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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Lula vai a Roraima pela primeira vez


O presidente Lula esteve em Roraima ontem, pela primeira vez em muitos anos. Na verdade, desde que assumiu a presidência em 2003. O fato é que a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi um ato de coragem política e deixou muitas insatisfações naquele estado por parte da elite tradicional, como os senadores Augusto Botelho e Mozarildo Cavalcanti, e da nova elite, como o arrozeiro Paulo César Quartiero.

Desta vez Lula passou o rodo. Não deixou que Quartiero estragasse sua festa com o presidente da Guiana, na inauguração de uma ponte que liga os dois países. Quartiero, possesso, arregimentou uma tropa de 150 pessoas gritando contra Lula. O jornal O Globo tem uma foto dele chutando um carro da PF, que passa sem reclamar. Já em outra matéria parece que ele terminou levando uma cacetada na testa e pegou pontos. Meteram-no em cana por umas horas.

Como as coisas passam depressa. Há alguns meses o estado de Roraima parecia estar em polvorosa, suas elites morrendo de ódio pela homologação das terras indígenas, parecia que a classe política inteira estava solidária com a defesa dos arrozeiros. Até caravana de simpatizantes tinha visitado o estado vindo do Mato Grosso do Sul!!

Tudo passa. Hoje Mozarildo Cavalcanti e Augusto Botelho estavam ouvindo o diretor de saúde indígena da Funasa e encorajando-o a se manter no cargo!

Agora Lula está tranquilo, sem dúvidas nem remorsos pelo que fez. Homologou Raposa Serra do Sol em abril de 2005, quando eu era presidente da Funai, e ficou firme durante todo o conflito que os políticos e a mídia anti-indígena criou, inclusive com militares nacionalistas. Ao final, o STF resolveu a favor dos índios e tudo se aquietou.

Em entrevista em Boa Vista, Lula disse que agora os índios têm que desenvolver suas terras, que não podem ficar isolados. Mas quem disse que os índios de Roraima estão isolados? Para a Terra Indígena Raposa Serra do Sol ele sugeriu que fossem construídas pousadas para turistas visitar seus lugares pitorescos. Por exemplo, o próprio Monte Roraima, lindo, majestoso, é o ponto mais setentrional do Brasil. Alguém está soprando bobagem no ouvido do presidente.

Os índios receberam Lula no aeroporto de Boa Vista e lhe deram um colar de sementes. Pela cara dele, dá para sentir que ele achou pouco. Já no discurso de Dilma Roussef ela saudou o povo de Rondônia e recebeu como retribuição uma vaia danada. Ah, Dona Dilma, você está muito distraída, mas parece Reagan que confundiu Bolívia com Colômbia!

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Arrozeiros estão saindo e índios se preparam para a recuperação total da Terra Indígena Raposa Serra do Sol


Está tensa, num certo bom sentido, a situação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Aproxima-se o dia da retirada final (30 de abril, quinta-feira) dos arrozeiros e outros invasores daquela terra indígena, com todos os seus bens, inclusive o produto da última colheita de arroz.

A Polícia Federal, em várias ocasiões, já declarou que está com um efetivo suficiente para forçar essa retirada caso seja necessário. Ao mesmo tempo, tem declarado que tudo indica que os arrozeiros, os mais renitentes dos invasores, estão de fato efetuando a retirada de seus bens. Alguns dizem que necessitam de mais uma semana para colher todo o arroz que está madurando. Outros dizem que precisam de mais tempo para retirar o gado. Enfim, o choro é livre, mas a decisão do STF é irrevogável.

Eis que o principal arrozeiro, Paulo César Quartiero, que já foi eleito prefeito de Pacaraim e destituído por corrupção, declara que, ao se retirar, vai destruir totalmente a fazenda e as benfeitorias que lá estão. Não vai deixar pedra sobre pedra. As escavadeiras estão revolvendo os alicerces das casas e dos galpões.

Seja como for, a tensão é bastante grande. Mas é uma tensão que terá um desfecho esperado. É a tensão dos últimos momentos, em que cautela e tolerância são essenciais para que tudo dê certo sem confusão.

Os índios favoráveis aos arrozeiros já tentaram algumas manobras de protelação, mas hoje estão mais calados. Os índios do CIR (Conselho Indígena de Roraima) estão cientes da importância dessa retirada e da saída total dos invasores de suas terras. Estão se preparando para, em primeiro lugar, fazer a grande conciliação com todo seu povo, independente das desavenças anteriores provocadas pela presença dos invasores, e, concomitantemente, assumir as áreas ocupadas pelos arrozeiros e outros pequenos fazendeiros. Vão precisar de muita capacidade organizativa, da formação de novos líderes e de muitos técnicos para conseguir formular projetos econômicos e sociais para dar um salto de desenvolvimento sustentado em sua terra indígena desocupada.

Que sejam bem sucedidos, que obtenham a ajuda do governo federal e da Funai para tanto. Que as Ongs que os ajudaram mantenham a ajuda, pelo menos por algum tempo.

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Arrozeiro destrói propriedade antes de deixar reserva indígena

Agência Terra

O fazendeiro Paulo César Quartiero decidiu que destruirá a sua propriedade instalada no interior da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima. Após decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a sua saída daquela área até quinta-feira, ele iniciou a demolição de casas, galpões, currais, rede de eletricidade e sistema de irrigação instalados nas duas fazendas que ele possui naquela área - num total de quase 9 mil hectares. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Na tarde deste domingo, carretas apropriadas para o transporte de gado deixavam a Fazenda Depósito, que fica a cerca de 170 quilômetros da capital, Boa Vista, e levavam o rebanho da raça canchim que Quartiero possui, com quase cinco mil cabeças. Uma retroescavadeira também trabalhava no local, derrubando paredes e revolvendo pisos.

Quartiero, maior produtor de arroz irrigado de Roraima, também planta soja e cria gado. Ele não possui, no entanto, títulos legais das terras que começou a ocupar no final dos anos 70 - e que agora foram declaradas terras indígenas, na conclusão do processo de demarcação da Raposa Serra do Sol. No mês passado, o STF determinou a saída de todos os não-índios do território.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Raposa Serra do Sol -- 10 X 1 -- Arrozeiros


O dilatado placar em favor da legitimidade da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, dado neste dia de São José, 19 de março de 2009, consagra o respeito que o povo brasileiro sente pelos povos indígenas do Brasil. Não foi um ato espúrio, mas o resultado simbólico de toda a história do indigenismo brasileiro, que vem de José Bonifácio e Rondon, e que conta com o apoio do sentimento nacional mais profundo. Já o disse isso por ocasião do ato de homologação do presidente Lula, aos 15 de abril de 2005, conforme o artigo abaixo.

Saúdo e parabenizo os índios Makuxi, Wapixana, Ingarikó, Taurepang e Patamona por esse evento tão bom e tão auspicioso!

Não poderia estar mais emocionado por isso. Quero homenagear toda a luta que ocorreu para que esse feito acontecesse. A luta dos índios daquela região que, após dois séculos de domínio absoluto dos brancos, estavam tomando pé, de suas vidas, ressurgindo para a história. Agora a história se desenlaça com sua vitória.

Caíram por terra todos os argumentos contrários ao respeito ao ato de homologação do presidente Lula.

Caiu por terra o medo da ameaça à soberania nacional pela terra indígena estar localizada na fronteira com dois países da América do Sul.

Caiu por terra o medo da presença de Ongs e da Igreja Católica e sua influência sobre os índios.

Caiu por terra o argumento de que são poucos os índios para o tamanho da terra.

Caiu por terra o argumento de que os índios não se manteriam isolados pela ausência de arrozeiros em suas terras.

Caiu por terra o argumento de que o Estudo de Identificação feito pela Funai estava viciado em erros formais e substantivos.

Caiu por terra o argumento de que o estado de Roraima iria perder receitas e desenvolvimento econômico.

Caiu por terra o argumento de que os arrozeiros são os modernos bandeirantes que podem tudo e fazem o que querem.

Caiu por terra toda a pressão feita por políticos e ideólogos anti-indigenistas contra a homologação dessa terra indígena.

Os índios do lavrado de Roraima devem se orgulhar de sua história de resistência, muitas vezes calada, nos tempos de dominação, e agora de recuperação e reafirmação de sua dignidade. Reconquistaram sua autonomia pelos seus méritos, mas também pelo ato iniciatório da demarcação feito no governo Fernando Henrique Cardoso, pelo ato homologatório assinado pelo presidente Lula e agora por esse gesto magnânimo do STF, mesmo que após tantas indecisões, idas e voltas, e tantos aperreios por parte dos índios. Mesmo com tantas restrições específicas ao domínio pleno dessa terra indígena, as quais, entretanto, afetarão mais contundentemente outros povos indígenas no presente e no futuro. (Sobre isso escreverei em outra ocasião!)

A vitória dos índios de Raposa Serra do Sol é a vitória dos índios brasileiros, do indigenismo nascido do republicanismo rondoniano, e teve o apoio de muita gente ao longo de mais de 30 anos de lutas. Em sua primeira festa de comemoração, em outubro de 2005, esses nomes foram lembrados.

Agora é preciso muita sabedoria para que a Terra Indígena Raposa Serra do Sol seja a mãe de todos os índios, mesmo daqueles que foram contrários à sua condição de terra exclusiva para os índios.

Os arrozeiros vão se retirados ou serão retirados à força. Não pode haver mais vacilações. O estado de Roraima vai buscar suas próprias fontes de desenvolvimento, mas não mais às custas dos índios. Os políticos vão baixar a crista e aceitar a decisão do STF.

Um novo começo desponta para os índios de Raposa Serra do Sol.

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A consagração do indigenismo brasileiro

MÉRCIO P. GOMES em Folha de São Paulo, 15 de maio de 2005

"Os índios foram o instrumento de quanto aqui se praticou de útil e grandioso; são o princípio de todas as nossas coisas; são os que deram a base para o nosso caráter nacional, ainda mal desenvolvido, e será a coroa de nossa prosperidade o dia de sua inteira reabilitação."
Gonçalves Dias, 1849


A homologação da terra indígena Raposa/Serra do Sol representa a consagração do indigenismo brasileiro. O ato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva fortalece a mais alta tradição de respeito ao índio, que vem desde que Gonçalves Dias reconheceu o índio como parte constitutiva da nação e desde a fundação da República, que instituiu o índio no panorama democrático brasileiro. O indigenismo brasileiro se enaltece também pelo fato de que os povos indígenas que sobreviveram ao processo colonialista (que ainda perdura entre nós) e que pareciam estar fadados ao extermínio somam, hoje, 440 mil pessoas -8% do que eram em 1500, porém quatro vezes mais do que a população de 1955, quando Darcy Ribeiro escreveu seu famoso relatório à Unesco sobre populações indígenas.

A terra indígena Raposa/ Serra do Sol representa a consagração da idéia de territorialidade indígena

A homologação é o ato presidencial que reconhece aquela terra como território de cinco povos -Makuxi, Wapixana, Ingarikó, Taurepang e Patamona-, que lá vivem tradicionalmente há centenas de anos. Parte desse território estava invadido por pessoas que não reconheciam a legitimidade histórica da posse imemorial desses povos ou que, levianamente, achavam que podiam dele se apossar. O ato do presidente Lula é um ato reparador de uma injustiça. É um ato de resgate da dívida histórica do povo brasileiro para com os povos indígenas, ato este que ele já realizou 54 outras vezes desde a sua posse e que certamente o fará mais tantas vezes até que se conclua o processo de demarcação das terras indígenas no Brasil.

A terra indígena Raposa/Serra do Sol, com 1, 743 milhão de hectares de dimensão, não está entre as dez maiores terras indígenas do Brasil. O que ela representa no cenário indígena brasileiro é a consagração da idéia de territorialidade indígena, isto é, de que uma terra indígena não é tão-somente o espaço de sua sobrevivência física imediata, mas um espaço culturalizado por gerações anteriores, destinado à presença permanente de um povo e de gerações subseqüentes, bem como para o futuro do país. Essa idéia foi iniciada no Brasil graças à tríade patriarcal do indigenismo, formada pelo marechal Rondon, Orlando Villas-Boas e Darcy Ribeiro, quando eles convenceram o presidente Getúlio Vargas da importância da criação do Parque Nacional do Xingu, projetado para ter 4,5 milhões de hectares.

A Raposa/Serra do Sol é a consolidação dessa idéia genial e pioneira -que, aliás, nenhum outro país do mundo tem para suas populações de origem.

Sem deixar de reconhecer grandes dificuldades que os povos indígenas ainda enfrentam no seu dia-a-dia, não se podem negar os avanços que o Brasil já fez e vem fazendo.

Ao vermos um mapa do Brasil com a plotagem das terras indígenas reconhecidas, damo-nos conta do quão grandiosa é a resposta que o país está dando para os anseios dos índios. As terras indígenas compõem um conjunto de cerca de 600 terras, mais de 1 milhão de quilômetros quadrados -uma França e uma Alemanha juntas. Só o Canadá tem mais áreas de terras consignadas aos seus povos indígenas, mas isso ao contarmos a calota polar que nominalmente pertence aos Esquimó-Inuit.

É preciso que o brasileiro se dê conta dessa realidade para conhecer melhor sua nação, para saber o quanto já foi feito em prol dos índios neste país, e disso se orgulhar.

A homologação da terra indígena Raposa/Serra do Sol foi um ato perfeito da nação brasileira. Contou, ao longo de mais de 25 anos, com a torcida do povo brasileiro, e não só da Funai e das organizações indígenas. Teve o apoio do Poder Judiciário, do Ministério Público, do Poder Legislativo mais alto e do Poder Executivo -através da portaria declaratória de demarcação do ministro da Justiça e do ato final do presidente da República. E, desde sempre, dos próprios povos indígenas que nunca abriram mão desse sonho.

Mércio Pereira Gomes, 53, professor de antropologia na (UFF) Universidade Federal Fluminense, é o presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio).

segunda-feira, 16 de março de 2009

Esta semana STF decidirá sobre Raposa Serra do Sol


Os jornais nacionais acordaram hoje falando da decisão final do STF sobre a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Parece que o sentimento é de que a homologação vai ser confirmada, que os ministros que até agora votaram não mudarão seus votos e que os três que faltam votar não farão diferença.

Ainda assim, há um certo ar de desconforto. Os jornais O Globo e o Estado de Sâo Paulo trazem o mesmo artigo do filósofo Denis Rosenfield, que tem se aliado fortemente com a classe ruralista brasileira, não sei por qual tipo de convicção.

No artigo de hoje, Rosenfield faz coro e dá apoio a Aldo Rebelo e Ibsen Pinheiro, dois ex-presidentes da Câmara Federal, que apresentaram semana passada uma proposta para mudar o sentido do processo de demarcação de terras indígenas e trazer a responsabiidade para o Congresso Nacional. Rosenfield elabora uma argumentação canhestra sobre o fato de que a presidência da Funai não é um cargo eletivo, portanto, não tem a legitimidade para tratar de demarcação de terras por ser uma questão de interesse nacional. Assim, tenta deslegitimar o Executivo, do qual a Funai é parte, que é eleito pelo povo com mandato para realizar uma política que foi referendada pela votação nacional.

Por outro lado, parece que para as bandas de Roraima e da Raposa Serra do Sol, os arrozeiros estão cientes que terão que sair a partir de uma certa data indicada pelo STF, após a votação de Quarta-feira, dia 18. Parece que estão demitindo funcionários e parando de fazer investimento. Vão colher uma última safra de arroz, e pronto!

Já os índios de Raposa Serra do Sol estão prometendo fazer manifestação em várias partes do Brasil, especialmente em Boa Vista e Brasília. Já fizeram isso durante as duas últimas votações, e nessa final não poderia ser diferente.

A votação final dos ministros do STF não poderá trazer muitas surpresas. Oito votos favoráveis à manutenção do ato homologatório não serão modificados in totum. Imagino que os três votos que restam não vão ser muito favoráveis, um deles pelo menos vai tentar reverter a votação. Mas, são favas contadas. Até o governador de Roraima já desistiu do seu intento inicial. Só Aldo Rebelo e Denis Rosenfield persistem.

O que preocupa são as ressalvas originalmente levantadas pelo voto do ministro Menezes Direito, dia 10 de dezembro, que trarão algumas consequências sobre a administração daquela terra indígena e maiores consequências sobre a demarcação de novas terras indígenas. Pode ser que os processos demarcatórios de muitas terras indígenas sejam inviabilizados.

Veja também a postagem logo abaixo sobre um edital do STF conclamando interessados a se manifestar sobre o processo de se criar uma súmula vinculante que afetará certamente a demarcação de diversas terras indígenas Brasil afora.

O certo é, se essas ressalvas, e outras que venham a ser sugeridas pelos votos restantes, vierem a ser incluídos em súmula, aí teremos sérios problemas. Se forem seguidas as considerações do ministro Britto, incluídas em seu voto, no sentido de que a Constituição brasileira de 1988 considera terras indígenas de posse permanente SOMENTE aqueles que estiverem de posse indígena no dia 5 d eoutubro de 1988, data da promulgação da Constituição, então os processos de demarcação de terras indígenas em diversos lugares do Brasil ficarão definitivamente inviabilizados. Não vai ser mais possível demarcar a grande maioria das terras indígenas planejadas. Até o projeto de lei de Aldo Rebelo torna-se desnecessário!

Eis a grande questão que está em pauta para quarta-feira, dia 18, a partir de 9 horas, no STF. Seu resultado poderá modificar definitivamente a política indigenista brasileira. Esse Blog não se eximirá de fazer sua análise incontinenti.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Ministro Marco Aurélio votará contra Raposa Serra do Sol

Como era de se esperar, o ministro Marco Aurélio de Mello, do STF, vai votar contra a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Em entrevista ao Jornal do Brasil, o ministro Marco Aurélio vai pôr em realce negativo diversos quesitos do processo de reconhecimento e demarcação daquela terra indígena.

Não sabemos se vai propor a demarcação em "ilhas" ou se vai manter a presença de famílias que lá viviam antes de 1934, como já sugeriu o ex-ministro do STF Nelson Jobim, ou se vai requerer a presença do Exército com mais evidência, ou se vai afirmar que o processo é constitucional ou inconstitucional.

O que dá para ver de sua entrevista é que o ministro Marco Aurélio vai levantar polêmica, vai questionar os termos da homologação e vai propor talvez outras tantas ressalvas tais como aqueles propostas no voto do ministro Menezes Direito. Uma delas deve ser sobre a preservação da soberania nacional, "o Brasil integrado", seja lá o que signifique isso.

Raposa Serra do Sol é algo emblemático na história da demarcação de terras indígena, já dizia o ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que tanto fez para persuadir o presidente Lula a homologar aquela terra indígena. Para mim, é o auge do indigenismo brasileiro rondoniano, portanto um ícone das terras indígenas demarcadas nos últimos 100 anos.

O que nos consola é que, seja como for, o voto do ministro Marco Aurélio não faz mais diferença na contagem do STF, pois oito ministros já votaram favoravelmente à manutenção do ato de homologação do presidente Lula.


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Um desfecho com voto polêmico

Jornal do Brasil

Marco Aurélio vai reacender debate sobre soberania no caso Raposa/Serra do Sol no STF

Apesar de já formada uma maioria de oito dos 11 ministros do Supremo Tribunal Federal a favor da demarcação contínua da reserva indígena Raposa/Serra do Sol - com 18 "condições" a serem respeitadas pelos 19 mil índios de cinco etnias, que representam 4,8% da população de Roraima - a conclusão do julgamento, no próximo dia 18, com o voto-vista do ministro Marco Aurélio, vai provocar novos debates "tensos e intensos" no plenário, conforme admitem integrantes da Corte. Tanto que o início da sessão foi marcado para as 9h - o que só ocorre em casos excepcionais - embora só faltem os pronunciamentos de Celso de Mello e Gilmar Mendes, depois do de Marco Aurélio, que pediu vista os autos no dia 10 de dezembro.

Seu voto-vista tem mais de 100 páginas, e vai analisar aspectos processuais relativos ao chamado devido processo legal e também os de caráter administrativo.

O polêmico ministro não adianta o teor de sua intervenção, mas dá indícios de que vai divergir da maioria, não se importando de vir a ser, ainda que solitário, "mais uma vez", voto vencido. A seu ver, o que está em causa é uma ação popular, proposta pelos senadores de Roraima Augusto Botelho (PT) e Mozarildo Cavalcanti (PTB), contra o decreto demarcatório de 2005. E deixa escapar um comentário:

- Está se dando à ação popular contornos de mão dupla.

Para ele, trata-se apenas de decidir se são ou não constitucionais o decreto e a portaria de demarcação.

Quando Marco Aurélio fala de "aspectos processuais" da questão, o ministro está se referindo, por exemplo, ao fato de que nem o estado de Roraima nem os três municípios existentes dentro da reserva foram "citados" no início do processo. Além disso, não foram ouvidas todas as comunidades indígenas que vivem na região. Quanto ao processo administrativo, deverá ser retomada a discussão sobre um outro fato que chegou a ser discutido quando do início do julgamento da ação, cujo relator é o ministro Ayres Britto: o laudo antropológico da FUNAI favorável à demarcação contínua da área foi assinado por uma única pessoa - a antropóloga Maria Guiomar de Melo.

O ministro Marco Aurélio considera o julgamento a ser retomado, pela segunda vez, no dia 18, "um dos mais importantes da história do Supremo", e afirma ao Jornal do Brasil que vai reabrir a discussão sobre se a demarcação da reserva deve mesmo ser contínua e se os "brancos" ficam, com relação à "enorme área, sem o direito de ir e vir, assegurado pela Constituição". E arremata: "Minha preocupação é com o Brasil integrado, o Brasil continental e soberano em termos de território".

Tudo começou em agosto

O julgamento do caso Raposa/Serra do Sol - cujo resultado vai ser paradigma para outras reservas indígenas - teve início em 27 de agosto do ano passado, quando o ministro-relator Ayres Britto votou pela manutenção integral da portaria do Ministério da Justiça que determina a demarcação contínua da área. A sessão foi interrompida pelo pedido de vista do ministro Menezes Direito.

Em dezembro, a ação voltou ao plenário, e foi novamente suspensa por pedido de vista de Marco Aurélio. Na oportunidade, votaram pela manutenção da portaria demarcatória os ministros Direito - que propôs as 18 ressalvas - Cármen Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Joaquim Barbosa, Cezar Peluso e Ellen Gracie.

Essas "condições" têm como objetivo, principalmente, garantir a presença da União na área de 1,7 milhão de hectares do estado de Roraima, na instalação e manutenção de serviços públicos; na atuação, quando necessária, das Forças Armadas e da Polícia Federal, sobretudo na faixa fronteiriça com a Venezuela e a Guiana; e na preservação ambiental do Parque Nacional do Monte Roraima (6,7% da superfície da reserva). Os índios terão o usufruto de toda a região para plantio, caça e pesca, com restrições referentes, principalmente, à exploração de recursos minerais e hídricos.

Arrozeiros

Os não-índios que habitam, com suas famílias, os três municípios e vilas localizados na reserva podem lá continuar, conforme já previa o decreto demarcatório. Devem deixar a Raposa/Serra do Sol, segundo o advogado-geral da União, José Antonio Toffoli, apenas os seis arrozeiros que insistiam em permanecer na área demarcada, entre os quais o ex-prefeito de Pacaraima Paulo César Quartiero.

Até agora, a maioria seguiu, basicamente, a linha do voto do relator, para quem somente o "formato contínuo" de qualquer demarcação de área indígena atende plenamente à norma constitucional que reconhece aos índios "sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las" (Artigo 231). Direito - que pedira vista na sessão de 27 de agosto - acrescentou 19 exigências de ordem prática, a serem cumpridas pelos índios.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Índios de Roraima são recebidos pelo senador Augusto Botelho


Os índios Makuxi que são contrários à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol vieram de Boa Vista para conversar com os ministros do STF que ainda não votaram na decisão que foi adiada por pedido de vistas do ministro Marco Aurélio Mello.

Foram recebidos no Senado Federal pelo senador Augusto Botelho, que é do PT, de Roraima, e é contra a homologação.

Mais uma vez, esses índios falam em demarcação em "ilhas", como se ainda fosse possível uma mudança nos resultados que já saíram da decisão de 5 de dezembro.

Por que teimam esses índios? O que ainda esperam que possa acontecer? Alguma mudança drástica?

Será que o que os move é a rivalidade com o grupo majoritário do CIR? Será que é a rivalidade católico/evangélico? Será que eles acreditam que a presença de empresários brancos é uma vantagem para eles? Será que eles não acreditam na força do governo federal, através da Funai? Será que eles são simplesmente manipulados pelos políticos de Boa Vista? Ou ainda, será que eles vêm no futuro uma união e uma assimilação com os brancos????

Por outro lado, o presidente Lula já liberou cerca de 5 milhões de hectares do governo federal para o governo estadual. E deu carta branca para que o estado decidisse distribuir como quisesse.

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Indígenas vêm a Brasília pedir demarcação em 'ilhas' e recursos para obras na Reserva Raposa Serra do Sol

Agência Senado

Representantes de cinco organizações indígenas que vivem na Reserva Raposa Serra do Sol e são contrários à demarcação contínua foram recebidos pelo senador Augusto Botelho (PT-RR) nesta quinta-feira (12). O grupo pretende que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ouçam "outro ponto de vista" e se convençam a adotar o modelo em "ilhas", com convivência pacífica entre agricultores e rizicultores que vivem na região.

- A política indígena deve ser feita de acordo com a vontade dos índios, não de acordo com a vontade de antropólogos e dos chefes em Brasília que vivem no ar condicionado - declarou o senador.

Trinta "tuxauas", líderes das tribos que se organizam em cinco associações e representam cerca de 20 mil índios, foram ouvidos pelo ministro do STF Marco Aurélio Mello e recebidos no gabinete da Casa Civil. Eles também devem se encontrar com o presidente da Fundação Nacional do Índio, Márcio Meira. Os indígenas se dizem abandonados e isolados, desde que a terra foi demarcada, com queda de pontes e destruição de estradas.

- Aquelas pessoas que gritaram querendo a Raposa, hoje o cuspe volta para cima deles, mas também para cima de nós. Por isso que somos contra a reserva contínua - disse o tuxaua Abel Barbosa.

O grupo pede melhorias nas estradas, educação, saúde e acesso a recursos para investir em mecanização da lavoura, em tecnologia que os levem a ser produtores agrícolas e até exportadores e também auxílio técnico para investir em piscicultura.
Os habitantes da reserva também são favoráveis à possibilidade de garimpagem na terra e querem receber royalties a partir da construção da hidrelétrica no Rio Cotingo, no interior da terra indígena, como explicou o indígena Milton Dario, vereador em Uiramutã.

O presidente da Sociedade de Defesa dos Índios Unidos do Norte de Roraima (Sodiurr), Silvio da Silva, apontou a importância do bom convívio entre índios e não-índios, e registrou a existência de preconceito contra os indígenas que tem bom convívio com os fazendeiros.

Da reunião, participaram integrantes da Associação dos Produtores Indígenas de Roraima (Apocrion), da Aliança de Integração Para o Desenvolvimento das Comunidades Indígenas de Roraima (Alidcirr), da Associação Regional dos Rios Kinô, Cotingo e Monte Roraima (Arikon) e da Associação Municipal Indígena Guàkrî de Boa Vista (Amigb).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Jonas Marcolino, índio Makuxi, é empossado secretário em Roraima

A participação dos índios no governo dos estados e municípios brasileiros é um feito que vai crescendo a cada eleição.

Para o bem ou para o mal.

Muita gente acha que essa participação implica uma alta dosagem de cooptação ao sistema político brasileiro e que os índios pagarão um preço alto pela ousadia de achar que, ao participar dos governos estaduais e municipais, vão melhorar as condições de vida de suas comunidades. Muitos indigenistas vêm cada vez mais a presença constante de munícipes curiosos e interesseiros nas aldeias indígenas, e, quanto mais perto das cidades, mais comprometidas se tornam as relações.

Outros acham que essa participação é inevitável, especialmente nas cidades e nos estados onde a presença indígena é significativa. Como em Roraima, Acre, Amapá, Amazonas e muitos municípios do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Outros mais se regozijam com essa participação anunciando a "inclusão" ou "integração" política dos índios no regime político brasileiro. E, afinal de contas, nossa tradição política favorece as grandes qualidades da nação brasileira!!

Agora, em Roraima, o estado que, junto com Santa Catarina, traduz a mais alta dose de preconceito aos povos indígenas, foi nomeado o índio Makuxi Jonas Marcolino como secretário estadual da Secretaria do Índio.

Essa secretaria foi criada pelo governador anterior, o mesmo que ficou conhecido como o chefe dos "gafanhotos", que era contra a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, como o são todos os demais, inclusive o atual.

Jonas Marcolino é um professor e pastor muito bem articulado. Dono de um discurso vibrante e de uma argumentação muito própria da história indígena brasileira, especialmente em Roraima, Jonas Marcolino tem se destacado entre aqueles que são contra a homologação da T.I. Raposa Serra do Sol.

Pessoalmente estive com Jonas umas três ou quatro vezes quando era presidente da Funai. Três vezes se deram entre militares, seja na Escola Superior de Guerra, seja na Escola Superior da Marinha, que estavam imbuídos do espírito contrário à homologação da terra indígena. Noutra vez foi no próprio Congresso Nacional, na discussão em que até políticos do PT, como Lindemberg Farias, se manifestaram contra. Os militares adoram ouvir o Jonas fazer seu discurso pró-civilização brasileira e pela presença deles em terras indígenas.

Sempre me espantou o quanto ele é veemente na defesa da presença dos brancos entre os índios. Não é só que ele considera que os brancos trazem capital e desenvolvimento, mas também que os brancos trazem a religião, a ciência e a tecnologia ocidentais, as quais os índios não possuem. Jonas é sincero em dizer isso, e não se importa que outros índios digam que ele é "vendido" ou "mameluco". Para ele, é assim que o mundo gira, e não se pode ir contra isso.

Jonas terá agora condições de repercutir sua fala em novos foros políticos. Não sei como será sua relação com a maioria dos Makuxi e Wapichana que são favoráveis à homologação da T.I. Raposa Serra do Sol. Quem sabe ele não mude de opinião?

De qualquer forma, eis um dos modos pelos quais os índios penetram na política brasileira. Só podemos augurar sucesso a Jonas e esperar que ele, de algum modo, consiga irrigar a aridez da arena política com novas ideias e que essas ideias sejam positivas para os índios.

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Índio é empossado secretário

Folha de Boa Vista, Roraima

Apesar de duas mudanças anunciadas durante o dia de ontem para o primeiro escalão do governo, apenas uma foi concretizada no início da noite, na sala de reuniões do Palácio Senador Hélio Campos. Assumiu a Secretaria Estadual do Índio Jonas de Souza Marcolino, em substituição a Adriano Nascimento, que ficou no cargo por quatro anos.

...

Marcolino, que é indígena da etnia Macuxi e apoia a revisão do decreto homologatório da Terra Indígena Raposa Serra Sol, entra no lugar de Nascimento, também indígena. O governador agradeceu o trabalho desempenhado por Nascimento, mas que dentro de uma nova proposta, de um novo prisma, estava nomeando Marcolino.

Anchieta disse que, assim como em todo o País, as comunidades indígenas têm sido usadas como bode expiatório da FUNAI e que a maioria delas não aceita que a Raposa Serra do Sol seja da forma como está.

No entanto, que independente da decisão do Supremo Tribunal Federal, ele afirmou que continuará apoiando-as. "Precisamos somar forças para que possamos transformar as comunidade e tirar proveito do que elas podem contribuir para a economia do nosso Estado".

Entre as novas propostas para a pasta, Anchieta citou a criação de mecanismos de apoio à valorização profissional e fomento ao setor primário, que acontecerá em parceria com a pasta de Agricultura. "Serão focos como estes que serão mudados dentro da Secretaria do Índio" afirmou o governador.

Depois de assinar o decreto de nomeação, Marcolino disse que o governador estava escrevendo uma nova história no Estado e que sentia orgulho de fazer parte dela. Comentou ainda que a SEI tem sido vista pela maioria como de periferia, mas que confia na equipe de trabalho que terá habilidade para dar continuidade aos trabalhos.

Sobre a Raposa Serra do Sol, Marcolino discursou que todos estão ansiosos para saber como ficará decidida a questão, mas que acima de qualquer coisa, a grande preocupação é zelar pelo bem de todos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Resultado da Enquete sobre a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol

O resultado da Enquete "E agora, como votarão os ministros do STF diante do voto de Ayres Britto", que durou de agosto até o dia 10 de dezembro de 2008, é o seguinte:

1. Sim ao voto do ministro-relator --- 77 votos (53%)

2. Não ao voto do ministro-relator --- 50 votos (33%)

3. Sim, mas com ressalvas --- 22 votos (14%)

Podemos dizer que os participantes votaram em sua maioria com otimismo. Efetivamente, podemos dizer que este resultado correspondeu, pois, afinal, a homologação foi confirmada em seus termos essenciais. Isto é, os limites foram reafirmados e os invasores foram ipso facto condenados à extrusão.

As ressalvas que foram feitas pelo ministro Menezes Direito, seguidas em sua quase totalidade pelos sete ministros que votaram, afetarão sem dúvida nenhuma o futuro do indigenismo brasileiro.

Na melhor das hipóteses, o Ministério da Justiça e a FUNAI poderão negociar o significado das 18 ressalvas, sobretudo no que concerne a demarcação das terras indígenas mais urgentes.

Na pior das hipóteses, se a promulgação final, que se dará em fevereiro ou março do próximo ano, contemplar como parte do resultado a argumentação do ministro Menezes Direito sobre a prevalência de uma chamada teoria do "fato indígena", algo inusitado no indigenismo brasileiro -- em contraposição ao chamado "indigenato" -- dificilmente haverá mais do que 20 ou 30 terras indígenas a serem demarcadas. Isto porque a tal teoria do fato indígena determina que a noção de ocupação permanente se restringirá à presença indígena por volta de 1988, quando da promulgação da Constituição Federal. Assim, as terras que muitos povos indígenas declaram serem suas por terem sido ocupadas por antepassados recentes não serão contempladas, a não ser que se prove que essa ocupação se dera no período prescrito.

Eis o pior cenário possível do indigenismo brasileiro. Cabe agora ao Executivo, através do Ministério da Justiça e da FUNAI encontrar um termo mais correspondente ao melhor do indigenismo brasileiro. De todo modo, o estrago está feito. Foi a reação do Judiciário ao desmantelo provocado pela atual gestão da FUNAI sobre a tradição do indigenismo rondoniano.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Voto do ministro Menezes Direito é duro

A sessão do STF que está tratando da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol foi suspensa agora há pouco, até as 14 horas, para que os ministros decidam se vão continuar a proferir seus votos ou se suspendem a votação em virtude de um pedido de vistas feito pelo ministro Marco Aurélio de Mello.

Apenas votou o ministro Menezes Direito.

Seu voto foi duro, impondo imensas restrições ao processo de reconhecimento e demarcação de terras indígenas, proibindo diversas ações que os povos indígenas vinham já acostumados como lhes pertencendo por direito adquirido ou direito constituído por suas práticas. Mas, por outra, o voto não esclareceu alguns pontos cruciais que, por essa razão vão provocar algumas pequenas ambiguidades. Ao final, acolheu parcialmente a ação civil pública contra a homologação e listou uma série de 17 requisitos extras que têm que ser cumpridos no exercício da efetivação dessa homologação do presidente Lula e das futuras. Esses requisitos serão discutidos em detalhes em outra postagem mais tarde.

Em nenhum momento o voto do ministro Direito disse explicitamente que os arrozeiros devem se retirar imediatamente das terras que ocupam. Entretanto, o voto diz que pessoas não indígenas não têm direito de cultivar, criar gado ou negociar em terras indígenas. Isto significa que os arrozeiros são ilegítimos em suas pretensões de viver e trabalhar na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Portanto, concluo, devem ser retirados imediatamente.

Se assim for, ponto para os índios de Raposa Serra do Sol!!

Entretanto, alguns pontos muito duros foram proferidos pelo ministro. Talvez o principal deles é o de que o direito indígena não é absoluto e não pode prevalecer sobre outros direitos, como o ambiental e o da segurança nacional. E concluiu daí que, no caso da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o Instituto Chico Mendes é que deve regulamentar o Parque Nacional de Roraima, que está dentro da referida terra indígena. E que os índios Ingarikó têm o direito de usá-lo em atividades de coleta, visita, reverenciação, etc., não de garimpagem ou de criação de gado. Em todo caso, esse usufruto tem que ser comunicado ao Instituto Chico Mendes. Os Ingarikó não vão gostar dessa idéia.

Outro aspecto importante é o da defesa nacional. O ministro Menezes Direito foi duríssimo ao dizer que as Forças Armadas não têm que pedir licença alguma dos índios, nem seu consentimento prévio, sobre a utilização de terras indígenas em faixas de fronteira para fins de defesa nacional.

Nesse sentido, um dos aspectos mais duros do voto de Menezes Direito foi o de que o Brasil não tem que seguir nem a Declaração Universal dos Direitos Indígenas, votada pela ONU, com voto brasileiro, nem a Convenção 169, da OIT. Repetiu, nesse caso, o voto do ministro Ayres Britto no aspecto que diz que a Constituição brasileira já atende a todos os aspectos importantes do direito indígena.

Vai dar muito pano para manga.

Em relação à FUNAI, O ministro Menezes Direito trouxe aportes preocupantes que modificarão o procedimento demarcatório e o papel da FUNAI em prosseguir no seu trabalho de acordo com a portaria ministerial 1775/96. Arrolou uma série de medidas que o órgão tem que tomar para reconhecer terras indígenas, entre elas a presença de pelo menos três antropólogos em cada estudo, de outros especialistas e de entidades públicas interessadas, como os estados e municípios. Proibiu peremptoriamente que as terras já demarcadas sofressem processos de ampliação. E determinou que a data da promulgação da Constituição de 1988 é que determina o conceito de ocupação de uma terra que se queira declarar como indígena.

Por que esse voto tão duro? A resposta não pode ser fácil. Não é uma questão a ser reduzida à antinomia esquerda-direita, mesmo porque, inesperadamente, o ministro Ayres Britto, a quem se poderia reconhecer como homem de esquerda, se declarou completamente favoravelmente aos 17 requisitos expostos pelo ministro Menezes Direito. E disse que esses itens já estavam contidos em seu voto!

O voto do ministro Menezes Direito não foi proferido com leveza, nem com serenidade, não obstante sua abrangência e profundidade. Sua fisionomia era de dureza, não diria de raiva, propriamente, mas de severidade, e suas palavras estavam entumecidas de uma certa exasperação, uma certa impaciência e uma determinação para mudar um determinado quadro que prevalece atualmente na questão indígena brasileira.

Não sei como os demais ministros votarão hoje à tarde, ou se a coisa toda vai ser adiada para o próximo ano. De qualquer jeito, a FUNAI perdeu muito de suas prerrogativas a partir desse voto. E todo o discurso de Ongs que estavam determinando suas ações foi desautorizado em quase sua totalidade. É um voto que vai provocar muita infelicidade entre os povos indígenas. Um voto, em muitos aspectos, do qual não estávamos precisando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

STF decide amanhã sobre a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol

Hoje é o último dia para se votar na enquete ao lado que pergunta como votarão os ministros do STF em relação à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol -- se acompanhando o voto primeiro do relator Carlos Ayres Britto, se contra, se com ressalvas.

Amanhã dia 10, a partir das 10 horas, o STF estará reunido para votar sobre esse assunto. Até agora apenas o ministro-relator do caso, Carlos Ayres Britto, encaminhou e votou a matéria. Votou favoravelmente à manutenção do decreto que homologou essa Terra Indígena com aproximadamente 1.730.000 hectares, situada no ponto mais setentrional do Brasil, no estado de Roraima.

Em antecipação, a tensão está crescendo na própria Terra Indígena Raposa Serra do Sol, com grupos indígenas favoráveis e outros contra, entre os arrozeiros que não querem sair de lá e forçaram a barra para essa decisão, está crescendo entre os índios em suas terras e está crescendo no indigenismo brasileiro. Ninguém sabe o que pode acontecer daqui por diante em matéria de demarcação de terras indígenas.

A matéria abaixo, de O Estado de São Paulo, bota lenha nessa fogueira. Sugere que, nos bastidores, alguns ministros do STF já se manifestaram favoravelmente a mudanças nos contornos dessa homologação, isto é, preservando a homologação, mas com ressalvas, e apresentando linhas de entendimento sobre a questão indígena que irão modificar bastante o entendimento que a FUNAI tem sobre o assunto.

Por exemplo, terra indígena em fronteira poderá ser debatido. É seguro para a nação? Esse assunto vem sendo tema de discussão em círculos militares e círculos nacionalistas mais exaltados e menos conhecedores da história brasileira. Mas o que será resolvido, não se sabe. O governo já decidiu aumentar o contingente de pelotões do Exército em diversas terras indígenas que fazem fronteira com outros países. Certo. Se for só assim, tudo bem.

Aliás, dos 17.000 km que temos de fronteira, 5.700 são compostos por terras indígenas. Até agora nunca houve qualquer perigo para o Brasil. Não sei se os países vizinhos gostam ou não de terem terras indígenas como fronteira. Alguns deles as têm, como a própria Venezuela, a Colômbia, o Peru, etc. Assim, é impossível que algo drástico, como a destituição dessas terras indígenas, venha a ser sugerida pelo STF. Nesse sentido, essa é uma discussão retórica e vazia.

Sugere a matéria também que os ministros do STF estão receosos quanto à presença de Ongs nas terras indígenas. Não sabemos ainda se esse receio é do tipo militaresco, qual seja, de que as Ongs são agentes dos interesses internacionais sobre as riquezas das terras indígenas na Amazônia e assim desafiam a soberania nacional, ou se é num sentido mais brando, qual seja, de que as Ongs querem levar os povos indígenas a comportamentos anti-integracionistas, ou mesmo no sentido de que as Ongs, sem nenhuma legitimidade formal para tanto, querem dominar a questão indígena brasileira acima do Estado e prevalecer sobre os povos indígenas. Esta última certamente faz sentido.

A questão indígena brasileira está tomada por forças antagônicas muito radicais nesse segundo mandato do presidente Lula. A própria FUNAI foi tomada por pessoas -- antropólogos, advogados e jovens políticos -- que trabalhavam em Ongs com o espírito de que a FUNAI não é competente em sua atitude rondoniana e precisaria ser modificada para atender as novas demandas dos povos indígenas. Enfraqueceram a capacidade de ação do órgão pela exasperação com que o administram. Nesse sentido, sem querer querendo, como a cobra engolindo o seu próprio rabo, as Ongs terminam se encontrando ao lado das forças anti-indigenistas comandadas por políticos, fazendeiros e até um filósofo respeitado, que acham que o Estado, especialmente o Executivo, especialmente a FUNAI, concentra muito poder na defesa dos índios. Querem que a questão indígena seja comandada pelo Legislativo.

A atual direção da FUNAI, que conta com pessoas que trabalhavam até então no ISA, no CTI e em outras pequenas Ongs, encaminhou uma série de atos ao Ministério da Justiça que, inadvertidamente, o levaram a abrir frentes de batalha dificílimas com governos estaduais como Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia. Propor, de uma só tacada, a demarcação de cinco terras indígenas no oeste de Santa Catarina inviabilizou a demarcação dessas terras provavelmente pelos próximos anos, demarcação esta que poderia ser realizada com uma estratégia mais sensata, caso a caso, negociando as possibilidades que se fossem abrindo. Mais desastroso ainda foi o caso de alardear que iriam demarcar cerca de 500.000 e 1.000.000 de hectares no Mato Grosso do Sul, como se para tanto bastante apenas um ato de querer.

Não restam dúvidas de que, de uns anos para cá, todos os casos de demarcação de terras indígenas são contestados por terceiros que tenham interesse nas mesmas. Até em estados como o Amazonas cujo problema principal não é falta de terras. E essas contestações desembocam e desembocarão inevitavelmente no STF.

Em janeiro de 2006, em entrevista à Agência Reuters, que foi repercutida pelo O Estado de São Paulo, inicialmente d modo correto, mas logo em seguida interpondo frases que não haviam sido proferidas por mim na entrevista original, notei que esse processo vinha acontecendo e previ que seria o STF que definiria uma nova modelagem de reconhecimento de terras indígenas e sua consequente demarcação. Isso poderia ser feito com o STF tranquilamente respondendo a um pedido feito pela FUNAI. Entretanto, os ruídos criados contra minha fala foram tão estridentes que não consegui apoio para fazer esse pedido de esclarecimento ao STF. Maldisseram as Ongs que eu estava querendo que o STF tomasse nas rédeas o processo de demarcação que cabe ao Executivo brasileiro fazer.

Ora, está agora nas mãos do STF decidir como interpretar a Constituição a respeito do que constitui uma terra indígena em seus aspectos mais controversos, como tradicionalidade de ocupação, temporalidade, modos de uso, etc. Até mesmo uma discussão eminentemente antropológica, como a questão da aculturação, integração e a continuidade étnica, passará pelo discernimento dos senhores ministros do STF para amparar suas decisões eminentemente políticas.

Assim será feito, segundo a matéria abaixo. E, infelizmente, essa decisão será tomada em cima de um caso que seria, em outros tempos, líquido e certo a favor dos índios concernentes. E repercutirá em outro caso líquido e certo, como a Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, no sul da Bahia, que já esteve em votação, já recebeu o voto favorável do relator, mas que agora fica pendurado pela decisão sobre Raposa Serra do Sol. Sem falar nas terras que os Guarani e Kaingang necessitam para continuar a viver uma vida minimamente indígenas, como querem.

Por outro lado, pode ser que o STF, ao final, como em tantas vezes, não defina nada suficientemente e deixe novas ambiguidades no ar. Se isso acontecer, a questão indígena brasileira poderá entrar em parafuso, sem norte e sem oeste, rumo ao conflito permanente e à entropia.


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STF deve pôr em xeque critérios da Funai ao decidir sobre reserva
Corte discutirá se índios comprovadamente aculturados precisam de reservas como se fossem tribos nômades


Mariângela Gallucci, para O Estado de São Paulo

A retomada no Supremo Tribunal Federal (STF), amanhã, do julgamento sobre a reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima, vai abrir uma discussão constitucional sobre os conceitos que a Fundação Nacional do Índio (Funai) usa para fazer as demarcações das terras indígenas. Os 11 ministros vão discutir se índios comprovadamente aculturados precisam de reservas para caçar e praticar a agricultura como se fossem tribos nômades. Podem emergir do julgamento, portanto, novos conceitos jurídicos e sociais para a demarcação de reservas indígenas.

Entenda a disputa da Raposa Serra do Sol

“É natural que se tenha uma discussão além do caso concreto”, admitiu ontem o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, durante viagem a Montes Claros (MG) e Teresina (PI), onde lançou um programa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) denominado Casas de Justiça e Cidadania - cujo objetivo é prestar assistência social e jurídica à população.

Há quase um consenso entre os ministros do STF de que a demarcação da Raposa Serra do Sol tem uma série de erros e exageros na maneira como trata os índios, mas não existe disposição de anular todo o processo. A direção da Funai, por meio de sua assessoria de imprensa, disse ontem que “segue e faz o que manda fazer a Constituição”. E a Constituição, acrescentou a assessoria, “diz que a demarcação de terras indígenas é uma política do Poder Executivo”.

Segundo ministros ouvidos na semana passada pelo Estado, é possível que o Supremo construa uma saída para o caso da reserva em Roraima e oriente as demarcações futuras - o que interessa especialmente a Mato Grosso do Sul. Vai ser discutido, também, o poder da Funai para decidir sozinha as demarcações que envolvam direitos federativos de Estados e municípios. O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), diz que “é preciso fazer mudanças, porque não se pode deixar esse poder nas mãos de uma pessoa só”. Anchieta sugere que os processos de demarcação de terras tramitem no Congresso como projeto de lei e sejam votados por deputados e senadores.

Um ministro do Supremo chegou a dizer ao Estado que a Funai se recusa a levar em conta a relação dos índios com os não-índios e encara a demarcação “como se estivesse apenas criando cercas de proteção, como se estivesse implantando zoológicos de preservação, uma política que os índios rejeitam”. O pior, na visão desse ministro, é que a Funai “faz as cercas, fica em paz com as organizações não-governamentais, mas depois abandona os índios e oferece uma assistência precária”.

“É a primeira vez que o STF se debruça, pós-1988, com profundidade sobre esse assunto (demarcação de terras)”, disse o presidente do Supremo. Segundo ele, a decisão do tribunal será cumprida. “Não haverá resistência à decisão. Podemos ter aqui ou acolá críticas à decisão, mas, certamente, ela será cumprida.”

Há ainda grande preocupação com o fato de a reserva se estender à zona de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. Também é criticada constantemente pelos ministros a atuação de muitas ONGs na área. Os ministros do STF avaliam que o julgamento deve servir de parâmetro para uma nova disputa em curso envolvendo índios guaranis-caiuás e fazendeiros de Dourados, Miranda, Naviraí, Rio Brilhante e Maracaju, todos em Mato Grosso do Sul.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Ministério de Desenvolvimento Agrário quer criar Território Rural Indígena

Notícia muito estranha esta que vem do jornal Folha de Boa Vista, de Roraima.

Diz que o Ministério de Desenvolvimento Agrário, onde está o INCRA e não a FUNAI, está criando o 1º Território Rural Indígena, unindo as terras indígenas Raposa Serra do Sol e São Marcos para concebê-las como uma terra que pode ter um desenvolvimento agrário conjunto.

Ora, cadê a FUNAI? Quem já ouviu falar em tal coisa, sem nenhuma delegação constitucional ou do próprio Estatuto do Índio. É brincadeira para fazer índio de massa de manobra,ou o que é?

Não cabe ao MDA se arvorar de fazer desenvolvimento agrário em terras indígenas. Esse ministério não tem incumbência para tanto, nem capacidade indigenista ou antropológica. Se os indígenas dessas duas terras deixarem que algo assim aconteça estarão pondo em risco sua autonomia política e econômica.

Isso me parece iniciativa de Ongs com um ministério que está cheio de verbas e recursos e não consegue aplicá-los devidamente nos assentamentos do INCRA. Aí querem experimentar em terras indígenas. De fato, a Folha de São Paulo de hoje saiu com uma matéria que mostra que o INCRA só assentou 10.000 pessoas este ano, 68% a menos do que ao ano passado. Parece que o movimento dos trabalhadores sem-terra está arrefecendo seu ímpeto original.

E logo em Raposa Serra do Sol, que está sub-judice no STF e precisando desesperadamente que não se faça marolas para que o STF decida seu destino em breve.

Segundo a matéria, a criação de um tal território rural foi discutido na quinta-feira passada, dia 13/11, com pessoas avulsas. Os presentes não representam organizações, aldeias ou comunidades; não representam nada, só a si mesmos. A participação é voluntário e por "vocação". Ora, vejam, isto torna a coisa mais manipulável ainda. E parece que já existe um segundo tal território rural indígena.

É preciso que a FUNAI e as comunidades indígenas intevenham nisso o quanto antes e não deixem que se leva adiante uma tal asneira.


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RAPOSA/SERRA DO SOL - MDA cria o 1º Território Rural Indígena

Folha de Boa Vista, Boa Vista, Roraima

Desde a última quinta-feira, 13, a comunidade indígena da Vila Surumu, no município de Pacaraima, foi palco de discussões estratégicas para o desenvolvimento do primeiro território rural indígena criado no País, que abrange as terras da Raposa Serra do Sol e São Marcos. O evento encerrou neste sábado e foi organizado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), que contou com a participação de lideranças indígenas, entidades governamentais e não-governamentais ligadas ao desenvolvimento rural sustentável do Estado.

De acordo com a delegada do MDA/RR, Célia Souza Sena, no encontro, foram escolhidos representantes para o colegiado do Território Indígena Raposa Serra do Sol. Ela comentou que o colegiado está aberto para outras pessoas que se sentirem chamadas a colaborar com o desenvolvimento agrícola no local.

"O colegiado não é uma indicação nem votação e sim uma vocação. Então achamos melhor que as próprias pessoas se sentissem chamadas, dessa forma, podemos usar a democracia, ou seja, quem não quisesse não era obrigado", ressaltou, informando que o colegiado conta com a participação de autoridades indígenas, órgãos públicos e sociedade civil..

Foi realizada, ainda no evento, a 1ª oficina de socialização, onde 90 pessoas puderam fazer uma avaliação positiva do evento.

"Conseguimos tirar as principais dúvidas, principalmente de como iremos aplicar as políticas públicas naquela localidade. O colegiado terá como função mobilizar a participação dos indígenas, definir prioridades e dar encaminhamento às demandas, as técnicas de agricultura, de criação de gado e de artesanato", explicou.

De acordo com a delegada, a principal meta do trabalho do MDA nessas áreas é dar assistência aos locais onde o índice de desenvolvimento humano é considerado baixo pelo órgão. Ela disse ainda não ter uma base de quantas famílias indígenas estão sendo beneficiadas com o programa de desenvolvimento agrário.

"Além de ajudar na divulgação dos programas sociais para o indígena, os membros do colegiado serão responsáveis pelas ações realizadas pelo território indígena e também ajudar no desenvolvimento dos projetos. Nesse território, os índios terão a oportunidade de plantar para o seu sustento bem como comercializar os produtos frutos do trabalho no campo", contou a delegada, afirmando que, no ano passado, foi criado o segundo território rural indígena, localizado no Amazonas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Luta pela Raposa Serra do Sol continua. Parte II

Os jornais nacionais estão entrando de cabeça na campanha anti-indígena que vem sendo promovida neste último ano e especialmente desde o período em que o governo federal lançou uma desastrada ofensiva para retirar os arrozeiros da T.I: Raposa Serra do Sol e não obteve êxito, e a Funai criou com extremado alarde cinco grupos de trabalho para definir 36 novas terras indígenas em Mato Grosso do Sul. Isto sem falar nas portarias intempestivas de demarcação de terras indígenas em Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso assinadas pelo ministro Tarso Genro logo que entrou no ministério. Nenhuma de suas portarias prosperou; ao contrário, provocaram o início desse movimento anti-indígena, que começou pela resistência de pequenos agricultores e políticos de Santa Catarina e em seguida por grandes fazendeiros, políticos e os governadores dos dois outros estados. Juntando-se a Roraima a campanha tomou ares de movimento nacional.

A simpatia expressa pelo povo brasileiro aos povos indígenas se encontra em seu nadir, seu ponto mais baixo, desde o período de Juscelino Kubitschek. Nunca houve tantas celeumas que atribuíssem aos índios a culpa original e que os levassem ao desgaste que sofrem atualmente.

O recente voto do ministro Ayres Britto, voto que demonstrou muita sensibilidade à causa indígena, quase que pronunciado por um antropólogo apaixonado, repercutiu negativamente não somente nos meios econômicos interessados (fazendeiros e políticos a eles ligados), mas igualmente na opinião pública refletida em cartas dos leitores e em artigos curtos que alguns jornais incentivam os leitores, como O Globo. Os grandes jornais escreveram editoriais contrários de um modo acintoso.

O mote encontrado pelos fazendeiros e interessados é que a defesa dos povos indígenas e a própria ação da Funai estão ameaçando a Constituição brasileira e a sociedade rural com a virtual cassação do direito à "propriedade"!

Pode ser que esse mote não pegue no sentimento da população brasileira em geral, que ainda guarda muito respeito pelos índios, mas é mote forte para inflamar a elite brasileira e uma classe média rancorosa que acha que os índios são privilegiados nesse país. Aliás, o discurso do "privilegiado" ecoa por todos os cantos.

Neste sábado, O Estado de São Paulo trouxe uma matéria em que o ministro Ayres Britto se defende da insinuação sugerida em matéria anterior onde anônimos quatro ministros do STF teriam julgado o voto do ministro "romântico" e "superficial". Ayres Britto se defende, o que não era necessário, se ele tivesse convicção filosófica sobre o que pronunciara, afirmando que grandes juristas teriam dado apoio ao seu voto.

A campanha anti-indígena está clara. O jornal conservador paulista quer deixar no ar um sentimento de dúvida e de censura sobre esse voto.

A mesma matéria anuncia uma campanha que a CNA -- Conselho Nacional de Agricultura -- vai fazer contra a Funai e os índios alegando que o direito à propriedade está sendo ameaçado. Vai ser campanha nacional, com dinheiro e com marqueteiros criando motes e bordões contra os índios, sempre ressalvando que eles são a favor dos direitos dos índios e que querem o seu desenvolvimento.

Mas não é só o Estadão que está danado. A Folha de São Paulo lançou um editorial em que condena a assinatura do Brasil da Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, incriminando o Itamaraty por esse ato diplomático. Esse distinto jornal sabe muito que a Declaração não é vinculante, não constitui tratado, nem convênio, e nem vai passar pelo Congresso Nacional para ser votado com força de lei, como o foi a Convenção 169 da OIT. É tão somente um gesto de boas intenções do Estado brasileiro no qual foi acompanhado por outros 143 países, alguns com disputas indígenas muito mais perigosas para suas integridades, tais como a China, Índia e Indonésia. Quatro países teriam votado contra, entre esses a Austrália, não por ser necessariamente contra, mas por ter um governo conservador naquele momento. Logo depois, votado um gabinete progressista, logo se dispôs a se redimir e pedir perdão aos Aborígenes Australianos pelo que a nação fez contra eles. Já os Estados Unidos não votam nem declaração contra pedofilia! O Canadá, no período de discussão da dita Declaração, período que ocorreu durante 11 anos, dos quais eu pessoalmente participei nos últimos quatro anos (2003-2007), sempre cumpriu um papel de mediação entre os povos indígenas e os demais países, e teria votado favoravelmente não fosse pela eleição de um gabinete conservador há dois meses da votação final do projeto de Declaração e do envio à Assembléia Geral da ONU.

O editorial da Folha de São Paulo bate na tecla, já batida pelo diplomata aposentado Rubens Barbosa, de que consta nessa Declaração o artigo (3º) que dá aos povos indígenas o direito à auto-determinação e com isso o direito a definir seu estatuto político, como se isso levasse diretamente ao direito de declarar-se independente. Nesse sentido, seria bom os redatores da Folha lerem o livro do Relator da ONU para Direitos Indígenas, S. James Anaya, que recém esteve no Brasil, onde ele, como jurista, demonstra que o conceito de auto-determinação deixou de restringir-se ao sentido dado pela ONU que serviu de base à libertação das colônias africanas, e passou a significar o direito de um povo de ter controle sobre sua cultura e seus costumes e de se posicionar diante do mundo com autonomia, sem intervenção de outros povos. O editorial também critica o Brasil por acatar a terminologia "povo indígena", algo que não consta na nossa Constituição. Também aí houve uma mudança de sentido sobre o termo povo, bem como sobre o sentido de unicidade da relação entre povo e nação. Ainda por cima, um dos últimos artigos da dita Declaração explicita que nenhum artigo pode ser usado com o fito de provocar desmembramento territorial ou desafio à soberania do país onde os povos indígenas concernentes estão abrigados. Por tudo isso, custa crer que a Folha ignore esses caveats e tenha sido simplesmente ingênua em seu editorial.

A guerra de Raposa Serra do Sol virou guerra santa. Extrapolou os limites locais, que é uma disputa entre os povos indígenas que nela habitam e um punhado de arrozeiros ousados que desafiam inclusive a legalidade do estado brasileiro. Não tem nada a ver com a questão de propriedade privada, algo que até se poderia dizer da questão que se desenrola no Mato Grosso do Sul.

Nesse sentido apelo mais uma vez para a capacidade do STF de fazer Política com P maiúsculo em relação a essa questão, conforme está na postagem que fiz na sexta-feira passada.


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Ayres Britto rebate críticas e diz ter apoio de juristas

O Estado de São Paulo, por Felipe Recondo e Mariângela Gallucci, de Brasília

O relator da ação que contesta a demarcação da Reserva Indígena Raposa Serra do Sol (RR) no Supremo Tribunal Federal (STF), Carlos Ayres Britto, rebateu ontem as críticas feitas reservadamente por colegas ao seu voto, lido na sessão de quarta-feira do STF.

Ministros afirmaram que Ayres Britto tratou determinadas questões de forma superficial e um deles classificou seu voto de "romântico". "Se algum ministro tachou o meu voto de superficial é porque o leu superficialmente", respondeu Britto.

E acrescentou que, ao contrário dessas avaliações, recebeu o apoio de juristas renomados. "Não é como pensam Paulo Brossard, Celso Antônio Bandeira de Mello, Dalmo Dallari, Weida Zancaner, Samuel Rodrigues Barbosa, Marcelo Leite, entre outros", afirmou.

Britto votou por manter a demarcação contínua da terra indígena, exatamente nos moldes determinados pelo governo, e defendeu a retirada imediata dos arrozeiros.

Logo depois do voto, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito pediu vista do processo. Ainda não há data definida para a retomada do julgamento.

Porém, ao menos quatro ministros ouvidos pelo Estado revelaram que pretendem fazer ressalvas à demarcação. A preocupação principal é com a soberania nacional. Esses ministros dizem que podem propor a redução da área destinada à reserva para deixar livres para as Forças Armadas as faixas de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. A demarcação permaneceria da forma contínua. Um dos ministros chegou a propor que esse recuo seja de 150 km, como previsto no Artigo 20 da Constituição.

Eles argumentam que a reserva na fronteira com a Venezuela e a Guiana podem atrapalhar o trabalho das Forças Armadas e colocar em risco a segurança da região.

Além disso, reforçam o argumento, citando a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, da Organização das Nações Unidas (ONU), assinada pela Brasil. Por esse documento, os índios podem decidir sua condição política, têm liberdade para estabelecer relações com povos do outro lado da fronteira e dispõem de autonomia para decidir assuntos internos.

Apesar desse receio, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, já declarou que a presença de índios na região não comprometeria o trabalho das Forças Armadas.

CONTRA-ATAQUE

Os detalhes da mobilização que a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) organiza para contra-atacar o voto de Ayres Britto serão definidos em reunião marcada para o dia 16, na sede da entidade, em Brasília.

O presidente da Comissão Nacional de Assuntos Fundiários e Indígenas da CNA, Leôncio de Souza Brito Filho, adiantou que a entidade realizará ampla campanha de mídia para conscientizar o brasileiro sobre a "insegurança jurídica" que afeta o crescimento do setor produtivo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

A luta pela Raposa Serra do Sol continua

O brilhante voto do ministro Ayres Britto talvez não tenha sido abrangente o bastante para convencer alguns ministros do STF a seguirem-no.

É o que quer demonstrar matéria do jornal O Estado de São Paulo, de hoje, com declarações em off de quatro ministros do STF. Ao que parece, alguns ministros criticaram o voto do ministro-relator chamando-o "romântico" e "superficial".

O rescaldo da sessão de quarta-feira, dia 27/08, vem demonstrando que as partes estão armando seus acampamentos de guerra.

Os contrários ao voto do ministro Ayres Britto o estão fazendo através da veiculação em jornais das idéias de diversos intelectuais de direita e das notícias alarmantes dos mesmos argumentos que vinham brandindo, os quais o voto de Ayres Britto poderia ter dissipado. A notícia abaixo tem cheiro dessa artimanha. Outras matérias em jornais de hoje também revelam a preocupação dos contrários em pôr os índios na berlinda, seja como falsos inocentes que ficam garimpando ilegalmene em suas terras (Folha de São Paulo), seja como potenciais traidores da pátria (O Estado de São Paulo). Também o Estado brasileiro está sendo e vai continuar a ser fustigado pela incapacidade de cuidar devidamente da assistência e do desenvolvimento dos povos indígenas. Tudo para criar uma imagem negativa dos índios no Brasil.

Por sua vez, os favoráveis ao voto do ministro-relator, que têm menos poder na mídia, escrevem em Blogs, dão entrevistas e planejam manifestações por várias cidades do Brasil para levar a causa da preservação da homologação contínua da T.I Raposa Serra do Sol a nível de consciência nacional. Só espero que não se invente de fazer manifestações no Exterior!

As opiniões estão formadas de um jeito tal que não adiantam argumentos dissuasórios nesse momento. A não ser que sejam argumentos de um nível superior aos que estão sendo veiculados até agora. Por enquanto, esses argumentos estão dormentes e cada facção está entricheirada, vivendo de suas próprias energias e atirando a esmo.

Assim não dá! A iminência de continuação de conflitos está visível por todos os lados. Se bem que, por enquanto, os militares estejam calados, suas vozes sendo faladas através de interpostos terceiros.

A grande verdade é que a questão indígena é mais complexa do que pensam aqueles que só a penetram superficialmente. Armam visões puramente românticas ou puramente pragmáticas ou puramente cínicas do relacionamento entre o mundo indígena e o mundo não indígena. Uns têm uma visão imanente do relacionamento entre os índios e a terra, outros uma visão colonial. Os que acreditam que a história se faz por confrontos, pacíficos ou violentos, frequentemente só a interpretam pelo que aconteceu ou está acontecendo, sem tentar antecipar o que poderá vir a ser.

De todo modo, a história e as decisões políticas são sempre tomadas no turbilhão dos acontecimentos, os quais nem sempre são bem aquilatados. O fato é que a questão Raposa Serra do Sol está no STF, que é um microcosmo de posições parciais sobre a questão indígena, e será daí que surgirá a saída. Talvez daí venham a surgir novos e brilhantes argumentos conciliadores. Porque, se não assim o forem, qualquer decisão do STF não resolverá a questão a contento das partes litigantes.

O grande problema é que se armou nacionalmente um espírito anti-indigenista impressionante. O anti-indigenismo sempre existiu no Brasil, mas em círculos relativamente pequenos. Ele aumenta em momentos de crise de relacionamento entre a sociedade brasileira e os povos indígenas. Antigamente era porque os índios desafiavam o status quo da sociedade brasileira. Hoje é porque as Ongs indigenistas abriram um flanco de dúvida e perplexidade na atitude mormente positiva que a maioria dos brasileiros tem para com os índios, ao forçar a Funai a posições de radicalização, como no Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina, e elevaram os ânimos contrários.

Nesse sentido, a derrubada da homologação de Raposa Serra do Sol tornou-se um ícone do movimento anti-indigenista. Ícone porque a CNA (Conselho Nacional de Agricultura) pouco importa com os arrozeiros de Roraima, algo insignificante entre seus membros poderosos. Roraima e aquelas terras em disputa pesam pouquíssimo no cálculo financeiro e político da CNA. Mas a liberalização das terras indígenas de Raposa Serra do Sol virou o bastião da defesa da "propriedade privada" dos novos senhores rurais brasileiros. Vencer lá significa vencer em todas as partes.

Curiosamente, e, na minha opinião, equivocadamente, este vem sendo o mesmo teor dos argumentos do indigenismo brasileiro. A perda de Raposa Serra do Sol, de qualquer porção dela, é vista como o desastre do indigenismo brasileiro. As Ongs e o Ministério Público tem alardeado isso de forma messiânica. O movimento indígena segue-lhes mansamente. A antropologia chapa-branca brasileira faz coro e dar ares de santificar essa posição.

Falta Política com P maiúsculo para resolver essa parada!

O STF é, apesar de jurídica, uma corte política. Quer dizer, ela serve para dirimir questões quando essas questões não podem ser resolvidas pelos argumentos e confrontações pacíficas. Portanto, o STF é quem vai resolver essa grande questão nacional, sobrepujar as diferenças. Para isso, o que não pode acontecer no STF é os ministros decidirem seus votos por argumentos falaciosos, alguns dos quais o voto de Ayres Britto já rebateu com grande clareza. Por exemplo, a questão da soberania nacional em relação à presença de terra indígena em faixa de fronteira me parece que foi habilmente rebatida. A ilegitimidade das fazendas de arroz é patente, mas não a de velhos moradores, com fazendas centenárias em alguns pontos da região. Se bem que a maioria dessas pessoas aceitou os termos de indenização e se retirou amigavelmente. A disputa entre facções indígenas precisa ser equacionada antropologicamente, mas sem usar de índios mamelucos como intermediários, como é o caso de um tal José Brazão, que é índio Baré, do rio Negro, e que se faz de líder dos índios contrários ao CIR. Nesse aspecto os índios não querem tocar, na expectativa de que, uma vez resolvida a questão, eles se entenderão por si mesmos.

Enfim, o pedido de vista suspendeu a questão mas não a disputa.

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Ministros divergem de relator e admitem idéia de reduzir reserva

O Estado de São Paulo, por Felipe Recondo e Mariângela Galucci, de Brasília

Consultados pelo 'Estado', 4 dos 11 ministros mostraram-se propensos a fazer ressalvas ao voto de Ayres Britto

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) consultados pelo Estado adiantaram ontem que podem diminuir a área destinada à reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, para deixar livres para as Forças Armadas as faixas de fronteira do Brasil com a Venezuela e a Guiana. A demarcação permaneceria da forma contínua, como determinou o governo, mas o tamanho da reserva seria reduzido.

A decisão nesse sentido contrariaria o voto do relator da ação, contra a demarcação, ministro Carlos Ayres Britto, que manteve a delimitação da reserva nos moldes originais. Quatro dos 11 ministros se mostraram propensos a fazer ressalvas ao voto de Britto, que foi classificado por um colega de "romântico" e visto por outros como superficial - mesmo tendo 108 páginas. Para que sejam feitas alterações na reserva são necessários 6 votos. Os demais membros do Supremo preferiram não se pronunciar, mesmo reservadamente.

Os ministros que atenderam à consulta do Estado analisam que, da forma como foi feita a demarcação, a soberania do País estaria comprometida. Um deles disse que o voto, se mantido, é um "passo para o separatismo" de índios e brancos.

Isso porque os índios que ocupam a região têm parentes dos dois lados da fronteira (no Brasil e na Venezuela) e trafegam livremente para os dois lados. Nem mesmo a determinação do governo de que batalhões do Exército sejam instalados na área convence esses ministros. Um deles, que esteve em Roraima, afirmou que o Exército se vê obrigado a fazer convênios com índios para que tenham a entrada nas terras facilitada.

DECLARAÇÃO

A preocupação desses ministros é reforçada com a assinatura pelo Brasil da Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, da Organização das Nações Unidas (ONU). Por esse documento, os índios podem decidir livremente sua condição política, têm liberdade para estabelecer relações com povos do outro lado da fronteira e dispõem de autonomia para decidir assuntos internos.

Apesar de o ministro da Defesa, Nelson Jobim, ter declarado que a presença dos índios não atrapalha a ação dos militares na fronteira, os integrantes do Supremo se mostraram sensíveis aos argumentos de parte do Exército, contrária à demarcação.

Em seu voto, o relator da ação foi duro ao tratar dessa suposta ameaça à soberania do Brasil. Ele classificou como tentativa de desviar o foco da discussão o argumento de que a ocupação pelos índios poderia atentar contra a soberania nacional.

"Não é por aí que se pode falar de abertura de flancos para o tráfico de entorpecentes e drogas afins, nem para o tráfico de armas e exportação ilícita de madeira. Tampouco de perigo para a soberania nacional, senão, quem sabe, como uma espécie de desvio de foco ou cortina de fumaça para minimizar a importância do fato de que empresas e cidadãos estrangeiros é que vêm promovendo a internacionalização fundiária da Amazônia legal, pela crescente aquisição de grandes extensões de terras", afirmou Ayres Britto durante o julgamento.

O relator foi o único dos 11 membros do Supremo a votar na sessão de quarta-feira. Depois do voto de Ayres Britto, o ministro Carlos Alberto Direito pediu vista do processo, o que adiou o julgamento para data indeterminada. O regimento do STF determina que o processo deve ser devolvido para a retomada do julgamento em até 20 dias, mas esse prazo pode ser descumprido.

SOBERANIA

Na retomada do julgamento, Direito será o primeiro dos ministros a suscitar a preocupação com a soberania do País e deve abrir a divergência em relação ao voto do relator.

Apesar de admitirem a possibilidade de manter a demarcação contínua, alguns ministros afirmaram ser necessário descobrir que terras eram ocupadas pelos índios à época da demarcação. Se ficar evidenciado que determinadas faixas não eram ocupadas pelos índios, admitiram dois ministros, podem propor a exclusão dessa extensão de terra da reserva demarcada.

De acordo com um dos ministros - que conhece a região -, as terras ocupadas pelos arrozeiros não seriam povoadas pelos índios e por isso não haveria razão para que fossem integradas à reserva.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Ayres Britto dá voto brilhante sobre Raposa Serra do Sol

O voto de Ayres Britto sobre Raposa Serra do Sol

Na tarde de hoje, após as falas dos advogados da União, dos povos indígenas, do estado de Roraima e dos arrozeiros, incluindo um emocionante apelo da advogada indígena Joênia Wapixana, o ministro Carlos Ayres Britto proferiu um longo e brilhante discurso sobre as questões envolvidas na disputa da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Em seu discurso Ayres Britto ponderou sobre aquilo que chamou de “coordenadas constitucionais”, isto é, a hermenêutica do conjunto de artigos e ítens que constam na Constituição brasileira sobre a questão indígena, seja diretamente, seja diagonalmente. Suas coordenadas constitucionais foram sempre favoráveis aos índios. Para Ayres Britto, a Constituição brasileira e o Estatuto do Índio tratam os índios como brasileiros em condições especialíssimas, algo que nós sempre temos insistido. É generosa e grandiosa e não deve nada a nenhum documento internacional, seja a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas (a qual ele de certa forma condenou por determinar de fora a autodeterminação dos povos indígenas), seja outro qualquer (como a Convenção 169, da OIT). Ao mesmo tempo, a Constituição permite, pela interferência necessária do Estado e pelo relacionamento harmônico entre índios e não índios no país, o processo de aculturação e integração dos povos indígenas, sem prejuízo da manutenção de suas culturas, usos e costumes. Com isso varreu de lado aqueles que acham que existe uma incompatibilidade entre preservação de cultura e integração dos índios à nação brasileira. A Constituição de 1988 foi, portanto, exaltada, mas não mistificada, como fazem as Ongs indigenistas anti-rondonianos.

Ao tecer suas coordenadas constitucionais e rebater uma por uma as objeções criadas pelos contrários à homologação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, o ministro Ayres Britto fez as seguintes considerações:

1. Não há incompatibilidade entre terras indígenas e faixas de fronteira
2. Os povos indígenas não constituem um perigo à soberania nacional
3. As terras indígenas de uma etnia devem ser reconhecidas de forma contínua
4. Os espaços vazios entre terras indígenas de etnias diversas podem ser incorporadas ao estoque de terras públicas não indígenas
5. Diferentes etnias podem conviver na mesma terra indígena quando há compatibilidade e harmonia (esta foi uma discussão um tanto bizantina em que o ministro-relator quis se pronunciar sobre a concepção de que um território indígena é sempre de uma etnia)
6. As culturas indígenas se aculturam e se integram sem necessariamente perder suas características próprias, apenas adicionando novas configurações
7. A ocupação permanente de terras indígenas é definida como tendo um caráter de convivência e uso
8. A constituição de 1988 é o corte temporário anterior à qual se pode reconhecer uma terra indígena como tendo ocupação permanente. Após esse ano, a chegada de índios a uma terra não constitui ocupação tradicional
9. Roraima tem terras suficientes para sua população, mesmo não tendo controle sobre as terras da União (indígenas e de reservas ambientais), comparativamente com estados com Rio de Janeiro, Espírito Santo e Alagoas, juntos.
10. Se há vazio do Estado em faixas de fronteira, a culpa é do próprio estado, não dos índios
11. Portanto, o Estado deve fortalecer o Exército e a Polícia Federal nas regiões de fronteira (em nenhum momento mencionou a Funai ou um órgão indigenista, como se ele não existisse)
12. Os índios não podem se opor à presença do Estado, nem interromper estradas ou próprios públicos, pois eles são cidadãos e dependem do Estado para educação, saúde, desenvolvimento econômico.
13. Os estrangeiros devem ficar fora de terras indígenas, em função de sua cobiça por minerais e pela ambição pela Amazônia.
14. No território brasileiro quem manda é o Brasil, não a ONU ou Ongs estrangeiras
15. Tanto os laudos antropológicos feitos pela Funai quanto a comissão do estado de Roraima têm legitimidade para se opor a decisões e apresentar seus argumentos em cortes.
16. Não acredita ter havido uma proliferação de malocas com o fito de dar a impressão de presença indígena em todas as áreas.
17. Toda a área delimitada pela Funai é terra indígena legítima, habitada pelas etnias Makuxi, Taurepang, Ingarikó, Patamona e Wapixana, que vivem misturadas em convívio harmonioso.
18. As posses e fazendas de arrozeiros são ilegítimas por terem sido obtidas por esbulho dos índios.
19. A extensão de Raposa Serra do Sol é compatível com as coordenadas constitucionais concernentes aos povos que lá habitam
20. Demarcar terras indígenas não se orienta por critérios matemáticos. Não deve prevalecer a contabilidade espúria de calcular o tamanha da terra em relação ao número de habitantes indígenas.
21. A extrusão de não indígenas da Raposa Serra do Sol deve ser feita pacificamente e garantindo terras alternativas para os intrusos
22. As vilas existentes em Raposa Serra do Sol foram formadas por garimpeiros que saíram da T.I. Yanomami, portanto, não têm legitimidade
23. São nulas as titulações conferidas pelo Incra e inválida a ocupação da Fazenda Guanabara, Depósito e outras.
24. As terras vendidas pelo estado de Roraima são ilegítimas
25. Só os ocupantes de boa-fé podem receber idenizações
26. Os rizicultores que passaram a usar a terra a partir de 1992 não têm direito, mesmo em terras compradas de títulos antigos porque vieram de esbulho dos índios.
27. As fazendas de arrozeiros degradam o meio ambiente e impedem os índios de passarem por lá e usarem do rio Surumu.

Em conseqüência dessas considerações argumentadas com estilo literário superior, o ministro Ayres Britto proferiu seu voto em alto e bom som: pela improcedência da Ação Popular que motivou esse julgamento, pela permanência da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol e pela retirada imediata dos não indígenas daquela terra indígena.

Grandíssissimo voto. Porém, pairou no ar a falta de diretrizes para a demarcação de novas terras indígenas, algo que parecia ter sido prometido pelo ministro-relator e por Gilmar Mendes, em diversas entrevistas anteriores. Por sua vez. na primeira intervenção de um ministro do STF, o ministro Carlos Alberto Menezes Direito, foi pedido vista do processo. Com isso o presidente Gilmar Mendes deu por encerrada a sessão.

Nova espera, novas angústias. Os arrozeiros vão continuar na terra e vão dar prosseguimento á sua atuação maléfica e perversa. Paulo César Quartiero, com sua arrogância e desprezo aos poderes públicos, saiu ironizando o voto de ministro. Os advogados contrários, com sorrisos amarelos, prometeram uma reação na busca de convencimento dos votos dos demais ministros.

Enfim, com alguma alívio e ainda apreensão, a luta continua!

Vamos esperar pelo voto do ministro Eros Grau sobre a Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu, que será debatida dia 3 de setembro próximo. Talvez aí possamos ter esperanças.

STF decide hoje sobre Raposa Serra do Sol

Começa hoje de manhã a sessão do STF que decidirá sobre a manutenção ou a anulação (parcial) da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Muita gente veio a Brasília para assistir a esse evento. Dele poderá depender a possibilidade de novas demarcações ou sua obstaculização.

Os participantes desse Blog, para minha honra, deram a sua opinião ao longo dos últimos três meses sobre esse assunto. Na Enquete ao lado, com a pergunta "O que fará o STF sobre a homologação da T.I. Raposa Serra do Sol?" as respostas demonstram quase um empate técnico entre as duas grandes opções; nas opções seguintes, que cada participante poderia votar, a votação foi menor. Eis o resultado:

102 pessoas votaram achando que a homologação vai ser mantida

119 pessoas votaram achando que o STF vai exigir nova demarcação (portanto anulando a homologação anterior)

57 pessoas votaram achando que o STF vai exigir a presença mais forte do Exército na área indígena

51 pessoas votaram achando que os arrozeiros vão ser retirados da Terra Indígena

48 pessoas votaram achando que o STF vai mandar fortalecer a Funai

A votação, sintomaticamente, reflete aquilo que os jornais estão dizendo hoje e que vêm dizendo há algum tempo. Isto é, que há uma tendência dos ministros do STF para apaziguar a disputa tirando um pouco de cada lado.

Provavelmente o STF decidirá hoje ou nos próximos dias (se houver pedido de vistas por parte de algum ministro) que a homologação poderá ser mantida em algumas condições.

Que condições é que não sabemos. Talvez a manutenção daqueles não indígenas que adquiriram terras e as usavam em algum tempo no passado. Para Nelson Jobim, ex-presidente do STF, esse tempo seria aquele que antecede a Constituição de 1934, quando pela primeira vez foi declarado reconhecimento da legitimidade dos índios sobre as terras que ocupam. Essa data seria um recorte com alguma significância, mas, de qualquer modo, arbitrária. Outros querem que seja a data da promulgação da Constituição de 1988, o que me parece irreal.

Seja qual for o recorte temporal, daí é que haverá conseqüências para a definição de terras indígenas em outras partes do Brasil. Por exemplo: se um povo indígena ou um aldeamento indígena tiver ocupado uma certa área durante um determinado período de tempo anterior ao recorte temporal arbitrado, e depois ter se retirado ou ter sido forçado a deixar essa área, ficará a questão de sua legitimidade ou não em ter essa área reconhecida retroativamente como sua terra. Todas as terras indígenas guarani disputadas na atualidade estarão em suspenso, dependendo desse recorte.

Outra questão a ser discutida é a da soberania e segurança nacionais em região de fronteira. Não sei precisar o quanto os ministros do STF estão cientes de que esta questão é falsa ou irreal ou exagerada. De todo modo, é a grande questão para os militares e para os nacionalistas mais ferrenhos. Vai de Aldo Rabelo, deputado do PC do B, até Rubens Barbosa, diplomata que cria os argumentos diplomáticos para o conservadorismo brasileiro. Recentemente esse diplomata escreveu no Estado de São Paulo alarmado com o fato do Brasil ter assinado a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas argumentando que isso poria em cheque a soberania nacional. Até, mais alarmista ainda, asseverou que essa Declaração havia sido sancionada pelo Congresso Nacional, confundindo com a Convenção 169 da OIT.

A questão federativa, isto é, a disputa entre Roraima e a União, onde o estado de Roraima alega estar em dificuldades de auto-sustentabilidade em virtude de ter tantas terras suas pertencentes à União, também será motivo de consideração pelos ministros do STF. Pelo menos esta é uma questão para Ayres Britto se pronunciar. Não sei o que ele dirá sobre isso. Parece muito primário o argumento, visto que é um estado do tamanho do estado de São Paulo e com uma população não maior do que 400.000 habitantes. Terra há à vontade para quem quiser dispor dela, mesmo que 46% seja reservada aos indígenas.

Enfim, a grande questão que paira sobre o indigenismo brasileiro é se a decisão a emergir do STF irá tornar um impedimento permanente para a ação da Funai em regularizar as terras indígenas que faltam ser regularizadas. Por exemplo, a grande terra indígena Caramuru-Paraguaçu, dos índios Pataxó, que será debatida no STF no próximo dia 3 de setembro.

O problema maior -- e este foi o grande provocador de toda essa celeuma -- é que as Ongs indigenistas e o CIMI nos últimos dois anos levaram a opinião pública a se posicionar contra os índios e questão indígena brasileira. Essas entidades fizeram tal campanha internacional e puseram tal pressão sobre a FUNAIi e o Ministério da Justiça que esses órgãos terminaram tomando atitudes muito estrepitosas e estrategicamente erradas, tais como publicar de uma só vez uma quantidade expressiva de portarias de demarcação de terras indígenas e criar grupos de trabalho visando o reconhecimento de terras indígenas em regiões conflituosas, como Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Nesses casos, praticamente inviabilizaram as chances de terras indígenas serem efetivamente demarcadas nos próximos anos, tal a resistência que advém de fazendeiros, pequenos agricultores e políticos, e provocaram frustrações imensas nas populações indígenas Guarani e Kaingang, frustrações que só tendem a piorar.

Com essas atitudes voluntaristas e irresponsáveis, o conflito de Roraima-Raposa Serra do Sol, que parecia já estar em processo de equacionamento desde 2005, foi intensificado pela decisão ilusória do Ministério da Justiça de tentar retirar à força os arrozeiros, quando uma estratégia mais lenta de desgaste de suas condições de produção e abertura de áreas alternativas poderia ter dado certo.

A questão indígena brasileira não é uma questão nem de direita nem de esquerda. As Ongs indigenistas vêm buscando fervorosamente politizar os povos indígenas através de seus jovens urbanos e transformar a luta indígena pela dignidade no Brasil num movimento semelhante ao MST. O alto ruído retórico das ações tem causado uma perplexidade muito grande na opinião pública brasileira. Os militares, os políticos, a imprensa refletem esse descontentamento e essa perplexidade.

A questão indígena brasileira está não na esquerda ou na direita e sim no cerne do sentimento da nacionalidade brasileira. Os índios são queridos e amados no Brasil pelo que eles representam como nosso passado e pelo que podem representar pelo nosso futuro. Eis onde está o âmago da questão indígena. Mexer com isso dá problemas.

A ingenuidade aparente, a dedicação sem conhecimento aprofundado da história à causa indígena e o interesse político desmesurado dos atores indigenistas -- Ongs, CIMI e vetores internacionais -- estão levando o STF à posição atual, que pode ser, tomar decisões que não estavam no script da tradição indigenista brasileira.

Não queremos que o STF tome decisões igualmente precipitadas e irresponsáveis, cujas conseqüências deletérias produzam efeitos negativos por muitos anos. Tomara que hoje o Brasil veja nossa Corte Suprema bem equilibrada esparramando uma luz de sabedoria sobre a questão indígena e a dignidade da nação.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Relator da ONU vê conflito e diz que vai ser imparcial

Na manhã deste sábado, o Relator Especial da ONU para Direitos Indígenas, S. James Anaya, esteve reunido, a portas fechadas, com um grupo de mais de 300 índios Guarani e Kaiowá, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Do lado de fora do prédio da Universidade Federal de Dourados, recém- construída, se concentrou um agrupamento de fazendeiros pressionando o Relator para deixá-los entrar e ouvi-los. O Relator Anaya passou o recado que os receberia à tarde, como aconteceu, na sede da prefeitura de Dourados.

Tudo isso se deu porque o Relator Anaya visitava a Terra Indígena Dourados, na cidade de Dourados, onde vivem mais de 12.000 índios numa área mínima de 3.500 hectares, pegada à própria cidade. Ele queria ver ao vivo a situação dos índios Guarani, conversar com eles e ter uma noção clara da situação indígena naquele estado da União.

As reclamações feitas pelos indígenas, assim como relatório que entregaram ao Relator, foram de diversas naturezas. Falaram sobre a discriminação que sofrem na cidade e no estado, onde são considerados mendigos e maloqueiros; sobre sua situação de saúde, inclusive mortes por suicídio e alcoolismo, sobre segurança, com a presença cada vez maior de pessoas entrando na terra indígena, traficantes de drogas, assaltos, brigas provocadas pelo uso do álcool; a falta de uma educação à altura de suas necessidades, enfim, a falta de perspectivas para suas vidas na atualidade.

Falaram, principalmente, sobre a exigüidade de suas terras, em proporção à sua população cada vez maior, e ao fato de que a promessa da Funai de demarcar até 3.500.000 hectares naquela região está encontrando imensas dificuldades por parte dos não-indígenas daquele estado.

A promessa feita pela Funai, pelo Ministério Público e pelas Ongs indigenistas está criando uma tensão imensa na região. A frustração indígena está aumentando na mesma proporção em que vêm os impedimentos para a realização desse intento. A presença dos fazendeiros fazendo pressão no lado de fora da reunião dos índios com o Relator é sinal ostensivo dessa tensão e do descabimento em que a situação interétnica chegou naquele estado.

O que poderá fazer o Relator Anaya? Terá alguma capacidade de influenciar a ONU para pressionar o Brasil para fazer algo diferente do que sua política indigenista pode proporcionar?

Acho que não. Acho que o Brasil não liga mais a mínima para pressão internacional, seja em questões sociais, questões econômicas ou questões políticas. Não estamos mais na décadas de 1980 e 1990, quando o Brasil se sentia inseguro em sua democracia claudicante e se mirava na Europa e nas opiniões estrangeiras para dizer-lhe o que pensar, o que fazer e como fazer. Eis o amadurecimento do país, para o nosso bem ou para o nosso mal.

O Relator Anaya tem sido muito cauteloso em suas falas. Sabe onde pisa e não precisa se exibir. Tem segurança de seu conhecimento jurídico e de suas convicções indigenistas. Fará o relatório que lhe convier. Tem dito que seu relatório foi pedido pela ONU e que será imparcial, tendo ouvido todas as partes concernentes.

Na quinta-feira e sexta-feira passadas, Anaya esteve em Boa Vista, Roraima, onde se reuniu e confraternizou com muitos indígenas Makuxi e Wapixana em Boa Vista e na região do Surumu. Disse a jornalistas que viera para escutar e para ser imparcial no relatório que fará dessa viagem. Porém os índios contrários à homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol protestaram por ele não ter vindo falar com eles. Anaya se desculpou dizendo que não fora alertado, nem chamado.

O que podemos avalizar dessa vinda do Relator Anaya ao Brasil nesse momento? Para diversos membros do governo ele veio em má hora. O ministro Paulo Vannucchi, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, disse que tentou passar o recado à ONU para que ele não viesse agora, inutilmente. Outros têm dito a mesma coisa. Porém, as Ongs acham que esse tipo de pressão é válida, nem tanto para assegurar uma mudança na visão do STF, quanto para afirmar o âmbito do apoio que a causa indígena tem no plano internacional. E é o que mais interessa a essas Ongs. Assim elas se sustentam com a ilusão de serem as legítimas defensoras dos povos indígenas no Brasil. E os estrangeiros as pagam deferência.

Para o Brasil, pouca diferença faz que venha mais um, menos um, relator da ONU sobre qualquer assunto nosso. O salto de auto-confiança dado pelo Brasil nos últimos anos foi muito grande. A Anistia Internacional, por exemplo, que comandava a atenção de todo mundo há uns cinco anos atrás, hoje atinge apenas as Ongs que fazem os estudos de avaliação e denúncia para ela.

A questão indígena brasileira é uma questão nacional, do Brasil. Ela será trabalhada entre nós, com nossas forças e nossas inteligências. Pressão exterior não funciona mais.

Os dados estão lançados. Temos mais dois dias para esperar o voto do ministro Ayres Britto, sobre Raposa Serra do Sol. Esse voto e a decisão que o STF tomará -- se é que vai tomar com tanta clareza, ou deixar a coisa no ar -- poderá mudar muita coisa na questão indígena brasileira.

A radicalização feita nos últimos meses pela influência das Ongs indigenistas levaram a essa situação de tensão e a essa expectativa de mudanças no panorama indigenista brasileiro. Imaginem que essas mesmas Ongs estão pressionando um segmento do movimento indígena, comandado pela Coiab, para querer mudar o Estatuto do Índio no Congresso Nacional! Como se o Congresso estivesse de coração aberto para os índios nesse momento! É o desvario irresponsável elevado à potência máxima de destruição da causa indígena no Brasil.


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Caciques da Etnia Guarani-Caiová fazem denúncia à ONU

Agência Estado

Um grupo de 300 caciques com cocares e caras pintadas, líderes de quase 50 mil índios da etnia guarani-caiová, reivindicaram hoje a intervenção da ONU (Organização das Nações Unidas) nas questões indígenas de Mato Grosso do Sul. Eles entregaram uma carta ao índio norte-americano e relator especial da organização internacional, James Anaya, que iniciou neste sábado uma série de visitas às aldeias da região sul do estado.

O documento foi entregue pelo cacique da Aldeia Jaguapiru, situada na Reserva Indígena de Dourados, Getúlio de Oliveira, denunciando "a invasão silenciosa e crescente da reserva que possui 3.500 hectares de área divididos entre 13 mil caiovás". A falta de espaço, segundo Getúlio de Oliveira, está trazendo sérias conseqüências, devido a influência dos não índios sobre a tribo local, principalmente o alcoolismo.

"Tivemos neste ano, 60 assassinatos, 24 suicídios, e pelo menos 80 ocorrências policiais envolvendo diretamente indígenas. São estupros, assalto a mão armada, brigas e até tráfico de drogas. Não há política pública para dar jeito nessa situação de horror, tampouco força policial, porque a questão toda está presa ao disciplinamento na distribuição de terras para os índios e a demarcação de novas áreas no Estado", reclamou Oliveira.

Para o líder da aldeia Bororó, localizada também na reserva de Dourados, Eduardo Nunes, "terra de índios tem que ser somente de índios. Nossas aldeias estão sendo ocupadas por brancos, negros, paraguaios e até mestiços orientais". José Nunes, outro líder indígena, explicou que a apresentação dos problemas ao enviado da ONU ao Brasil "é para mostrar que estamos vivendo dias terríveis, e pedir a intervenção internacional para que a demarcação prometida pelo presidente Lula, realmente aconteça".

Anaya é índio do Arizona e foi nomeado relator especial da ONU para os Direitos Humanos e as Liberdades Fundamentais dos Povos Indígenas em março deste ano. Ele explicou para a platéia de caciques caiovás que veio conhecer de perto o trabalho da Funai, organizado para iniciar a demarcação de 3,5 milhões de hectares de terras indígenas em Mato Grosso do Sul, e ver a situação das aldeias Jaguapiru e Bororó, pessoalmente. Ele disse que até dezembro deste ano entregará um relatório sobre o que viu no Brasil para a presidência da ONU.
 
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