terça-feira, 10 de agosto de 2010

Índios do AIR ocupam sede da Funai

Como era de se esperar os índios que continuavam lutando pela revogação do Decreto 5.670, que instituiu uma verdadeira desestruturação da Funai, resolveram ocupar a própria sede da Funai. Mui sabiamente se instalaram nos corredores e nos alpendres da sede, onde parece que ficarão até serem atendidos em suas reivindicações. E são muitas.

Esses índios são de uma determinação sem par. Poucas vezes se viu isso no Brasil, comparável, ressalvadas as proporções, aos defensores de Canudos, em 1895. Não importa o quanto se fale mal deles, o quanto se os insulte com apelidos de toda sordidez. Eles não se importam, aguentam firmes, e continuam na sua luta.

Difícil entender onde está a força que os faz resistir. Uma vontade de reestruturar suas vidas, mais do que qualquer outra coisa. O Acampamento Indígena Revolucionário, situado em frente ao Ministério da Justiça, foi iniciado há sete meses, no momento em que a grande tomada da Funai, que ocorreu entre 10 e 21 de janeiro deste ano, em função da rebelião dos índios do Nordeste, do Sul e do Centro-Oeste, foi reprimida pelas forças conservadoras da Funai e do Ministério da Justiça.

No período da tomada da Funai, mais de 600 índios viveram um período quasi-revolucionário, dirigindo suas ações por uma assembleia geral, em que todos exerciam seu papel de líderes de suas aldeias. Como em tantas outras rebeliões indígenas (exemplo, a Cabanagem, a Revolta dos Caboclos de Alagoas) a tomada da Funai, como a tomada de Belém e de Alagoas, durou tão somente duas semanas. No caso da Funai, as lideranças foram ludibriados por evidentes promessas falsas e por interesses pessoais. Assim, os grupos mais numerosos de Potiguara e Pankararu se retiraram, como que em debandada, achando que a atual direção da Funai iria levar ao presidente Lula uma proposta de revogação e mudança do famigerado decreto. Qual o quê! Estava na cara que a atual direção da Funai estava enrolando a todos. Hoje eles estão em condições de atendimento muito piores do que estavam antes, e sem estarem conformados, estão inermes.

Porém, os mais renitentes, os mais duros de amolecer, ficaram e acamparam em frente ao MJ, como estão até hoje. Quantas vezes foram retirados pela Polícia Federal, pela Polícia Militar, por influência de algumas figuras do próprio Ministério Público, quantas vezes eles voltaram, permanecera e resistiram.

É certo que já houve muitas defecções. Muitos por arranjos pessoas, a maioria por precisarem voltar às suas aldeias, muitos por não terem mais esperanças.

Agora o que vemos é uma nova estratégia sendo bolada. Os líderes duros resolveram sitiar a Funai, com calma, sem declararem claramente que a estão sitiando, mas sitiando-a estão. Aguardam que outras lideranças, outros povos indígenas sigam-lhes o caminho e venham ajudá-los na luta.

Os detratores do AIR já preparam suas falas, suas aleivosias. Os conservadores ficam a olhar essa ação política, meio temerosos, meio espantados. Os reacionários estão se mordendo de ódio. O que têm esses índios que não desistem??? Já os indigenistas radicais estão a ver navios, sem terem forças mais para acompanhá-los, para auxiliá-los. Um ou outro continua firme.

Quem pensa que há pessoas por trás desse movimento está redondamente enganado. Ninguém comanda as lideranças e o movimento em si. Ninguém tem poder sobre eles, a não ser eles mesmos. Quem quiser ajudá-los, tem que se submeter os seus ditames. E muitos que vieram para ajudá-los desistiram porque foram contrariados pelas opiniões dominantes no AIR.

Eu sinto uma grande simpatia e respeito por eles. Nunca vi algo assim no Brasil. Eles têm meu apoio intelectual e político, não mais do que isso. Não adianta a atual direção da Funai tentar dizer à Casa Civil que o AIR está sendo dirigido por quem quer que seja, muito menos por mim. É a revolta dos índios que move esse movimento. É uma revolta que sente o que está acontecendo de ruim com a questão indígena e antecipa o que pior está por vir. É uma revolta profética, eis seu valor mais básico.

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Índios ocupam área externa da Funai

Mara Puljiz
Publicação: 10/08/2010 08:36
Cerca de 100 índios, inclusive crianças, que estavam acampados na Esplanada dos Ministérios desde janeiro deste ano decidiram na tarde de ontem ocupar a área externa do prédio da Fundação Nacional do Índio (Funai), localizado na 702/902 Sul, no Setor de Edifícios Públicos, ao lado do Parque da Cidade. Eles garantem que não vão deixar o local até serem recebidos pelo presidente do órgão, Márcio Meira. O motivo da ocupação, segundo o representante das tribos e membro da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Arão da Providência Araújo Filho foi o descumprimento de uma suposta promessa feita pelo ouvidor da Funai, Paulo Pancararu, de que eles participariam de uma reunião marcada para as 15h de ontem. Como não houve o encontro, os índios decidiram levar redes, roupas e alimentos para montar um acampamento na Funai, onde pretendem ficar por tempo indeterminado.

Os integrantes do Acampamento Indígena Revolucionário dizem que o protesto não tem data para acabar - (Zuleika de Souza/CB/D.A Press

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Os integrantes do Acampamento Indígena Revolucionário dizem que o protesto não tem data para acabar
De acordo com a assessoria de imprensa do órgão, a reunião foi agendada e realizada pela manhã, com 48 índios da etnia Guajajara. Já os manifestantes, alegam também ter marcado um encontro com o presidente da Funai e reivindica a nomeação de um novo presidente. Diante do impasse, o advogado Arão resolveu oficializar o pedido de reunião, mas ainda sem data marcada. A assessoria alertou que a Funai não reconhece o movimento de índios da Esplanada como sendo legítimo e que o encontro dependerá da disponibilidade de Márcio Meira, que tem viagem marcada para Manaus (AM) nesta sexta-feira.

Pauta extensa
As etnias Xavante, Tabajara, Muidururu, Guajajara, Xerente, Tupinambá e Terena fazem parte do Acampamento Indígena Revolucionário (AIR) e têm uma pauta com 15 solicitações. Uma delas é a revogação do Decreto Presidencial nº 7.056/09, que extingue 40 administrações regionais e 337 polos indígenas, além de substituir antigos servidores da Funai. Ao todo, 15 administrações serão fechadas ou reestruturadas em diversos estados do país. Os índios pedem ainda a renúncia de Márcio Meira do cargo do presidente da Funai.

A manifestação dos índios na Funai coincidiu com o Dia Internacional das Populações Indígenas, comemorada ontem. Para o cacique da aldeia Olho D’água, no Maranhão, Severino Guajajara, os índios estão sendo discriminados. “É uma falta de respeito o que está acontecendo conosco. Estamos lutando pelos nossos direitos e não estamos sendo ouvidos”, reclamou. Segundo ele, dois ônibus com cerca de 80 pessoas de diversas etnias estavam vindo para Brasília, mas acabaram barrados na estrada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). “Queremos voltar para nossas aldeias, mas só vamos sair quando o presidente da Funai assinar a exoneração dele”, garante Murilo Filho, membro da tribo Caraiú, oriunda do Rio de Janeiro,

Para saber mais
Celebração anual


O Dia Internacional das Populações Indígenas foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas por meio da Resolução nº 49/214, de 23 de Dezembro de 1994. A celebração anual reconhece realizações populares indígenas do mundo que atingem mais de 370 milhões de pessoas espalhadas por aproximadamente 70 países. É um marco no reconhecimento da luta indígena contra discriminação e na proteção dos direitos humanos.

10 comentários:

Edson disse...

Todo o apoio ao Acampamento Indígena Revolucionário!

Torço para que os indígenas do AIR sejam vitoriosos na sua luta.

Os 15 pontos conforme consta no blog do AIR são extremamente necessários. Porém, creio eu, o objetivo maior da luta dos indígenas deve estar concentrada na revogação do famigerado e nefeasto decreto 7056/2009, na exoneração do atual presidente da funai e de toda a sua cúpula e o pente fino para a saída dos vampiros e roedores de cadáveres do instituto sócio-ambiental, centro de trabalho indigenista e conselho indigenista missionário.

Parabés pela coragem e determinação AIR!

Edson

Mirina disse...

Novamente mais um dia revolucionário e intenso no Acampamento Indígena. O que os parentes estão aprendendo é se comportarem como sujeitos políticos e deciderem o seu destino pelas suas próprias mãos. Quanta felicidade e alegria em abraçar os irmãos e saberem que todos estamos na mesma luta! Vejam o video da ocupação no youtube: http://www.youtube.com/watch?v=i6cxanSzLBU

Anônimo disse...

Seria muito bom e mais que honesto, se o camarada que vem postando comentario com o pseudonimo de Edson, tivesse coragem e colocasse o seu nome real ou pelo menos seu sobreno,

Edson Beiriz

Anônimo disse...

edson, querido amigo.tem gente que não tem a coragem e a determinação que trazemos de berço.quem tem formação e base não esconde a cara.não se preocupe, esse pseudo Edson, nem de longe lembra ou se parece com você. a luta continua.vamos dar um passo de cada vez, só assim a caminhada se completa.sheila fernandes

Anônimo disse...

Ao senhor edson beiriz e a senhora sheila fernandes


Inicio afirmando que não sou nenhum "pseudo Edson", ao contrário dos seus comentários depreciativos e sem qualquer fundamento, não tenho o que esconder e pouco me importo com o que os senhores pensam.

Ao contrário dos senhores, fiz um comentário apoiando todas as iniciativas do Acampamento Indígena, não realizando qualquer tipo de ataque gratuito ou grosseiro.

Tenho acompanhado o blog do Antropólogo Mércio Pereira Gomes faz algum tempo e tenho me interessado pela temática indígena.

Não sou indígena, sou apenas um cidadão que agora começa a conhecer um pouco do tema em questão e não admito por parte dos senhores qualquer tipo de grosseria e falta de educação, pois não os conheço e não faço questão nenhuma de conhecê-los.

E mais uma vez aqui reafirmo e corroboro o meu primeiro comentário.

Ass: EDSON SOUZA

RAIDE XATANTE disse...

MUITAS PESSOAS NAO QUEREM ACREDITAR QUE ESSA REFORMA DA FUNAI É REALMENTE BOA, VEJAM COMO ESTA FUNCIONANDO A REGIONAL DE JUINA-MT, LA TA FUNCIONANDO A CR E AS CTLS E OS INDIOS CONTENTES.

RAIDE XATANTE

Anônimo disse...

Então por que os índios de lá não falam isso Raide?
A Funai não está funcionando em lugar nenhum.
Não executa despesa, não atende os índios, paga tdo aos amigos e faz tudo na ilegalidade.
A falta de diálogo, a arrogância, a truculência, o desrespeito as leis e a mentira nao têm defesa!
Saí dessa....
Ah quando tdo isso acabar!!!!

Ediar de Juina-MT.

Anônimo disse...

Engraçado né! Esse detentor de cargo comissionado que aparece do lado da policia federal para em nome da Funai endossar de forma arrogante a retirada dos índios de frente do Ministério da Justiça. Sera o mesmo que era chefe do patrimonio quando desapareceram misteriosamente do prédio sede mais de 50 computadores ou é o chefe da logistica que não sabe explicar como a aeronave da Funai caiu na Terra Indigena e encontra-se abandonada sem condições de remoção, danificada para sempre.
Será que foi instaurado algum processo administrativo para verificar o zelo para com o patrimônio?
Quem aparece é lembrado!
ass:

Adolf Kurt

Anônimo disse...

Mércio conversa com o pessoal do Casseta e Planeta ou do CQC, por que os comentários desse blog estão ficando trágicos e cômicos....pode ser uma solução, não achas? falando como a chefe de gabinete do céu quando estar a comer dois peixes fisgados de uma só vez?
ass: o presidente meia mole meia dura marca lupo.

Anônimo disse...

Sheila e grande Beiriz !
Aqui quem fala é o refén predileto da princesa indigenista!
Como vc ela é de grande valor para o indigenismo seja qual o for o tempo!
Discordo do desentendimento, acho que o outro Edson adoraria conhecê-los. Ele não sabe o que perde!

ass: Pajé Apinin!

 
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