Ontem à tarde uma representação de 40 lideranças Pataxó da região de Porto Seguro pediu ao ministro José Eduardo Cardozo a saída imediata do atual presidente da FUNAI. Os Pataxó estavam acompanhados de deputados federais do estado da Bahia, a quem haviam cobrado essa reunião, já que não estavam conseguindo agendar com o ministro através da própria FUNAI.
A reunião com as lideranças Pataxó e o ministro José Eduardo foi dura e franca. Estava presente o atual presidente da FUNAI, junto com a diretora de assuntos fundiários. Não gostaram nada do que os Pataxó falaram ao ministro sobre suas respectivas atuações.
Os Pataxó vêm sofrendo horrores com a incapacidade de decisão do órgão em relação às terras que reivindicam, as ambiguidades e indecisões que lhes são impostas. Há problemas com o Instituto Chico Mendes quanto à dimensão da Terra Indígena Barra Velha, há problemas sérios de segurança provocados pela bandidagem local que se esconde na terra indígena Coroa Vermelha, ao lado da turística cidade de Porto Seguro. Há problemas de saúde agravados pela indecisão do Ministério da Saúde quanto ao substituto da FUNASA. Há problemas de administração dos parcos recursos que chegam à região, que já foi um Núcleo de Apoio, e hoje está reduzido a uma simples coordenação técnica local.
Os Pataxó sofrem sobretudo pelo abandono de suas aldeias por parte do órgão indigenista. A extinção do Núcleo de Apoio e dos postos indígenas pesa negativamente sobre os Pataxó.
Hoje a comitiva Pataxó se reúne com o vice-presidente Michel Temer. Na verdade, os Pataxó ainda confiam na justiça e na capacidade política brasileira. Querem que a FUNAI mude pela legalidade, sem alvoroço, mas estão achando difícil seguir essa linha.
Com a faca e queijo na mão, o ministro José Eduardo Cardozo.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Professores e estudantes indígenas pedem saída do atual presidente da FUNAI
Não são só os Kayapó, os Xavante, os Guajajara, os Pankararu, os Kaingang, os Pataxó, os Arara, os Karajá e tantos outros povos indígenas que querem uma mudança na Funai. Eles estão chegando a Brasília e querem encontrar seu rumo.
Uma nova força indígena, os estudantes universitários e professores em aldeias, refletindo sobre o que está acontecendo no meio indígena, também se manifestaram para que haja mudança. Neste documento dirigido às autoridades brasileiras, com todo respeito, os jovens indígenas pedem providências para mudar a FUNAI. Os estudantes indígenas comparam o que está acontecendo na FUNAI ao fascismo.
No mundo inteiro não se tolera mais o autoritarismo nem a incompetência administrativa, nem tampouco o agarrar-se ao poder pelo poder.
As mudanças estão para vir, de um modo ou de outro. Melhor que seja para que ainda se consiga mudar a FUNAI sem que se faça mais sacrifícios do que se tem feito.
A presidente Dilma Rousseff e o ministro José Eduardo Cardozo estão com a faca e o queijo na mão, com boas chances de fazer uma mudança a contento dos índios e suas principais lideranças.
O tempo passa, a história não pode esperar mais.
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Uma nova força indígena, os estudantes universitários e professores em aldeias, refletindo sobre o que está acontecendo no meio indígena, também se manifestaram para que haja mudança. Neste documento dirigido às autoridades brasileiras, com todo respeito, os jovens indígenas pedem providências para mudar a FUNAI. Os estudantes indígenas comparam o que está acontecendo na FUNAI ao fascismo.
No mundo inteiro não se tolera mais o autoritarismo nem a incompetência administrativa, nem tampouco o agarrar-se ao poder pelo poder.
As mudanças estão para vir, de um modo ou de outro. Melhor que seja para que ainda se consiga mudar a FUNAI sem que se faça mais sacrifícios do que se tem feito.
A presidente Dilma Rousseff e o ministro José Eduardo Cardozo estão com a faca e o queijo na mão, com boas chances de fazer uma mudança a contento dos índios e suas principais lideranças.
O tempo passa, a história não pode esperar mais.
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Índios Kayapó pedem saída do atual presidente da FUNAI
Os Kayapó não estão lutando só pelo cancelamento da UHE Belo Monte. Querem sim que não acontece Belo Monte e ainda lutam por isso.
Mas também os Kayapó sabem que o quê está por trás disso tudo é um mal estar terrível na FUNAI, com a qual nunca antes na história do indigenismo sofreram uma relação tão ruim e perversa.
Os Kayapó lançam um manifesto para todas as lideranças indígenas brasileiras e convocam também as ONGs indígenas para pedir a saída do atual presidente da FUNAI.
É uma carta séria, pensada com ponderação, amadurecida sobretudo depois que os Kayapó, liderados por Raoni e Megaron, estiveram em Brasília e viram o que está acontecendo no meio indigenista.
Algo está se mexendo no reino do indigenismo -- e não é um terremoto qualquer.
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Mas também os Kayapó sabem que o quê está por trás disso tudo é um mal estar terrível na FUNAI, com a qual nunca antes na história do indigenismo sofreram uma relação tão ruim e perversa.
Os Kayapó lançam um manifesto para todas as lideranças indígenas brasileiras e convocam também as ONGs indígenas para pedir a saída do atual presidente da FUNAI.
É uma carta séria, pensada com ponderação, amadurecida sobretudo depois que os Kayapó, liderados por Raoni e Megaron, estiveram em Brasília e viram o que está acontecendo no meio indigenista.
Algo está se mexendo no reino do indigenismo -- e não é um terremoto qualquer.
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
Só para recordar, postagem de fev de 2011: "De lambança em lambança erguida será a Usina Belo Monte
Tem sido desproporcionalmente agressiva a reação em cadeia que o governo
da presidenta Dilma Rousseff deslanchou contra as medidas cautelares da
Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão de aconselhamento da
OEA, no sentido de intimar o governo brasileiro a suspender o licenciamento e,
portanto, a construção da Usina Belo Monte, por não terem sido realizadas as devidas
consultas aos povos indígenas a serem atingidos. Ela mesma, a presidenta, declarou no dia 7 de abril a uma comitiva de 450 mulheres do Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB) que não ia ser demagoga e dizer-lhes que Belo Monte não seria
feita. Vai ser feita, sim, porque o Brasil precisa de energia elétrica e porque
nossa matriz elétrica vem da força hídrica. Ponto final.
Diversos ministérios já haviam se manifestado antes da presidenta, tais
como o de Relações Exteriores, Minas e Energia, Meio Ambiente, Defesa e o da
Justiça. Todos em uníssono, e com linguajar feroz, contra a petulância da CIDH. A Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal emitiu nota
inequívoca de contrariedade apontando que o Brasil era soberano para fazer o
que bem entendesse sobre suas decisões estratégicas de obter energia. O
desabrido ministro da Defesa mandou a CIDH/OEA cuidar de si mesma. Só está
faltando mesmo ouvir da ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, algo
no sentido de que os direitos das populações atingidas vêm sendo preservados
nos procedimentos de consulta e de programas de compensação. O ancilar PCdoB
pulou à frente do PT e soltou feroz nota de apoio à construção de Belo Monte,
demonstrando sua vívida indignação contra imposições do imperalismo
norte-americano!
Nunca se viu tanta demonstração concertada de contrariedade a uma advertência de um órgão menor da OEA, sinal tanto de que o governo não está para brincadeiras, quanto de que acusou o pequeno golpe.
Ao que se percebe das admoestações da CIDH e da reação brasileira
oficial, o grande questionamento sobre a Usina Belo Monte se foca quase que
exclusivamente sobre os índios. A situação de impactos ambientais ficou para trás, parece que
por desprezível.
A questão é: os índios foram informados devidamente, foram consultados
de modo livre, têm noção adequada do que está por vir, estão de acordo com o
que lhes foi apresentado?
Quem, pois, se arvora dizer se os índios foram devidamente consultados?
Nesse sentido, a bola está com a Funai, que obrigatoriamente é quem deve
tirar essa história a limpo. Com efeito, a Funai mais que depressa, e
evidentemente sob peso de comando urgente, soltou nota de esclarecimento
justificando o ato de concessão de licenciamento de Belo Monte, cometido pelo
atual presidente do órgão. Sim, os índios foram consultados livremente, diz a
nota, com boa informação sobre o quê é uma usina do porte de Belo Monte, que
obtiveram noção clara desse empreendimento e de suas consequências, que estão sabendo de tudo, e que vão receber quase todas as compensações que pediram. Eita!
A nota da Funai declara que foram realizadas mais de 30 reuniões com
intuito de escuta, de esclarecimento, de prestação de informações
(até nas línguas indígenas, através de intérpretes), como se estivesse seguindo
religiosamente os ditames da Convenção 169 e da Constituição Brasileira. A
Convenção 169 da OIT, que é lei no Brasil, trata especificamente da obrigação
do governo de esclarecer e consultar os povos indígenas, de modo livre,
informado e consensualmente aceito, sobre empreendimentos que os atinjam.
O teor da nota da Funai e grande parte de seu conteúdo é que vêm
servindo de suporte às declarações dos demais órgãos e instâncias
governamentais, inclusive pela Empresa Norte Energia e até por senadoras e
senadores situacionistas, como Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Graziotin
(PCdoBr-AM) e o presidente do Senado. A Funai assegura que não somente os
índios foram informados devidamente, como alega que tem documentação em vídeo e
por escrito, assinada pelos índios, de que estavam bem informados, e que
eles compareceram a quatro audiências públicas nas cidades impactadas da região. Só não assevera que eles
estavam de acordo, que suas assinaturas significavam assentimento à construção
da Usina. A nota da Funai conta como favorável a seus argumentos até um
seminário realizado no Memorial Darcy Ribeiro, na UnB, em fins de março deste
ano, (ao qual o presidente da Funai deveria ter comparecido, e não deu as caras) como tendo sido mais uma oportunidade de consulta para os povos indígenas!
Nesse seminário, ironicamente, todos os participantes, exceto um representante da
Secretaria Geral do governo, se declararam contra Belo Monte e dele é que saiu
uma comissão para levar seu protesto à presidenta Dilma.
Bem. A nota da Funai peca também por uma atitude absolutamente
inconcebível no órgão indigenista. Ela discrimina os índios que serão diretamente
atingidos pela Usina como tendo passado por um processo de “mestiçagem”,
deixando no ar talvez que eles seriam melhor capazes de entender ou de suportar o que está
acontecendo na região!? A última vez em que a Funai discriminou os índios pelo
nível de mestiçagem foi na ditadura militar, quando um coronel aloprado quis
fazer exame morfológico e genético para definir quem tinha ou não tinha sangue
indígena, ou sangue negro ou branco.
O vídeo postado abaixo trata de três dessas reuniões de esclarecimento.
Qualquer pessoa que o veja, mesmo que não tenha conhecimento antropológico
sobre os modos de diálogo de funcionários da Funai com povos indígenas, se dará
conta de que os representantes da Funai não parecem muito empenhados em
esclarecer o real teor do empreendimento. Há um certo ar burocrático de enrolation nas falas desses
representantes. Por fim, em duas ocasiões eles esclarecem a quem lhes pergunta
que o que estão fazendo não são propriamente reuniões de oitivas, pois estas
seriam feitas posteriormente e no Congresso Nacional! Ora, nada disso veio a ocorrer.
O que terá acontecido nas demais reuniões com outros povos indígenas, em
outras aldeias? Será que foram mais bem feitas, mais esclarecedoras? Não se
sabe, por enquanto. Pode ser que a própria Funai resolva soltar novas
informações visuais. O que temos aqui é algo muito longe de ser considerado
oitiva ou reunião de esclarecimento. Faltou seriedade e lealdade do órgão
indigenista aos povos indígenas.
É mais do que evidente que a Usina Belo Monte está para ser feita. Não
parece haver mais possibilidades de volta. Depois de uma longa e desgastante
guerra de ações e contra-ações na Justiça, o governo parece ter obtido uma
posição de vitória jurídica e quer dar o fato por consumado. Já mandou fazer o canteiro de obras. Não quer nem saber
de argumentações que apontem para a necessidade ou ao menos para a boa norma de que uma hidrelétrica desse porte, que atinge
terras indígenas diretamente, deveria ter passado por audiências públicas no
próprio Congresso Nacional, com debates abertos para todos. Um simples decreto
legislativo, obtido meio que na calada dos gabinetes, é o que parece dar
justificativa jurídica e resposta ao Art. 231, ¶ 5, que ordena que o Congresso
Nacional decida sobre empreendimentos que usam potencial hídrico que faz parte
de terras indígenas.
Este desleixo de conduta jurídica e constitucional constitui, no meu
entender, um descompasso com a realidade e com o ideal jurídico brasileiro, uma
verdadeira lambança jurídica e política que atinge a veia ética e moral do
brasileiro e que terá repercussão no futuro e que deixa imensas nódoas de erro
e desarmonia nesse empreendimento.
Para o bem do atual governo, há que se responder à seguinte pergunta: O que
será de todas as palavras já pronunciadas pelo ex-presidente Lula de que não
iria enfiar a grande Usina "goela abaixo" dos habitantes da região,
índios, ribeirinhos e citadinos que serão atingidos?! Será consolo a palavra da
presidenta Dilma de que haverá compensação e participação de todos nos lucros
ou vantagens desse empreendimento? Como serão amenizadas as descomunais
desvantagens?
O fato é que o leite está derramado, não há como recolhê-lo mais. Resta
a todos o gosto amargo de que no Brasil as coisas são feitas na base do
improviso forçado, da má fé, do jeitinho oportunista, do poder avassalador, passando-se o tratorzão por
cima dos contrários, dos incautos e dos inocentes, que, afinal, pagarão o preço
mais alto pelo progresso da Nação.
CNJ quer mexer em terras indígenas
Para quem ainda duvida que o desmonte da FUNAI está vindo de todos os lados, eis uma matéria produzida a partir de informações do Conselho Nacional de Justiça, órgão criado em 2004 para servir de corregedoria da Justiça brasileira em geral.
Eis que, do alto de seu altíssimo conhecimento sobre a matéria, o CNJ também mete sua colher no angu da demarcação de terras indígenas. Mete a colher por que? Por que entende que a Justiça está farta de contestações às ações da FUNAI sobre demarcação? Provavelmente não. Ela simplesmente quer reger a questão fundiária no Brasil, como se poder executivo fosse. Inebria-se de vontade de poder e vai intensificar a judicialização da demarcação de terras indígenas, enfatizando os aspectos legais e ignorando os aspectos históricos e antropológicos que compõem a questão, e sem os quais não se consegue nada de relevante para os povos indígenas.
E a atual direção da FUNAI, o que pretende fazer sobre isso? Provavelmente ajudar para que isso se torne uma realidade! Ora. Não foi essa direção da FUNAI que colaborou para que a maioria das procuradorias especiais da FUNAI tenham sido extintas em diversas administrações Brasil afora?
Agora, se você for índio e se sua vida ou sua terra indígena estiverem em perigo ou contestada ou invadida ou ameaçada, você terá que pedir à AGU para lhe ajudar, e a AGU irá enviar o procurador que bem entender, não aquele que já conhece a sua situação de longa data e que está imbuído de um sentido ético de defender sua posição.
Por sua vez, o Legislativo está aí, cheio de ideias malévolas para usurpar aquilo que a FUNAI vinha fazendo, bem ou mal, desde a época de Rondon: demarcação de terras, em especial, claro, pois a bancada de 170 fazendeiros não vai dar mole. Mas também, partidarização da FUNAI, como nunca houve no passado com essa virulência.
O enfraquecimento da FUNAI é evidente, está escancarado, e quem conhece bem a questão indígena brasileira está vendo a instituição se desmilinguindo. O governo federal continua inerme, impávido, observando a situação se deteriorar sem fazer nada. Ou, no máximo, convidando índios para conversar nos gabinetes e depois não fazendo nada.
Só a resistência indígena poderá salvar a FUNAI da beirada do precipício em que se encontra. Qualquer um desses poderes poderá empurrá-la abismo abaixo.
Mesmo se ela for resgatada, ainda assim precisaremos de muitas ideias novas, muita criatividade e muito espírito rondoniano e republicano para fazê-la funcionar uma vez mais.
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Eis que, do alto de seu altíssimo conhecimento sobre a matéria, o CNJ também mete sua colher no angu da demarcação de terras indígenas. Mete a colher por que? Por que entende que a Justiça está farta de contestações às ações da FUNAI sobre demarcação? Provavelmente não. Ela simplesmente quer reger a questão fundiária no Brasil, como se poder executivo fosse. Inebria-se de vontade de poder e vai intensificar a judicialização da demarcação de terras indígenas, enfatizando os aspectos legais e ignorando os aspectos históricos e antropológicos que compõem a questão, e sem os quais não se consegue nada de relevante para os povos indígenas.
E a atual direção da FUNAI, o que pretende fazer sobre isso? Provavelmente ajudar para que isso se torne uma realidade! Ora. Não foi essa direção da FUNAI que colaborou para que a maioria das procuradorias especiais da FUNAI tenham sido extintas em diversas administrações Brasil afora?
Agora, se você for índio e se sua vida ou sua terra indígena estiverem em perigo ou contestada ou invadida ou ameaçada, você terá que pedir à AGU para lhe ajudar, e a AGU irá enviar o procurador que bem entender, não aquele que já conhece a sua situação de longa data e que está imbuído de um sentido ético de defender sua posição.
Por sua vez, o Legislativo está aí, cheio de ideias malévolas para usurpar aquilo que a FUNAI vinha fazendo, bem ou mal, desde a época de Rondon: demarcação de terras, em especial, claro, pois a bancada de 170 fazendeiros não vai dar mole. Mas também, partidarização da FUNAI, como nunca houve no passado com essa virulência.
O enfraquecimento da FUNAI é evidente, está escancarado, e quem conhece bem a questão indígena brasileira está vendo a instituição se desmilinguindo. O governo federal continua inerme, impávido, observando a situação se deteriorar sem fazer nada. Ou, no máximo, convidando índios para conversar nos gabinetes e depois não fazendo nada.
Só a resistência indígena poderá salvar a FUNAI da beirada do precipício em que se encontra. Qualquer um desses poderes poderá empurrá-la abismo abaixo.
Mesmo se ela for resgatada, ainda assim precisaremos de muitas ideias novas, muita criatividade e muito espírito rondoniano e republicano para fazê-la funcionar uma vez mais.
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CNJ lançará em Dourados ação para acompanhar disputas por terras indígenas
Marta Ferreira
O Fórum de Assuntos Fundiários do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) lança no mês de maio, em Dourados, um programa específico para tratar das questões relacionadas com terras indígenas. Um dos objetivos será identificar ações concretas que possam ser adotadas para reduzir os conflitos fundiários envolvendo as diversas etnias indígenas, segundo divulgou o CNJ.
“É uma área de muito conflito”, explicou o coordenador do Fórum, Marcelo Berthe, juiz auxiliar da Presidência do CNJ. No lançamento previsto para ocorrer em Dourados, município com alta população indígena, será realizado um seminário com a participação de líderes indígenas e representantes do Judiciário, do Ministério Público e do Executivo.
A decisão foi tomada ontem pelo Comitê Executivo do Fórum de Assuntos Fundiários. O CNJ vai fazer um levantamento das ações judiciais envolvendo terras indígenas, dos decretos de demarcação de terras na tentativa de buscar a pacificação entre as partes.
O plano de trabalho definido pelo Comitê consolida as metas definidas no II Fórum de Assuntos Fundiários, realizado no ano passado em Belém. “A ação agora tende a ser mais efetiva”, afirmou o desembargador Sérgio Fernandes Martins, do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. A função do fórum, lembra ele, é promover a pacificação na questão fundiária e, com isso, evitar grande número de ações na Justiça.
Interpretações- Segundo os magistrados, há divergência de interpretação da legislação sobre indenização aos proprietários por terras desapropriadas. Como a Constituição estabelece que as terras ocupadas pelos índios são de propriedade da União, alguns magistrados entendem que só cabe indenização pelas benfeitorias. Outros mandam pagar a indenização pela terra nua, entendimento que prevalece, por exemplo, na Justiça do Rio Grande do Sul.
Segundo Kátia Parente, juíza corregedora do Tribunal de Justiça do Pará, outro problema é que a própria Funai (Fundação Nacional do Índio) não tem condição de cadastrar todos os índios. Além disso, os cartórios de registro civil resistem a lavrar os registros com base em documentos da Funai.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Belo Monte de Frustrações
Nesses últimos dias, desde que a atual direção da Funai declarou que não havia óbices à construção do canteiro de obras de Belo Monte, indigenistas e índios se uniram em rebelião contra o governo brasileiro.
Mas, o que quer dizer essa rebelião? É verdadeira, ou é só retórica?
Para a Associação Brasileira de Antropologia, rebelar-se contra Belo Monte significa fazer alguns discursos veementes contra o capitalismo internacional, culpado pela decisão de fazer hidrelétricas caras na Amazônia, e escrever um documento em que condena o Ibama por ter dado a licença, além de pedir ao governo que reveja o processo de audiências públicas e oitivas em relação aos índios. Nada se diz sobre o fato de que a licença só foi dada pelo Ibama porque antes foi concedida pela atual direção da Funai, à revelia de parecer contrário de seus técnicos.
Para a OAB, a rebelião significa condenar o processo de licenciamento por vícios legais, por passar por cima dos critérios mínimos de legalização de uma obra desse porte.
Para o Ministério Público, significa exigir que o governo refaça os estudos de impacto ambiental, considerando que eles foram tão mal feitos que nem merecem ser chamados pelo devido nome.
Para o público ambientalista, a rebelião significa protestar pela internet contra hidrelétricas na Amazônia, pelo menos contra uma tão grande assim; significa também conclamar o povo brasileiro a aprender a economizar energia.
Para uma parte da comunidade científica, dividida como sempre em assuntos dessa importância, significa demonstrar que há outras alternativas para o fornecimento de energia elétrica, tais como a eólica e a solar; ou, simplesmente, melhorar a eficiência das atuais hidrelétricas e das linhas de transmissão.
Para os ribeirinhos do rio Xingu, da Volta Grande, e dos igarapés que desembocam naquela altura do rio, a rebelião é uma dor de perda iminente, de sufoco, de grito no peito. Para onde irão? Como sustentarão suas famílias?
E para os índios? O que significa se rebelar contra Belo Monte?
Significa sofrer por um rio que parará de descer o seu curso natural. É o protesto da dor de sentir o perigo da destruição de suas vidas, de suas culturas, tal como as conhecem e tal como sonham que continuem a existir.
Belo Monte é o sinal dos tempos que estão a vir. É o pânico da destruição de suas florestas, de seus rios, de sua vida tradicional e imemorial -- que estão vendo correr nos últimos anos a uma velocidade nunca antes imaginada.
Raoni, o grande e respeitado, o venerando cacique Kayapó, tem se lembrado ultimamente que Orlando Villas-Boas, o grande sertanista que o ajudou a conhecer o mundo dos brancos, costumava dizer que os índios tinham que se preparar para o que viria pela frente. Agora, diz Raoni, ele está sentindo o valor dessas palavras e está percebendo o poder dos acontecimentos.
Para os índios, Belo Monte surge como a possibilidade de perda da viabilidade de suas culturas, tal como as vinham vivendo até recentemente. Alguém oferece uma alternativa viável, algum plano miraculoso que os tranquilize? Certamente que não.
Eis o desespero dos índios, mesmo daqueles que estão a milhares de quilômetros de distância.
_________________________________
Não demorou mais do que algumas horas após a reunião dos índios com o secretário executivo da Secretaria Geral da República, na qual ele prometera aos índios que levaria sua reivindicação para parar Belo Monte, e a presidente Dilma Rousseff se reuniu com o ministro de Minas e Energia e os presidentes do sistema Eletrobrás para decidir os próximos passos para a conclusão de Belo Monte.
Belo Monte está se tornando uma realidade, enfiada goela abaixo dos índios, dos ribeirinhos, dos ambientalistas e de todos aqueles que são contrários a esse tipo de construção, a essa forma de relacionamento com a sociedade brasileira, à perfídia da palavra sem valor.
Mas, o que quer dizer essa rebelião? É verdadeira, ou é só retórica?
Para a Associação Brasileira de Antropologia, rebelar-se contra Belo Monte significa fazer alguns discursos veementes contra o capitalismo internacional, culpado pela decisão de fazer hidrelétricas caras na Amazônia, e escrever um documento em que condena o Ibama por ter dado a licença, além de pedir ao governo que reveja o processo de audiências públicas e oitivas em relação aos índios. Nada se diz sobre o fato de que a licença só foi dada pelo Ibama porque antes foi concedida pela atual direção da Funai, à revelia de parecer contrário de seus técnicos.
Para a OAB, a rebelião significa condenar o processo de licenciamento por vícios legais, por passar por cima dos critérios mínimos de legalização de uma obra desse porte.
Para o Ministério Público, significa exigir que o governo refaça os estudos de impacto ambiental, considerando que eles foram tão mal feitos que nem merecem ser chamados pelo devido nome.
Para o público ambientalista, a rebelião significa protestar pela internet contra hidrelétricas na Amazônia, pelo menos contra uma tão grande assim; significa também conclamar o povo brasileiro a aprender a economizar energia.
Para uma parte da comunidade científica, dividida como sempre em assuntos dessa importância, significa demonstrar que há outras alternativas para o fornecimento de energia elétrica, tais como a eólica e a solar; ou, simplesmente, melhorar a eficiência das atuais hidrelétricas e das linhas de transmissão.
Para os ribeirinhos do rio Xingu, da Volta Grande, e dos igarapés que desembocam naquela altura do rio, a rebelião é uma dor de perda iminente, de sufoco, de grito no peito. Para onde irão? Como sustentarão suas famílias?
E para os índios? O que significa se rebelar contra Belo Monte?
Significa sofrer por um rio que parará de descer o seu curso natural. É o protesto da dor de sentir o perigo da destruição de suas vidas, de suas culturas, tal como as conhecem e tal como sonham que continuem a existir.
Belo Monte é o sinal dos tempos que estão a vir. É o pânico da destruição de suas florestas, de seus rios, de sua vida tradicional e imemorial -- que estão vendo correr nos últimos anos a uma velocidade nunca antes imaginada.
Raoni, o grande e respeitado, o venerando cacique Kayapó, tem se lembrado ultimamente que Orlando Villas-Boas, o grande sertanista que o ajudou a conhecer o mundo dos brancos, costumava dizer que os índios tinham que se preparar para o que viria pela frente. Agora, diz Raoni, ele está sentindo o valor dessas palavras e está percebendo o poder dos acontecimentos.
Para os índios, Belo Monte surge como a possibilidade de perda da viabilidade de suas culturas, tal como as vinham vivendo até recentemente. Alguém oferece uma alternativa viável, algum plano miraculoso que os tranquilize? Certamente que não.
Eis o desespero dos índios, mesmo daqueles que estão a milhares de quilômetros de distância.
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Não demorou mais do que algumas horas após a reunião dos índios com o secretário executivo da Secretaria Geral da República, na qual ele prometera aos índios que levaria sua reivindicação para parar Belo Monte, e a presidente Dilma Rousseff se reuniu com o ministro de Minas e Energia e os presidentes do sistema Eletrobrás para decidir os próximos passos para a conclusão de Belo Monte.
Belo Monte está se tornando uma realidade, enfiada goela abaixo dos índios, dos ribeirinhos, dos ambientalistas e de todos aqueles que são contrários a esse tipo de construção, a essa forma de relacionamento com a sociedade brasileira, à perfídia da palavra sem valor.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Sertanista Odenir Pinto de Oliveira escreve carta indignada ao atual presidente da Funai
Odenir Pinto de Oliveira é um dos maiores indigenistas do Brasil. Filho e neto de sertanistas, desde o tempo do Marechal Rondon, Odenir foi criado pelos pais junto aos índios Bakairi, e depois os Xavante, desde sua infância. Fala as duas línguas indígenas e participa das duas culturas.
Além do mais, teve experiência de campo com os Mura, os Panará, ajudou os Pataxó a retomar suas terras em Caramuru-Paraguaçu, auxiliou os Guarani do Mato Grosso do Sul a retomar terras, demarcá-las e homologá-las, criou o Programa de Casas de Cultura entre 2003 e 2007, estabelecendo diversas Casas de Cultura, e continua firme em defesa dos povos indígenas.
A carta que ora segue foi escrita hoje e passada para seus amigos indigenistas e jornalistas. É uma das mais emocionantes pela veemência do estilo, e das mais duras, pelas denúncias, que já vi de um indigenista brasileiro nos últimos tempos.
Odenir compara o atual presidente da Funai, Márcio Meira, com o coronel Nobre da Veiga, que foi presidente da Funai há 28 anos. E o pior de todos, pelas arbitrariedades cometidas, por ir contra o indigenismo rondoniano, pelas falcatruas, por demitir indigenistas, por atentar contra os direitos indígenas e por reestruturar o órgão para facilitar a vida dos inimigos dos índios, por abrir as terras indígenas às mineradoras.
Levou anos para a Funai se recuperar de Nobre da Veiga. De certa forma, eis o que está acontecendo no presente.
Seu testemunho é de respeito! Se o Governo Dilma não o escutar, então não tem mais jeito com a questão indígena.
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Muitas vezes a gente pensa que já viu de tudo e do seu contrário também.
Além do mais, teve experiência de campo com os Mura, os Panará, ajudou os Pataxó a retomar suas terras em Caramuru-Paraguaçu, auxiliou os Guarani do Mato Grosso do Sul a retomar terras, demarcá-las e homologá-las, criou o Programa de Casas de Cultura entre 2003 e 2007, estabelecendo diversas Casas de Cultura, e continua firme em defesa dos povos indígenas.
A carta que ora segue foi escrita hoje e passada para seus amigos indigenistas e jornalistas. É uma das mais emocionantes pela veemência do estilo, e das mais duras, pelas denúncias, que já vi de um indigenista brasileiro nos últimos tempos.
Odenir compara o atual presidente da Funai, Márcio Meira, com o coronel Nobre da Veiga, que foi presidente da Funai há 28 anos. E o pior de todos, pelas arbitrariedades cometidas, por ir contra o indigenismo rondoniano, pelas falcatruas, por demitir indigenistas, por atentar contra os direitos indígenas e por reestruturar o órgão para facilitar a vida dos inimigos dos índios, por abrir as terras indígenas às mineradoras.
Levou anos para a Funai se recuperar de Nobre da Veiga. De certa forma, eis o que está acontecendo no presente.
Seu testemunho é de respeito! Se o Governo Dilma não o escutar, então não tem mais jeito com a questão indígena.
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Senhor Márcio Meira
Presidente da FUNAI
C/c Ministro da Justiça
Márcio Meira,
Parece que foi ontem, mas foi em novembro de 1979 que o coronel João Carlos Nobre da Veiga assumiu a presidência da FUNAI.
Nobre da Veiga entrou dizendo que o Órgão era “um mar de lama” e, junto com o seu principal assessor, coronel Ivan Zanoni, deu início a uma série de mudanças que permitisse uma “nova FUNAI”. Muitas delas com forte conotação político/ideológica, respaldadas nas teorias de estratégia militar tão bem defendida pelo seu principal assessor, inclusive com livro publicado.
Dentro da FUNAI, Nobre da Veiga tomou as seguintes providências – pelo menos as que ficaram mais conhecidas:
a) Demite, já de começo, 39 indigenistas por serem “subversivos” e porque precisava mudar o paradigma do “indigenismo oficial”;
b) Reestrutura administrativamente o Órgão com esse objetivo e para “fortalecer as unidades regionais”;
c) Incrementa o projeto de emancipação compulsória dos indígenas, criando os famosos “critérios de indianidade” e declara que todos os índios perderiam a tutela e “estariam emancipados em três gerações”;
d) Edita várias Portarias permitindo empreendimentos dentro das terras indígenas e facilita a exploração mineral em terras indígenas;
e) Com ajuda do Conselho Indigenista e do Ministro do Interior Mário Andreazza, proíbe Mario Juruna de participar do Tribunal Russel, na Holanda.
Pois bem, Márcio Meira, parece que foi ontem. Vinte e oito anos depois de Nobre da Veiga, você assume a presidência da FUNAI e, como seu antecessor de vinte e oito anos atrás, você veio para implementar um “novo indigenismo oficial”, desta vez com muita ideologia neoliberal e com muita política partidária – mas tão parecida com a de Nobre da Veiga e Zanoni – que fico imaginando que o tempo não passou.
Nobre da Veiga queria um “novo indigenismo” porque, segundo ele, aquele que havia era “ultrapassado e responsável pelo atraso da FUNAI”.
Parece que há algo muito familiar e atual nesse discurso, não? Mas não vou enumerar essas semelhanças. Porém, é inevitável dizer que tanto quanto Nobre da Veiga, você também quer reestruturar o Órgão com medidas que atentam contra direitos indígenas consagrados pela Constituição e pela Organização Internacional do Trabalho - OIT; você implementa uma política de extinção da tutela, sem amplo debate com os povos indígenas, como se a tutela fosse algum direito que o governo “deu” no passado e agora pode “tirar” ao seu bel prazer; você usa a Polícia Militar, a Guarda Nacional e o Polícia Federal para, sob argumento de proteger bens públicos, impedir que as populações indígenas se manifestem contra sua administração e a presença dos “novos zanonis” dentro do Órgão.
Parece que há algo muito familiar e atual nesse discurso, não? Mas não vou enumerar essas semelhanças. Porém, é inevitável dizer que tanto quanto Nobre da Veiga, você também quer reestruturar o Órgão com medidas que atentam contra direitos indígenas consagrados pela Constituição e pela Organização Internacional do Trabalho - OIT; você implementa uma política de extinção da tutela, sem amplo debate com os povos indígenas, como se a tutela fosse algum direito que o governo “deu” no passado e agora pode “tirar” ao seu bel prazer; você usa a Polícia Militar, a Guarda Nacional e o Polícia Federal para, sob argumento de proteger bens públicos, impedir que as populações indígenas se manifestem contra sua administração e a presença dos “novos zanonis” dentro do Órgão.
Na ditadura militar, Nobre da Veiga dizia que, ao contrário da vontade dos povos indígenas, ele deveria continuar sendo presidente da FUNAI porque essa era uma “missão” que ele havia recebido dos seus superiores. Até o dia em que ele, no ímpeto de transformar o Órgão, comprou um novo prédio no Setor de Indústria de Brasília, para instalação dessa “nova FUNAI”, e no mesmo dia um belo apartamento, (não confundir com belo monte), localizado na Avenida Vieira Souto, no Rio de Janeiro, foi passado em seu nome. O Tribunal de Contas da União, acionado, tomou as devidas providências. Mas Nobre da Veiga não ficou conhecido porque queria morar na Vieira Souto: ele ficou conhecido por atentar contra os direitos dos povos indígenas.
Ontem li na revista Época que você, mais uma vez, contrariando parecer técnico do setor responsável da FUNAI, encaminhou ao IBAMA o Ofício nº 013/2011/GAB-FUNAI, de 20 de janeiro de 2011,........A FUNAI não tem óbice para emissão da Licença de Instalação – LI das obras iniciais (sic) do canteiro de obras da UHE de Belo Monte, considerando a garantia de cumprimento das condicionantes.(sic). Em seguida, no mesmo Ofício, você pede que o IBAMA.....atue junto com a FUNAI no acompanhamento......., que não vou continuar transcrevendo, dado o ridículo dessa coisa.
Muitas vezes a gente pensa que já viu de tudo e do seu contrário também.
Mas nunca é verdade, porque as justificativas para os absurdos que alguns cometem quando estão na presidência da FUNAI, mudam de tempos em tempos. É muito provável que você dirá que está fazendo isso porque recebe orientação do seu partido político, do seu superior, da presidente da República, etc, etc, mas lhe digo uma coisa: desde o dia em que você, em novembro de 2009, concedeu a primeira, (Licença Prévia) ao IBAMA, para a mesma UHE de Belo Monte, de forma misteriosa porque também contrariava parecer técnico do órgão, nunca mais você poderá dizer que está na presidência da FUNAI porque quer o bem dos povos indígenas. No máximo, você poderá dizer que está aí porque tem uma “missão”.
E o dia em que você conceder a última, Licença de Operação, para UHE de Belo Monte, mais uma vez o Estado brasileiro, através do seu organismo oficial de indigenismo, estará, numa trajetória iniciada por Nobre da Veiga e Zanoni há vinte e oito anos atrás, impedindo que os povos indígenas protagonizem seu destino e participem do destino do Brasil.
Brasília, 02 de fevereiro de 2011
Odenir Pinto de Oliveira
Sertanista aposentado
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Atual presidente da Funai concede licença contrariando parecer técnico
A jornalista Mariana Sanches, da Revista Época, obteve o relatório da técnica da Funai, Maria Janete Carvalho, do dia 14 de janeiro p.p., no qual dá como parecer ao presidente da Funai que não dê seu aval ao licenciamento de instalação da UHE Belo Monte, em virtude do não cumprimento dos condicionantes básicos apresentados pela Funai por ocasião da Licença Prévia, em novembro de 2009, os quais amenizariam os impactos iniciais da construção da referida usina.
De nada adiantou. O atual presidente da Funai deu aval para a licença em ofício do dia 20 de janeiro. Mais uma vez passa por cima das análises dos técnicos da Funai.
Como eu disse na entrevista que a jornalista me fez, isto constitui uma das piores lambanças administrativas já feitas no indigenismo brasileiro. No indigenismo não, em todo o ambientalismo brasileiro. Sinto também pelo que está ocorrendo no Ibama.
E aí, Sr. Ministro, e aí, Sra. Presidente, como responder a isso?
Como corrigir esses erros tão graves na administração pública?
Não dá para viver de tratoragens no Brasil! Haverá de ter melhores modos de se realizar ações sem passar por cima do mínimo de dignidade do trabalho.
Afinal de contas, os índios Juruna, Xipaya, Kuruaya, Arara do Maia, Arara, Kararaô, Xikrin do Bacajá, Assurini, Araweté e Parakanã não são bagres! São seres humanos e culturas para os quais o Brasil, o Estado brasileiro, tem inteira responsabilidade por sua sobrevivência física e étnica e por seu bem-estar social.
Seres humanos não são bagres!
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A contradição entre o parecer favorável à instalação da obra dado pela Funai e o relatório contrário à licença é mais um episódio na controvérsia de mais de 20 anos entre índios e hidrelétrica no Rio Xingu. Em 1989, quando o projeto de Belo Monte ainda se chamava Kararaô, a índia caiapó Tuíra encostou um facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Muniz, em protesto contra a construção da hidrelétrica (na foto ao lado, de Protasio Nene/ AE). Em maio de 2008, na gestão do presidente Lula, que incluiu Belo Monte entre as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), a confusão com bordunas e facões foi reeditada. Índios foram acusados de agredir o engenheiro da Eletrobrás Paulo Fernando Rezende depois de uma reunião sobre a usina.
De nada adiantou. O atual presidente da Funai deu aval para a licença em ofício do dia 20 de janeiro. Mais uma vez passa por cima das análises dos técnicos da Funai.
Como eu disse na entrevista que a jornalista me fez, isto constitui uma das piores lambanças administrativas já feitas no indigenismo brasileiro. No indigenismo não, em todo o ambientalismo brasileiro. Sinto também pelo que está ocorrendo no Ibama.
E aí, Sr. Ministro, e aí, Sra. Presidente, como responder a isso?
Como corrigir esses erros tão graves na administração pública?
Não dá para viver de tratoragens no Brasil! Haverá de ter melhores modos de se realizar ações sem passar por cima do mínimo de dignidade do trabalho.
Afinal de contas, os índios Juruna, Xipaya, Kuruaya, Arara do Maia, Arara, Kararaô, Xikrin do Bacajá, Assurini, Araweté e Parakanã não são bagres! São seres humanos e culturas para os quais o Brasil, o Estado brasileiro, tem inteira responsabilidade por sua sobrevivência física e étnica e por seu bem-estar social.
Seres humanos não são bagres!
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Presidente da Funai contraria parecer técnico do órgão e apoia licença de Belo Monte
18:42, 1 DE FEVEREIRO DE 2011
MARIANA SANCHES
SEM CATEGORIA TAGS: AMÉRICO RIBEIRO TUNES, BELO MONTE, FUNAI, IBAMA,MÁRCIO MEIRA, MÉRCIO GOMES
No último dia 20 de janeiro, o antropólogo Márcio Meira, presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) enviou um documento ao atual presidente do Ibama, Américo Ribeiro Tunes. Meira afirma no texto que “a FUNAI não tem óbice para a Licença de Instalação – LI das obras iniciais dos canteiros de obras da UHE Belo Monte”. Era o O.k. de que precisava Tunes, do Ibama, para conceder, na semana passada, a licença de instalação parcial à Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira, Pará.
O comunicado de Meira, no entanto, contraria o relatório técnico produzido por funcionários da Funai no dia 14 de janeiro de 2011, apenas seis dias antes do envio do documento do presidente da Funai ao presidente do Ibama. No documento intitulado “Subsídio para manifestação da Funai acerca das Instalações da UHE Belo Monte”, a que ÉPOCA teve acesso, Maria Janete de Carvalho, chefe da Coordenação Geral de Gestão Ambiental (CGGAM), e Julia Paiva Leão, coordenadora da COLIC (Coordenação de Licitação e Contratos), afirmam que nem a empresa Norte Energia S.A. nem o poder público cumpriram satisfatoriamente as 26 exigências estabelecidas pelo Ibama e pela Funai como garantia da manutenção das terras e de melhorias de vida das nove etnias indígenas que serão impactadas pelo empreendimento. Ambas assinam a recomendação de que a Funai não dê parecer favorável ao licenciamento. 
Por meio da assessoria da Funai, Meira disse que não se pronunciaria sobre o assunto. Segundo pessoas ligadas a ele, além de pressão do próprio governo federal, para quem Belo Monte é prioridade, Meira teria outra motivação para contrariar o parecer técnico do órgão que preside e assinar o documento liberando a licença para Belo Monte. Diante de diversos conflitos indígenas pendentes pelo país, o antropólogo paraense pode ter tentado fazer uma troca. Entregaria a licença de Belo Monte e, em compensação, concluiria a contento os processos da reserva Apyterewa, em São Félix do Xingu (PA), onde há sangrenta disputa por terra entre índios e fazendeiros.
A tensão na região só fez aumentar de lá para cá. Ongs ambientais nacionais e internacionais e a Igreja Católica sugerem que os índios finquem pé contra Belo Monte. A empresa Norte Energia e o governo federal tentam atrair a simpatia dos indígenas para o projeto. Autoridades e indigenistas locais dizem, inclusive, que a Norte Energia tem fornecido comida e dinheiro para lideranças indígenas da região. Até a publicação deste post, a Norte Energia não confirmou nem desmentiu esta informação.
No meio do imbróglio está a Funai, cuja atribuição é defender junto à União o interesse dos índios. No entanto, o órgão perdeu força com uma reestruturação implementada por um decreto de Lula que extinguiu, em dezembro passado, a administração da Funai em Altamira. “Enfraquecida e sem fazer valer seus pareceres técnicos, a Funai não tem sido capaz de lidar com a complexidade do assunto”, diz Mércio Gomes, ex-presidente da Funai. “Virou uma lambança.”
domingo, 30 de janeiro de 2011
FANTÁSTICO mostra vida cruel e miserável dos Guarani do Mato Grosso do Sul
A reportagem deste domingo do FANTÁSTICO, programa semanal da Rede Globo, mostra alguns dos aspectos mais cruéis e miseráveis da vida dos índios Guarani. Incluiu no cardápio: assassinatos (100 por 100.000, na cidade de São Paulo, por exemplo, são 11 por 100.000), violência doméstica, prostituição infantil, maus tratos paternos, venda de filha, prostituição juvenil.
Diante de tudo isso, o atual presidente da Funai foi entrevistado e disse:
“Solucionando a questão das terras, a gente cria um ambiente favorável para diminuir essa situação de violência que acontece tanto dentro das comunidades como também contra os próprios indígenas”, aponta Marcio Meira, presidente da FUNAI."
Não sei se isso constitui insciência, isto é, falta de conhecimento, alienação da realidade ou o quê, ou se é puro cinismo e indiferença. Pois ele sabe muito bem que não vai resolver a questão das terras, tanto pelas dificuldades inerentes, quanto pelo jeito mal, incompetente e ilusório pelo qual a atual gestão da Funai deslanchou o processo de demarcação no Mato Grosso do Sul.
Sabe também que os problemas sociais, étnicos, culturais e econômicos dos Guarani são de uma gravidade que vai além da carência de terras e exigem ações de diversas sortes, fortes e determinadas, como a criação de uma entidade pública exclusivamente para os Guarani.
Devo dizer que a ideia de um Instituto Guarani foi apresentada por mim ao governo Lula em 2004. Fizemos um programa, porém o governo estava preocupado exclusivamente com o escândalo das crianças que morriam nos postos de saúde da Funasa, e achou que resolveria a questão dando força à Funasa e estabelecendo bolsas famílias.
Por sua vez, a situação se agravou no último ano pela extinção dos postos indígenas e da AER Amambai, bem como pela pouquíssima participação dos índios na gestão de suas administrações. O resultado é o agravamento da anomia cultural e étnica que atinge os índios cada vez mais na atualidade.
Vejam a matéria
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Diante de tudo isso, o atual presidente da Funai foi entrevistado e disse:
“Solucionando a questão das terras, a gente cria um ambiente favorável para diminuir essa situação de violência que acontece tanto dentro das comunidades como também contra os próprios indígenas”, aponta Marcio Meira, presidente da FUNAI."
Não sei se isso constitui insciência, isto é, falta de conhecimento, alienação da realidade ou o quê, ou se é puro cinismo e indiferença. Pois ele sabe muito bem que não vai resolver a questão das terras, tanto pelas dificuldades inerentes, quanto pelo jeito mal, incompetente e ilusório pelo qual a atual gestão da Funai deslanchou o processo de demarcação no Mato Grosso do Sul.
Sabe também que os problemas sociais, étnicos, culturais e econômicos dos Guarani são de uma gravidade que vai além da carência de terras e exigem ações de diversas sortes, fortes e determinadas, como a criação de uma entidade pública exclusivamente para os Guarani.
Devo dizer que a ideia de um Instituto Guarani foi apresentada por mim ao governo Lula em 2004. Fizemos um programa, porém o governo estava preocupado exclusivamente com o escândalo das crianças que morriam nos postos de saúde da Funasa, e achou que resolveria a questão dando força à Funasa e estabelecendo bolsas famílias.
Por sua vez, a situação se agravou no último ano pela extinção dos postos indígenas e da AER Amambai, bem como pela pouquíssima participação dos índios na gestão de suas administrações. O resultado é o agravamento da anomia cultural e étnica que atinge os índios cada vez mais na atualidade.
Vejam a matéria
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Violência e drogas marcam relação entre índios do MS
Na região de Dourados, em Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, vivem índios guaranis kaiowás e terenas, que estão entre os povos mais ameaçados do Brasil.
“Meu pai me vendeu para o cara por R$ 2 mil”, conta uma índia guarani. Ela tinha apenas 11 anos quando foi vendida pelo próprio pai. Além dos R$ 2 mil, o comprador pagou ainda uma antena parabólica.
Visite o site do Globo Natureza
Na região de Dourados, em Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, vivem índios guaranis kaiowás e terenas, que estão entre os povos mais ameaçados do Brasil. O Fantástico foi a uma das oito reservas criadas em Mato Grosso do Sul por volta de 1920 com o discurso de integrar a população indígena à sociedade. Famílias inteiras foram retiradas das áreas de origem e levadas para lá. Acostumados com muito espaço, os índios tiveram que se adaptar a uma nova realidade.
Só nas aldeias Jaguapirú e Bororó são cerca de 12 mil índios guaranis em uma área que fica praticamente dentro da cidade de Dourados. Falta espaço para plantar.
“Nossa dificuldade é para plantar. Tem pouco. Não tem casa boa. Não tem luz. Tem dificuldade até para comida”, lamenta a índia Élvia Araújo.
Mas o principal problema é a violência.
Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do Brasil. Segundo o Ministério Público Federal, a taxa de homicídio entre os guarani-kaiowá do estado é de cem para cada 100 mil habitantes, quatro vezes a média nacional.
“Um índice superior ao do próprio Iraque. Você tem uma população submetida a um índice de violência extremo”, aponta o procurador da República Marco Antônio Delfino de Almeida.
A proximidade com os brancos trouxe para as aldeias muito mais do que um novo idioma. De carona vieram o álcool, a maconha, a cocaína. Até a droga mais devastadora do momento já chegou por aqui.
“Aqui está rolando de tudo, já. Crack, maconha e até cocaína”, alerta a vice-líder da aldeia, Leomar da Silva, vice-líder da aldeia.
Uma índia de apenas 14 anos diz que está acostumada a fumar maconha com os amigos.
“Quando nós fumamos cinco, bomba aqui. Gostei da maconha até a primeira vez. Quando chego alguém com maconha, eu fumo”, diz.
O consumo de álcool e drogas potencializa a violência. Quando a equipe do Fantástico estava na aldeia Bororó, a índia Márcia Soares Isnardi, de 21 anos, tinha morrido apedrejada. O corpo foi encontrado no dia seguinte na beira da estrada.
“Ela estava tomando bebida alcoólica na casa da mãe dela. E de lá ela subiu para cá. E acabou morrendo no meio da estrada”, lembra o cacique e tio da índia morta, César Isnardi.
Quem sobrevive aos ataques violentos não esconde a tristeza. A índia Lucilene levou uma facada no rosto, quando o marido chegou em casa drogado. “Meu marido me batia porque ele fumava maconha. Fumava e bebia. Fumava droga”, conta.
Nas aldeias não há nenhum tipo de policiamento preventivo. Mas as autoridades têm conhecimento do que acontece por lá.
“Esse tráfico de drogas é o carro chefe de uma série de outros delitos que são consequência: violência doméstica, furtos, roubos”, comenta Antônio Carlos Sanches, delegado da Polícia Federal.
Uma vez por semana, pais de família se unem e vão para as ruas em um patrulhamento comunitário na aldeia.
“Eu peguei um menininho com 14 anos, drogado, louco. O que vai acontecer com esse menor?”, questiona diz uma mulher.
Não muito longe dali, no município de Ponta Porã, as adolescentes indígenas são as principais vítimas da desestruturação familiar das aldeias. Na fronteira entre Brasil e Paraguai, no município de Pedro Juan Caballero, do lado brasileiro, há vários pontos de prostituição de adolescentes, inclusive indígenas. A Iraci faz parte do Conselho Tutelar de Ponta Porã.
“A nossa divisa é só uma rua. E os adolescentes das aldeias que vêm se prostituir sabem desse limite nosso de autoridade aqui. Atravessou para lá, o conselho não pode fazer mais nada”, diz Iraci de Oliveira.
Uma índia tem 17 anos. Ela conta que se prostitui para comprar comida.
Repórter: O que você faz aqui no asfalto?
Índia: Passear.
Repórter: Passear é o quê?
Índia: Procurar dinheiro.
Repórter: Como que ganha dinheiro aqui?
Índia: Fazer programa.
Repórter: Quanto você ganha a cada programa que você faz?
Índia: R$ 30, R$ 40.
Repórter: O que você faz com o dinheiro?
Índia: Fazer comida.
Repórter: A sua mãe sabe que você está aqui?
Índia: Sabe.
Repórter: O que ela diz?
Índia: Vai procurar dinheiro.
Repórter: Ela sabe que você faz sexo?
Índia: Sabe.
Outra menor guarani, do início da reportagem, tenta se recuperar do trauma de ter sido vendida pelo pai ao dono de uma olaria por R$ 2 mil e mais uma antena parabólica.
Repórter: E aí você foi para a casa deste homem? E o que você sentiu?
Índia: Senti medo. Só sabia gritar.
Repórter: E o que ele falava?
Índia: Que ia transar comigo e me abusou.
Nós procuramos o homem que teria comprado a menina, mas ele não foi encontrado.
A Índia, hoje com 15 anos, vive em uma casa de proteção ao adolescente. Ela diz que não quer voltar a viver na aldeia. Vai se dedicar aos estudos e quer ser professora. “Eu quero ser alguém na vida, ter uma profissão”, diz.
“Solucionando a questão das terras, a gente cria um ambiente favorável para diminuir essa situação de violência que acontece tanto dentro das comunidades como também contra os próprios indígenas”, aponta Marcio Meira, presidente da FUNAI.
E os guarani ainda mantêm a tradição das casas de reza. Seu Getúlio diz todos os dias que pede aos deuses para pedir proteção e paz nas aldeias.
Visite o site do Globo Natureza
Na região de Dourados, em Mato Grosso do Sul, na fronteira com o Paraguai, vivem índios guaranis kaiowás e terenas, que estão entre os povos mais ameaçados do Brasil. O Fantástico foi a uma das oito reservas criadas em Mato Grosso do Sul por volta de 1920 com o discurso de integrar a população indígena à sociedade. Famílias inteiras foram retiradas das áreas de origem e levadas para lá. Acostumados com muito espaço, os índios tiveram que se adaptar a uma nova realidade.
Só nas aldeias Jaguapirú e Bororó são cerca de 12 mil índios guaranis em uma área que fica praticamente dentro da cidade de Dourados. Falta espaço para plantar.
“Nossa dificuldade é para plantar. Tem pouco. Não tem casa boa. Não tem luz. Tem dificuldade até para comida”, lamenta a índia Élvia Araújo.
Mas o principal problema é a violência.
Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena do Brasil. Segundo o Ministério Público Federal, a taxa de homicídio entre os guarani-kaiowá do estado é de cem para cada 100 mil habitantes, quatro vezes a média nacional.
“Um índice superior ao do próprio Iraque. Você tem uma população submetida a um índice de violência extremo”, aponta o procurador da República Marco Antônio Delfino de Almeida.
A proximidade com os brancos trouxe para as aldeias muito mais do que um novo idioma. De carona vieram o álcool, a maconha, a cocaína. Até a droga mais devastadora do momento já chegou por aqui.
“Aqui está rolando de tudo, já. Crack, maconha e até cocaína”, alerta a vice-líder da aldeia, Leomar da Silva, vice-líder da aldeia.
Uma índia de apenas 14 anos diz que está acostumada a fumar maconha com os amigos.
“Quando nós fumamos cinco, bomba aqui. Gostei da maconha até a primeira vez. Quando chego alguém com maconha, eu fumo”, diz.
O consumo de álcool e drogas potencializa a violência. Quando a equipe do Fantástico estava na aldeia Bororó, a índia Márcia Soares Isnardi, de 21 anos, tinha morrido apedrejada. O corpo foi encontrado no dia seguinte na beira da estrada.
“Ela estava tomando bebida alcoólica na casa da mãe dela. E de lá ela subiu para cá. E acabou morrendo no meio da estrada”, lembra o cacique e tio da índia morta, César Isnardi.
Quem sobrevive aos ataques violentos não esconde a tristeza. A índia Lucilene levou uma facada no rosto, quando o marido chegou em casa drogado. “Meu marido me batia porque ele fumava maconha. Fumava e bebia. Fumava droga”, conta.
Nas aldeias não há nenhum tipo de policiamento preventivo. Mas as autoridades têm conhecimento do que acontece por lá.
“Esse tráfico de drogas é o carro chefe de uma série de outros delitos que são consequência: violência doméstica, furtos, roubos”, comenta Antônio Carlos Sanches, delegado da Polícia Federal.
Uma vez por semana, pais de família se unem e vão para as ruas em um patrulhamento comunitário na aldeia.
“Eu peguei um menininho com 14 anos, drogado, louco. O que vai acontecer com esse menor?”, questiona diz uma mulher.
Não muito longe dali, no município de Ponta Porã, as adolescentes indígenas são as principais vítimas da desestruturação familiar das aldeias. Na fronteira entre Brasil e Paraguai, no município de Pedro Juan Caballero, do lado brasileiro, há vários pontos de prostituição de adolescentes, inclusive indígenas. A Iraci faz parte do Conselho Tutelar de Ponta Porã.
“A nossa divisa é só uma rua. E os adolescentes das aldeias que vêm se prostituir sabem desse limite nosso de autoridade aqui. Atravessou para lá, o conselho não pode fazer mais nada”, diz Iraci de Oliveira.
Uma índia tem 17 anos. Ela conta que se prostitui para comprar comida.
Repórter: O que você faz aqui no asfalto?
Índia: Passear.
Repórter: Passear é o quê?
Índia: Procurar dinheiro.
Repórter: Como que ganha dinheiro aqui?
Índia: Fazer programa.
Repórter: Quanto você ganha a cada programa que você faz?
Índia: R$ 30, R$ 40.
Repórter: O que você faz com o dinheiro?
Índia: Fazer comida.
Repórter: A sua mãe sabe que você está aqui?
Índia: Sabe.
Repórter: O que ela diz?
Índia: Vai procurar dinheiro.
Repórter: Ela sabe que você faz sexo?
Índia: Sabe.
Outra menor guarani, do início da reportagem, tenta se recuperar do trauma de ter sido vendida pelo pai ao dono de uma olaria por R$ 2 mil e mais uma antena parabólica.
Repórter: E aí você foi para a casa deste homem? E o que você sentiu?
Índia: Senti medo. Só sabia gritar.
Repórter: E o que ele falava?
Índia: Que ia transar comigo e me abusou.
Nós procuramos o homem que teria comprado a menina, mas ele não foi encontrado.
A Índia, hoje com 15 anos, vive em uma casa de proteção ao adolescente. Ela diz que não quer voltar a viver na aldeia. Vai se dedicar aos estudos e quer ser professora. “Eu quero ser alguém na vida, ter uma profissão”, diz.
“Solucionando a questão das terras, a gente cria um ambiente favorável para diminuir essa situação de violência que acontece tanto dentro das comunidades como também contra os próprios indígenas”, aponta Marcio Meira, presidente da FUNAI.
E os guarani ainda mantêm a tradição das casas de reza. Seu Getúlio diz todos os dias que pede aos deuses para pedir proteção e paz nas aldeias.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Atual direção da Funai arrasa AER Goiânia
O famigerado Decreto 7506/09, que pretendeu fazer uma nova estruturação da Funai, em voga desde 29 de dezembro de 2009, fez estragos por toda parte do mundo indígena. As administrações regionais da Funai estão sentindo suas repercussões ainda hoje, e esse desvario terminará criando um tsunami indigenista contra quem concebeu esse decreto e contra quem o está implementando na marra.
Já falamos desse Decreto de muitos modos. Recordemos alguns pontos fundamentais.
Em primeiro lugar, o Decreto 7506/09 extinguiu todos os postos indígenas, sob a justificativa de que eram um resquício da era rondoniana, uma política indigenista rejeitada porque vista como inadequada aos tempos neoliberais, daí sua substituição pelo termo anódino "coordenação técnica local", e que sua presença em terra indígena constituía uma atitude de proteção descabida aos povos indígenas. Agora os funcionários estão nas cidades, e os índios, quando precisam de qualquer apoio, vão às cidades à procura da Funai. Lá, em suas aldeias, ficam a Funasa, com seu indigesto indigenismo sanitário, as escolas dirigidas pelas professoras dos municípios, e os funcionários de municípios ou de ONGs que não deixam de aproveitar alguma coisa que pode vir dos índios: uma verbinha de algum ministério que eles trouxeram, ou uma boa verba de um projetinho obtida de alguma ONG estrangeira. A Funai não sabe mais do que acontece nas terras indígenas, a não ser via os experientes indigenistas e servidores que sentem no ar o processo de mudanças radicais que estão acontecendo com incrível rapidez.
Em segundo lugar, o Decreto extinguiu 24 administrações regionais da Funai, sendo que 10 delas foram substituídas por outras em cidades vizinhas (Redenção por Tucumã; João Pessoa por Fortaleza; Bauru por Itanhaém, etc.), enquanto algumas foram rebaixadas ao nível de "coordenações técnicas locais" (vide Recife, João Pessoa, São Luís, Curitiba, Porto Seguro, etc.), outras ao nível de "frente etno-ambiental" (vide o escandaloso caso de Altamira).
Porém, o caso mais escabroso, mais deletério, mais anti-administrativo, mais vingativo que se viu nesse Decreto de desestruturação da Funai foi o arraso que se fez da antiga e indigenisticamente sólida AER Goiânia, que não somente foi extinta como nem ficou para semente como uma simples coordenação técnica local.
Para atender aos povos indígenas que eram assistidos por Goiânia -- formalmente os índios Tapuios, Avá-Canoeiro e Karajá do Aruanã, mas verdadeiramente, uma gama de comunidades xavante e de outros povos que passavam por Goiânia -- foi criada, ao invés, uma tal coordenação técnica na cidade de Goiás Velho, cidade que nunca teve tradição de indigenismo, tampouco de administração indigenista. Até hoje os indígenas que eram assistidos por Goiânia estão ao deus-dará. Os Avá-Canoeiro da região norte do estado, no município de Minaçu, oito deles, tão-somente, a semente de uma possível reconstituição de um dos povos mais valentes que já houve na história do Brasil, os Avá-Canoeiro estão hoje à mercê de todas as possibilidades de invasão de suas terras e de falta de assistência indigenista. Não fosse, até agora, a dedicação voluntária de um respeitado indigenista de alta cepa, Walter Sanchez, que ainda está por lá, sem nenhuma orientação formal do órgão.
Já os Xavante, que sempre viram em Goiânia uma orientação para encontrar meios de avanço político e econômico, perderam a paciência com as últimas decisões da atual direção da Funai e estão agora prontos a tomar em suas mãos decisões mais drásticas do que até agora vinham fazendo. Eles não esquecem que foi de Goiânia, da sua liderança indigenista maior, que partiu a mais dedicada ação indigenista dos últimos dez anos, qual seja a retomada da Terra Indígena Marãiwatsede, dos índios Xavante. Os Xavante liderados pelo cacique Damião fizeram uma gloriosa retomada, que um dia será contada como uma saga indígena, mas, no seu auxílio, na sua retaguarda, estavam as figuras principais do indigenismo da AER Goiânia. Todos sabem disso e isso não pode ser esquecido.
Pois bem, para arrasar, queimar e jogar sal sobre a AER Goiânia, a atual direção da Funai mandou retirar todo o mobiliário da sede da AER de Goiânia, o que os seus servidores não deixaram fazer. Semana passada jogaram o sal ao publicar em boletim interno da Funai a transferência de todos os funcionários da AER Goiânia, desde o seu principal administrador -- enviado para o Alto Solimões !! -- até os motoristas e funcionários, enviados para administrações em Mato Grosso, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Brasília!
Este Blog tem acompanhado a luta destemida dos servidores de Goiânia pela preservação de sua administração. Apelaram para os políticos locais de todos os partidos, inclusive do PT, que os apoiaram; apelaram para o governador e para o prefeito da cidade, que inclusive os apoiaram; apelaram para o arcebispo de Goiânia e para o bispo indigenista Dom Tomás Balduíno, que inclusive os apoiaram escrevendo cartas ao presidente.
Debalde. O presidente não demonstrou qualquer simpatia.
Neste último ano e um mês, os funcionários de Goiânia trabalharam dando plantão no órgão, batendo ponto, demonstrando estar em serviço -- sem que ninguém da atual direção da Funai tenha proferido uma instrução -- a não ser determinar sua retirada e agora a transferência sumária de seus funcionários.
Este Blog quer demonstrar sua solidariedade com os intrépidos e invencíveis servidores da AER Goiânia.
Eles não desistiram.
Já falamos desse Decreto de muitos modos. Recordemos alguns pontos fundamentais.
Em primeiro lugar, o Decreto 7506/09 extinguiu todos os postos indígenas, sob a justificativa de que eram um resquício da era rondoniana, uma política indigenista rejeitada porque vista como inadequada aos tempos neoliberais, daí sua substituição pelo termo anódino "coordenação técnica local", e que sua presença em terra indígena constituía uma atitude de proteção descabida aos povos indígenas. Agora os funcionários estão nas cidades, e os índios, quando precisam de qualquer apoio, vão às cidades à procura da Funai. Lá, em suas aldeias, ficam a Funasa, com seu indigesto indigenismo sanitário, as escolas dirigidas pelas professoras dos municípios, e os funcionários de municípios ou de ONGs que não deixam de aproveitar alguma coisa que pode vir dos índios: uma verbinha de algum ministério que eles trouxeram, ou uma boa verba de um projetinho obtida de alguma ONG estrangeira. A Funai não sabe mais do que acontece nas terras indígenas, a não ser via os experientes indigenistas e servidores que sentem no ar o processo de mudanças radicais que estão acontecendo com incrível rapidez.
Em segundo lugar, o Decreto extinguiu 24 administrações regionais da Funai, sendo que 10 delas foram substituídas por outras em cidades vizinhas (Redenção por Tucumã; João Pessoa por Fortaleza; Bauru por Itanhaém, etc.), enquanto algumas foram rebaixadas ao nível de "coordenações técnicas locais" (vide Recife, João Pessoa, São Luís, Curitiba, Porto Seguro, etc.), outras ao nível de "frente etno-ambiental" (vide o escandaloso caso de Altamira).
Porém, o caso mais escabroso, mais deletério, mais anti-administrativo, mais vingativo que se viu nesse Decreto de desestruturação da Funai foi o arraso que se fez da antiga e indigenisticamente sólida AER Goiânia, que não somente foi extinta como nem ficou para semente como uma simples coordenação técnica local.
Para atender aos povos indígenas que eram assistidos por Goiânia -- formalmente os índios Tapuios, Avá-Canoeiro e Karajá do Aruanã, mas verdadeiramente, uma gama de comunidades xavante e de outros povos que passavam por Goiânia -- foi criada, ao invés, uma tal coordenação técnica na cidade de Goiás Velho, cidade que nunca teve tradição de indigenismo, tampouco de administração indigenista. Até hoje os indígenas que eram assistidos por Goiânia estão ao deus-dará. Os Avá-Canoeiro da região norte do estado, no município de Minaçu, oito deles, tão-somente, a semente de uma possível reconstituição de um dos povos mais valentes que já houve na história do Brasil, os Avá-Canoeiro estão hoje à mercê de todas as possibilidades de invasão de suas terras e de falta de assistência indigenista. Não fosse, até agora, a dedicação voluntária de um respeitado indigenista de alta cepa, Walter Sanchez, que ainda está por lá, sem nenhuma orientação formal do órgão.
Já os Xavante, que sempre viram em Goiânia uma orientação para encontrar meios de avanço político e econômico, perderam a paciência com as últimas decisões da atual direção da Funai e estão agora prontos a tomar em suas mãos decisões mais drásticas do que até agora vinham fazendo. Eles não esquecem que foi de Goiânia, da sua liderança indigenista maior, que partiu a mais dedicada ação indigenista dos últimos dez anos, qual seja a retomada da Terra Indígena Marãiwatsede, dos índios Xavante. Os Xavante liderados pelo cacique Damião fizeram uma gloriosa retomada, que um dia será contada como uma saga indígena, mas, no seu auxílio, na sua retaguarda, estavam as figuras principais do indigenismo da AER Goiânia. Todos sabem disso e isso não pode ser esquecido.
Pois bem, para arrasar, queimar e jogar sal sobre a AER Goiânia, a atual direção da Funai mandou retirar todo o mobiliário da sede da AER de Goiânia, o que os seus servidores não deixaram fazer. Semana passada jogaram o sal ao publicar em boletim interno da Funai a transferência de todos os funcionários da AER Goiânia, desde o seu principal administrador -- enviado para o Alto Solimões !! -- até os motoristas e funcionários, enviados para administrações em Mato Grosso, Rondônia, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Brasília!
Este Blog tem acompanhado a luta destemida dos servidores de Goiânia pela preservação de sua administração. Apelaram para os políticos locais de todos os partidos, inclusive do PT, que os apoiaram; apelaram para o governador e para o prefeito da cidade, que inclusive os apoiaram; apelaram para o arcebispo de Goiânia e para o bispo indigenista Dom Tomás Balduíno, que inclusive os apoiaram escrevendo cartas ao presidente.
Debalde. O presidente não demonstrou qualquer simpatia.
Neste último ano e um mês, os funcionários de Goiânia trabalharam dando plantão no órgão, batendo ponto, demonstrando estar em serviço -- sem que ninguém da atual direção da Funai tenha proferido uma instrução -- a não ser determinar sua retirada e agora a transferência sumária de seus funcionários.
Este Blog quer demonstrar sua solidariedade com os intrépidos e invencíveis servidores da AER Goiânia.
Eles não desistiram.
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