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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

José Heleno, índio Xocó, funcionário da FUNAI, de volta aos espíritos do Ouricuri

José Heleno de Souza é um dos exemplos de índios que se tornaram funcionários da FUNAI, desde fins da década de 1970, e que, por seu desempenho no ofício, por sua dedicação, integridade, infatigabilidade e luta, deixaram sua marca nos anais do órgão indigenista.

José Heleno nasceu em Sergipe em uma aldeia na beira do rio São Francisco que, na ocasião, não tinha terra demarcada, mas estava em contencioso com um fazendeiro local. Aliás, o fazendeiro era nenhum outro senão o pai do atual presidente do STF, Carlos Ayres Britto. Os Xocó ganharam o direito de posse sobre a Ilha de São Pedro, e o fazendeiro abriu mão de sua usurpação. O povo Xocó, ou Kariri-Xocó, como ficou conhecido, vivia com imensas dificuldades para ser reconhecido como indígena. O pai de José Heleno, que o sobrevive, e seus tios haviam estado com funcionários do antigo SPI e há anos buscavam esse reconhecimento. Os vizinhos brasileiros, negros, cafusos e brancos, davam pouco valor à identidade indígena. Aliás, muitos Xocó têm aparência de cafuso, misturados fortemente com negros, como quase todos os indígenas de Alagoas e Sergipe.

Apesar de todas as dificuldades, os Kariri-Xocó persistiram. Talvez não como memória histórica, mas como memória mitológica, os Xocó, os Kariri, os Xukuru, os Wassu-Cocal sabem que passaram por grandes lutas no passado. Foram dos mais destemidos grupos indígenas a participar nas terríveis lutas da província de Alagoas, em busca de sua autonomia, numa época que antecipou (1832) as lutas que ficaram mais famosas, com larga participação indígena, como a Balaiada, no Maranhão (1836-38), e a Cabanagem, no Pará (1838-40). Na historiografia regional essa rebelião é conhecida como a "Guerra dos Cabanos", não menos porque a maioria de seus participantes eram indígenas, seja auto-denominados, seja nomeados como "cabano" termo equivalente a "caboclo" ou ainda, para alguns cronistas da época, como "gente pobre livre".

José Heleno era um sujeito destemido, arrojado, nervoso e ao mesmo tempo conciliador, amável, gentil. Tem um histórico de ações indigenistas na FUNAI, desde o tempo em que foi contratado e alocado para trabalhar no Maranhão, com os Guajajara, onde eu próprio, como antropólogo de campo, o conheci como chefe de posto. Na ocasião falavam que ele era índio Tuxá, tão pouco eram conhecidos os Kariri-Xocó.

A folha de serviço de José Heleno mostra o quanto ele trabalhou pela FUNAI e especialmente pelos índios do Nordeste. Apresento aqui um pequeno comentário de Wagner Tramm sobre a primeira vez que viu o José Heleno; o necrológico emocionado de Walfredo Silva, indigenista da FUNAI, sobre o amigo de longa data e com quem trabalhara havia muitos anos; Walfredo, que acompanhou a vida de José Heleno e esteve com ele nos seus últimos momentos, também relatou o enterro do amigo.

José Heleno deve servir de exemplo dos índios que podem e devem servir à FUNAI. Foi contratado, trabalhou mais de 30 anos, sob todas as provas e ordálias, e nunca sofreu uma advertência. Foi um exemplo para seu povo e para os povos indígenas do Nordeste. Foi um excelente administrador da FUNAI nos anos que a presidi. Foi demitido injustamente em 2008 e sofreu muito por isso.

É preciso que a FUNAI, no seu próximo concurso, abra-o exclusivamente para índios, com criterios específicos que valorizem a capacidade indígena de conhecimento do mundo indígena e de diálogo com o mundo envolvente. Não pode ser um concurso generalizado, com bases exclusivamente acadêmicas. Se continuar assim, poucos índios terão chance de passar. O exemplo de índios no serviço público e especialmente na FUNAI é fundamental para que haja uma inserção verdadeira, uma integração (no bom sentido) do potencial indígena na Nação brasileira. Os povos indígenas querem essa integração saudável, a despeito de algumas opiniões de antropólogos de gabinete. É essencial também para que funcionários não indígenas aprendam a trabalhar em cooperação e com o coração aberto.

Considero essa proposta uma homenagem a José Heleno e a todos os índios que têm servido à FUNAI e que devem um dia dirigi-la.

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Walfredo Silva, no enterrro de José Heleno:

"quarta-feira, 8 de agosto de 2012 Uma despedida emocionante 
Acabei de chegar do enterro meu amigo José Heleno. Centenas de pessoas estiveram presentes. As homenagens que faltaram em vida, concretizaram-se na sua partida para as lutas na outra dimensão. Se índios existirem lá, provavelmente ele será convocado a liderá-los e com certeza utilizará toda sua experiência desta vida para encaminhá-los a uma existência com menos sofrimento. O que lhe faltou em conhecimento teórico foi substituído pela praticidade com que conseguiu se conduzir entre as tão distintas etnias com quem trabalhou, mesmo sendo um índio nordestino. E, comprovou, na prática, o que escreveu " Euclides da Cunha", - o nordestino é, antes de tudo, um forte- índio, mestiço ou branco, se existir... 


Wagner Tramm, lembrando de sua passagem com José Heleno no Maranhão:

Quando eu estava saindo da Aldeia São José, Posto Indígena do mesmo nome, na Terra Indígena Apinajé, o Zé Heleno vinha chegando. Ele juntamente com Chico Paraiba fizeram a minha mudança para  a cidade de Amarante no estado do Maranhão para trabalhar com os Tenetehara, do Posto Indígena Araribóia. Permutei a vaga com o Chico (Francisco de
Assis Pinheiro). Foram duas fascinantes experiências. O Zé Heleno era uma figura, desfrutamos de bons momentos que recordo com saudade !!!!


Gilberto Silva escrevendo sobre José Heleno:



AOS AMIGOS E COLEGAS DA FUNAI DE TODO O BRASIL.


É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de nosso colega, amigo, índio Kariri-Xocó, José Heleno de Souza. Indigenista de carreira, foi alçado a condição de Administrador Executivo Regional de Maceió, onde permaneceu por 7 anos, um dos mais longos períodos já vividos por um servidor da Funai em toda a existência da administração .

Liderança incontestável entre os índios de Alagoas. Começou a apresentar problemas de saúde há alguns anos em virtude do stress acumulado nesses duríssimos anos administrando com parcos recursos os problemas de quase 15 mil índios da região nordeste. 


Nas últimas semanas teve agravado seu estado de saúde, já debilitado pelo diabetes, com problemas cardíacos graves que culminou com duas cirurgias para implantação de pontes de safena e, no último sábado, com mais uma cirurgia para eliminar coágulos no cérebro, sequelas do último AVC.


É mais um guerreiro que se vai, deixando na história um currículo invejável para quem começou como auxiliar de serviços gerais e permaneceu na Funai por mais de 30 anos, como técnico indigenista, assumindo vários cargos de chefia nas mais diversas regiões do país.

Que os guerreiros que já se foram possam estar unidos pra recebê-lo nessa nova jornada que se inicia pelos caminhos que só os grandes chefes índios podem trilhar.
                               
Maceió, 07 de agosto de 2012.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Xukuru-Kariri querem recuperar suas terras históricas

O povo Xukuru-Kariri é respeitado em Alagoas como um dos povos indígenas mais fortes e consistentes. Os Xukuru-Kariri participaram da grande rebelião dos Cabanos entre 1832 e 1842 quando demonstraram sua força de guerreiros.

No século XIX lutaram muito para manter as terras ao redor de Palmeira dos Índios as quais receberam em sesmaria do governo português. Mas foram lentamente perdendo suas terras. Conseguiram manter a Mata da Cafurna e depois conseguiram mais um pedaço de suas terras originais.

Os Xukuru-Kariri vêm há anos tentando recuperar parte de suas terras de sesmo. É luta difícil. Já foram feitos diversos relatórios antropológicos para reconhecer essas terras, mas todos resultam em problemas de avaliação.

O grande problema se deve ao tempo em que receberam essas terras e ao processo em que foram sendo açambarcadas pela chegada de fazendeiros e moradores da cidade. Mesmo que a Funai publique o documento de reconhecimento dessa terra indígena, os advogados dos fazendeiros entrarão em juízo e paralisarão o processo. Ao final de um longo processo, a decisão caberá ao Supremo Tribunal Federal, porque será a nossa Corte maior que decidirá o tempo em que uma terra pode ser recuperada do esbulho. Está sendo assim em todos os casos. O problema é que o STF demora demais para tomar decisão. Haja visto o caso dos Pataxó Hãhãhãi, da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu.

Por sua vez, os habitantes de Palmeiras dos Índios têm uma relação de ambiguidade para com os habitantes originários da cidade, aqueles que lhe deram o nome.

Desta vez, a retomada da terra indígena não partiu exclusivamente de jovens lideranças, mas conta com a presença de mais de 90 famílias que resolveram penetrar numa das fazendas que fariam parte irretorquível das terras que reconhecem como suas e que os relatórios também lhes atribuem.

Torço pelos Xukuru-Kariri. Torço para que a Funai possa fazer algo mais por eles. Torço para que o administrador da Funai em Maceió, o índio Xokó, Heleno. possa ajudá-los.

Estive lendo o grande livro do grande intelectual alagoano, Dirceu Lindoso, chamado A UTOPIA ARMADA, Rebeliões de pobres nas matas do Tombo Real. Nele constam as lutas dos povos indígenas de Alagoas na quarta década do século XIX e como as terras indígenas foram obtidas e como foram usurpadas. Vale a pena lê-lo.

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ÍNDIOS OCUPAM FAZENDA POR DEMARCAÇÃO DE TERRAS EM ALAGOAS

AGENCIA ESTADO

Noventa e quatro famílias de índios da tribo Xucuru-Kariri ocuparam na madrugada de hoje as terras da fazenda Buenos Aires, no município de Palmeira dos Índios, a 133 quilômetros de Maceió. A propriedade pertence ao empresário e ex-presidente da Associação Comercial de Alagoas Noé Simplício, que ainda não se manifestou sobre a ocupação. Eles afirmam que pretendem permanecer na área ocupada por tempo indeterminado, até que sejam retomadas as negociações para a demarcação de suas terras.

Os índios divulgaram uma carta aberta à imprensa onde dizem que "lutam para que o Departamento de Assuntos Fundiários (DAF) - órgão vinculado à Fundação Nacional do Índio (Funai) - regularize a situação das terras da tribo em caráter emergencial". Os índios alegam que as terras pertencem a seus ancestrais e devem ser demarcadas, "como determina a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988".

"Vamos esperar pacificamente a expectativa de uma solução definitiva, sobre as terras dos nossos antepassados, resistindo, produzindo e transformando a terra em um lugar melhor para todos", afirmou um dos caciques. Os chefes da tribo fazem ainda uma convocação aos demais povos indígenas para integrarem o movimento. Em Palmeira dos Índios, os Xucuru-Kariri habitam aldeias na Mata da Cafurna e na Fazenda Canto. Por isso, os fazendeiros da região estão em alerta temendo novas ocupações.

domingo, 9 de setembro de 2007

Povo Xocó comemora 28 anos de terra garantida

Hoje é Domingo e dia de festa. É o que estão fazendo os Xocó em comemoração à retomada da Ilha de São Pedor, no baixo São Francisco. A matéria fala por si mesmo.

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Índios Xocó festejam 28 anos na Ilha de São Pedro

A tribo dos índios Xocó está em festa. Comemorando 28 anos de ocupação da Ilha de São Pedro, na região do baixo São Francisco, pertencente ao município de Porto da Folha, eles realizam, amanhã, durante todo o dia, um grande churrasco, para o qual estão convidadas as comunidades vizinhas.

“É uma data muito importante para nós. Ganhamos dois bois, vamos assá-los na brasa, dançar o Toré e realizar demais rituais indígenas”, avisa o xocó Pedro dos Santos Lima, 43 anos, filho do pajé Raimundo Bezerra Lima.

Os Xocós são remanescentes de vários outros grupos indígenas que, devido a fatores como a escravidão e a crescente miscigenação ocorridas nos séculos passados, foram, aos poucos, perdendo as características culturais e fenotípicas de seus grupos de origem. A luta pela terra entre índios e alguns fazendeiros da região foi uma questão estruturante na história desse povo, tendo sido resolvida a favor dos índios apenas no final do século XX.

Os Xocós haviam sido expulsos de suas terras com base na alegação de que, devido à miscigenação, não eram mais índios. Este fator se mostra decisivo no entendimento do modo de vida atual deste grupo indígena, que luta por preservar a identidade, a cultura e as tradições indígenas, em que pese o fato de, no nível do fenótipo, os Xocós se apresentarem em sua maioria como negros ou mulatos.
 
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