quinta-feira, 26 de julho de 2012

Álvaro Tukano reflete sobre o momento atual da FUNAI

O índio Tukano, do alto Rio Negro, Álvaro Sampaio Tukano, é uma das personalidades mais marcantes do mundo indígena brasileiro. No ano passado ele publicou suas memórias das lutas políticas em que se engajou desde que saiu do internato dos padres salesianos, em São Gabriel da Cachoeira, e tomou o rumo do mundo político e cultural mais amplo. Esse livro deveria ser leitura básica para todos os indigenistas, especialmente os que estão começando a descobrir esse universo especial da nossa vida.

Pois bem, Álvaro me enviou um email ontem que resolvi publicar nesse Blog para que todos vejam como ele está refletindo sobre o momento atual da FUNAI, com suas mazelas herdadas da gestão anterior, com os jovens indigenistas tomando pé da situação, com a ameaça da traiçoeira armação para demitir Megaron Txukarramãe do serviço público, com a Portaria 303 e tantas outras ameaças que pairam sobre os índios.

Eis sua carta singela e firme.

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De: alvaro sampaio
Assunto: indios fortes.
Para: merciogomes@uol.com.br, "naiara sampaio"
Data: Quarta-feira, 25 de Julho de 2012, 22:54

Dr Mércio. Sentimos a sua falta na Funai. Depois que o Darcy Ribeiro foi para outro mundo, por aqui ficamos sob olhares de gigolôs de índios que invadiram a pobre Funai. No outro dia me encontrei com os certos companheiros de luta....Falamos bastante...O Márcio Meira, infelizmente, acabou com as conquistas nacional e internacional do movimento indígena brasileiro. É bom dizer que, de fato, lutamos contra a ditadura militar. Dentre tantos movimentos sociais, sim, o Mário Juruna foi o mais conhecido por ter o Gravador, que gravou as falsas promessas dos coronéis para atender às necessidades dos índios.

As tantas horas de gravação, tantas promessas, não eram palavras de homens sérios. Assim, o Juruna foi parar no Congresso Nacional, graças a compreensão do Darcy e Leonel Brizola. O Povo do Rio Janeiro votou no Mário para se o Deputado Federal. No primeiro ano, o Juruna foi o melhor Deputado Federal porque não mediu o sacrifício e disse a verdade. Não deixou o Paulo Maluf ser o Presidente da República. Juruna sempre esteve ao lado do Lula. Chorei muito quando o Juruna morreu. Chorei muito de alegria quando Lula ganhou as eleições, porque tenho feito a defesa ferrenha para levar as mensagens do partido nos lugares mais distantes, difíceis, sem dinheiro.

Jamais imaginei que o Lula fosse falador, esquecer as promessas para resolver definitivamente as questões indígenas. Para surpresa, os fatos estão ai. Foi nesse governo que os índios sofreram mais. O Presidente da Funai trouxe o Aloysio Guapindaia, especialista de empresas falidas para dar-lhes a vida ideal para o capitalismo. A chefe do Gabinete da Presidência da Fiunai e Elza que assumiu para tratar de culturas indígenas, na verdade, eram, anti-indígenas. Como? Tinha ódio de índios que subiam no elevador, dos índios que dormiam nos porões da Funai, na entrada e nos corredores. Os mais lascados foram os Xavantes...Sofreram muito..Muito mesmo, até agora. A pobre Funai foi assaltada pelas pessoas das Ong´s, especialistas de índios, os gigolôs. Inventaram a CNPÌ, negociaram os Cargos de Confiança, retaliaram a Funai. Mandaram embora os índios que defendiam os parentes. Colocaram os índios à gosto da Elza e Levinho;Museu de Índio - Rio de Janeiro.

Os índios foram vigiados, não podiam mais vir a Brasilia, porque o presidente da Funai era o inimigo número para combater a presença de índios Xavante em Brasília. De forma cínica, no final do ano, editou a reestruturação da pobre Funai. Depois, chegaram os índios. Passaram uns oitos meses. Enfim, vimos a Funai cheira da Força Nacional para proteger a pessoa física do presidente da Funai e sua equipe. Além disso, o Presidente da Funai deu mais aparato à segurança terceirizada que impedia a entrada de índios na Funai. Foram momentos delicados.

Pior ditadura que o Márcio Meira colocou em vigor. Hoje, a pobre Funai esta cheira de segurança, foi tomada por pessoas anti-indígenas, grosseiras, cínicas. A Funai se tornou  anti-indígena. Enquanto aumento o sofrimento dos índios, o Márcio Meira e outros ganham troféus e, ocupam espaços políticos diante de olhares de líderes que perderam os parentes  mortos por pistoleiros. Nunca pensei ver tantos massacres, os gigolôs de índios fazem, é tudo maravilha...O Megarom foi o último guerreiro. Sempre defendeu os direitos de nossos povos. Parabéns!

Porém, temos que entender que o movimento indígena está forte. Na Rio + 20, mais de 1.800 líderes reprovaram as ações do Márcio Meira. Portanto, foi o Cartão Internacional, Vermelho. Até agora, a pobre Funai serve mais os amigos do Márcio Meira. Para índios -ZERO.

No outro dia falei com Horácio Kayapó; Depois do Doc da AGU - 303, os índios estavam prontos para guerra conta AGU; Naturalmente, a Funai que estava conivente. Portanto, é a hora de dizer a Verdade. A Funai deveria ser dirigida por índios que defendem realmente os índios, de pessoas novas que estão de greve e, nunca por essas pessoas que dão o prazer a certas pessoas que enganam a Presidente Dilma que foi guerrilheira, presa, torturada e, hoje, querendo ouvir a Comissão da Verdade.

Queria receber  o espaço para dizer que nós, os povos indígenas, fomos traídos e enganados por um governo que construímos nos últimos. A pior dor é essa. Será que podemos fazer o remédio? Então amigos, deve existir em nosso meio, certos antrópologos e outros achando que o Megaron está sózinho.

Conheço o Megoron e outras lideranças sérias, portanto nós, lideres indígenas, estamos com Megaron. Nós, os líderes que conhecemos a história da Funai e apoiamos a greve dos funcionários e, busca de uma política palpável que atenda aos nossos irmãos.

Mercio, mando abraço para os nossos guerreiros e guerreiros índios, brancos e brancas, amarelos e amarelas e demais que precisam de vida digna de povos indígena, de florestas em pé. Temos que combater e denunciar a corrupção que acontecem na Funai e outros órgãos do Governo Federal.

5 comentários:

Adriano César Curado disse...

Parabéns pela sua postagem. Gosto muito de ler discussões aprofundadas sobre a luta dos nossos silvícolas pela sobrevivência.

Andre Madeiro disse...

muito boa suas reportagens sr. mércio. será que a FUNAI nao se interessa pelos profissionais da psicologia para atuarem na saude mental do povo indígena e seus servidores federais. que pena que no ultimo concurso para esta instituicao nao teve vaga para este profissional. sou psicólogo, filho de DINARTE NOBRE DE MADEIRO, ex-presidente da FUNAI. ANDRÉ MADEIRO

Anônimo disse...

Seria muito interessante, para FUNAI, contratar um jovem talento filho do grande ex- presidente da FUNAI. Dinarte Nobre Madeiro. o indios brasileiros agradeceriam esta contratação. Quem sabe se seu pedido não será aceito. Felicidades. Abraços Eraldo Leite CTL Recife

Anônimo disse...

Estou surpresa e bastante emocionada com a a análise de àlvaro, profunda contudente e realista. Concordo e penso da mesma forma. Contudo continuo achando que a culpa foi nossa (indios x servidores) nos deixamos abater no momento em que cada um brigou paralelamente e não conjuntamente e paulatinamente nos acomodamos e ficamos na expectativa de algo acontecer. E ficamos apáticos a medida em que o tempa passava e aceitando passivamente baixar a cabeça, esquecendo competência, experiência e vivência em prol dos índios e do bem público. Se uns lutava outros cruzavam os braços. Nem nesse momento difícil fomos capaz de nos unir em nome de nosso próprio benefício. E assima as dificuldades foram tomando corpo e as proporções agigantando-se, chegando ao ponto de não sabermos por onde recomeçar. A portaria da AGU foi um forte indício que o desmanche da FUNAI, ainda não chegou ao fim. ERGUER A CABEÇA E MOSTRAR AS ALTERNATIVAS DE SOLUÇÕES NUNCA É TARDE, SÓ NÃO PODEMOS ADIAR E CONTINUAR PASSIVO E NOS BASTIDORES. É HORA DE COMEÇAR A FILMAGEM, PORTANTO - AÇÃO.

Anônimo disse...

Resposta de Henrique Cavalleiro ao mentecapto e inexpressivo antropófago guga sampaio na rede anaindi:

"Confio no discernimento da presidência da FUNAI no sentido de processar certos antropólogos que foram pagos pela instituição para produzir relatórios de identificação de terras indígenas e nunca entregaram o documento... e que se consideram com autoridade para dar lições de moral. Se alguém fizer uma petição sobre isso, recomendo a assinatura."

 
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