo um momento altíssimo na história do entendimento do que seja a música. Ali também estão embutidos argumentos anti-modernismo e anti-arte de vanguarda a que ele se apegou nas últimas décadas. Sinto uma natural desconfiança dessa inclinação, mas acho estimulante que algumas problematizações não fossem evitadas.
Amo a resposta que Augusto de Campos me deu quando lhe reportei a impressão que me causaram tais argumentos: "São muito inteligentes, mas quem levou a música para além do tom foram os músicos, os melhores entre eles -e eu confio mais em quem está com a mão na massa". Mas aconselho qualquer um a passar primeiro pela "ouverture" de "O Cru e o Cozido", relembrar a frase de Augusto e depois tentar pensar por conta própria.
Lévi-Strauss detestava a promiscuidade entre alta cultura e cultura popular que via sendo praticada por seus famosos contemporâneos mais jovens: "pop philosophie", pensadores citando Bob Dylan e escrevendo sobre cinema, linguistas estudando letras de rock -na entrevista com Didier Éribon, ele diz que jamais voltaria seu armamento teórico para nada abaixo de Baudelaire.
Eu o citei nominalmente numa letra de música (numa entrevista em que lhe perguntaram sobre a citação em "O Estrangeiro" -"O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela"-, ele disse, meio rindo, que tinha escrito essas palavras havia muito tempo); citei-o indiretamente em pelo menos duas outras: o "num claro instante" de "Um Índio" (diretamente do texto sobre a USP) e "amor-mentira" de "Tem que Ser Você" (aprendi com ele que os nhambiquara chamam os atos homossexuais praticados pelos jovens da tribo de "amor-mentira").
Ele possivelmente não gostaria de se ver citado por um músico pop. E brasileiro. Vai saber. Ele cultivava um certo amor pelo Brasil, a terra onde suas descobertas inaugurais surgiram, onde seu trabalho de etnógrafo fez possível suas investidas teóricas e mesmo filosóficas. Mas o título do seu primeiro livro não é tão carregado de ternura quanto de desprezo e desesperança (e aqui me lembro de uma quarta citação que fiz dele em canção: a observação, em "Fora da Ordem", de que "aqui tudo parece que é ainda construção mas já é ruína"): o Brasil é figura grande na geografia de "Tristes Trópicos", mas está incluído numa visão sombria que cobre toda a zona tropical ao redor do globo.
Eu o vi uma vez na BBC falando inglês excelente com perfeito sotaque francês e exibindo um caleidoscópio para ilustrar sua ideia de estrutura e do número finito de possibilidades de arranjo coletivo do homem. Ele tinha uma cara muito bacana de judeu bondoso mas irônico, uma maravilhosa cara de quem tem vocação para a longevidade (coisa de que ele antes se queixava com modesta ironia, mas que a mim me parece uma virtude). Em suma, eu gostava dele. Gostava de pensar que ele, tão distante e tão próximo, estaria ainda sempre por aí, como minha mãe e Niemeyer, o que me dá uma espécie muito tranquila de saudade.
Peço desculpa aos estudiosos sérios por tratar com tamanha familiaridade uma figura tão respeitável. Mas peço essas desculpas por causa do carinho que sinto e sempre senti por ele. Mesmo no seu grande esnobismo contra o esnobismo de massas.
Caetano Veloso é cantor e compositor baiano
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Carta de Protesto dos Kayapó contra Usina Belo Monte
Nós lideranças indigenas mebengokre(Kayapó),Xavante,Yudja,Kawaiwete,Kisedje,Kamayura,Kuikuro,Ikpeng,Panará,Nafuka,Tapayuna e demais lideranças habitantes da bacia do Rio Xingu e das regiões circunvizinhas, reunidos em uma assembleia na aldeia Piaraçu( TI Capoto Jarinã) desde o dia 28/10/2009, não aceitamos a construção de Belo Monte e de qualquer hidreletrica na bacia do Rio Xingu.
Repudiamos o parecer Tecnico da Fundação Nacional do Indio (FUNAI),MEMORANDO n° 709/GAB/CGPIMA/09,referente ao componente Indigena do Relatorio de Impacto Ambiental (RIMA) do empreendimento denominado aproveitamento hidreletrico Belo Monte (AHE Belo Monte).
Ao contrario do que consta neste parecer, no qual a Funai" considera que o empreendimento em quetão é viável", o relatorio do painel de especialistas que analisou o EIA- RIMA,deixa evidente a inviabilidade economica, ambiental e social deste empreendimento.No movimento que está sendo realizado na aldeia Piaraçu é contra não à construção da barragem Belo Monte.
Diante dessa reunião nós lideranças jovens não aceitamos que sejam construida a barragem no Rio Xingu,no Municipio de Altamira-PA.Estamos paralisando a atravessia da Balsa que atravessa o Rio Xingu,não sabemos até quando que vai voltar normalizar a atravessia,solicitamos aos autoridades que compreendem as nossas reivindicações e manisfestações que está acontecendo neste exato momento aqui na aldeia Piaraçu,nós lideranças juntos com os caciques ficamos muitos indignados com o pronunciamento do Ministro Edson Lobão,ele disse que "FORÇAS DEMONÍACAS QUE IMPEDEM A CONSTRUÇÃO,queremos que o Ministro chegar-se aqui falar isso para os caciques e lideranças assim pessoalmente,finalizando a esta carta espero que divulgue esta minha fala escrito.
Matudjo Metuktire
Chefe de Setor de Assuntos Indigenas
Prefeitura Municipal de São José do Xingu
Repudiamos o parecer Tecnico da Fundação Nacional do Indio (FUNAI),MEMORANDO n° 709/GAB/CGPIMA/09,referente ao componente Indigena do Relatorio de Impacto Ambiental (RIMA) do empreendimento denominado aproveitamento hidreletrico Belo Monte (AHE Belo Monte).
Ao contrario do que consta neste parecer, no qual a Funai" considera que o empreendimento em quetão é viável", o relatorio do painel de especialistas que analisou o EIA- RIMA,deixa evidente a inviabilidade economica, ambiental e social deste empreendimento.No movimento que está sendo realizado na aldeia Piaraçu é contra não à construção da barragem Belo Monte.
Diante dessa reunião nós lideranças jovens não aceitamos que sejam construida a barragem no Rio Xingu,no Municipio de Altamira-PA.Estamos paralisando a atravessia da Balsa que atravessa o Rio Xingu,não sabemos até quando que vai voltar normalizar a atravessia,solicitamos aos autoridades que compreendem as nossas reivindicações e manisfestações que está acontecendo neste exato momento aqui na aldeia Piaraçu,nós lideranças juntos com os caciques ficamos muitos indignados com o pronunciamento do Ministro Edson Lobão,ele disse que "FORÇAS DEMONÍACAS QUE IMPEDEM A CONSTRUÇÃO,queremos que o Ministro chegar-se aqui falar isso para os caciques e lideranças assim pessoalmente,finalizando a esta carta espero que divulgue esta minha fala escrito.
Matudjo Metuktire
Chefe de Setor de Assuntos Indigenas
Prefeitura Municipal de São José do Xingu
Greenpeace e Kayapó se unem contra Belo Monte
CONVITE
Se Lobão não vai ao Xingu, o Xingu vem até Lobão
Mais de 200 lideranças indígenas estão reunidas na Terra Indígena Capoto/Jarina, no entroncamento do rio Xingu e a MT 322 (antiga BR 80) desde a última quarta-feira (28/10) para protestar contra a implantação da usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. A manifestação foi convocada em repúdio às declarações do ministro Edson Lobão, que disse ter a sensação de que há "forças demoníacas que puxam o país para baixo, impedindo que haja avanços" ao referir-se ao projeto de Belo Monte. Representantes do governo – Ministério Público Federal (MPF), Ministério de Minas e Energia (MME), Ministério do Meio Ambiente (MMA), Ibama e Funai –, além da imprensa em geral, também foram convidados. A reunião segue até o dia 04/11.
O Greenpeace aceitou o convite e vai documentar a manifestação, colhendo depoimentos de lideranças indígenas e não-indígenas sobre os impactos socioambientais do projeto, com o objetivo de reforçar o trabalho das instituições envolvidas na defesa do Xingu. Para dar amplitude à voz que vem do Xingu junto ao governo federal, as imagens e depoimentos captados serão projetadas no prédio do Ministério das Minas e Energia, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, na próxima quarta-feira (04/11), a partir das 18h30.
O Greenpeace acredita que, além dos impactos socioambientais significativos do projeto, os mecanismos legais previstos no processo de licenciamento não vêm sendo respeitados. Assim como também não foi considerada a manifestação de vários especialistas de renome, que produziram parecer apontando as deficiências, riscos e danos do projeto. Acima de tudo, os povos indígenas do Xingu historicamente contrários ao projeto precisam der ouvidos e respeitados.
Por não estar envolvido diretamente na questão de Belo Monte, nosso apoio, nesse momento, espera servir como um megafone da voz do Xingu voltado diretamente ao governo federal. As demandas de mídia serão repassadas, prioritariamente, para os povos indígenas e as comunidades atingidas, além de outras organizações que integram o Movimento Xingu Vivo ou atuam no tema.
Sua participação é muito importante! Contamos com a sua presença.
Contato: Raquel Carvalho 92-81144516
domingo, 1 de novembro de 2009
CIMI faz balanço negativo da política indigenista dos últimos dois anos
Ao final da sua XVIIª Assembleia Geral, realizada em Luiziânia, GO, entre os dias 27 e 30 de outubro, o CIMI publicou um relatório final em que deixa evidente seu reconhecimento do resultado negativo da atuação da política indigenista brasileira nos últimos dois anos. A análise feita pelo CIMI em seu documento final se apresenta desesperançosa, por mais que exalte as virtudes da atividade missionária no meio dos povos indígenas. Considera que houve avanço na participação dos povos indígenas na política indigenista, sem indicar porquê, mas reconhece, ao final, que nenhuma terra foi demarcada nos últimos dois anos.
O CIMI demonstra desapontamento com o governo Lula e arrisca uma explicação sociológica um tanto estranha e desconcertada. Eis como apresenta sua análise:
As prioridades absolutas do Governo Federal são empreendimentos exploratórios dos recursos naturais existentes nas terras e nas águas. Para viabilizar tais projetos desenvolvimentistas o Estado disponibiliza suas estruturas administrativas, financeiras, jurídicas e políticas. As leis precisam corresponder a essas expectativas e, quando isso não acontece do ponto de vista dos setores da produção, novas leis serão criadas. O Governo entende que os demais entraves que comprometem os planos desenvolvimentistas – tais como os povos indígenas, os quilombolas e outras populações tradicionais, o Ministério Público, o meio ambiente e suas riquezas não monetárias – devem ser removidos.
É difícil entender o que se quer dizer com: "empreendimentos exploratórios", ou "o Estado se estrutura com departamentos e secretarias...". E, afinal, que parte do Estado impede a presença e o acesso de aliados dos povos indígenas às aldeias?
Seria a Funai, o MJ, o MMA? A Polícia Federal?
No fundo, o CIMI sabe que está tudo parado, que suas ações não trouxeram nenhum benefício para os povos indígenas nos últimos dois anos em que vem tendo uma participação direta e determinante em órgãos como a Comissão Nacional de Política Indigenista, na elaboração da proposta de um novo estatuto do índio, ou nos trabalhos de tentar demarcar terras indígenas no Mato Grosso do Sul.
Embora não analise diretamente a quem cabe a culpa pelo fracasso das demarcações, a não ser essa tal política do governo de "empreeendimentos exploratórios" de recursos naturais, com suas secretarias e departamentos, e com os entraves a serem superados por leis e persuasão, nem reconhece o seu papel nessa história recente, o CIMI chega ao ponto essencial do seu relatório ao confirmar a verdade objetiva da incapacidade da atual gestão da Funai em demarcar terras. A frase é devastadora:
Como consequência desse modelo de desenvolvimento, nenhuma terra indígena foi regularizada nos dois últimos anos.
Se tivesse feito um bom exame de consciência, o CIMI talvez chegasse a produzir um relatório final com mais força de verdade e persuasão. Ao invés, apenas esse balanço negativo e essa confusa sociologia como resultado final. Lamentável.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Que acordo! Fazendeiro do MS pede que índios saíam de sua fazenda
Muito apropriadamente comentou o Jorge das Neves, ex-administrador da AER Funai de Campo Grande, sobre a primeira tentativa de acordo mediada por um juiz federal de Campo Grande sobre o caso da ampliação da Terra Indígena Dois Irmãos do Buriti:
“Isso não é acordo. Você já viu uma conciliação onde você sai e eu fico?”
Pois foi assim que exigiu a proprietária para os índios saírem de sua fazenda Querência, onde estão acampados mais de 300 índios Terena há três semanas.
Esse fracasso já era esperado. Agora estamos a aguardar a chegada da desembargadora do TRF, 3ª Turma, vinda de São Paulo, para fazer nova mediação e buscar novo acordo.
Será que vai dar certo? Será que o Brasil está amadurecendo para os índios se reconciliarem com fazendeiros perante o Judiciário? Acho que não, mas vale a pena dar um crédito de confiança a esse processo.
E onde está a Funai nacional, com tanta responsabilidade que lhe cabe nessa questão? Por que o CIMI não ajuda, com todo seu poder de conciliação?
________________________________
Audiência entre Índios e fazendeira termina sem acordo
A audiência de conciliação entre os índios da etnia Terena e a proprietária da fazenda Querência São José, Lurdes Bacha, nesta tarde, na Justiça Federal, em Campo Grande, terminou sem acordo. Os índios dizem que vão permanecer na área invadida, em Sidrolândia (68 km de Campo Grande).
Na área que chegou a ficar ocupada por 400 índios, permanecem 10 famílias, todas oriundas da aldeia Buriti sede.
Segundo o chefe de Assistência ao Índio, Jorge das Neves, a proprietária da fazenda exigiu a retirada dos índios de toda a área, sem apresentar nenhuma proposta. Lurdes Bacha, de 77 anos, conta que a fazenda pertence à família dela há 60 anos e afirma que antes “a convivência com os índios era pacífica”.
“Isso não é acordo. Você já viu uma conciliação onde você sai e eu fico”, criticou o ex-administrador regional da Funai (Fundação Nacional do Índio).
O juiz federal Pedro Pereira dos Santos afirmou aos índios que eles deveriam respeitar as leis dos não-índios, “desocupar a área e resolver o problema com a Funai (Fundação Nacional do Índio)”. Em Sidrolândia, está em disputa uma área de 17 mil hectares.
“Isso não é acordo. Você já viu uma conciliação onde você sai e eu fico?”
Pois foi assim que exigiu a proprietária para os índios saírem de sua fazenda Querência, onde estão acampados mais de 300 índios Terena há três semanas.
Esse fracasso já era esperado. Agora estamos a aguardar a chegada da desembargadora do TRF, 3ª Turma, vinda de São Paulo, para fazer nova mediação e buscar novo acordo.
Será que vai dar certo? Será que o Brasil está amadurecendo para os índios se reconciliarem com fazendeiros perante o Judiciário? Acho que não, mas vale a pena dar um crédito de confiança a esse processo.
E onde está a Funai nacional, com tanta responsabilidade que lhe cabe nessa questão? Por que o CIMI não ajuda, com todo seu poder de conciliação?
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Audiência entre Índios e fazendeira termina sem acordo
A audiência de conciliação entre os índios da etnia Terena e a proprietária da fazenda Querência São José, Lurdes Bacha, nesta tarde, na Justiça Federal, em Campo Grande, terminou sem acordo. Os índios dizem que vão permanecer na área invadida, em Sidrolândia (68 km de Campo Grande).
Na área que chegou a ficar ocupada por 400 índios, permanecem 10 famílias, todas oriundas da aldeia Buriti sede.
Segundo o chefe de Assistência ao Índio, Jorge das Neves, a proprietária da fazenda exigiu a retirada dos índios de toda a área, sem apresentar nenhuma proposta. Lurdes Bacha, de 77 anos, conta que a fazenda pertence à família dela há 60 anos e afirma que antes “a convivência com os índios era pacífica”.
“Isso não é acordo. Você já viu uma conciliação onde você sai e eu fico”, criticou o ex-administrador regional da Funai (Fundação Nacional do Índio).
O juiz federal Pedro Pereira dos Santos afirmou aos índios que eles deveriam respeitar as leis dos não-índios, “desocupar a área e resolver o problema com a Funai (Fundação Nacional do Índio)”. Em Sidrolândia, está em disputa uma área de 17 mil hectares.
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