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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Índios Pataxó apelam ao Papa Bento XVI para mudar a FUNAI

O desespero dos índios Pataxó do Sul da Bahia, região de Porto Seguro, é tão grande que eles resolveram fazer um apelo por carta ao Papa Bento XVI.

Sem ajuda de ninguém, nem do CIMI, que nesse momento olha para o outro lado desse apelo, e está do lado dos desmandos da atual direção da FUNAI.

São os Pataxó da região da veneranda Aldeia Barra Velha e da Coroa Vermelha que fazem o apelo ao Papa.

Será que o Papa os ouvirá? Pois nesse mundo de César só há ouvidos de mercador

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Povo Indígena Pataxó do Extremo Sul da Bahia

Carta dirigida a sua Santidade
Papa Bento XVI

      Inicialmente expressamos a nossa consideração a esta autoridade pela preocupação com que sua santidade tem demonstrado junto a população mundial a qual tem sofrido com inúmeras calamidades. Em seguida encaminhamos este documento cujo teor retrata a situação em tempo real que os Povos Indígenas são tratados neste país chamado Brasil onde as atrocidades cometidas conta nós indígenas, equivale ao sofrimento vivido por tantos outros Povos e Nações deste mundo.

     Aqui, especificamente, iremos tratar do Povo Indígena Pataxó no contexto histórico, geográfico, político e social que fomos submetidos ao longo dos séculos, e ao final, requerer do VATICANO uma intermediação junto a Presidente do Brasil DILMA ROUSSEF com destaque aos abusos cometidos contra os índios e suas comunidades praticados direta e indiretamente tanto por agentes do governo Brasileiro, quanto pela falta de uma política indigenista séria, esclarecedora, comprometida e eficaz que possa executar as determinações estabelecidas na convenção 169 e na constituição Federal Brasileira, onde na Política, venha garantir os direitos fundamentais do nosso povo.

      É lamentável que na Sociedade Brasileira fundamentada no legado do regime Democrático, ainda existam setores que usam de influência econômica e política para manipular a realidade que vivem os verdadeiros donos desta TERRA. Nós os Pataxó somos os protagonistas do infeliz encontro ocorrido há 511 anos conforme descreve (VAZ DE CAMINHA).

      É neste local denominado Coroa Vermelha ou Ilhéu da Coroa Vermelha que foi celebrada a Primeira Missa em solo brasileiro.Entretanto, somos subjugados pelo colonizador capitalista que insistem com argumentos levianos em negar a nossa história. A nossa luta permanente é para retornar os nossos territórios tradicionais e imemoriais que ao longo dos tempos foram saqueados por um sistema tecnocrata que agem em nome de um desenvolvimento progressista mesmo que isso tenha custado a vida dos nossos antepassados e de muitos guerreiros da presente geração. Fomos expulsos de nossos territórios e como resultado social tivemos que passar por um doloroso processo de transformações que afeta nossa população até os dias atuais refletindo no empobrecimento, fragmentação cultural, perda de costumes, dialetos e tradições.

          Atualmente, por ocasião da nossa persistência em defender a nossa luta, estamos atravessando uma truculenta perseguição que se inicia pela falta de interesse do órgão indigenista oficial em demarcar e proteger as nossas terras e se estender aos demais setores públicos e privados que é o caso da Policia Federal e dos Fazendeiros que tentam a todo custo incriminar Lideranças Indígenas com o intuito de amedrontar as pessoas e paralizar a nossa luta pela terra.Queremos aqui denunciar os assassinatos de vários lideres indígenas pataxó quanto de outras etnias;prisões arbitrarias, maus tratos, perseguições, preconceito e tantas outras mazelas que é do conhecimento do Governo Brasileiro, entretanto nada tem sido feito para resolver esse massacre contra o nosso povo.

          Hoje, somos 15.000 indios pataxó.A situação é de extrema miséria, falta espaço físico para desenvolver as atividades produtivas, culturais, ambientais e reprodução física.Os nossos jovens se envolvem com diversas atividades ilícitas a exemplo de drogas, prostituição etc....por falta de demarcação das terras não podemos desenvolver projetos de etnodesenvolvimento voltados a sustentabilidade alimentar e econômica do grupo indígena. A situação é de extrema preocupação. A população não dispõe de mão-de-obra qualificado, portanto mantem o sustento  precário das famílias com atividades sazonais. A violência contra os povos indígenas parece não ter nenhum eco na FUNAI em Brasília-DF, pois todos os dias denunciamos essas ocorrências e esse órgão tem dificultado a sua atuação junto aos povos indígenas falta pessoal preparado, falta condições materiais, falta recursos físicos e financeiros, falta vontade política, enfim, é uma situação que na pratica não tem surtido nenhum efeito em defesa dos Direitos Indígenas. A situação é de calamidade, e por isso resolvemos solicitar a interferência do VATICANO em nome do Povo Indígena Pataxó do Extremo sul da Bahia, se estendendo aos demais irmãos indígenas da Bahia e do Brasil que passam as mesmas dificuldades.Nosso Povo encontra-se em situação de risco social.

          Gostaríamos imensamente de sua santidade uma resposta ao nosso clamor uma vez que ao encaminhar este documento a mais elevada autoridade mundial, tem a esperança de as injustiças cometidas contra a população indígena, serem tratada com interesse humanitário em nosso país.

          Suplicamos ainda por um dialogo permanente entre os  representantes de sua santidade, o governo brasileiro e nós indígenas no objetivo de resolver os problemas e acabar com a perseguição ao nosso povo.


Agradecemos a atenção
E aguardamos comunicação


Atenciosamente

Povo Pataxó do Extremo Sul da Bahia

(seguem assinaturas)

segunda-feira, 4 de junho de 2007

CIMI, FUNAI e Igreja Católica: Por que os índios foram esquecidos?

Matéria um pouco atrasada saiu hoje na Revista CartaCapital. Trata da recusa dos auxiliares do Papa em não fazê-lo receber delegação de índios, como tinha acontecido em duas vezes em que aqui esteve o Papa João Paulo II.

Não se sabe se o Papa atual não recebeu os índios porque não quer saber deles ou porque não quer saber do CIMI, que tem conflitos até com a própria Igreja. Ao final, os índios é que ficaram esquecidos, conclui a matéria.

A reportagem aproveita a deixa para falar da relação do CIMI com a FUNAI e cita todos os dados de mortes de índios que o CIMI atribui ao problema da terra. Seu principal ideólogo, Paulo Suess, adverte que a catequese não está na pauta, e sim a questão da terra. A reportagem não demonstra conhecer a história do CIMI para saber porque é que nos últimos anos ele tem sido tão acusatório.

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Os esquecidos

por Leandro Fortes

Missionários ligados à causa indígena e à Teologia da Libertação são excluídos das audiências com Bento XVI

Vida ameaçada Pela primeira vez, uma visita do papa ao Brasil não contou com uma delegação indígena no comitê de recepção ou na agenda de encontros preparada em conjunto pelo Vaticano e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A exclusão dos índios do comitê de recepção de Bento XVI teve como alegação formal as dificuldades de agenda do líder da Igreja Católica.

Tratou-se, na verdade, de uma estratégia dos organizadores para evitar levar ao papa as crises de varejo do catolicismo brasileiro, sobretudo as ligadas à Teologia da Libertação. A questão indígena é tratada, no âmbito da CNBB, pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entidade de atuação bastante crítica, tanto em relação à Igreja quanto ao governo federal.

O máximo de participação indígena conseguido pelo Cimi foi a inserção de 50 jovens descendentes de índios, moradores da periferia de São Paulo, na multidão de quase 40 mil fiéis que lotou o estádio do Pacaembu, na quinta-feira 10, durante o encontro de Bento XVI com a juventude católica. Do grupo de índios, dois foram selecionados para participar das leituras das preces. A dupla pertence aos povos potiguara e pankararu.

Entre os religiosos presentes à conferência estará o presidente do Cimi, Erwin Krautler, 67 anos, bispo do Xingu. Nascido na Áustria, mas naturalizado brasileiro, ele vive na Amazônia há 41 anos, onde incomoda grileiros e fazendeiros envolvidos em invasão de terras. Sob constante ameaça de morte, é obrigado a conviver com uma escolta permanente de dois policiais militares. Ligado à Teologia da Libertação, sabe que Bento XVI não compartilha das mesmas idéias dele, mas espera sensibilizar o papa com as informações levantadas pelo Conselho. "O papa é um bom ouvinte", costuma dizer.

Os missionários querem fazer chegar ao papa o quadro geral da política indigenista brasileira e denunciar violações de direitos humanos promovidas contra os povos indígenas no País. Mostrar, por exemplo, que, desde a madrugada de 20 de abril de 1997, quando Galdino Pataxó Hã-Hã-Hãe foi queimado vivo por jovens de classe média de Brasília, até março de 2007, mais de 270 indígenas foram assassinados no Brasil, segundo levantamento do Cimi. A falta de terras ou as disputas pela posse e pelos recursos naturais nelas existentes são responsáveis por grande parte das mortes.

Assessor teológico do Cimi, Paulo Suess lamenta a falta de esforço do papa Bento XVI para receber lideranças indígenas ao visitar o Brasil. Segundo ele, é uma deferência histórica importante e simbólica, da qual o pontífice não deveria ter aberto mão por causa de dificuldades de agenda, segundo justificativa da organização da visita, sob responsabilidade da CNBB. "É como ir à África e não receber as lideranças negras", compara. "Por isso, a questão indígena, para o papa, vai ficar genericamente colocada", diz.

Suess posicionou-se contra a participação de jovens descendentes de índios no encontro com o papa, no Estádio do Pacaembu. Sobretudo, a inclusão dos dois representantes no grupo de leitura de preces. "Fazer preces pré-formuladas não faz sentido, passa uma impressão colonialista", avalia o teólogo. Para ele, o mais importante é marcar posição sobre os conflitos de terra e o lugar do catolicismo no conflito. "A luta pela terra faz parte da evangelização", explica. "No momento, a catequese não é tão importante."

Em 2006, somente no Mato Grosso do Sul, a média de morte foi de mais de um indígena por semana, com um total de 50 durante o ano. Lá, no ano passado, ocorreram 21 assassinatos, 20 suicídios e 9 atropelamentos, todos noticiados pelos jornais do estado. Os conflitos na região são provocados, basicamente, pela falta de terra. A realidade tanto tem provocado uma guerra generalizada contra invasores como tem aumentado as tensões internas nas comunidades, causadas pelo confinamento em espaços exíguos, principal razão dos suicídios.

De acordo com o Cimi, hoje, no Brasil, há pelo menos 272 territórios reivindicados por povos indígenas que nem sequer são considerados como demandas para demarcação pela Fundação Nacional do Índio (Funai). O Conselho alega que a Funai não cumpre a função de receber e encaminhar as demandas fundiárias indígenas. Essa, aliás, é a única função do órgão, uma vez que, a partir da década de 1990, o atendimento à saúde e à educação passou à competência dos ministérios responsáveis pelas áreas. Nos últimos quatro anos, diminuiu a criação de grupos de trabalho de identificação de novas terras indígenas, apesar de existir um grande número de áreas a ser regularizadas.

A Funai diz que os dados do CIMI não são corretos. Segundo a assessoria de imprensa da fundação, há 111 áreas em estudo e 392 registradas pela autarquia.

A comunidade indígena e os movimentos indigenistas esperavam coincidir a visita do papa com o julgamento, no Supremo Tribunal Federal, do mandado de segurança responsável pela impugnação da demarcação da terra Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em 4 de maio, o ministro Carlos Ayres Brito, relator do caso, concedeu uma liminar a arrozeiros ainda instalados na região, de 1,7 milhão de hectares. Mas, em seguida, encaminhou o processo para votação em plenário. A decisão do ministro, válida até julgamento do mérito, vai contra notificação da Funai, que havia determinado a desocupação da área até 30 de abril. A inclusão da ação na pauta do STF depende, agora, da presidente do Tribunal, a ministra Ellen Gracie Northfleet.

Também está sob responsabilidade de Ellen Gracie a retomada do processo de homologação da Jacaré de São Domingos, localizada na Paraíba. Iniciado em 5 de outubro de 2005, o julgamento foi interrompido, há 18 meses, por conta de um pedido de vistas do ministro Gilmar Mendes. Somente em 30 de abril deste ano, Mendes devolveu à presidência do STF o mandado de segurança responsável pela impugnação da Jacaré de São Domingos, tradicionalmente ocupada por comunidades potiguaras. A devolução dos autos do processo foi o primeiro passo para a continuidade do julgamento, reivindicado pelas lideranças indígenas e por movimentos de luta pelos direitos humanos.

O precedente aberto pelo resultado do julgamento do mandado de segurança da Jacaré de São Domingos servirá de jurisprudência para os processos referentes à Raposa Serra do Sol e também à terra Ñande Ru Marangatu, do povo guarani-kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Nos três processos, está em discussão a competência do presidente da República de poder ou não homologar a demarcação de terras indígenas com procedimento administrativo ainda submetido à apreciação judicial em ação ordinária. Um documento específico sobre o tema foi entregue, durante as manifestações do chamado Abril Indígena, há menos de um mês, à presidência do STF.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Repercussões negativas das declarações do Papa Bento XVI

Notícias Papais 4

Nesta reportagem do Diário de Cuiabá saem novas entrevistas com líderes indígenas, inclusive os Makuxi do CIR, que têm uma ligação tão estreita com a Igreja Católica. Eles pôem o CIMI na fogueira das críticas ao Papa, e o seu conselheiro teológico, Paulo Suess, declara-se aborrecido com as declarações do Padre. Já alguns bispos desculpam a frase papal alegando que ele não veio ao Brasil para pôr uma camisa de força na Igreja.

Enfim, vale ler a matéria, bastante ampla.
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Declaração de papa ofende índios

Líderes indígenas disseram, ontem, ter ficado ofendidos pelas declarações "arrogantes e desrespeitosas" do papa Bento 16, de que a Igreja Católica os havia purificado, e que retomar suas religiões originais seria um retrocesso. Num discurso para os bispos latino-americanos e do Caribe no encerramento de sua visita ao Brasil, o pontífice afirmou que a Igreja não havia se imposto aos povos indígenas das Américas. Segundo o papa, os índios receberam bem os padres europeus, já que "Cristo era o salvador que esperavam silenciosamente".

Acredita-se que milhões de índios tenham morrido no continente americano em conseqüência da colonização européia, depois da chegada de Cristóvão Colombo, em 1492.

"É arrogante e desrespeitoso considerar nossa herança cultural menos importante que a deles", disse Jecinaldo Satere Mawe, coordenador-chefe da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).

Vários grupos indígenas escreveram uma carta para o papa na semana passada pedindo o apoio dele na defesa de suas terras e de sua cultura. Eles disseram que os índios vêm sofrendo um "processo de genocídio" desde a chegada dos colonizadores europeus.

Os conquistadores contavam com a bênção dos sacerdotes católicos, embora alguns destes depois tenham defendido os índios e muitos hoje estão entre os mais eloqüentes aliados dos índios.

"O Estado usou a Igreja para fazer o trabalho sujo na colonização dos índios, mas eles já pediram perdão ... quer dizer que o papa está voltando atrás com a palavra da Igreja?", questionou Dionito José de Souza, líder da tribo Makuxi, de Roraima.

Em 1992, o papa João Paulo II falou dos erros na evangelização dos povos nativos das Américas.

As declarações do papa Bento XVI não desagradaram só aos índios, mas também aos padres católicos que os apóiam em sua luta, disse Sandro Tuxa, que comanda o movimento das tribos do Nordeste.

"Repudiamos as declarações do papa. Dizer que a dizimação cultural de nosso povo representa uma purificação é ofensivo e, francamente, assustador", disse Tuxa.

"Acho que (o papa) tem sido mal assessorado", acrescentou.

O próprio grupo católico que defende os índios no Brasil, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), distanciou-se do papa.

"O papa não entende a realidade dos índios daqui, sua declaração foi equivocada e indefensável", disse à Reuters o padre Paulo Suess. "Eu também fiquei aborrecido".

"CAMISA DE FORÇA"

O presidente do Departamento de Comunicação da 5ª Celam (Conferência Geral do Episcopado Latino-americano), monsenhor Baltazar Porras Cardozo, arcebispo de Mérida (Venezuela), disse ontem o papa Bento 16 não veio ao Brasil para colocar uma "camisa de força" na Igreja Católica ou nas discussões da conferência.

"As palavras iniciais do sumo pontífice na 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-americano marcou um momento importante porque não foi o que muitas vezes se pensa: uma camisa de força que o papa veio pôr nos bispos que estão reunidos. Pelo contrário, veio apresentar um desafio à igreja, ao continente e aos seus pastores com grande sentido de valor e fraternidade. Ele fez uma grande reflexão que indica um grande conhecimento dos problemas do nosso continente de maneira bastante afetuosa", afirmou.

O presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), d. Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo de Mariana (MG), disse concordar "plenamente" com as palavras do monsenhor Baltazar.

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Notícias Papais 3

Nesta matéria de O Globo, Dom Geraldo Majella, ex-presidente da CNBB, defende a Igreja Católica quanto à discriminação de negros. Diz que 80% dos seus seminaristas são negros e ressalva, um tanto imprudentemente, que se alguma dúvida houvesse, que "eles são inteligentes". A questão indígena não é tocada, mas, no fundo, está respondendo aos críticos do Santo Padre.

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D. Geraldo Majella: 'No meu seminário 80% são negros e são inteligentes'

Arcebispo de Salvador nega que haja discriminação racial na Igreja

Adauri Antunes Barbosa e Flávio Freire

Enviados especiais APARECIDA (SP). Ao comentar o desequilíbrio existente no episcopado brasileiro, que tem apenas 11 negros em cerca de 400 bispos, o cardeal Geraldo Majella Agnelo, arcebispo de Salvador e ex-presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disse ontem que não há discriminação racial por parte da Igreja. Segundo ele, na Bahia, onde mora, 80% dos seminaristas "são negros e inteligentes".

- Não há, da parte da Igreja, discriminação. No Brasil, uma boa parte da população é de origem e tem sangue (africano).

Ainda que a cor externa, digamos, seja branca, existe uma presença africana. Mas não podemos deixar de tratar, de estudar, e ver se no Brasil ainda existe realmente preconceito. Os negros são muito inteligentes. Sou de Salvador e no meu seminário 80% são de origem africana e são inteligentes. Mas é um povo que ainda traz marcas do tempo da escravidão, aquela herança, e isso tem que ser levado em consideração para que sejam tratados bem - disse dom Geraldo Majella.

Dom Geraldo: João Paulo II já pediu perdão aos índios

O novo presidente da CNBB, dom Geraldo Lyrio Rocha, arcebispo nomeado de Mariana (MG), entrou na polêmica sobre a evangelização dos índios latinoamericanos. Segundo ele, os povos indígenas assumiram a fé cristã e a "reinterpretaram em uma perspectiva aculturada".

Mas, observou, o Papa João Paulo II já havia pedido perdão aos negros e aos índios pelos erros cometidos pela Igreja ao longo dos séculos: - Isso não quer dizer que o processo de evangelização que se fez no contexto da colonização não tenha tido também seus problemas, suas ambigüidades.

Inclusive o Papa João Paulo II pediu perdão aos negros e aos índios pelas falhas cometidas. Claro que o Papa Bento XVI não se colocou contra essa perspectiva de João Paulo II, mas ele chamou a atenção para um outro aspecto que é exatamente o processo que se deu ao longo dos cinco séculos de assimilação e incorporação na forma aculturada, como nós temos em tantas outras formas na América Latina.

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Notícias Papais 2

Neste matéria da Folha de São Paulo, antropólogos, historiadores e filósofos, além do coordenador da Coiab, fazem declarações contrárias à do Papa sobre a imposição cultural da colonização sobre os índios. Porém, a declaração papal é defendida por um bispo e sua crítica ao capitalismo e ao marxismo é apoiada por um teólogo laico. Enfim, o Papa veio para confundir. De minha parte estou lendo seu livro de entrevistas "Sal da Terra" para tentar compreender melhor suas posições. Alguém não pode ser tão conservador assim por motivos baixos. Ele merece ser lido com atenção já que vai influenciar a Igreja Católica pelos próximos anos.

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Índios e analistas criticam discurso do papa

Para historiador, Bento 16 também fez ataque ao Estado laico ao dizer que, sem Deus, ideologias do século 20 fracassaram
Bispo afirma que os padres missionários defenderam os indígenas; para filósofo, o marxismo e o capitalismo ignoram "indivíduos reais"

DA REDAÇÃO
DA REPORTAGEM LOCAL

Lideranças indígenas e especialistas criticaram ontem as declarações do papa Bento 16, na abertura da 5ª Conferência do Episcopado Latino Americano e do Caribe, de que o "anúncio de Jesus e de seu Evangelho" aos povos indígenas da América "não supôs, em nenhum momento, uma alienação das culturas pré colombianas, nem foi uma imposição de uma cultura estrangeira".

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, afirma que aconteceu, sim, imposição cultural. Houve missionários que defenderam os índios da escravidão e tentativas de tradução de termos cristãos para línguas locais, ela diz. No entanto, a igreja reagiu a essa "indigenização" do catolicismo.

"Não bastava a mensagem, a interpretação da mensagem tinha de ser fixada também. Eliminaram se práticas como os catequistas indígenas, sem falar do clero indígena, que podiam "desvirtuar" a fé, interpretando a de acordo com suas culturas. O que é isso, então, senão imposição cultural?", diz.

Para o historiador Flávio Gomes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, "em várias partes da América portuguesa e espanhola, a igreja escravizou, legitimou a escravidão indígena e africana e impôs a fé cristã às sociedades indígenas".

Luiz Felipe de Alencastro, professor de história do Brasil na Universidade de Paris, se disse surpreso com as declarações. "O processo colonial foi de destruição da cultura ameríndia. Os missionários estavam a serviço de uma religião que havia incorporado os elementos autoritários e despóticos das monarquias européias."

Já o bispo auxiliar de Salvador d. João Carlos Petrini diz ser necessário contextualizar a ação da igreja no século 16.

Ele afirma que não foram os evangelizadores que cometeram os atos de violência e que é preciso compreender que não era possível fazer então a crítica de hoje à colonização. "Não foram José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, franciscanos ou beneditinos que cometeram atos de violência. Alguns foram até ardorosos defensores dos direitos dos índios, como o bispo Bartolomeu de las Casas."

A declaração do papa foi criticada por lideranças indígenas. "É arrogante e desrespeitoso considerar nossa herança cultural inferior", disse Jecinaldo Sateré Mawé, coordenador geral da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira).

Por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente da Funai, Márcio Meira, afirmou que a catequização dos indígenas brasileiros foi um processo de imposição, "muitas vezes pelo uso da força".
Estado laico

Sobre outro ponto da fala de Bento 16, o historiador Luiz Felipe de Alencastro afirma que o papa terminou por deslegitimar o Estado laico ao dizer que, sem considerar Deus e a moral individual, o capitalismo e o marxismo se mostraram promessas ideológicas falsas.

"Isso também desqualificou os governos republicanos laicos que criaram o esforço de uma sociedade democrática que não deixa o mercado agir de maneira totalmente livre."

Para o professor do Departamento de Teologia da PUC SP Luiz Felipe Pondé, no entanto, o papa tem razão em sua dupla crítica ao capitalismo e ao marxismo. "O capitalismo se alimenta do que há de mais baixo no ser humano, sua ganância. E o marxismo é uma tragédia, que alimenta o instinto autoritário e burocrático do homem, em cima de uma teoria que é pura metafísica", disse.
(CAROLINA RANGEL E RAFAEL CARIELLO)

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Notícias Papais: 1

A vinda do Papa, a fama de que é conservador e sua declaração de que não houve imposição cultural aos índios da América Latina provocaram uma série de comentários, desde a Venezuela até antropólogos, CIMI e os índios. Comecemos pela opinião do presidente Lula bastante generosa para com o Papa, mas sem citar sua declaração sobre a catequese, nesta matéria da Folha de São Paulo

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Presidente vê pluralismo em Bento 16 e critica quem o chamou de conservador
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Ao fazer ontem um balanço da visita do papa ao Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva elogiou o pluralismo de Bento 16 e criticou quem o rotulou de "conservador".

"Muita gente fala, escreve e dá palpite antes, dizendo que o papa era extremamente conservador e queria tocar apenas em temas conservadores quando, na verdade, o que aconteceu foi que o papa teve um comportamento de muito compromisso com as questões sociais."

Para Lula, Bento 16 teve a "sensibilidade" de atrair diferentes setores da sociedade brasileira. "O papa teve toda a sensibilidade de ouvir praticamente todos os segmentos da sociedade", disse. "A igreja convidou praticamente todos os setores da sociedade para participar da todas as atividades públicas do papa", completou o presidente, que voltou a falar da diversidade religiosa no país.

"Tem muitas religiões no Brasil e nós precisamos conviver com todas elas da forma mais respeitosa e mais democrática possível."

Ele comentou a visita de Bento 16 na edição de ontem de seu programa semanal de rádio, "Café com o Presidente".
Lula ainda afirmou que, em conversa com o papa, colocou a importância de uma integração religiosa na América Latina. "Nós estamos já há algum tempo falando em integração da América Latina, integração cultural, integração social, integração energética, integração de ferrovia, tudo. É importante que haja uma integração religiosa", afirmou.

Lula teve dois encontros com o religioso, na quarta e quinta passadas. Em nenhum deles, beijou a mão do religioso. Nas conversas, o petista tratou de juventude, família e programas sociais e ainda reafirmou ao papa que o Brasil é um país laico.

Tratada pelo papa logo no primeiro dia, a questão do aborto foi comentada pelo presidente ontem, em Jundiaí (SP). Lula disse que o governo não vai enviar ao Congresso projetos que alterem a legislação sobre aborto no país. "Na medida certa e no tempo certo, os congressistas vão se acertando e vão aprovando as coisas", afirmou o petista.

Concordata

O presidente não quis assinar, por ora, uma concordata -um acordo diplomático de "interesses comuns" entre a Santa Sé e o Estado brasileiro.

Ontem, no programa de rádio, o presidente sinalizou ter encarado com naturalidade as críticas de Bento 16 ao avanço da violência e do tráfico de drogas no Brasil. "Achei extremamente importante", disse.
 
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