sexta-feira, 27 de abril de 2012

Marta Azevedo se sai bem em seu "batismo de fogo"


Hoje foi o primeiro dia da nova presidente da Funai, Marta Azevedo. E ela começou seu dia recebendo um grupo de 30 líderes Xavante, entre os mais expressivos das terras indígenas Sangradouro, São Marcos, Parabubure e Marechal Rondon. São lideranças tradicionais e experimentadas, como Celestino, Aniceto e Pio, junto com novos líderes como Jeremias, Paulo César e Arnaldo. Os funcionários da Funai ficaram boquiabertos, esperando ansiosos pelo modo como a nova presidente se sairia.


E ela se saiu muito bem desse seu verdadeiro "batismo de fogo." Ouviu cada um dos Xavante, conversou com eles, argumentando e se comprometendo. Pediu tempo, mas não vacilou em compromissos. No essencial, Marta Azevedo deu confiança e teve respeito pelos Xavante, o que é algo que não se via na Funai há cinco anos. Só por isso já valeu pelo seu primeiro dia.

Aliás, o "batismo" de Marta já começara ontem, na sua posse, quando, para fazer uma média política, se declarou uma continuadora da gestão que estava substituindo. Inclusive chegou a elogiar a "re-estruturação" da Funai. Seu antecessor tentou convencer a plateia do seu papel na "salvação" da Funai, inclusive chegando ao ponto de dizer que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso havia sugerido ao presidente Lula para "acabar" com a Funai. Ora, isso não era conhecido de ninguém, mesmo porque Lula não era de ouvir FHC, ao contrário, como todo mundo sabe.

Na cerimônia de posse havia um evidente desconforto do ministro José Eduardo Cardozo com esse discurso sem sentido. Por onde é que a questão indígena havia chegado!!!

De todo modo, na reunião com os Xavante, a presidente Marta Azevedo fez questão de apresentar-lhes sua nova e principal assessora, a advogada Luzia, que já ficou como representante e intermediária de Marta na relação com os Xavante.

Os Xavante não têm papas na língua. Protestaram que seu discurso de continuidade à gestão anterior não podia ser aceito por eles, que muito vinham sofrendo com o fim dos postos indígenas e das administrações regionais, com o descaso da presidência anterior e com o domínio do CTI e seus representantes sobre assuntos xavante e sobre suas terras, passando por cima da tradição xavante de discutir todos os temas no warã, nas suas assembleias diárias.

Os Xavante ouviram de Marta que ela vai mudar o rumo que a Funai vem tomando. Vai mudar diretores e coordenadores, conforme os avaliar como negativos ou positivos para o projeto que ela quer imprimir no órgão. Nesse sentido, no entender dos Xavante, Marta já destituiu um desses coordenadores, no ato mesmo da conversa com eles, para ser substituído por sua assessora.

Os Xavante saíram bem impressionados, e voltam para suas terras para contar das novas. Que os demais índios saibam disso e procurem seus direitos e ajudem a mudar a Funai.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma mulher na FUNAI


Toma posse logo mais às 17 horas no Ministério da Justiça, a nova presidente da FUNAI, a antropóloga e demógrafa Marta Maria de Azevedo. Que novidade! Que ousadia da parte da presidente Dilma! Que coragem da Marta!

Nos últimos dias os corredores da FUNAI se avivaram com um movimento mais acelerado de pessoas se comunicando, acionando a Rádio-Cipó, saindo de suas tocas e asilos, algumas covas, quais zumbis de um clip de Michael Jackson; ouve-se um burburinho de alívio desde que seu nome saiu no DOU. Depois de quase quatro meses de paralisia e indefinição, a fumacinha branca subiu da Casa Civil. É quase isso, meus caros, tal o mistério em que a FUNAI está envolvida.

Marta está entrando na FUNAI – e deve ter consciência disso – como uma esperança de renovação. A Casa está arrebentada emocionalmente depois do desassossego de mudanças desastradas, de perseguições a funcionários, de um discurso perverso e enganador que a dominou durante os últimos cinco anos, da vergonha dos indigenistas velhos e novos que sentem a cada dia a perda de legitimidade do órgão diante dos próprios índios.

Durante dois anos a sede da FUNAI em Brasília ficou sob a guarda de policiais armados e seu dirigente máximo sob escolta, com medo, imaginem, dos índios! A quem a FUNAI deve servir por existir exclusivamente por causa deles! Nem mesmo durante a ditadura militar, o tempo de Bandeira de Mello, ou o tempo dos coronéis Nobre da Veiga e outros, tal situação chegou a ocorrer. Pois bem, isso ocorreu durante todo o ano de 2010, sob protesto permanente dos índios e dos funcionários da Casa, e o ano de 2011. O que fazia o Ministério Público, o que diziam as Ongs que o apoiavam, e as instituições de direitos humanos e da ciência antropológica?

Dá para esquecer? Não! Assim como não dará para esquecer, por real e desfuncionante, a nefasta re-estruturação do órgão, com o fim dos postos indígenas e de 13 administrações fundamentais, inclusive, Altamira, onde hoje se desenrola a tétrica situação de Belo Monte.

Marta vem com os olhos acesos e o coração aberto, com uma longa e amorosa experiência de vivência com os índios Guarani, tanto Kaiowá e Ñandeva, quanto Mbya, para quem ela voltará sua maior e prioritária atenção. Marta conhece índios do sul e do norte do Brasil, tendo pesquisado diretamente com os índios do Alto Rio Negro, e sendo uma especialista em demografia indígena.

Marta entra na FUNAI trazendo pouca gente. Não é de corriola. Certamente pedirá a colaboração de indigenistas tarimbados, de gente nova que aprendeu o ofício com dignidade. Marta é uma pesquisadora e etnógrafa escolada, tem relações com antropólogos de todos os matizes, tem trabalhado para ONGs, tais como o ISA e o CIMI. Sabe o quanto eles têm se dedicado a enfraquecer a FUNAI, e sabe o quanto é necessário fortalecê-la. Portanto, tem senso critico e auto-crítico. Sabe que a FUNAI é um órgão digno, com defeitos horrendos e qualidades excepcionais, herdeira do velho SPI, de Rondon, Orlando Villas-Boas, Chico Meirelles, Darcy Ribeiro, Eduardo Galvão, Carmen Junqueira e tantos outros brasileiros que se dedicaram à causa indígena. Herdeira também dos coroneis, dos burocratas, dos partidários, dos indiferentes, dos vendilhões.

Marta, porém, chega com obrigações de estado, algumas delas que a levarão a tomar decisões que causarão desavenças sérias com antropólogos, indigenistas e índios. Será sua obrigação licenciar uma série de empreendimentos na Amazônia e alhures, próximos de terras indígenas, com impactos direitos e indiretos. Cada vez mais próximos, em alguns casos, beirando terras indígenas. Estradas, hidrelétricas, hidrovias, fazendas de soja e gado, tudo acercando os índios. 

O que Marta não poderá fazer, jamais, é enganar os índios. Ou ela diz sim, ou diz não. Prometer a um Raoni que jamais dará licença a Belo Monte ou a um projeto qualquer, e, na calada da noite, fazê-lo -- é um acinte ao indigenismo brasileiro, um gesto de desonra para a FUNAI. 

Rapidamente, nos próximos dias, Marta terá que melhorar a situação indígena na região de Belo Monte. O descalabro que lá acontece é inaceitável. Terá que equacionar a situação dos Pataxó Hãhãhãe, convencendo o STF a decidir sobre a ação que está nas suas mãos desde 1982. Terá que fortalecer a luta dos Xavante de Maraiwatsede, cuja terra foi homologada há 20 anos, que entraram de volta em 2005, e que, agora, viram seus direitos serem cassados por um juiz regional. Terá que cuidar do Parque do Javary, assolado de hepatite. Ai, meu Deus, terá que fazer tanta coisa de urgência!

Nos próximos meses, Marta terá que convencer os Munduruku, Kayabi e Apiacás a aceitarem as 22 hidrelétricas que estão planejadas para serem construídas nos rios Juruena, Teles Pires e Tapajós. E se eles não quiserem? Que fará Marta? 

Para os Guarani, Marta terá que formular uma nova estratégia para obter, não 1 milhão de hectares, como um antropólogo cheio de vento declarou quatro anos atrás, mas ao menos uns 50, 70, quiçá 100 mil hectares para os diversos grupos Guarani que se acham hoje acampados pelas estradas do Mato Grosso do Sul. Se isso não é a solução final, é um começo digno de uma administração da FUNAI.

Luta ferrenha terá Marta Azevedo pela frente. Que tenha boa sorte e saiba aproveitar do potencial que existe para mudanças na FUNAI e entre os povos indígenas


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vergonha: Dia do Índio passa em brancas nuvens

Quase todo brasileiro sabe que hoje é Dia do Índio, muitos mais do que sabem que também é Dia do Exército. Sabem principalmente porque essa data é comemorada nas escolas, e nós todos, quando crianças, aprendemos algumas coisas sobre os índios, em geral boas, muitas vezes ingênuas, algumas ruins de doer, nessa data.

Porém, a presidente Dilma Rousseff, que sabe que hoje é Dia do Índio, vai à solenidade de comemoração do dia castrense e ninguém do seu governo está comemorando o Dia do Índio. Ou melhor, nenhuma autoridade, nem a Funai (que é uma agência oficial para o índio, e só existe por causa do índio), nem a Funasa ou SENAI, ou até Ministério da Cultura (que comemora tudo e qualquer coisa), ninguém que faça uma solenidade com acesso à mídia, ninguém que explique e reitere ao público porque é necessário comemorar esse dia.

Felizmente as escolas de primeiro e segundo grau ainda comemoram esse dia, aliás, muitas delas comemoram a semana inteira. Meus filhos fizeram suas pesquisas escolares, suas classes fizeram "brincadeiras de índios", se pintaram, levaram livros sobre índios, leram poemas e ouviram algumas palestras sobre os índios brasileiros. Aliás, as histórias infantis sobre índios estão melhorando bastante desde uns 10 anos para cá. Pelos menos já sabemos que eram 5 milhões os índios que viviam no Brasil (ver Os Índios e o Brasil), que falavam muitas línguas e que eram diferentes entre si. Em muitas cidades e escolas brasileiras variados grupos de índios se dispõem a apresentar aspectos de suas vidas, danças, pinturas, contação de histórias, enfim, confraternizar de alguma forma com o mundo infantil brasileiro. Alguns esnobes fazem boca torta para isso, sem reconhecer que é isso que mantém a memória positiva do brasileiro para com o índio e aproxima a todos em busca de um conhecimento melhor e de uma fraternidade possível.

Já no mundo adulto e até no mundo acadêmico antropológico, o Dia do Índio é desprezado, até se tornou anátema para alguns. Dizem os detratores que não se deve comemorar porque os índios foram massacrados e as comemorações são enganações. Eu me canso dessa falação tola. O que vejo hoje, como resultado dessa atitude, é que a população adulta brasileira não está nem aí para o índio. Estão fartos do que ouvem e vêm nos noticiários. Aliás, um dos principais motivos da indiferença do brasileiro para com a sorte dos povos indígenas vem de onde menos se esperava: da Imprensa nacional, que pouco liga, pouco procura entender e joga para alimenar no público leitor sua ignorância e seus preconceitos arraigados. Eu fico surpreso com o que vejo, mesmo porque o contraste é grande em relação ao que fazia a imprensa brasileira uns 10 anos atrás, e sobretudo nos anos 1970 e 1980.

Por seu lado, quem mais devia defender os índios das investidas de fazendeiros e madeireiros, e protegê-los das injunções do sistema judiciário injusto do Brasil, é quem mais indiferente está: o Estado brasileiro, incluindo aí o Legislativo e o Judiciário. O descaso das autoridades brasileiras nos últimos anos tem sido aterrador. A própria Funai tem contribuído enormemente para levar a situação indígena ao ponto que se encontra atualmente. A diminuição drástica de sua assistência direta aos índios que vivem nas suas aldeias e nos municípios ao redor delas, resultado de um desastroso processo de re-estruturação do órgão, tem causado angústia, carências imensas e desespero aos índios, que, às vezes, os levam a agir de um modo agressivo nas cidades que estão ao seu redor. Em tantos casos, aumentou o alcoolismo e o uso de drogas. E isso é péssimo para os índios e para sua imagem nacional. Em muitas cidades, os índios não são mais bem vindos, as portas do comércio se fecham, o ódio anti-indígena recrudesce.

A demarcação de terras indígenas se tornou um ritual bizantino. Mas parece que segue aquela famosa frase: "É para inglês ver", já que não é para ser levada adiante. Só que, no caso, o inglês são os índios, que são iludidos com a ideia de que a coisa é para valer. Assim, a Funai tem formado uma série de grupos de trabalho para fazer levantamentos e estudos de novas terras indígena, sabendo de antemão que serão barrados pelo Ministério da Justiça, que prepara uma nova normatização do processo de demarcação de terras para seguir as orientações do Acordão de Demarcação, de 19/04/2009, o qual determinou termos restritíssimos para que novas terras indígenas sejam reconhecidas pelo Estado brasileiro. No limbo em que se encontra, o Judiciário (diga-se, não só os tribunais federais regionais, mas o próprio STF) está abarrotado de processos, sem que os juízes ao menos se dignem tomar decisões, por medo de contrariar interesses, ou até por não saberem por onde anda a lei ou a regulamentação real sobre terras indígenas e sobre direitos de propriedade privada, sobre ocupação temporal e sobre usufruto exclusivo e inalienável.

Enquanto isso, os fazendeiros e seus políticos seguem inexoráveis e destemidos, prontos para fazerem novas demandas. Já se acham capazes de dizer o que é e o que não é terra indígena, e pretendem tirar do Executivo a prerrogativa constitucional de demarcar, trazendo-a para o Legislativo. Serão capazes disso? O Congresso se rebaixará a isso? A tradição rondoniana deixará que isso aconteça? Bem, o caso do Código Florestal vai nos dar uma pista sobre esse assunto. Se passar do jeito que está, e Dona Dilma sancioná-lo, então, camaradas, a demarcação estará de fato perdida.

O caso dos índios Pataxó Hãhãhãe me parece ser o mais evidente, o mais dramático, o mais emblemático, nesse momento, da fraqueza da Funai e da incerteza jurídica que atormenta o mundo indígena.  E está aí, à mostra, no Jornal Nacional, com detalhes de invasões de fazendas, fazendeiros lamentando perdas de gado (leiteiro! ainda por cima), mulheres pobres desterradas chorando, e os índios com catadura rude, meio que dançando ao redor das casas retomadas. Bizarra essa atitude da Rede Globo, e certamente com intenções menos informativas do que ideológicas

O fato é que os Pataxó Hãhãhãe (não confundir com os Pataxó que vivem na região de Porto Seguro), que vivem na região de Ilhéus, região rica do cacau, dos romances de Jorge Amado, estão tentando desesperadamente, como seu último e definitivo esforço, retomar as áreas de terras que fazem parte de sua terra indígena, chamada Caramuru-Paraguaçu. Esta área de terras foi originalmente reconhecida e delimitada pelo velho Serviço de Proteção aos Índios (SPI), em 1927, com mais de 200.000 hectares, porém foi demarcada com 54.000 hectares, em 1936, pelo governo bahiano, no tempo em que demarcar terras indígenas dependia dos governos estaduais, antes ou no momento do Decreto Executivo 736, de 1936, assinado por Getúlio Vargas, que federalizou a demarcação de terras indígenas. Um pouco de história faz bem para relembrar que foi o descortínio e o prestígio político de Rondon que conseguiu arrancar esse decreto, que deu novos horizontes para se demarcar terras indígenas, num tempo em que todas as forças sociais e econômicas eram absolutamente contra. Não estamos atualmente vivendo exatamente o contrário desse tempo? Isto é, a tentativa de estadualizar a questão indígena?

Pois bem, demarcada a terra indígena, no ano seguinte a Polícia Militar invadiu a TI Caramuru-Paraguaçu sob o pretexto de prender o chefe do posto, de quem se dizia que era "comunista", e os comunistas estavam sendo perseguidos depois da Intentona de 1935. A invasão foi realizada, muitos índios foram mortos, mas a maioria conseguiu fugir, inclusive o chefe de posto, e se dispersaram pelo Brasil, de Minas Gerais até o Paraná.

Porém, algumas famílias indígenas, especialmente do sub-grupo Kariri-Supayá, conseguiram ficar na terra, vivendo humildemente como peões e trabalhadores rurais. Viveram, sobreviveram e foram a base para o retorno dos demais Pataxó a partir da década de 1970. Enquanto isso, lotes e lotes de terras da TI foram sendo arrendados para fazendeiros de cacau e de gado, por funcionários do próprio SPI, como se não tivesse havido uma demarcação legal, com mapas, com aval de engenheiros e agrimensores. Na década de 1960 o governador Antonio Carlos Magalhães, de triste memória para os índios, cheio de si, começou a vender oficialmente as terras arrendadas e permitir a revenda dessas terras para fazendeiros cada vez mais poderosos.

Assim foi o que aconteceu. As terras Caramuru-Paraguaçu foram tomadas. Porém, nesse mesmo tempo, os Pataxó, aos poucos, mas também decididamente, começaram a retornar para sua terra indígena, para os mais jovens, a terra dos seus pais e avós. E começou a grande e épica luta dos Pataxó para refazer seu passado e retomar suas terras, luta que ainda hoje se desenrola, e que tem que chegar ao fim.

 O retorno dos Pataxó faz parte da histórica gloriosa da Funai, dos antropólogos e indigenistas que dela fizeram parte. Posso me lembrar dos nomes de alguns deles que se solidarizaram com os Pataxó e lá foram estar com eles para garantir seu direito de retornar e retomar suas terras, mas não é este o lugar para isso.

Em 1982, a Funai entrou com um processo no Supremo Tribunal Federal para considerar as terras vendidas como ilegais, e consequentemente para legitimar uma vez mais a demarcação de 1936.

Pois bem, o fato é que temos aí 30 anos de uma longa e sofrida espera. Já muitos Pataxó morreram e foram mortos por causa disso. Já muitos se desgastaram nas cidades e municípios onde vivem ou por onde passam para levar sua vida civil mais ampla. Enquanto isso, o STF dormita sobre esse processo, já tendo alguns ministros-relatores feito diversas perícias de agrônomos e advogados sobre esse processo, já tendo convocado dezenas de vezes grupos e mais grupos de Pataxó -- para ao final não resolverem a grande questão.

Da última vez, o ministro-relator Eros Grau declarou-se pela legitimidade da demarcação e consequentemente pela ilegitimidade dos títulos de propriedade dados pelo governo da Bahia. Aliás, o atual governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT (não do PFL ou da Arena, lembremos), deixou de ser omisso sobre esse assunto para abraçar vergonhosamente a causa dos fazendeiros e até propor que se encontrassem outras terras para os índios. Vergonha para ele!

Agora a bola está com a digna ministra Carmen Lúcia, que também já convocou índios e antropólogos e a Funai para dar suas visões, para iluminá-la sobre algo que já está tão cristalino. Parece que o novo problema é se o STF deve seguir ou não os termos do Acórdão de Demarcação, e a ministra Carmen parece indecisa sobre o assunto, embora ela tenha votado a favor da maioria dos itens desse acórdão. Quando então será decidido? O STF está para marcar uma nova data. Haja paciência. Para os Pataxó a decisão já foi tomada. Retomaram na marra, pela dureza de suas expressões faciais e por suas danças de guerra, aquilo que vêm esperando há tantos anos. Que se decida o Estado brasileiro, pensam os Pataxó.

De quem será a culpa por qualquer contratempo, por alguma morte, pelo desespero das partes????

Sei que a Funai está atenta, pois sempre esteve atenta pelos direitos dos Pataxó. É uma das poucas tradições suas que, independentemente do caráter da administração, ela sempre defende os direitos dos Pataxó. É preciso mais, nesse momento. É preciso que o governo Dilma tome posição, assim como o governo Lula, ao tempo que eu fui presidente do órgão, tomou posição sobre a TI Raposa Serra do Sol e a homologou, com o aval do STF. Não será pela simples decisão do STF que o caso Pataxó será resolvido. Será preciso a decisão da presidente Dilma, que deve ser convencida da dignidade de uma atitude sua favorável aos Pataxó, e que deverá encontrar meios, com o governo bahiano, para, isto sim, deslocar os atuais e pretensos donos de partes daquela terra indígena.

Sei que não está na cabeça da presidente Dilma cuidar da questão indígena. Pouco importa para ela se há um momento para se fazer e outro para se desfazer. Seu governo já perdeu muitas oportunidades para mudar algumas desgraças perpetradas pela administração atual, e parece que faz pouco caso de tudo. Porém, aí está a promessa de mudança dessa administração desvigorada e desalmada. Há dois meses foi anunciada o nome da antropóloga Marta Azevedo para dirigir o órgão indigenista. Nada. Nonada, até hoje, Dia do Índio.

Haja paciência e haja circunstância.

terça-feira, 27 de março de 2012

FUNAI na expectativa

Há dez dias a Presidente Dilma mandou anunciar que já tinha escolhido a nova presidente para a Funai, a antropóloga e demógrafa Marta Maria Azevedo. Nesse tempo nenhuma notícia a mais, porém a expectativa de mudança tem deixado a comunidade indígena e indigenista alvoroçada. Apesar da primeira reação da APIB contrária ao método como a Marta foi escolhida, sem consultar as lideranças indígenas, sem qualquer transparência na decisão, o que constitui um retrocesso político indizível, apesar de tudo isso, a expectativa é favorável.

Tudo indica que a indicação de Marta Azevedo não é de continuidade ao desastre administrativo e indigenista por que passou a Funai nos últimos cinco anos. Marta é conhecida no meio antropológico como uma pessoa que tem um senso de responsabilidade e de caráter que auguram um tempo diferente. Sua experiência mais rica e profunda tem sido com os índios Guarani do Mato Grosso do Sul, do Sul do Brasil e até do Paraguai. Ela conhece as mazelas da vida guarani nesses lugares, conhece as peripécias políticas da região e observou bem o desastre que foi a atual administração ao tentar demarcar terras indígenas doidivanamente.

Embora associada com as Ongs que mais tiveram controle sobre a Funai nos últimos cinco anos, quais sejam, o CTI e o ISA, Marta tem conexões intelectuais e morais com antropólogos e antropólogas que não compartilham da associação dessas Ongs com a Funai. Ela sabe que suas conexões têm um peso moral e um conhecimento da causa indígena que estão além das atividades dessas Ongs no mundo indígena. Marta sabe que a Funai é órgão do Estado, descendente do indigenismo rondoniano, e que tem que recuperar seu prestígio político-administrativo para cumprir minimamente com seus deveres de Estado.

Eis a esperança da chegada de Marta Azevedo à Funai.

Está na hora de sua posse. Está na hora de haver transparência na Funai, de haver clareza sobre o que se vai fazer, de se recuperar o trabalho digno de seus funcionários e servidores, de dar esperanças aos que entraram recentemente de terem um ofício digno para os índios e para a Nação brasileira.

quarta-feira, 14 de março de 2012

APIB levanta a cabeça e encara o Governo

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil -- APIB -- entidade que agrega as principais organizações indígenas pelo Brasil afora, lançou uma impressionante CARTA ABERTA à presidenta Dilma Rousseff, na qual exige respeito aos povos indígenas e que sejam ouvidos sobre assuntos que os afetem, e especificamente, na mudança da Funai, que está para ser realizada nos próximos dias.

A CARTA ABERTA mostra de cara que o governo tinha convocado lideranças indígenas para discutir a Convenção 169, da OIT, que trata especificamente do modo como os índios devem ser informados e consultados sobre temas e projetos que os atinjam, quando, no mesmo momento,  na surdina, estava tramando a mudança da FUNAI, junto com as ongs acólitas, sem os consultar!

A APIB passou os últimos anos contemporizando com o governo e com a atual direção da FUNAI em muitas das mazelas que foram criadas e que só pioraram a situação indígena no Brasil. Durante os seis meses de protestos que aconteceram em Brasília contra o Decreto 7056/09, que extinguiu postos indígenas e administrações regionais, apenas um dos seus membros, a ARPINSUL, havia lutado contra. Os demais haviam mansamente aceito o desastre administrativo resultante desse decreto. Contudo, o tempo mostrou que  o apodrecimento da direção da FUNAI havia chegado a tal ponto que chegara a hora de dizer um basta. Nem na ditadura militar se errou tanto e se manipulou tanto os direitos indígenas como agora, e por interesses escusos, travestidos em indigenistas.

A CARTA ABERTA é o documento mais contundente que a APIB já publicou. É um documento de peso histórico, pois põe o dedo na ferida, a falta de transparência e participação das decisões que afetam os povos indígenas, e corajoso, pois chama os bois pelos seus nomes. O governo Dilma, mais do que vacilante na questão indígena, não pode perder a oportunidade para se redimir desses anos de chumbo, de descaso e de enganações aos índios, e promover um re-união com o movimento indígena e com suas lideranças de raiz, a partir da nova consciência indígena que se levanta. Os índios, muitos deles, estão conscientes de seu papel histórico e estão prontos para o exercício de autonomia.

Na minha modesta opinião, os índios devem ser chamados pela presidenta Dilma, com lealdade socialista e amor republicano, para decidir o destino da FUNAI, sua nova direção e seus encaminhamentos futuros. Decidir e participar, seja como presidente, diretores, coordenadores, chefes, etc., junto com o que ainda sobrou do indigenismo rondoniano brasileiro.

O Brasil não pode ignorar aqueles povos que são a raiz de sua existência. O Brasil precisa de reconciliação com seus povos indígenas. É hora de ouvi-los e chamá-los ao trabalho conjunto.


_____________________


CARTA ABERTA À PRESIDENTA DILMA E  À SOCIEDADE BRASILEIR SOBRE INDICAÇÃO PARA A PRESIDÊNCIA DA FUNAI

Brasília, 09 de março de 2012.

À Excelentíssima
Senhora Dilma Russeff
Presidenta da República Federativa do Brasil
Palácio do Planalto
Praça dos Três Poderes – 3º Andar
70150-900 – Brasília/DF
Prezada Senhora:

Nós, Povos e Organizações Indígenas que compõem a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, abaixo assinados, participantes do Seminário  “Convenção 169 da OIT: experiências e perspectivas”, realizado na Escola de Administração Fazendária – ESAF, em Brasília-DF, nos dias 08 e 09 do presente, vimos por meio desta manifestar a nossa insatisfação com o processo de condução da política indigenista do País, especificamente a indicação de nomes para a presidência da FUNAI, órgão governamental que atua diretamente na convivência diária com os povos indígenas.

Nossa Indignação se dá, pelo fato de que, ao mesmo tempo em que estávamos reunidos para discutir a participação dos Povos Indígenas e suas Organizações no processo de regulamentação dos Mecanismos da Consulta Prévia, Livre e Informada, prevista na Convenção 169 d OIT, tivemos informações não oficiais de que já há uma pessoa indicada para ocupar o cargo de presidente da Funai, e que seria nomeada em breve. Trata-se da Senhora Marta Azevedo, ex esposa do Secretário Nacional de Articulação Social da Presidência da República, Sr. Paulo Maldos e consultora do Instituto Sócio-ambiental – ISA. Essa indicação explicita uma flagrante violação ao artigo 6º da Convenção 169 da OIT, que diz:

“Artigo 6 - 1. Ao aplicar as disposições da presente Convenção, os governos deverão:

a) consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados e, particularmente, através de suas instituições representativas, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente”.

A mudança na Presidência da FUNAI, é um ato administrativo que afeta diretamente os Povos Indígenas do Brasil. No momento em que se discute a implementação da convenção 169 no Brasil, cremos que é uma excelente oportunidade de exercitar o que temos feito através dos discursos. Neste sentido, os Povos Indígenas vêm convidar o Governo Brasileiro para um diálogo visando encontrar pontos convergentes na indicação, em condições de transparência, confiança, equidade e boa fé. Ao fazer essa indicação para o cargo de relevante importância para os Povos Indígenas, no momento em que inicia um processo de diálogo como os povos indígenas, o governo perde a oportunidade de demonstrar na prática, que seu discurso é coerente com sua atuação.

Cabe-nos relembrar parte do legado que Márcio Meira, amigo pessoal da indicada à presidência da FUNAI,  deixa para os Povos Indígenas, como resultado dos 05 (cinco) anos que esteve à frente do órgão indigenista. O indigenismo no Brasil raramente registrou tamanho  desmando e cooptação de lideranças indígenas, intrusão de pessoas ligadas à Ongs nos cargos de confiança e coordenações no órgão indigenista, sem citar a total desestruturação do órgão através do Decreto 7.056/2009, que deixou a FUNAI totalmente desmontada, sem nenhuma condição de planejar e executar a política indigenista no País junto as comunidades indígenas.

Esta prática de Márcio Meira e do governo nos demonstra a constante violação do direito à Consulta Prévia e dos direitos dos nossos Povos à sua autonomia, na medida em que exerce a tutela velada sobre todas as ações do Estado e das políticas ofertadas às comunidades indígenas do nosso País. Como exemplo claro temos as ações do PAC em nossos territórios, onde não se fez nenhuma consulta, salvo algumas reuniões informativas, aos Povos Indígenas afetados pelo mega empreendimento, que coloca em risco suas vidas e o meio ambiente e a vida das gerações futuras.

A atual gestão de Márcio Meira a frente da FUNAI é marcada pela terceirização da FUNAI, entregue a entidades não governamentais que se denominam socioambientais, que dominaram a instituição e fizeram deste espaço público a sua fonte de renda através de generosas consultorias resultantes dos empreendimentos implantados em nossos territórios. 

Não queremos e não vamos permitir este continuísmo de uma política indigenista, que subestima a nossa sabedoria e a capacidade de ler o quadro que se desenha para o futuro de nossos Povos e territórios, assim como não concordamos com a prática obscura do governo federal que não avalia as consequências de um ato como estes, que afetará ainda mais negativamente as práticas do órgão indigenista junto aos nossos mais de 240 Povos indígenas, mais de 600 territórios e aproximadamente 50 Povos não contatados, terceirizados para ONGs através de duvidosos convênios e termos de cooperação, que repassam milhões de reais do dinheiro público para supostamente proteger estes povos.

O governo federal deve e precisa reconhecer e ter nos povos e organizações indígenas aliados para a plena e efetiva promoção e garantia dos direitos indígenas do nosso País. Seremos implacáveis na constante luta pelo nosso direito a autonomia e a livre-determinação conforme assegurado na Constituição Federal e nos instrumentos internacionais de direitos humanos.

Atenciosamente.

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
C.c.
Ministro da Justiça - José Eduardo Cardoso
Ministro da Secretaria Geral da Presidência da República – Gilberto Carvalho
Ministério Publico Federal, 6ª Câmara – Dra. Deborah Duprat
Presidência da FUNAI – Márcio Meira

terça-feira, 6 de março de 2012

Indefinição na Funai piora situação indígena


Há três meses foi anunciado que a atual direção da Funai ia sair, por razões não declaradas. Supõe-se que por desgaste pessoal dos dirigentes, por pressão de políticos insatisfeitos, de todos os partidos e matizes, e pela irrevogável incompatibilidade desses dirigentes com os índios, mesmo com aqueles que fazem parte de sua coluna de apoio, os índios dependentes das ongs estrangeiras e nacionais, e os que foram cooptados e que conseguiram arrefecer a insatisfação dentro de suas sociedades. A própria Comissão Nacional de Política Indigenista (CNPI), formada em paridade por sete representantes indígenas e sete governamentais, além de dois representantes de ongs, retirara seu apoio à direção da Funai porque o atual presidente teria faltado a uma importante reunião convocada pelo próprio, em julho passado. A CNPI, insuflada pelos ilusionistas representantes das ongs, bateu o pé e disse que só retomaria o diálogo com a Funai se a presidente Dilma os recebesse em audiência. Ora, esticaram a corda demais e a presidente nem deu bola. Agora o único sustento político da atual direção da Funai vem das próprias ongs que o vêm apoiando desde sempre e que evidentemente ganharam bons "dividendos indigenistas" nesses últimos cinco anos.

O desgaste da direção está à vista de todos, mas o pior ficou com a Funai. O órgão indigenista se deteriorou profundamente em suas simples ações assistenciais, que têm sido essenciais para os povos indígenas em constante luta pela sobrevivência diante do mundo que os comprime cada vez mais. Sua deterioração se dá também na sua obrigação constitucional de defender a causa indígena e ao menos de reagir às ameaças que vêm ocorrendo sobre as terras indígenas e os direitos indígenas. Não adianta espernear e fazer firulas de contrariedade. A questão é ter força política e moral para se contrapor aos atos anti-indígenas e às ameaças aos direitos indígenas que crescem a cada dia no país. Ameaças do porte de invasões de terra e mudanças na Constituição para retirar as prerrogativas de identificar e demarcar terras indígenas.

O caso dos Pataxó Hãhãhãe, do sul da Bahia, é emblemático. Há 10 dias um grupo organizado de mais de 300 homens Pataxó tomaram uma grande quantidade de fazendas, disseram que mais de 60, situadas dentro dos limites de suas terras, as quais foram demarcadas em 1936, mas que não foram homologadas pelas invasões ocorridas na década de 1960, e pelo descaso com que o STF vem tratando a questão, já há 30 anos sobre as mesas de vários ministros. Pois bem, os índios estão nessas fazendas, a ameaça de conflito com fazendeiros e seus capangas é real, o governador do Estado da Bahia, Jacques Wagner, do PT, quer retirar os índios e transferi-los para não sabemos onde, e o STF procrastina na sua decisão. Uma comissão de índios vem sendo levado para cima e para baixo em Brasília sem que o governo tome providências. Empurra com a barriga, mais uma vez. E a Funai nem parece estar sendo consultada.

Basta vermos que, nos últimos três anos, nenhuma terra indígena nova foi efetivamente demarcada, e todas os grupos de trabalho criados para identificar terras indígenas resultaram em pouco mais do que propostas vãs. Criar grupos de trabalho virou a auto-ilusão da atual direção da Funai. Dizem que mais de 100 já foram criados, mas resultado que é bom, nada. Só para comparar: no primeiro governo Lula, (no qual tive a honra de presidir o órgão) foram demarcadas 51 e homologadas 67 terras indígenas; neste segundo governo e no primeiro ano do governo Dilma, apenas cinco terras foram demarcadas e 21 homologadas. O pior é que as terras já identificadas em outras administrações passadas estão paralisadas, sofreram retrocesso ou estão com seus processos em grave crise judicial. A estratégia e as táticas de demarcação da direção atual do órgão, junto com a leviandade de seus apoiadores é que levaram a essa situação paralisante e calamitosa.

O fim das demarcações, tal como foram feitas até agora, pelo método rondoniano, parece estar à vista de todos, engane-se do contrário quem quiser. O altíssimo custo desse legado vai pesar sobre aquelas populações indígenas que tiveram a visão de que poderiam retomar terras perdidas por invasão ou por terem sido deslocados; suas visões e aspirações viraram ilusões e decepções.

O caso Guarani do Mato Grosso do Sul é o mais evidente pela tragédia que afeta os índios e pela tragicomédia que vem sendo criada pelas ongs e pela ala católica. Em 2008 a Funai foi instada por pressão do Ministério Público a criar cinco GTs para reconhecer terras guarani em vinte e tantos municípios daquele estado. O coordenador desses grupos de trabalho, um antropólogo que há 40 anos vive exclusivamente de fazer consultoria e projetos para os Guarani, desceu esbaforido em Campo Grande para anunciar que a Funai e seus GTs iriam demarcar cerca de 800.000 a 1.000.000 de hectares no cone sul daquele estado. E pronto! A reação veio borbulhante e impiedosa, da parte dos fazendeiros, dos políticos locais e nacionais e do seu representante-mor, o governador do estado. Nenhuma terra foi estudada e nenhuma veio a ser minimamente identificada para se levar um processo de demarcação adiante. Pior: mesmo aquelas terras já em processo de demarcação sofreram retrocesso jurídico e político e voltaram à estaca zero. No Mato Grosso do Sul, os Terena, cujas áreas de terras são igualmente mínimas, sofrem iguais prejuízos provocados por bazófias e ilusões criadas por ongueiros.
Prevalece na Funai e no indigenismo oficial e ongueiro um clima de guerra perdida e terra arrasada. Não há mais resistência aos desmandos perpetrados, e a desorientação é geral. Os índios não sabem a quem pedir ajuda e assistência, e nem sabem mais como protestar. E se protestar, mesmo com astúcia, são repelidos, enrolados e depois relegados ao esquecimento. São chamados para conversar em Brasília e lá nada acontece. Suas vidas agora dependem de gente de toda estirpe, de ongueiros a fazendeiros, de vereadores e prefeitos locais a agências internacionais. Apelam agora até para deputados e senadores de direita, que os escutam com ar de surpresa, fingindo que os irão ajudar.

A Associação Brasileira de Antropologia permanece abúlica, em santa calmaria, a esperar algum acontecimento novo. Não quer se dar conta de que a política indigenista brasileira, que demarcou 13% do território nacional para os povos indígenas, está sendo mal dirigida exatamente por aqueles que sempre foram contra o indigenismo rondoniano. Protesta contra fazendeiros e madeireiros, contra hidrelétricas e estradas, até contra o governo federal, democrático e de esquerda, em vão, sabe muito bem, mas deixa que a Funai seja destroçada e aniquilada por políticos e fazendeiros, e por burocratas, alguns antropólogos jejunos e irresponsáveis e incautos aprendizes de indigenismo que dela se apossaram.

Não sei se o governo Dilma Rousseff tem alguma lucidez a respeito do que está acontecendo. Talvez esteja apostando no caos para a questão indígena. Mas a presidenta tem que saber que o caos para os índios é momento de aproveitamento e oportunismo para seus inimigos. Terras, saúde, educação, futuro, tudo está em jogo para os índios. Seria uma vergonha nacional inominável se o caos se instalar. Por enquanto as instituições funcionam mal e mal. Os índios pagam por isso. Mas o preço pode vir a ser muito mais caro no futuro próximo.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Kayapó soltam refém e vão a Brasília


Este é um vídeo muito estranho e muito dramático. Nele encontra-se amarrado e lambuzado de jenipapo um servidor da Funai, que pede clemência aos índios e à presidente da República por sua vida. Não há sinais de grandes maus tratos, mas estar amarrado pelos pulsos e semi-desnudo já demonstra sofrimento e humilhação. O servidor chama-se Manuel Lopes, é da nova safra de servidores concursados da Funai, sem experiência. Fora enviado pela Administração da Funai em Colíder, MT, para conversar com o grupo de 100 Kayapó e Juruna que havia tomado uma pousada localizada na beira do rio Xingu, numa área que os índios consideram terra indígena tradicional e exigem que a Funai dê continuidade ao processo de demarcação. Inocente como um boi de piranha, Lopes foi retido e feito refém. Eis sua história, por ele bem contada.
Manuel foi solto hoje à tarde, muito bem. Melhor para ele e para todos que nada de mal tenha lhe acontecido. Com isso os Kayapó obtiveram o compromisso da Polícia Federal de que serão recebidos em comissão em Brasília para tratar dos três assuntos que estão denunciando: 1. a invasão de pousadas que estragam o meio ambiente do rio Xingu; 2. a falta de continuidade no processo de demarcação da Terra Indígena Kapot Ninhoro; 3. o desleixo com que vêm sendo tratado pela Funai e especialmente pelo atual presidente do órgão.
Quem fez toda a negociação foi a Polícia Federal. A Funai em Brasília perdeu as condições morais e funcionais para negociar com os índios. Já tinha sido assim no caso do sequestro de funcionários da EPE e da Funai por parte dos índios Kayabi, Munduruku e Apiaká, em setembro passado.
A Funai em Colíder, que assiste a diversos grupos Kayapó, Juruna, Kayabi, Apiaká, Terena e Panará, está sendo dirigida por um servidor fiel ao órgão, porém de pouco lastro para enfrentar desafios. Antes a Administração era comandada por Megaron Txukarramãe, que é um dos mais hábeis líderes indígenas já surgidos no Brasil nos últimos 30 anos. Foi demitido por se posicionar contra a usina Belo Monte, num dos escândalos de perseguição política que assola a Funai dos últimos anos.
Em Brasília os Kayapó já estiveram em novembro do ano passado e haviam obtido do secretário geral da Presidência a garantia de que Megaron seria reposto na direção de Colíder e que a direção geral da Funai seria mudada. Debalde.
Agora os Kayapó estarão voltando para pedir a mesma coisa.
Será que conseguirão algo? Será que a presidenta Dilma não vai pôr a mão na consciência e virar o jogo? Será que seus melhores assessores não se dão conta de que a situação indígena tem que mudar, e que não pode ser tratada como vendo sendo nos últimos 5 anos? Será que não vê alternativa ao descalabro que assola a Funai, a desmoralização do órgão, o desrespeito com que os índios são tratados, e, finalmente, como está sendo degradada a questão indígena brasileira???

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Intelectuais indígenas se manifestam por novo relacionamento com o Estado Brasileiro


Já se foi o ano 2011, o ano que culminou o retrocesso da política indigenista brasileira.

O ANO 2012 começa com força. Será um ano crucial para os povos indígenas, ameaçados por decisões espúrias, por joguinhos de poder, por manipulações, pelo descaso que tomou conta do governo e da Funai para com as sociedades indígenas, suas terras e seu destino na Terra.

O ANO 2011 começa com um Manifesto Indígena para a Recomposição das Relações entre Índios e o Estado brasileiro.

É o que eu estou chamando. 

Porém os assinantes desse Manifesto chamam-no simplementes de PROPOSTA de TRABALHO para a PRÓXIMA DIREÇÃO da FUNAI.

Que seja.

Mas leiam com atenção especial o que diz essa PROPOSTA-Manifesto, escrito por alguns dos mais conceituados intelectuais e profissionais indígenas, todos com extensa experiência na militância indígena. 

A PROPOSTA está circulando na internet e pelas comunidades indígenas Brasil a fora. Tem jeito de que vai ganhar adeptos entre indigenistas, antropólogos e simpatizantes da causa indígena. Tem jeito de que vai levantar os índios!

A PROPOSTA quer que o Governo Dilma Rousseff, e mais ainda, o Estado brasileiro, mude sua relação com os povos indígenas. Quer que os índios participem do progresso brasileiro, defendendo suas terras, suas riquezas naturais, suas culturas, mas que não fiquem a reboque de decisões sem consultas às comunidades indígenas.

Mas não é só consultas que querem. Querem participar de decisões sobre o desenvolvimento em áreas que afetem suas vidas, na Amazônia e por todo o Brasil.

Querem participar inclusive com seu capital histórico de primeiros habitantes do país, de seus nativos e autóctones, como seus donos prístinos.

Querem e vão obter. A História os redimirá, tenho certeza disso.

Por que o Governo Dilma não convoca os índios para conversar numa mesa de negociações?



___________

PROPOSTA DE TRABALHO  PARA A PRÓXIMA DIREÇÃO DA FUNAI:

A presente proposta foi elaborada pelos técnicos indígenas listados a seguir e apoiada por muitas lideranças indígenas de raiz e Organizações indígenas tradicionais:

-Escrawen Sompré – Povo Indígena Xerente/TO, Engenheiro Florestal, especialista em Gestão Ambiental e Ordenamento territorial;
-Wilson Mattos da Silva – Povo Indígena Kaiwoá/Terena/MS, Advogado Criminalista, especialista em Direito Constitucional
-Azelene Kaingáng – Povo Indígena Kaingáng/SC, Socióloga, Mestranda em Políticas Sociais;
-Ubiratan de Souza Maia – Povo Indígena Wapichana/RR, Advogado;

-Jeremias Xavante – Parlamentar Indígena Xavante/MT;


A Fundação Nacional do Índio, após sua reestruturação através da edição do Decreto 7.056 de 29 de dezembro de 2009, passou por profundas mudanças institucionais e conceituais que desencadearam a necessidade de redefinir a relação do Estado Brasileiro com os Povos Indígenas. Foram mudanças surpreendentemente negativas e que vigoram até hoje. Em primeiro lugar, o Decreto foi imposto de cima para baixo, sem nenhuma consulta aos índios, algo que chocou a todos. O Decreto extinguiu todos os postos indígenas e diversas unidades administrativas estratégicas para os povos indígenas, tais como, Altamira, onde se constrói a UHE Belo Monte, Oiapoque, na fronteira com a Guiana, Porto Velho, onde se constroem as Usinas Santo Antonio e Jirau, Recife, Curitiba, São Luís, Goiânia e dez outras mais. O Decreto, enfim, paralisou a FUNAI, o atendimento aos povos indígenas e fragilizou a segurança das terras indígenas. Não é surpresa que tantas delas estejam invadidas por fazendeiros e posseiros de toda sorte, além de madeireiros e outros aproveitadores.
Tal quadro revela a urgente obrigação dos Povos Indígenas do Brasil e do Estado brasileiro em procurar conciliar seus interesses, a fim de que se possa definitivamente efetivar o desenvolvimento sem conflitos, onde índios, Estado e empreendedores possam estabelecer um diálogo negociador, em observação ao disposto no artigo 6º da Convenção 169/OIT, que não é nada mais do que ambos entrarem em acordo.
Que fique bem claro: os índios não estão contra o progresso brasileiro. O que tem ocorrido atualmente é que algumas organizações indigenistas e ambientalistas têm se aproveitado do fato de que o Estado não estabeleceu este diálogo com os Povos Indígenas para afirmarem, em nome dos índios, que estes são contrários ao estabelecimento de obras importantes do PAC em territórios indígenas, quando na verdade os Povos Indígenas querem apenas ser parte no processo de desenvolvimento e não ficarem a margem como sempre estiveram.
Neste sentido, as compensações e indenizações oriundas dos empreendimentos em territórios indígenas podem e devem ser aplicadas em programas e projetos que ajudem os Povos Indígenas a saírem da subsistência e sobrevivência e passarem para a conquista definitiva de sua autonomia com qualidade de vida. Não existe outra alternativa: ou se investe no desenvolvimento econômico dos territórios, com o aproveitamento de seus recursos naturais, criando cooperativas agrícolas e minerárias indígenas e de outras categorias, de acordo com as especificidades e grau de contato de cada Povo Indígena, e com o consentimento prévio dos mesmos, ou a miséria e a pobreza extrema que afetam a maioria dos Povos Indígenas deverão se aprofundar cada vez mais nas próximas décadas.
Assim sendo, técnicos Indígenas e líderes de raiz dos Povos Indígenas Kayapó, Xavante, Gavião, Kaingáng, Wapichana, Pareci e Xucuru, preocupados com a atual situação da FUNAI, que já não dá conta de fazer a interlocução dos Povos Indígenas com o governo, propõe nesse momento políticas sociais, medidas e parcerias inclusive com estados e municípios, no sentido de construir a seguinte agenda de trabalho:

1-    Que as demarcações em curso se finalizem, e pelos próximos cinco anos se avalie e se proponha, com a participação plena dos Povos Indígenas, uma nova política de regularização e garantias territoriais;
2-    Que o orçamento do Governo federal para as comunidades indígenas seja reforçado a fim de garantir a estruturação dos territórios e a organização das comunidades em cooperativas indígenas para impulsarem o desenvolvimento econômico dos Povos Indígenas;
3-    Que sejam reativadas as Unidades da FUNAI em Recife, Curitiba, Altamira e outras que são estratégicas para que o governo esteja mais próximo às comunidades indígenas com unidades gestoras;
4-    Reformular e propor programas de acesso e permanência de estudantes indígenas em Universidades;
5-    Que se regulamente o artigo 6º da Convenção 169 da OIT;
6-    Que se convoque a 2ª Conferência Nacional de Política Indigenista.

Esperamos o apoio de autoridades, amigos e simpatizantes da causa indígena que nos ajudem sensibilizar o governo da Presidenta Dilma Rousseff. Precisamos levar nossa causa aos Ministérios da Justiça e da Casa Civil a fim de que, como técnicos e líderes indígenas de raiz, possamos levar esta proposta ao governo federal.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Julgamento de ação da FUNAI em favor da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu será retomada dia 28 de setembro

O STF decidiu recolocar em julgamento a Ação Cível Originária proposta pela FUNAI em 1982 visando anular os títulos de propriedade de terra obtidos por dezenas de grileiros, que viraram fazendeiros de cacau e gado, os quais foram concedidos pelo governo da Bahia, nos idos de 1970, precisamente nas terras que haviam sido demarcadas em 1936 pelo Serviço de Proteção aos índios.

Por causa desses títulos viciados é que os Pataxó Hãhãhãe têm sofrido e suportado imensos prejuízos, com mortes, conflitos internos, desestruturação social e tantas outras mazelas. A história dos Pataxó é das mais dramáticas de todos os povos indígenas. O bonito e glorioso é que eles, depois de terem sido atacados pela Política da Bahia e expulsos de suas terras, em 1938, voltaram a habitá-las, retomaram-nas, a partir de finais da década de 1970, e vem desde lutando pela sua total recuperação.

Essa Ação Cível foi interposta pelos procuradores da Funai a pedido dos Pataxó, em 1982, e desde então vem sendo protelada sua decisão pelo STF.

É chegada a grande hora dos Pataxó!

É importante que todos nós torçamos para que os ministros do STF sigam o parecer do ex-ministro Eros Grau, que reconheceu a legitimidade da ação da Funai e assinala pela nulificação dos tais títulos de propriedade.

O CIMI, cujos advogados têm acompanhado esse procedimento desde então, alerta-nos, na postagem abaixo para que as pessoas enviem emails ou cartas aos ministros do STF urgindo-os a seguir o voto do ex-ministro relator Eros Grau.

___________________________________________

O Supremo Tribunal Federal marcou para a próxima quarta-feira, dia 28 de setembro, a continuidade do julgamento da Ação Cível Originária da Reserva Indígena Caramuru – Catarina Paraguassu, no Sul da Bahia, terras tradicionais dos Pataxó Hã-Hã-Hãe.

Imprescindível intensificar todo tipo de manifestação popular/entidades/articulações em favor dos índios Pataxó Hã-Hã-Hãe nos próximos dias, pra dar visibilidade nas mídias, obter manifestações junto aos ministros do STF por fax, emails e telefones que seguem abaixo.

Sugestão de mensagem aos Ministros do STF:

Excelentíssima Senhora Ministra,
Excelentíssimo Senhor Ministro,

O drama do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe ganhou repercussão nacional e internacional quando, na madrugada do dia 20 de abril de 1997, o índio Galdino Jesus dos Santos, que dormia num ponto de ônibus no centro de Brasília, teve seu corpo incendiado por cinco jovens da classe-média brasiliense. Galdino buscava em Brasília apoio para as reivindicações de recuperação do seu território tradicional, a Terra Indígena Caramuru – Catarina Paraguassú, no sul da Bahia. Galdino é um dos trinta Pataxó Hã-Hã-Hãe assassinados na luta pela retomada de suas terras.
No próximo dia 28 está marcada a continuidade do julgamento da ACO 312, ação na qual a Funai pede a nulidade dos títulos de propriedade de não-índios sobrepostos à Reserva Indígena, demarcada em 1938. Amaioria desses títulos foi concedida pelo estado da Bahia durante a gestão de Antonio Carlos Magalhães, nos anos 70.
Por uma questão de Justiça solicito vossa especial atenção para a efetivação dos direitos do povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, garantindo a integridade de suas terras tradicionais e pondo termo ao lamentável histórico de violências e massacres que este povo vem sofrendo desde os primeiros contatos com a sociedade não-indígena.
Respeitosamente,

(nome, RG ou CPF, endereço)

Enviar mensagens para:

Ministro Presidente
Cezar Peluso
Telefone: 55+ (61) 3217-4191     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4200     
Fax: 55+ (61) 3217-4219     
Email:  mluciam@stf.jus.br
Ministro Vice-Presidente
Ayres Britto
Telefone: 55+ (61) 3217-4311     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4312  [4314]
Fax: 55+ (61) 3217-4339     
Email:  beatriz@stf.jus.br
Ministra
Cármen Lúcia Antunes Rocha
Chefe de Gabinete: Eduardo Silva Toledo
Telefone: 55+ (61) 3217-4348     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4360     
Fax: 55+ (61) 3217-4369     
Email:  emilias@stf.jus.br
Ministro
Celso de Mello
Telefone: 55+  (61) 3217-4077     
Fax: 55+ (61) 3217-4099     
Email:  gabcob@stf.jus.br
Ministro
Marco Aurélio
Telefone: 55+ (61) 3217-4281     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4282     
Fax: 55+ (61) 3217-4309     
Email:  marcoaurelio@stf.jus.br
Ministro
Gilmar Mendes
Telefone: 55+ (61) 3217-4175     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4161     
Fax: 55+ (61) 3217-4189     
Email: audienciasgilmarmendes@stf.jus.br
Ministro
Joaquim Barbosa
Telefone: 55+  (61) 3217-4131     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4133     
Fax: 55+ (61) 3217-4159     
Email:  gabminjoaquim@stf.jus.br
Ministro
Ricardo Lewandowski
Telefone: 55+ (61) 3217-4259     
Fax: 55+ (61) 3217-4279     
Email:  gabinete-lewandowski@stf.jus.br
Ministro Dias Toffoli
Telefone: 55+ (61) 3217-4102     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4104       [4708]
Fax: 55+ (61) 3217-4711     
Email:  gabmtoffoli@stf.jus.br
Ministro
Luiz Fux
Telefone: 55+ (61) 3217-4387     
Telefone2: 55+ (61) 3217-4371     
Fax: 55+ (61) 3217-4399     
Email:  gabineteluizfux@stf.jus.br

Resumo para memória:

Na ação (ACO 312), a Funai pede que os títulos de propriedade incidentes sobre a Reserva Indígena sejam declarados nulos – ou seja, percam totalmente sua validade. Apesar de quatro perícias da Funai já terem confirmado a presença e a ocupação dos indígenas em suas terras desde pelo menos 1650, os ocupantes não-indígenas contestam a ação e se tratar de terras de propriedade da União. O Ministério Público Federal opinou a favor da nulidade dos títulos de propriedade concedidos aos não-indígenas em abril de 2001.

O julgamento da ACO 312 já começou. Segundo o relator do processo, Ministro Eros Grau, “não há títulos de propriedade válidos no interior da reserva, anteriores à vigência da Constituição Federal de 1967”, que é a Constituição de referência para o caso, pois estava valendo no momento em que a ACO 312 chegou ao STF, em 1982.

O artigo 186 daquela Carta considerava as terras ocupadas tradicionalmente pelos indígenas como sendo de domínio da União, para usufruto dos índios, além de declarar a nulidade de qualquer título de propriedade de terra localizada dentro da área.

O ministro Eros Grau concluiu que os índios estavam presentes na região desde muito antes da Constituição de 1967: “Abrange toda a área habitada, utilizada para o sustento do índio, necessária à preservação de sua identidade cultural”, e votou pela procedência da ação (a favor dos indígenas), “para declarar a nulidade de todos os títulos de propriedade cujas respectivas glebas estejam localizadas dentro da área da reserva indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu”.

O julgamento foi interrompido por um pedido de vista e está pautado para ser reiniciado no próximo dia 28.
 
Share