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sábado, 28 de maio de 2011

Comédias que viram dramas que resultam em tragédias da saúde indígena

Os gregos antigos criaram o Teatro como uma reflexão estilizada sobre nós mesmos, a humanidade. Criaram também os três principais gêneros do teatro, a comédia, o drama e a tragédia, de acordo com a influência maior de uma outra dessas dimensões humanas em determinada peça. Porém, a vida humana é uma só e esses três gêneros se encontram presentes, se misturam em doses distintas e dão sabores distintos à vida humana. A comédia é o rir-nos de nós mesmos, o drama é a nossa agonia, e a tragédia é o desfecho inevitável de nosso destino.

Escrevo esse pequeno prolegômeno porque não aguento mais ver, ouvir e saber das comédias e tragédias, do drama tragicômico que acomete a saúde indígena brasileira. Semana passada foram mais de 100 índios armados e pintados para a guerra, de diversos povos de Rondônia e sul do Amazonas, que tomaram a sede da Funasa em Porto Velho exigindo a saída da supervisora. Durante alguns meses, os índios do Acre tomaram a Funasa de Rio Branco para melhorar as suas condições de atendimento, receberam delegações do governo federal e estadual, e ainda assim saíram insatisfeitos com as soluções que lhes foram apresentadas. Os Xavante do Mato Grosso estão constantemente se rebelando contras as péssimas condições de saúde e de atendimento que recebem. E não é por menos, o maior índice de mortalidade infantil do Brasil se encontra entre eles. Os Pataxó, os Pankararu, os Guajajara, os índios que vivem ao redor de Manaus, nesta semana que passou os Yanomami, os Enawene-Nawê, os Irantxe e Mynky -- todos estão alevantados contra as condições de assistência de que são servidos pela Funasa.

Em consequência dessas críticas que vêm desde que a saúde indígena passou da Funai para a Funasa, em 1999, por força da influência da ONG ISA sobre o governo Fernando Henrique Cardoso, que, a despeito da dinheirama que foi jogada na saúde indígena, não têm faltado motivos para os índios se sentirem maltratados e lesados em seus direitos de saúde.

Como modo de desfazer sua maldade original, as ONGs, agora com a ajuda do CIMI, levantaram a bandeira da criação de uma secretaria especial de saúde indígena, como uma panacéia para a saúde indígena. Finalmente a Funasa sairia de cena. Acontece que a tal SESI foi criada, com organograma e uma porção de mais de 100 cargos por indicação (DAS), por medida provisória, votada e aprovada no Congresso desde março do ano passado. Nos últimos meses do governo Lula, com campanha política e tudo, o assunto ficou em banho maria. Já o novo governo, dando-se conta do abacaxi que tem nas mãos, e sem saber como descascá-lo, resolveu adiar o problema para o fim deste ano, e assim a Funasa voltou a exercer suas atividades na saúde indígena. O fato é que, para efeitos de agilidade administrativa, uma secretaria vai ter mais problemas de contratação de equipes médicas e de outros serviços do que uma fundação, ponto!

Melhorou alguma coisa? Vai melhorar alguma coisa? Até agora, tudo está como sempre esteve. Em alguns poucos lugares, pela liderança de índios ou de um diretor especial, ou pela colaboração com alguma equipe da Funai, por um indigenismo bem exercido, a coisa até que funciona. Mas, no geral, apesar dos altos custos, da derrama de dinheiro (por exemplo, custou mais de 1 milhão de reais a recente reforma da Casa de Saúde Indígena em Canarana, Mato Grosso), os índios continuam a sofrer um imenso desgaste pessoal e coletivo com a rotatividade de equipes de saúde, com as peregrinações que têm que fazer pelos hospitais do SUS, pelo desrespeito com que são tratados, pelas mortes absurdamente irreais que têm que aguentar.

Será que os índios irão arrostar mais 10 anos de sofrimento?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Drops indigenistas -- 18

1. O que os índios devem esperar do Governo Dilma Rousseff, e especialmente do futuro ministro José Eduardo Cardozo?

Bem, segundo nossa Enquete,  as opiniões ficaram mais ou menos divididas entre otimistas e pessimistas.

52% dos participantes marcaram opções positivas, seja de criação de uma nova política indigenista (8%), seja de uma Funai melhor (28%), seja de novo diálogo com os índios (8%), seja até da criação de um secretaria para assuntos indígenas (8%). A esperança é a última que morre -- mesmo quando não parece haver planos no novo governo de criação de uma nova secretaria!

As opções negativas somaram a outra metade (48%) dos participantes: 22% acham que tudo vai continuar como está e 13% consideram que poderá haver piora. Por fim, 13% avaliam que teremos um legado terrível dessa última gestão da FUNAI, que é o fim das demarcações de terras indígenas.

A dificuldade crescente na demarcação de terras indígenas está sendo imputada pelos índios, pelos indigenistas e por membros do governo, à atual gestão da FUNAI, que não soube realizar essa tarefa com acuidade indigenista e estratégia política. Precipitou diversas ações que redundaram em processos jurídicos, o pior deles advindo do próprio ato de confirmação da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, através do Acórdão da Demarcação, de 19 de março de 2009, que determinou a data da promulgação da Constituição Federal como o marco temporal de definir o que é ocupação indígena.

O resultado até agora: nenhuma das portarias de reconhecimento de terras indígenas expedidas pelo ministro Tarso Genro resultou em demarcação. Estão todas paradas.

Por sua vez, algumas das ações da FUNAI para demarcar terras, como no caso dos índios Anacés, no município de São Gonçalo do Amarante, está sendo aos poucos desconsiderado pelo governo do Ceará. O governador Cid Gomes já comeu pelas beiradas as áreas que os Anacés tanto queriam. O que lhes sobrará, fica difícil ver. Onde ficarão os Anacés?

O caso dos Pataxó continua difícil e sem saída.

Por que tanta incapacidade?

2. A vinda do novo ministro, de qualquer modo, está chamando a atenção do meio indigenista, e parece que é para melhor. Tenho conversado com índios e indigenistas e muitos acham que ele não é alguém que segue linha partidária nas suas posições. Isto quer dizer, ao menos, que não haverá partidarização da FUNAI. Se ela for despartidarizada já é grande coisa. O fato de Cardozo ter desistido de se re-candidatar a deputado federal, por considerar caras as eleições e comprometedoras da consciência dos deputados, é um fator importante a contar num ministro da Justiça. Em 2008 ele fez um breve discurso na Câmara Federal em que defendeu a legitimidade da demarcação de terras indígenas por serem um ato de preservação do patrimônio público, já que as terras indígenas são da União. Mas deixou de dizer o que ele considera terras indígenas e qual sua posição a respeito das controvérsias que temos hoje em dia.

3. A grande disputa que está à vista é a nova Secretaria de Saúde Indígena, dentro do Ministério da Saúde. Não se sabe ainda quem será o novo ministro, assim a coisa está pendente. Muitos compromissos já foram feitos em relação a cargos, mas os interessados andam ansiosos. O movimento indígena ligado às ONGs acredita que vai ter a maioria dos cargos e acha que vai dar continuidade às transações com as ONGs. Outros já acham que o importante é buscar criar uma nova metodologia de trabalho, mais séria, mais cumpridora das atribuições e menos interesseira nas verbas.

De todo modo, saúde indígena é assunto de muita controvérsia e o governo Lula não trouxe grandes melhoras na sua administração, embora, no plano geral, a saúde indígena tenha melhorado.

Dependendo do novo ministro da Saúde, qualquer coisa pode acontecer. E a FUNASA, vai perder sua prerrogativa da saúde indígena? Até agora, tudo continua como dantes, e os índios continuam invadindo sedes da FUNASA Brasil a fora.

4. A inauguração em Brasília do Memorial Darcy Ribeiro, localizado na UnB, contou com a presença do presidente Lula e de três ministros, o da Educação, da Cultura e da Secretaria Geral. O presidente José Mujica e seu ministro da Cultura, do Uruguai, também prestigiaram Darcy.

O prédio é lindo demais. Parece uma oca karib, embora o arquiteto Lelé Filgueiras, grande figura brasileira, diga que se inspirou em ocas xavantes. O centro é iluminado naturalmente, assim como sua ventilação se inspira na ventilação de ocas indígenas.

Por dentro há espaço para a excelente biblioteca brasiliana de Darcy Ribeiro, tem área de estudo e computação. O anexo é o que Darcy chamou de "beijódromo", onde filmes e conferências poderão ser dadas para um auditório de 80 pessoas.

A nota dissonante é que os estudantes não paravam de berrar contra Lula e contra o reitor da UnB. Mas o que Darcy teria a ver com isso?

Também senti a ausência de professores da UnB. Que é que há, pessoal?

5. Por todo o Brasil corre um sentimento de insatisfação com a situação atual da FUNAI. Mesmo os índios que partilham do sentimento de que o órgão precisava de uma reestruturação estão insatisfeitos. Foi demais o que foi feito. Parece que as tais novas coordenações estão abandonadas antes de se firmar como substitutas das antigas administrações regionais. Alguns locais que perderam administração estão às moscas, e, ao mesmo tempo, as novas não dão conta das tarefas que lhes são atribuídas. Penso em Oiapoque, Altamira, São Luís, Curitiba, Amambai e tantas mais.

Parece que a revogação do Decreto 7056/09 será a principal bandeira do novo presidente da FUNAI.

Especialmente se vier a ser um índio ou uma índia, pois há muitos correndo lateralmente e buscando se fortalecer no panorama político.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Movimento Indígena comemora criação da Secretaria Nacional de Saúde Indígena

Em nota no site da APIB, o movimento indígena comemorou a assinatura, ontem, pelo presidente Lula, da proposta de criação da Secretaria Nacional de Saúde Indígena, a ser ligada diretamente ao Ministério da Saúde.

Desde que a saúde indígena foi retirada a fórceps da Funai e passada para a Funasa, em 1999, os povos indígenas vêm passando por um iô-iô de sentimentos. Ora consideravam uma ideia em funcionamento, com seus conselhos consultivos indígenas, com verbas generosas para distribuir nas terceirizações, ora consideravam uma desgraça para a saúde indígena, com desrespeito às culturas indígenas e principalmente às pessoas indígenas. Nesse sentido, os índios sentiam falta de uma dedicação especial às suas condições culturais e sociais, tão diferentes das gentes das cidades. Por essa razâo, no cômputo geral de reclamações por parte dos povos indígenas a órgãos do Estado, a Funasa tem sido a campeã disparada.

No ano passado, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, após alguns meses de estudos, com participação de indígenas e técnicos da Funasa, além de muitos consultores avulsos, encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de criação de uma secretaria de saúde a ser vinculada diretamente ao ministério. Parece que essa proposta não teve peso político suficiente para movimentar o Congresso. 

Agora, é do presidente da República que vai a proposta de lei, a qual terá prazo de 60 dias para negociação com os congressistas para poder virar lei. É prazo curto, que, portanto, demanda urgência. O presidente Lula, na sua fala de apresentação da proposta, cobrou do ministro Temporão que agora a culpa pelas desgraças embutidas na Funasa, desgraças de má administração, desrespeito aos índios e escândalos de desvio de recursos dos mais escabrosos, não poderão existir mais. Daqui por diante, se houver escândalos, se os índios não forem tratados que nem seres humanos, a  culpa será do próprio Ministério da Saúde. Estranha essa fala e essa atitude presidencial.

Por sua vez, os índios que fazem parte do movimento indígena organizado em associações estão se preparando para ganhar a influência devida que lhes cabe. As negociações vão ser duras. Há interesses variados. E, nesse sentido, vão distrair o movimento indígena da questão da reestruturação da Funai e das negociações que visam mudar ou revogar o decreto de reestruturação. Há que se convir que nem todas as associações indígenas estão emparelhadas e acordes com o decreto de reestruturação da Funai.

Como pegar dois touros à unha ao mesmo tempo? Difícil, não é?

Criando-se a Secretaria Nacional de Saúde Indígena, a próxima demanda será, sem dúvida, a proposta de criação de uma Secretaria Nacional dos Povos Indígenas. Com ou sem a Funai.

Quer dizer, tem muita água a passar por baixo dessa ponte.

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ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL – APIB


 
 
Lula assina Medida Provisória que cria Secretaria Especial de Saúde Indígena  
 
 
Depois de muita luta e mais de dois anos de espera, o presidente Lula finalmente assinou, nesta quarta-feira, dia 24, a Medida Provisória que cria a Secretaria Especial de Saúde Indígena, uma das principais bandeiras de luta do Movimento Indígena em todo país. A necessidade de atenção especial do governo à questão da saúde sempre foi um ponto chave nas demandas dos Povos Indígenas. Nos últimos anos, somou-se a esta preocupação a proposta de se criar uma secretaria dedicada especialmente a esta finalidade,  com recursos próprios  e subordinada diretamente ao Ministério da Saúde. Para que a criação da secretaria se efetive, no entanto, a medida provisória terá, agora, que ser aprovada pelo Congresso Federal no prazo de 60 dias. As lideranças indígenas entram, então, em uma nova etapa desta luta, que será a articulação junto aos parlamentares para a aprovação da MP.

Uma vez aprovada, a Secretaria Especial de Saúde Indígena irá substituir a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), atual responsável pelo atendimento aos indígenas, que ao longo dos últimos anos acumulou acusações de corrupção e desvios dos mais variados tipos; além de demonstrar total incapacidade de atender com eficiência até mesmo as necessidades mais básicas de saúde nas comunidades. A nova secretaria será a sexta do Ministério da Saúde, no mesmo nível hierárquico das demais existentes, e além da saúde também será responsável pelo saneamento nos territórios indígenas, a exemplo do que acontecia anteriormente na Funasa.

A luta do Movimento Indígena pela Secretaria Especial teve início em 2008, quando lideranças indígenas conseguiram barrar uma decisão do governo de criar, por meio de Projeto de Lei, uma Secretaria de Atenção Primária e Promoção da Saúde, onde a questão da saúde indígena estaria diluída entre diversos outros temas, correndo o risco de não se verem respeitadas as especificidades dos diferentes Povos Indígenas brasileiros.

Ainda no mesmo ano, a saúde indígena se destacou como tema principal do Acampamento Terra Livre e foi criado, dentro do Ministério da Saúde, um Grupo de Trabalho da Saúde Indígena (GT), formado por membros do governo e lideranças indígenas, que logo incorporaram a Secretaria Especial de Saúde Indígena como sua principal exigência.

Dseis

Graças também a mobilização do Movimento Indígena junto a suas bases e ao trabalho dos indígenas no GT foi conquistada, no ano passado, a autonomia administrativa dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis), pleiteada já na IV Conferência Nacional de Saúde, em 2006, e essencial para o pleno funcionamento da futura Secretaria.

Os Dseis são as unidades responsáveis pelo conjunto de atividades técnicas de atenção à saúde, que promovem a reordenação da rede de saúde e das práticas sanitárias e organizam as atividades administrativo/gerenciais e estimulam o controle social. Com a autonomia administrativa dos Distritos a comunidade indígena estará mais próxima da gestão do recurso no que diz respeito à atenção básica. Com isso haverá maior agilidade na prestação dos serviços, diminuindo o tempo de resposta nas ações desenvolvidas pela instituição.

Próxima etapa

 Para Rildo Kaingang, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (Arpinsul) e membro do GT Saúde Indígena, este é um momento de felicidade para todos aqueles que militam pela saúde indígena, sinal de que a luta está avançando, porém ainda não está tudo resolvido. “O principal desafio agora será nos articularmos para aprovar a MP no Congresso e implantarmos realmente a Secretaria, com recursos humanos adequados e a estrutura necessária”.

Ele afirma, ainda, que as demais políticas públicas também precisam avançar em relação às necessidades dos Povos Indígenas, pois as consequências dos problemas em outros setores, como a violência, a questão fundiária e a falta de alimentação, entre outros, também refletem na saúde. O líder Kaingang informa também que já se iniciaram os diálogos para a V Conferência de Saúde Indígena.

Apesar de ainda existir mais uma etapa a ser superada, Rildo mantém a confiança e acredita que, se tudo der certo, a aprovação da Secretaria Especial de Saúde Indígena será “sem dúvida, a principal vitória do Movimento Indígena durante o Governo Lula”.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Xavante se unem para mudar a FUNASA


Os Xavante se uniram para mudar a FUNASA, o DSEI de Barra do Garças. Querem a saída da supervisora local imediatamente.

A situação ficou intolerável para eles. Na matéria da TV Bandeirantes grandes e jovens lideranças, como Jurandir Siridiwé, da Terra Indígena Pimentel Barbosa, Cristóvão, da Terra Indígena Sangradouro, e o vereador Jeremias, da Terra Indígena São Marcos, se pronunciaram com muita calma, mas com muita força também, como os Xavante costumam fazer.

Os documentos que os Xavante fizeram foram entregues ao procurador Mário Lúcio Avelar, que tem demonstrado muita dedicação à causa indígena. No fundo, ele não pode fazer nada a esse respeito, a não ser pronunciar-se contra.

A causa vai cair no colo do Ministro Temporão.

Será mesmo que o presidente Lula vai criar a Secretaria Especial de Saúde Indígena? Estão dizendo que ele vai ao interior do Pará, perto dos Kayapó, para lançar essa Secretaria.

Vamos ver

sábado, 22 de agosto de 2009

Xavante, desesperados, pedem mudança na Funasa

Mais uma vez os Xavante apelam desesperadamente para que a Funasa tome tento e acerte seus trabalhos no DSEI que deve cuidar de sete terras indígenas e cerca de 15.000 índios.

O movimento indígena xavante ocupou a sede do DSEI em Barra do Garças, na beira do rio Araguaia, com o intuito de chamar a atenção para o fato de que mais de 100 índios Xavante morreram só este ano. É impressionante como isso não chega na mídia e o pouco que comove a atual gestão da Funai.

O líder dessa ocupação é ninguém menos que o próprio Edmundo Omore, que é o presidente do Conselho Distrital Indígena de Saúde.

Segundo um dos diretores da Funasa, recentemente em conversa com lideranças indígenas de Roraima, o governo está aguardando a discussão no Congresso Nacional para a criação de uma secretaria especial de saúde indígena ligada diretamente ao Ministério da Sáude.

Muito esperada essa secretaria. Mas tudo vai depender dos congressistas.


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Índios fecham o Dsei de Barra do Garças

FRANCIS AMORIM
Da sucursal/Barra do Garças

Lideranças de nove terras indígenas da etnia xavante fecharam ontem o Distrito Sanitário Especial Indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) em Barra do Garças. A medida foi tomada como protesto aos casos de óbitos registrados nas aldeias xavantes do município. Os 15 servidores que atuam no órgão estão com as atividades paralisadas.

Segundo o presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena, cacique Edmundo Dzu’Aiwi Omore, os índios estão morrendo por falta de medicamentos e assistência médica nas aldeias.

“Nosso povo está morrendo e ninguém faz nada. Essa foi a forma que encontramos para gritar e clamar por saúde. Pelo amor de Deus, pare com a morte do povo xavante”, disse. Somente neste ano, mais de 100 índios, entre crianças, jovens, adultos e idosos já morreram na região.

De acordo com Edmundo, o fechamento do Dsei de Barra do Garças foi a única alternativa que eles encontraram para alertar as autoridades. “As aldeias estão enfrentando uma epidemia que parece não ter fim. Crianças morrem antes de chegar à cidade. São dores de cabeça, febre, gripe, diarréias, vômitos e tonturas. Cadê a Funasa? O órgão é incompetente para cuidar da saúde do nosso povo”, frisou.

Ontem, o vice-cacique da aldeia São Marcos, Cláudio Xavante, estava internado na UIT do Hospital Municipal de Barra do Garças. Os médicos que assistem o indígena ainda não têm o diagnóstico da doença.

O cacique informou que os xavantes não usarão a força para pressionar as autoridades. “O movimento é pacifico. Não vamos agredir e não usaremos a violência. Só deixaremos a Funasa quando o gestor de saúde de Cuiabá vier dialogar e anunciar medidas que possam reduzir o grande número de mortes”. Edmundo cobrou também saneamento básico nas aldeias. Segundo ele, os índios não contam nem com água potável para beber. “A Funasa recebe milhões e não investem na saúde indígena”, denunciou.

Edmundo Dzu’Aiwi defendeu também mudanças na direção da Funasa em Barra do Garças. Segundo ele, é preciso uma administração mais participativa, transparente e compromissada com a causa indígena. “Queremos alguém com força política para cobrar, reivindicar e apresentar soluções. O atual coordenador (José Henrique) não reúne condições para administrar o órgão. Ele não dá resposta às lideranças e não luta para defender nosso povo”.

O Distrito Sanitário e a Casa de Saúde de Barra do Garças são responsáveis pela assistência médica para uma população indígena estimada em 15 mil pessoas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Saúde indígena continua confusa, tumultuada e sem definição

O ministro José Gomes Temporão tem tentado de tudo para resolver a questão da saúde indígena, mas está muito difícil para ele. Depois de se dar conta do poço de desmandos (para não dizer algo mais pesado) que ocorre naquela instituição, Temporão enviou mensagem ao Congresso para criar a Secretaria Especial de Saúde Indígena. O movimento indígena acatou a ideia e estava disposto a colaborar e participar diretamente.

Está tudo parado.

Aí, continua a funcionar a Funasa, aos trancos e barrancos. Recentemente estive no Alto Xingu e lá está funcionando pela intermediação da Associação Indígena do Xingu. Na Paraíba está bem. Onde mais está bem? Será que está dando certo com os Xavante pela primeira vez? Não sei. Aguardo dados e informações.

Agora o problema é em Roraima. A Funasa cancelou os contratos que tinha com o CIR e a Hutukara Associação Yanomami para intermediar a saúde para os indígenas do Estado. Agora fez contratos com o governo do Estado de Roraima. É dose, o mesmo governo que trabalha diuturnamente contra os índios. Os índios estão muito chateados. Não confiam no governo do Estado e querem que a Funasa refaça o contrato e devolva ao CIR (Conselho Indígena de Roraima) a incumbência para a saúde dos índios Makuxi, Wapixana e outros. A Funasa alega que havia confusão, desvio de recursos e falta de prestação de contas nos contratos anteriores. Daí terem feito novos contratos. Confiam no Estado. Eita!

Como os índios não conseguem dissuadi-la dessas ações administratias, estão apelando diretamente ao ministro Temporão.

Mas será que o ministro tem força para exercer sua autoridade na Funasa, um órgão diretamente vinculado ao PMDB?. Eis o busilis da questão!

Os índios em geral andam muito chateados com tudo isso. Em todas as partes do Brasil, mesmo aonde está dando certo. Parece que não tem saída. A criação dessa Secretaria Especial de Saúde Indígena nem foi objeto de discussão na Câmara. Está totalmente parada. Não interessa ao PMDB mudar a Funasa e tirar a saúde indígena de lá.

Eu mesmo me cansei de escrever sobre isso. Já nem conto o número dos protestos indígenas. Agora mesmo está havendo uma ordem de despejo dos índios Karajá e uns Kanela que tomaram o prédio da Funasa em São Felix do Xingu. A semana passada, mais de 300 índios assentaram praça no prédio da Funasa em Manaus.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A FUNASA tenta ganhar tempo criando modelo de atendimento aos índios

Como era previsível, não será fácil criar no Ministério da Saúde uma secretaria especial de saúde dedicada aos povos indígenas. A própria Funasa e o governo (sem querer, querendo) boicotam essa criação. A MP está no Congresso sem se mover. Ninguém está interessado em apreciá-la.

Recentemente o Ministério do Planejamento liberou à Funasa a contratação de mais de 800 servidores para preencher cargos temporários, e 420 para cargos efetivos, ambos no setor de saúde indígena. Esse pedido havia sido feito ainda no ano passado, antes da decisão forçada do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de criar uma nova secretaria.

Os índios que, de algum modo, fazem parte do sistema de saúde indígena, dentro da Funasa, estão estarrecidos. Já estavam certo de que a secretaria ia sair, que eles iriam ocupar cargos de segundo escalão, mas nada. Na Funasa, fala-se que essas contratações podem ser feitas e depois transferidas para a nova secretaria. Fala-se, mas, no fundo, espera-se que a coisa fique como está. Isto é, sem solução, para continuar a ser empurrada com a barriga. Na Funai, à qual também foi prometida a contratação de novos quadros, a dúvida é atroz. Será que sai mesmo? E por que não sai?

A luta da Funasa por manter a saúde indígena é sem tréguas. O seu presidente, por mais desmoralizado que esteja, continua a operar, à revelia do ministro Temporão, como se fosse o dono da bola. Tanto é assim que, entre ontem e hoje, a Funasa convocou mais uma reunião para expor os resultados parciais de uma consultoria que trata da formulação de um novo modelo de implantação de saúde indígena. Um consórcio formado por um tal Institute of Development Studies e a Cebrap (do grupo do presidente Fernando Henrique Cardoso) bolaram um novo modelo de saúde indígena.

Dá para acreditar?

A Funasa tem muito dinheiro e o gasta como quer. Quantos modelos já saíram por aí e até agora não conseguiram melhorar o atendimento aos povos indígenas.

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A Fundação Nacional de Saúde (Funasa), por meio do Projeto Vigisus II, promove nos próximos dias 20 (quarta) e 21 (quinta), em Brasília, a Oficina Nacional de Saúde Indígena que vai apresentar a proposta para os Modelos de Atenção, Organização, Gestão, Financiamento e Monitoramento e Avaliação do Subsistema de Saúde Indígena. O evento vai reunir diretores e técnicos da Funasa, chefes dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei), presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi) e representantes do Ministério da Saúde, Fundação Nacional do Índio (Funai) e do Banco Mundial, dentre outros.

O trabalho representa o resultado da consultoria prestada pelo Consórcio formado pelo Institute of Development Studies (IDS), pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e pela Associação Saúde Sem Limites que desenvolvem o estudo desde abril do ano passado. O grupo foi contratado pela Funasa para completar o diagnóstico situacional da Saúde Indígena e elaborar propostas para os modelos de atenção, de organização, de gestão, de financiamento e de monitoramento e avaliação do Subsistema de Saúde Indígena e apresentar um plano de ação para operacionalizaçã o, além de apoiar a instituição na implementação dos modelos.Durante esse período foram realizadas cinco oficinas regionais que contaram com a participação de gestores, técnicos e lideranças indígenas, visitas de campo, entrevistas e reuniões do Grupo de Trabalho (GT) de acompanhamento da Consultoria.

“Essa é umas mais importantes ações do Projeto Vigisus II”, enfatizou o coordenador técnico do programa, Guilherme Macedo, ao se referir aos Modelos de Atenção a Saúde. Segundo ele, o objetivo é propor diversas alterações, inovações e aperfeiçoamento para a melhoria no atendimento à saúde indígena. As propostas incluem formas de organização dos serviços de atenção à saúde Indígena, de melhoria do financiamento, adequação de recursos humanos em quantidade e perfil, além do aperfeiçoamento do monitoramento de processos e resultados e melhoria dos processos de gestão.

Para o diretor técnico do Vigisus II “a partir da análise e discussão dessa proposta é que se terá o modelo final do subsistema de Atenção à Saúde Indígena”. A previsão é que até o final do ano o trabalho esteja concluído.

Os produtos analisados pelo GT poderão ser conhecidos previamente nos links abaixo. Vale ressaltar que os produtos ainda não se encontram finalizados podendo sofrer algumas alterações.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Índios de São Paulo invadem Funasa


Ontem pela tarde um grupo de 100 índios do interior e do litoral de São Paulo invadiu o prédio da Funasa, proibiu a saída de funcionários do órgão por algumas horas e fez questão de reivindicar a saída do coordenador regional da Funasa para liberar o prédio.

Mais uma invasão de sede da Funasa. Creio que todas elas já foram tomadas por um grupo ou outro ao longo dos últimos 10 anos, desde que a Funasa absorveu as responsabilidades pela saúde indígena, no processo de esquartejamento da Funai.

São Paulo era um dos poucos lugares sem invasão, mas chegou sua vez. Os índios não aguentam mais tanta irresponsabilidade e tanto desleixo.

E olha que ainda tem algum tempo, talvez mais um ano, até que a nova secretaria de saúde indígena saia do papel, seja votada no Congresso e sancionada pelo presidente Lula.

Será que vai ser fácil aprovar essa secretaria no Congresso?

Enfim, mais um tempo prolongado de dúvidas e incertezas sobre a saúde indígena. Não há setor mais trágico atualmente na questão indígena brasileira

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Dezenas de índios passam a noite na sede da Funasa em São Paulo

Bom Dia Brasil, O Globo

SÃO PAULO - Dezenas de índios passaram a noite na sede da Fundação Nacional da Saúde (Funasa), em São Paulo. No começo da noite desta terça, os 30 funcionários que estavam no prédio puderam sair e alguns índios deixaram o local, mas boa parte decidiu dormir no edifício, em colchões na garagem, dentro de carros da Funasa e nos corredores dos escritórios. Ele prometem aguardar uma nova reunião marcada com a direção da Funasa para esta manhã, na sede paulista.

Os índios reclamam da falta de remédios, de saneamento básico e o descuido com a saúde nas 37 comunidades indígenas do estado. O coordenador regional do órgão, Raze Razek, anunciou que deixaria o cargo na quarta-feira. A saída de Razek era uma das reivindicações dos índios.

Os índios, que chegaram ao local às 7h, invadiram o prédio perto do meio-dia. Duas horas depois, sob a justificativa de que ninguém os atendera, fecharam a rua com carros da própria Funasa. Depois de instalado clima de tensão e curiosidade no centro da cidade, funcionários da Funasa permitiram que dois caciques subissem para negociar.

- Se ninguém, falar com a gente, ninguém vai sair desse prédio - disse o cacique Darã, representante da comunidade indígena de São Paulo, pouco antes da libertação dos reféns.

Os índios das etnias terena, caingangue, krenak e tupi-guarani querem mais atenção para as comunidades e afirmam que a falta de saneamento básico é o principal problema e aumenta as doenças na população indígena. A Polícia Militar acompanha o movimento. Os soldados, com armas e cassetetes, chegaram a fechar parte da rua.

Segundo o cacique Darã, as 20 viaturas da Funasa que deveriam atender as comunidades estão quebradas e falta medicamento para atender a população indígena, que soma 5 mil índios no estado.

- Os funcionários da Funasa não vão nas comunidades para fazer um diagnóstico da saúde do nosso povo - disse Darã - As crianças indígenas estão desnutridas, morrendo aos montes. Falta saneamento básico, não tem viaturas nos postos de saúde, não tem remédios. Os índios estão sendo abandonados.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Drops Indigenistas -- 3

Em Brasília, observando o panorama político e indigenista da cidade.

Estou espantado com o nível dos comentários dos indigenistas e indígenas com quem conversei sobre a situação indígena brasileira.

Unanimemente, todos falam que a FUNAI está entregue à sua própria sorte. A atual direção desistiu do plano de carreira, não há previsão orçamentária para o concurso público do agente indigenista, e nem ao menos se pretende que a FUNAI esteja na vanguarda da defesa dos direitos indígenas. Há uma total falta de relacionamento entre a direção do órgão e os funcionários. E os índios mal são atendidos na casa.

Mas os índios teimam em acreditar na importância da FUNAI para suas vidas. Ao menos procuram os indigenistas sérios para conversar e para se orientar diante da calamidade que sentem estar lhes afetando.

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As reuniões promovidas pela CNPI para discutir a proposta do novo estatuto do índio tem encontrado as maiores resistências por parte dos próprios índios.

Os Kayapó, Gaviões, Karajá e tantos outros rejeitam completamente essa ousadia de colocar no Congresso Nacional, para o pasto de feras anti-indígenas, a modificação do Estatuto do Índio, que tanto apoio os tem dado ao longo dos últimos 35 anos. Percebem de longe o quanto a questão indígena está abandonada e sob fortes críticas, sem que a FUNAI seja capaz de mudar esse panorama atual.

Nas reuniões de Belém e Cuiabá, por exemplo, os Kayapó e outros desativaram as reuniões. Na FUNAI, principalmente na CGDDI, que supostamente está encarregada de levar essa discussão adiante, só faltaram expulsar seu coordenador da sala.

Praticamente só o CIMI e as Ongs neoliberais querem brincar de mudar esse Estatuto. Uns poucos dirigentes da Coiab seguem esse caminho, mas na base muitos já começam a ver a loucura desse procedimento.

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Por outro lado, nesta terça-feira passada, na Comissão da Amazônia da Câmara Federal, a deputada Janete Capiberibe, do Amapá, patrocinou uma audiência para discutir a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas, da qual o Brasil foi signatário em setembro do ano passado.

Estiveram presentes diversos deputados, uns contra, dizendo que essa Declaração atentava contra a soberania nacional. Outros a favor, como a própria Deputada Capiberibe. Os deputados não conseguiram aprofundar suas visões. Os contrários só sabem criticar por discursos inflamados, sem base argumentativa.

Notou-se a ausência do general Heleno, que por vezes tem feito críticas à política indigenista brasileira e a essa Declaração.

Marcos Terena, diretor do Memorial dos Povos Indígenas, fez uma defesa da Declaração com a visão que ele vem vocalizando há muitos anos e demonstrou que os índios, sim, esses não pretendem destruir o Brasil.

O representante do Ministério das Relações Exteriores, Carlos Eduardo Cunha, fez uma excelente defesa da Declaração do ponto de vista da diplomacia brasileira, e demonstrou que em nada essa Declaração ofende aos interesses da nossa soberania.

Ubiratan Maia, do povo Wapixana, representando a OAB de um modo excepcional, apresentou uma panorama político da Declaração e sua importância para todos os povos indígenas do mundo moderno. E teve a dignidade de reconhecer o papel do Ministério das Relações Exteriores nas discussões que levaram à aprovação dessa Declaração. Também reconheceu o papel que eu, como presidente da FUNAI, exerci por quase quatro anos, nas negociações na ONU para elaborar a redação final dessa Declaração.

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Notícia de Cuiabá diz que o governo do Estado do Mato Grosso se colocou à disposição do povo indígena Paresi para mediar sua relação com a FUNAI na negociação da permanência da cobrança de pedágio que os Paresi fazem em uma estrada que atravessa sua terra. Essa estrada vai ser asfaltada e portanto a cobrança terá que ter alguma legalidade daí por diante.

Ora, o governo do MT mediar as relações entre os índios e a FUNAI??

Quem já viu uma coisa dessas?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Drops Indigenistas -- 2



1. Petrônio Cavalcanti, um digno indigenista, ex-engenheiro formado pela Universidade da Paraíba, com uma larga folha de serviços prestados à FUNAI, inclusive como diretor de Assistência Social no tempo de Glênio Alvarez, administrador tarimbado há longos anos da AER da Paraíba, recebeu a ingrata incumbência de gerir a demissão de Claudionor Miranda, índio Terena e administrador da AER de Campo Grande, MS, e arrumar justificativas para esse ato.

Sobre a demissão de Claudionor Miranda, Petrônio disse logo ao chegar a Campo Grande: “Foi um alarde muito grande para uma situação muito simples”, considerando que houve apenas erros de procedimento. Segundo o jornal Campo Grande News, os planos de Petrônio são para continuar apenas um mês em Campo Grande. “Tempo para colocar a casa em ordem”.

Parece que o problema não é de corrupção, e sim da má gestão em alguns aspectos da administração. Alguns gastos abusivos de telefonema, viagens a Brasília. Por que a brutalidade do gesto, então? Isto sempre provoca suspeitas indevidas e causa prejuízo à imagem da pessoa. Ao que dizem, foi pressão da CGU. E agora, a FUNAI está a mercê da CGU? Por que não pedem a CGU para dar uma aulas de administração aos dirigentes indígenas?

Ora, Petrônio, se é apenas por isso, por que participar de uma brutalidade administrativa de demitir um índio Terena da administração de Campo Grande? Será que não houve precipitação, para não falar de preconceito, por parte da atual gestão da FUNAI, na demissão intempestiva de Claudionor?

Na foto publicado pelo citado jornal, Petrônio aparece meio assustado diante da tarefa. Seus colegas estão com uma cara de quem não acredita que está nessa fria. Minutos depois dessa foto, um grupo de Terena invadiou o escritório para exigir explicações do interventor.

Foi mal. Sai dessa, Petrônio.

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2. A Funasa de Manaus foi mais uma vez invadida por índios insatisfeitos com a assistência que recebem. Desta vez foi um grupo de mais de 300 índios Mura, Sateré, Kanamari, Cocama, Apurinã e Korubo. Querem a saída do administrador da Funasa em Manaus. Sentiram sua fraqueza diante da crise da Funasa em Brasília e vêm checar o que podem fazer para ajudar.

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3. Está no ar o primeiro Blog feito por índios Guarani, da região de Dourados. em guarani e em português. Seu endereço eletrônico é: http://guaraniportugues.blogspot.com/ . À frente está Cecy Fernandes de Assis.

Bom de saber!

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4. Esta semana, em Brasília, haverá um encontro de índios para discutir a questão da saúde e firmar um posicionamento sobre as novas medidas a serem tomadas pelo Ministério da Saúde. A concorrência é grande de muitos interessados. Espera-se a presença de índios de muitas partes do Brasil.

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5. Quinta-feira, em Brasília, o Memorial dos Povos Indígenas, criado por Darcy Ribeiro, e dirigido hoje por Marcos Terena, recepcionará uma homenagem ao grande indigenista Chico Meirelles. Um filme será exibido e depois haverá depoimentos de diversas pessoas, inclusive de uma das filhas de Meirelles.

Espera-se a afluência de muitos indigenistas e índios. Eu mesmo estarei lá.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

"Barraco" na Câmara Federal



Ontem, quarta-feira, dia 19/11, a Câmara Federal protagonizou em duas audiências públicas aquilo que os cariocas chamam de "barraco", isto é, gritaria, confusão, bate-boca, quebra-quebra, empurra-empurra entre pessoas que supostamente não deveriam fazer isso: deputados, presidentes de autarquia, representantes indígenas, empresários e funcionários da FUNAI.

Um dos barracos aconteceu na Comissão de Agricultura, onde o presidente da FUNAI foi alvo de duras críticas por parte de deputados de diversos estados, especialmente do Mato Grosso do Sul, mas também do Pará, Mato Grosso, Santa Catarina e Rondônia. Os argumentos foram os mais estapafúrdios possíveis, especialmente o de que a emissão de simples portarias de criação de GTs para identificar terras indígenas levaria à derrocada econômica do estado do Mato Grosso do Sul. Este argumento é de espantar qualquer pessoa racional. Mas há também aquele que diz que essas portarias estão atraindo índios do Paraguai, Bolívia e Argentina para virem morar nas novas terras indígenas a serem demarcadas. Com tais argumentos os fazendeiros perdem a razão.

Mas o problema é mesmo de falta de racionalidade, por um lado, e de falta de estratégia, por outro. A FUNAI, por força de um acordo intempestivo que fez com o Ministério Público Federal, em Dourados, há um ano, criou seis GTs para identificar terras indígenas Guarani no sul do Mato Grosso do Sul. A criação foi alardeada como se a FUNAI viesse a demarcar entre 500.000 e 1.000.000 de hectares naquela região, algo inacreditável. Os fazendeiros levam esse número para 10 milhões de hectares!

O pior é que o líder desses GTs e ideólogo dessa proeza, um antropólogo que há 32 anos vive de fazer consultoria e propostas sobre os índios Guarani, com pouquíssimo resultado a apresentar pelos seus serviços, mal desceu do avião em Campo Grande deu bombásticas entrevistas de que a partir de então os Guarani seriam redimidos de seu sofrimento pela demarcação dessas novas terras. Aí o frenesi foi total. Os Guarani criaram expectativas que evidentemente estão se esvaziando. Os GTs já foram desfeitos e seus membros voltaram às suas cidades dizendo que é impossível trabalhar no Mato Grosso do Sul com tanta resistência.

Mas não era de se esperar??!! E quem vai sofrer com tudo isso? Por certo que não os membros do GT nem a direção da FUNAI, e sim os índios que vão ficar a ver navios e vão ter que esperar mais alguns anos para terem a sua situação fundiária equacionada de outro modo.

O "barraco" nessa audiência chegou ao ponto de um deputado gritar histericamente que a FUNAI deveria ser extinta. Ao que foi vaiado pela audiência presente. Os deputados do PT que estavam defendendo o presidente da FUNAI disseram que os demais deputados estavam massacrando não só a FUNAI, mas também os índios. Enfim, a segurança foi chamada para vigiar se alguma troca de sopapos não iria se instalar. Um outro deputado quer que o presidente Lula emita uma MP para tirar da FUNAI o direito de demarcar terras indígenas e passar essa incumbência para o Congresso Nacional. De graça! E não leva nada...

O segundo "barraco" do dia se deu na Comissão de Trabalho e Administração quando uma assessora do ministro da Saúde estava defendendo a MP que apresenta a proposta de tirar a saúde indígena para colocá-la numa nova secretaria. Um índio Truká, Ailson Santos, que preside o Conselho de Saúde Indígena, fez duras críticas à proposta, e o reprentante Xavante chegou a levantar suspeitas sobre as segundas intenções da proposta, com a criação de diversas funções para novos funcionários. Ao seu lado, o diretor da Funasa que cuida da saúde indígena, Wanderley Guenka, defendia a Funasa veementemente dizendo que desde que ele virou diretor a coisa tinha melhorado muito. O mais impressionante é que o deputado-relator dessa MP declarou-se contrário à proposta dizendo que a digna e tradicional (sic) Funasa deveria manter a saúde indígena!

Ao mesmo tempo, em outra reunião, o ministro Temporão recebia uma comissão de índios que defendia o esvaziamento da Funasa, especialmente os índios ligados à Ong indígena Coiab, de Manaus. Muitos mais índios estariam a favor do ministro Temporão se ao menos ele soubesse com quem conversar e não se deixasse levar pela influência de um grupo bem menor, mas bem articulado com membros do governo. E, por fim, os índios do médio Alto Xingu que haviam prendido 12 funcionários da Funasa desde segunda-feira receberam a notícia de que serão recebidos pelo ministro Temporão na próxima segunda-feira. Esse grupo, com o apoio do ISA, quer a manutenção do convênio da Unifesp com a Funasa até pelo menos junho de 2009.

E agora, o que fará o ministro Temporão?

A situação da saúde indígena está um verdadeiro barraco. Se se fizer uma enquete entre os índios brasileiros vai dar um empate técnico. Simplesmente porque ninguém sabe direito o que pode acontecer.

Porém o ministro Temporão se comprometeu a fazer novas reuniões com os índios para decidir sobre sua participação num GT que deve definir as funções da nova secretaria.

Só esperamos que a presença dos índios seja não só dos eternos representantes de Ongs indígenas, mas que o ministro convide aqueles indígenas que trabalham em suas aldeias em prol da saúde dos seus patrícios.

Não seria mal convidar alguns indigenistas da FUNAI que têm experiência na questão da saúde. Sugiro em especial que se convide José Porfírio de Carvalho, que tem uma imensa experiência em um exitoso programa de saúde indígena entre os Waimiri-Atroari e os Parakanã.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Lula chuta crise da Funasa para o lado

O presidente Lula veio a público para dar seu apoio ao ministro José Gomes Temporão em sua luta para moralizar a Funasa. Disse que Temporão permanece no cargo e que vai se entender com o PMDB. Quanto à saúde indígena, fica para ser negociada aos poucos.

Na reunião que teve com líderes do PMDB, Temporão recuou, aparentemente, de seu intento de demitir o presidente da Funasa que o havia destratado, e conseguiu com que o PMDB aceitasse o esvaziamento da Funasa no que concerne à saúde indígena.

Temporão está mesmo disposto a consertar o erro de a Funasa ter ficado até agora com a saúde indígena. Quer transferir esse assunto para dentro da nova secretaria que ainda está para ser votada. Como? Ainda não sabemos.

Quem imagina quando essa nova secretaria será votada, com menos de quatro semanas de trabalho no Congresso antes do recesso natalino?

Os índios, como havia alertado uns dias atrás, passaram à ofensiva. Do Pará, veio uma carta contundente, publicada no site da Coiab contra os planos do ministro Temporão. Em Canarana, cidade do Mato Grosso, 130 membros dos povos Kayabi, Yudjá, Suyá e Ikpeng prenderam pela manhã de ontem 12 funcionários da Funasa e exigiram a presença do ministro Temporão. À tarde, já os haviam soltado. Estão bem assessorados. Esses índios vivem na parte média do Alto Xingu e são atendidos por um antigo convênio entre a Unifesp e a Funasa. A Unifesp é a antiga Escola Paulista de Medicina, que, no tempo do professor Baruzzi, tinha um convênio com os irmãos Villas-Lobos para cuidar da saúde indígena do Alto Xingu. É uma grande escola e tem prestado um excelente serviço aos índios daquela região. Porém, por motivos diversos, os índios da parte alta do Alto Xingu haviam desistido desse convênio há alguns anos. Hoje eles têm um atendimento médico feito através de um convênio entre uma Ong indígena que criaram e a própria Funasa. Entretanto os índios mencionados do médio Alto Xingu querem a manutenção do convênio.

Mas por que fazer esse gesto tão agressivo? Há tempo bastante para negociação. Não sabemos. Mas logo desistiram e soltaram os reféns.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Funasa é corrupta, diz ministro da Saúde

Bem, agora é oficial. A Funasa foi declarada corrupta pelo próprio ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

Alguém aí já não sabia disso há anos? Algum índio aí já não sentiu isso na pele durante os últimos 10 anos?

O fato é que o caldo entornou de vez. Em reunião com representantes da Comissão de Saúde Indígena o ministro Temporão abriu o verbo, desabafou sua ira e frustração e descarregou tudo na Funasa. Aparentemente membros dessa Comissão estavam pressionando para o ministro manter na Funasa a saúde indígena. Temporão não contemporizou. Reafirmou sua portaria de formação de um GT para estudar o melhor modo de organizar a nova Secretaria, que, aliás, ainda nem foi aprovada pelo Congresso Nacional.

Quer dizer, essa celeuma toda pode ser em cima de conjecturas, de propostas ainda não realizadas. Há três meses os ministérios da Saúde e do Planejamento enviaram ao Congresso um projeto de lei criando uma nova secretaria de saúde. E pronto. Nada mais existe. Agora, quando se pode esperar que o Congresso vote um projeto de lei? Se nem as medidas provisórias ele vota! Quer dizer, armar uma confusão em cima de hipóteses não poderia ser pior descontrole político. O pior é que a Funasa vai ter que continuar fazendo a saúde indígena mesmo já tendo sido esvaziada desse poder e considerada corrupta!

Isto é o que dá procrastinar tanto para tomar uma decisão que precisava ser feita nos primeiros meses do segundo governo Lula. Essa demora piorou a situação e ficará mais difícil arrumar a coisa toda em harmonia. O próprio presidente da Funasa, Danilo Fortes, encarou o ministro e ousou que ele o demitisse. Fortes se fia no apoio de Renan Calheiros e no seu PMDB. Temporão é peemedebista por oportunismo e pode ser rejeitado pelos caciques do partido a qualquer momento.

E a FUNAI? O que acha disso tudo? Está abúlica, inerme, sem opinião. É o momento de retomar sua posição anterior e colocar-se à disposição para retomar a saúde indígena.

A notícia da fala do ministro Temporão se encontra nos principais jornais do dia, especialmente no Estado de São Paulo

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Índias Xinguanas protestam contra política de saúde

Uma das principais e mais deletérias consequências do decreto assinado em julho pelo presidente Lula é que poderá acabar com o mais tradicional e bem-sucedido projeto de assistência à saúde indígena: o Projeto Xingu, criado há 43 anos por médicos da Unifesp e pelos irmãos Villas-Boas e que é responsável pelo atendimento a mais de 4 mil indígenas.

A nova regulamentação impede assinatura de convênios com entidades dirigidas por servidores públicos federais, inviabilizando a continuidade do trabalho da Unifesp. Cento e oitenta índios protestam neste final de semana.

Cerca de 180 lideranças indígenas reunidas no 5º Encontro de Mulheres do Parque Xingu protestam contra a saída da equipe da Unifesp da região, que deverá ocorrer até 31 de dezembro. É a segunda manifestação, nos últimos 15 dias, contrária às mudanças na assistência à saúde indígena proposta pelo Ministério da Saúde.

Toda a equipe que atua há quatro décadas na região - sem contar a presença voluntária de professores e estudantes - é contratada e mantida com os recursos desse convênio que, pela primeira vez na história, não poderá ser renovado.

Segundo o médico Douglas Rodrigues, coordenador do Projeto Xingu, uma forma de dar continuidade ao trabalho da Unifesp seria incluir os recursos atualmente destinados ao projeto no pacote de serviços contratados pelo governo junto ao Hospital São Paulo, que é o hospital-escola da Unifesp.

Além da assistência cerca de 4 mil índios na região, a equipe da Unifesp também é responsável pelo Curso de Formação de Agentes Indígenas de Saúde - atualmente no quinto módulo - e, recentemente, criou o primeiro curso de Especialização em Saúde Indígena, ministrado à distância, e que atraiu mais de mil inscritos.

Sobre o Projeto Xingu

A Escola Paulista de Medicina passou a colaborar na assistência à saúde dos índios do Parque Indígena do Xingu (PIX) a partir de 1965, quando, a convite de Orlando Villas-Boas, um grupo médico coordenado pelo Dr. Roberto Baruzzi lá esteve para avaliar as condições de saúde da população. A partir desta avaliação, foi proposto o desenvolvimento de um programa regular de saúde a longo prazo.

Em 1967, com a criação da FUNDAÇÃO NACIONAL DO ÍNDIO - FUNAI, um convênio com o mesmo objetivo foi firmado entre esse órgão e a Universidade, sendo sucessivamente renovado.

Equipes são enviadas, pelo menos quatro vezes por ano ao Parque Indígena do Xingu, formadas por médicos, enfermeiras, dentistas e alunos que procedem a vacinação, atendimento de ocorrências clínicas e cadastramento médico da população. Equipes são igualmente enviadas em situações epidêmicas.

(Com dados do Portal Nacional de Seguros)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Saúde indígena em pandarecos

Há dois meses os ministérios da Saúde e do Planejamento enviaram uma mensagem ao Congresso Nacional contendo um projeto de lei em que constava a criação e remanejamento de alguns cargos de assessoramento e uma nova Secretaria, dentro do MS, a qual teria por obrigação cuidar da saúde indígena. Para todos os efeitos, retirava-se da Funasa o atendimento das populações indígenas, ficando apenas com as tarefas de saneamento.

De lá para cá, o ministério da Saúde vem sofrendo a crítica mais contundente da própria Funasa, cujos dirigentes são membros do PMDB e querem tão-somente favorecer os interesses escusos de seus patrões. Esses dirigentes estão arregimentando diversas organizações indígenas para defender o status quo ante, isto é, a continuidade da Funasa na saúde indígena.

Note-se que o orçamento da Funasa para a questão indígena passa dos R$ 350 milhões, uma bagatela invejável para o pouco cuidado que se toma nos meandros azeitados dessa máquina.

Isto é mais que o dobro do orçamento atual da FUNAI. Em priscas eras, a FUNAI cuidava da saúde indígena com o equivalente a míseros R$ 25 milhões, isto é, menos de 10'% do orçamento da Funasa. Não fazia o suficiente, deixava a desejar, sem dúvida, mas tinha o respeito dos índios e um diálogo permanente que favorecia o conhecimento da saúde individual dos índios. Faltava-lhe recursos e pessoal. Imagine se pudesse ter metade do orçamento da Funasa! Era o que eu propunha ao governo quando era presidente da FUNAI: passar a saúde para a FUNAI e alavancar seu orçamento ao menos para a metade dos recursos da Funasa.

Em portaria expedida recentemente, o MS criou um Grupo de Trabalho para estudar e propor a existência dessa Secretaria. Nesse GT não se prevê nem a presença da FUNAI nem de índio!

Nessa altura da relacionamento interétnico e da autoconsciência indígena isto consiste num despautério sem limites!

Porém, enquanto esse GT não se reúne, não apresenta propostas sobre como deve funcionar a nova Secretaria, a Funasa continua atuando nos moldes de sempre. E as reclamações continuam pelo Brasil afora.

Recentemente, após longas negociações com o Instituto de Desenvolvimento e Tradições Indígenas (IDETI), uma instituição criada e comandada pelo Xavante Jurandir Siridiwê (o mesmo que inspirou o filme Estratégia Xavante), a Funasa tinha acordado que o IDETI iria cuidar da saúde indígena dos índios Xavante.

Lembrem-se que os Xavante somam cerca de 12.000 indivíduos divididos em 170 aldeias na região leste do estado do Mato Grosso, e que foram vítimas recentemente do escândalo do desvio de recursos da Funasa pela Universidade de Brasília, cuja fundação tinha um convênio com a Funasa. Essa fundação surrupiou nada menos de R$ 8 milhões no breve período de 2 anos de existência do convênio.

Pois bem, o IDETI trabalhou durante meses na elaboração de um programa de saúde, foi apresentá-lo em inúmeras aldeias, ganhou o apoio do Conselho Indígena de Saúde, assinou o convênio com a Funasa, e, quando tudo parecia certo, o convênio foi extraviado ao ser enviado para Cuiabá e aí o diretor de saúde Wanderley Guenka o deu por perdido e cancelado.

É certo que há interesses por trás disso, não para ajudar os Xavante em sua saúde, mas para encontrar meio de obter verbas manipuláveis e cargos para assessores. O fato real é que os Xavante sofrem das piores condições de saúde entre os índios brasileiros. Ultrapassam de longe os Guarani. Seus índices de mortalidade infantil, em média, chegam a 140 por mil. Só na aldeia Maraiwatsede, talvez a maior delas na atualidade, com mais de 650 pessoas, esse índice atingiu esse ano a casa dos 200 por mil.

Por sua vez, não são só os Xavante que sofrem com a questão da saúde. Os Yanomami já declararam guerra à Funasa e a diversas Ongs que vieram trabalhar com eles. Inclusive a UnB.

De fato, todos os índios estão preocupadíssimos com a possibilidade desse projeto de lei colocar a saúde indígena sob a responsabilidade dos municípios. Isto é, municipalizar a saúde indígena. Aí seria um deus nos acuda.

Muitos índios já se encontram em Brasília para protestar contra esse despautério e essa falta de respeito. Os Xinguanos e os Kayapó estiveram lá há três semanas e mal conseguiram falar com o presidente da Funai, que não lhes deu nenhum apoio para falarem com o ministro da Saúde.

A coisa vai esquentar porque não poderá ficar pior. Vamos aguardar para as próximas semanas o desenrolar dessa questão gravíssima.

sábado, 20 de setembro de 2008

Conversa com Aritana e Raoni sobre saúde indígena


De volta ao Rio, ao passar por Brasília quinta e sexta-feira.

Na sexta-feira fui à Funai a convite de diversos índios do Alto Xingu. Aritana, o grande cacique do povo Yawalapiti, Tabata, do povo Kuikuro, Sapain, grande pajé dos Kamayurá, Yanakulá, um líder e administrador da Associação dos Povos do Alto Xingu, e mais alguns jovens, estavam reunidos na sala da Coordenação Geral de Estudos e Pesquisas. Queriam saber minha visão sobre a mudança que está para ocorrer na assistência à saúde indígena. Estavam particularmente preocupados com a possibilidade da municipalização da saúde indígena. Querem que a questão indígena continue a ser uma obrigação do governo federal!

A conversa foi animada e descontraída. Lembramos dos tempos que passei no alto Xingu, nos últimos kuarup. Aritana estava esguio e bem disposto, mas com um semblante preocupado, concentrado em nossa conversa. Sapain, que tem contato com muitas pessoas na sociedade carioca, prometeu que ia trazer Ivo Pitanguy para o próximo Kuarup. As moças da Funai se alvoroçaram. Sobre a questão da saúde, disse a todos que achava que o fato do ministro Temporão ter proposto a saída da Funasa da saúde indígena era um gesto de coragem dele e um momento de oportunidade para os índios participarem do novo modelo a ser criado. Por enquanto está tudo só em proposta.

Há um projeto de lei que estabelece a criação de uma nova Secretaria e alguns cargos de confiança, e há uma justificativa sobre a necessidade de transferir a saúde indígena para essa Secretaria.

Há também uma portaria ministerial que cria um Grupo de Trabalho para tratar da criação da nova Secretaria. Estão incluídos funcionários do MS, da Fundação Oswaldo Cruz e pronto. Mas onde está a Funai e por que os índios não foram convidados a participar?

É surpreendente que, nessa altura da questão indígena brasileira, a participação dos índios tenha diminuído nos órgãos públicos. A Funai, que no meu tempo tinha dois coordenadores indígenas e que eu planejava aumentar para cinco, hoje só tem um. Na Funasa, ninguém, só nas instâncias propriamente indígenas e nas Ongs indigenistas. Ao se criar uma profusão de conselhos indígenas, deixa-se de lado a participação dos índios nas instâncias de decisão. É o que está acontecendo no CNPI onde os índios participam mas suas idéias não encontram repercussão nos órgãos federais.

Portanto, é preciso que os índios estejam participando desse GT que vai criar o novo modelo de saúde. Quem seriam os índios, me perguntaram? Creio que deveriam ser aqueles cujas participações no modelo anterior tenham sido as mais bem sucedidas. Exatamente para poderem ajudar a apontar os erros metodológicos e buscar novas soluções.

Disse aos caciques xinguanos que eles deveriam buscar uma audiência com o ministro Temporão para falar-lhe isso. Cláudio Romero, ao lado, imediatamente se prontificou a abrir caminho para isso. Disse-lhes também que deveriam convidar outros índios, como Raoni Txukarramãe, Aniceto Xavante, Damião e outros.

Ao me despedir disse-lhes que iria almoçar com Raoni e iria conversar com ele sobre isso. De fato, pouco depois estava conversando com Raoni, Azelene, Ubirajara, Patxon, Rosane e outros. Ao lado, conversei também com Paulo Pankararu, que hoje é coordenador de Direitos Indígenas da Funai.

Raoni continua firme aos 82 anos. Está bem e sorridente, mas tem um ar pensativo. Sabe que alguma coisa importante sobre a saúde pode acontecer, tal como em 1999, e quer ter parte numa melhora. Sabe o quanto seu povo e os demais povos indígenas sofreram com a incapacidade da Funasa em prover uma assistência à altura.

Eis a oportunidade indígena, disse-lhe. Falei-lhe de minha conversa anterior com Aritana e Tabata. Ele então se dispôs a procurá-los na Funai para irem conversar com o ministro Temporão.

A presença de grandes e venerandas lideranças indígenas é importante não somente para os índios, em sua relação com o Estado e a sociedade brasileiros, como também para o movimento indígena em si. Eles têm que ser reconhecidos por aqueles mais jovens que detêm um discurso moderno e sociológico, mas carecem de experiência vivida com o mundo mais complexo da sociedade brasileira.

Desejo que a presença dessas lideranças faça uma diferença com o ministro Temporão. Ele tem que se sensibilizar pela questão indígena não só por causa dos problemas administrativos, que sei que foram os motivos principais da proposta que fez em conjunto com o Ministério do Planejamento, mas especialmente pela necessidade dos povos indígenas. Ele tem que saber que sem a participação efetiva e equilibrada dos índios nada pode ser realizado com dignidade.

sábado, 13 de setembro de 2008

Ministério da Saúde tira saúde indígena da Funasa

Confirmada a notícia que havia postado nesse Blog uns dias atrás sobre a retirada da saúde indígena da Funasa.

No dia 29 de agosto os ministros da Saúde e do Planejamento assinaram uma proposta que foi enviada à Câmara Federal onde pedem a criação de uma nova Secretaria dentro do Ministério da Saúde para cuidar, entre outras coisas, de doenças, epidemias e saúde indígena.

Poxa, será que vai dar certo?

O fato é que nem o presidente da Funasa, Danilo Forte, sabia do que estava acontecendo. Declarou na matéria abaixo que foi tomado de surpresa, algo estranho e de mal arbítrio para um servidor público com responsabilidades. Até argumentou que a Funasa vem fazendo um bom trabalho na questão da diminuição da mortalidade infantil. É o único ponto positivo da Funasa, e isso se deve unicamente à melhoria do acesso a água potável nas aldeias.

Danilo Fortes está danado porque o PMDB está danado. Nos contratos da Funasa com as Ongs e outros intermediários corre muita influência política, e o bom PMDB de guerra não perde oportunidade. Alguns deputados foram eleitos com essa ajuda. Assim, a votação sobre a criação dessa Secretaria vai exigir negociação política e pode emperrar durante esse período eleitoral.

Por sua vez, já surgiu um movimento por parte de Ongs indigenistas que têm convênio com a Funasa para a saúde indígena no sentido de se contrapor a essa proposta do ministro da Saúde. São os quinta-coluna do indigenismo brasileiro. Quinta-feira p.p. uma delas, comandada por alguns brancos e alguns índios Terena do Mato Grosso do Sul, se encontrou com o governador daquele estado, André Pulcinelli, e pediu apoio a ele para manter a Funasa com a saúde indígena. Logo o governador que está em campanha contra os Guarani e Terena!!

Quer dizer, essa Ong está com receio de que a criação de uma nova estrutura tire o pão de sua boca.

Na próxima quinta-feira, dia 20 de setembro, o CNPI vai se reunir e certamente este será assunto de interesse de alguns representantes indígenas cujas Ongs dependem de convênios com a Funasa.

É evidente que o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, estava muito incomodado com as atitudes e a má fama da Funasa em relação à saúde indígena. Desde 1999, quando a saúde indígena saiu da Funai e passou-se para a Funasa, por um simples decreto presidencial, encomendado, realizado e apoiado por Ongs neoliberais, os índios que vivem nas terras indígenas e não são partícipes de Ongs, vêm reclamando, e muito do pouco caso com que sua saúde é tratada. Já aprontaram algumas poucas e boas para chamar a atenção para seus problemas.

Portanto, não restam dúvidas de que o ministro Temporão precisava fazer alguma coisa. É um ato de coragem administrativa e política. Eu mesmo já havia conversado com ele sobre isso. Porém, por que fazê-lo na calada da noite? Quem, afinal, está orientando sobre esse assunto? São os funcionários da Funasa? Mas por que o próprio presidente do órgão não sabia disso? Está por um fio? Por sua vez, a Funai passou batida nesse assunto. Só agora é que foi chamada à discussão, ainda sem maiores conhecimentos de seus novos atributos. Certamente que a expectativa de contratar novos funcionários, conforme a Medida Provisório nº 442, está relacionada a essas novas atribuições.

A ver nas próximas semanas. De qualquer modo, já é alguma coisa. O governo ouviu os clamores dos índios, dos indigenistas da Funai e de pessoas que, como eu, não aceitam que o essencial do indigenismo brasileiro seja realizado por interesses espúrios e por irresponsáveis. Agora necessitamos da liderança do ministro Temporão para que a passagem de volta à Funai da saúde indígena seja realizada com critérios e qualidade. Necessitamos também de uma Funai forte, saudável e não ongueira para que essa passagem seja bem feita e condizente com o indigenismo rondoniano brasileiro.

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Governo quer tirar da Funasa saúde de índios

Proposta prevê a criação de uma nova secretaria, ligada ao Ministério da Saúde, para prevenir doenças

Folha de São Paulo, Letícia Sander, da Sucursal de Brasília

O governo enviou ao Congresso projeto de lei que tira da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) a responsabilidade de cuidar da saúde dos índios.

A proposta, assinada pelos ministros José Gomes Temporão (Saúde) e Paulo Bernardo (Planejamento), foi protocolada na Câmara no dia 29 de agosto. Ela prevê a criação de uma nova secretaria, ligada ao Ministério da Saúde e voltada à prevenção de doenças, que trabalharia com a saúde indígena.

No texto do projeto, Temporão e Bernardo explicam que o trabalho exercido pela Funasa é "calcado essencialmente em convênios com Estados, Municípios e ONGs, atribuições essas que geram na sua execução grande volume de convênios para análise e acompanhamento, assim como o acúmulo de "Tomadas de Contas Especiais" referentes a obras não realizadas, inacabadas ou de qualidade inadequada".

Oficialmente, a explicação do Ministério da Saúde é que a nova secretaria fará a coordenação de políticas hoje divididas em estruturas distintas, entre as quais criança, idoso, mulher e índio. Extra-oficialmente, o governo diz que a intenção foi romper com um processo que estava "viciado".

A apresentação do projeto gerou polêmica e evidenciou as disputas de bastidores entre os diferentes órgãos responsáveis pela política indigenista. "Fomos pegos de surpresa", diz o atual presidente da Funasa, Danilo Forte.

Responsável pelo saneamento em municípios com até 50 mil habitantes, a Funasa passou a cuidar da saúde dos índios em 1999 - antes esta era uma atribuição da Funai (Fundação Nacional do Índio).

Segundo Forte, a instituição tem 14 mil funcionários para atender a saúde de uma população de cerca de 400 mil índios, de 210 povos em todos os estados, exceto PI e RN.

A Funasa acerta convênios com ONGs para fazer o trabalho e esta terceirização é freqüentemente criticada. A instituição chegou a ter 57 ONGs contratadas em 2004, mas 33 foram afastadas por falta de prestação de contas, resultados insuficientes ou outras irregularidades. Diante das denúncias, a atual direção editou portaria para deixar mais rígida a escolha das organizações. Hoje, há 50 delas contratadas.

Neste ano, o orçamento global da Funasa é de R$ 3,7 bilhões -são R$ 277 milhões para a saúde indígena. Forte reconhece que há limitações orçamentárias e de pessoal, mas ressalta melhora na situação em geral. Entre 2004 e 2005, diz ele, a taxa de mortalidade dos índios no MS era de 130 para cada mil nascidos vivos. "Hoje, é em torno de 26", diz.

domingo, 7 de setembro de 2008

FUNASA deixará de atender os índios

Notícia extraordinária, dada ainda em forma de comentário na coluna de Ilimar Franco, do jornal O Globo, de hoje, diz que a Funasa deixará de ser responsável pelo atendimento de saúde dos índios nas aldeias e passará a partilhar desse atendimento com a Funai.

Eis como saiu a notícia:

O ministro José Gomes Temporão (Saúde) vai tirar da Funasa o atendimento às comunidade indígenas. O ministério prestará assistência médica diretamente aos índios pelo SUS, como faz com o restante da população do país. A mudança foi decidida na Casa Civil, e o serviço será prestado em parceria com a FUNAI. Um dos objetivos da medida é tirar as ONGs do processo e evitar o desvio de recursos.

Como será isso? Será um blefe?

Se for verdade, isto significa que toda a nossa luta, desde que era presidente da Funai, entre 2003 e 2007, não terá sido em vão. Significa que o governo está revendo seu comprometimento com as Ongs neoliberais (especialmente aquelas que tanto trabalharam para tirar a saúde da Funai e passá-la à Funasa, Ongs bastante conhecidas no meio indigenista) que tanto mal vêm fazendo aos povos indígenas, enganando-os com ilusões e com políticas de despedaçamento da Funai. Significa que a Funai terá que ser reestruturada para receber mais recursos humanos e financeiros para poder fazer face a essas renovadas obrigações. Significa que vai diminuir substancialmente o nível de corrupção na saúde contra os índios.

Só posso imaginar que o ministro da Saúde se deu conta da desgraça que fazia sua pasta para com os índios. Agora me pergunto: quais as pessoas que estarão organizando essa passagem, e quais as pessoas que vão re-organizar a Funai para se capacitar à sua nova missão?

Ou será tudo um jogo de boas intenções sem capacidade de realização nessa altura do relacionamento entre Estado e povos indígenas no Brasil?

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Malária cai em 30% na Amazônia

Eis uma notícia a comemorar: diminui em 30% a incidência de malária na Amazônia.

Não é pouca coisa. Há tempos a malária vem provocando um estrago muito grande na população da Amazônia. Desde a década de 1970, com a expansão das frentes agrícolas e pastoris, além dos garimpos descontroladas, a malária ceifou a vida de muita gente e deixou uma quantidade ainda maior com seqüelas permanentes.

Os povos indígenas sofreram muito por causa da malária. Em muitos casos, índios recém-contatados eram acometidos por cepas terríveis de malária e muitos morriam. Em muitas terras indígenas a malária é endêmica e, em muitos casos, pouco se faz para combatê-la. É vista quase como uma fatalidade da natureza.

Mas não é uma fatalidade. Em várias terras indígenas a malária foi debelada quase completamente. É só ter mais atenção e persistência que o vetor é controlado e o plasmódio é debelado.

Assim, parabéns a todos que vêm lutando contra a malária. Aos institutos de pesquisa que estudam o comportamento do mosquito anofilino, à atenção da Funasa (e antes da SUCAM) em diminuir a incidência desse vetor e aos produtores dos novos remédios e terapias.

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Casos de malária diminuem 30% com Amazônia Legal
24HORAS NEWS

Dados do Ministério da Saúde apontam queda significativa nos casos de malária na Amazônia Legal nos cinco primeiros meses deste ano. Os Estados que compõem a Amazônia Legal são Amazonas, Amapá, Pará, Roraima, Rondônia, Acre, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso --eles concentram 99,9% das notificações de malária no país.

Entre janeiro e maio de 2008 foram notificados 121.132 casos da doença, contra 185.983 no mesmo período do ano passado --uma redução de 34,8%.

Segundo o ministério, melhorias na rede de diagnóstico, no tratamento e a utilização de medicamentos mais eficazes foram fatores responsáveis pela redução na estatística.

Com a redução de casos, houve impacto também nas internações, que caíram 45,8% no período avaliado, passando de 2.910, em 2007, para 1.576, em 2008, de acordo com o ministério.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mércio Gomes é entrevistado pela revista Carta Capital


Entrevista completa com Mèrcio Pereira Gomes também pode ser encontrada na revista Carta Capital de hoje.

Em defesa do estado

Márcio Sampaio de Castro

Discípulo de Darcy Ribeiro, o antropólogo Mércio Pereira Gomes orgulha-se de ter sido o segundo presidente na história da Fundação Nacional do Índio (Funai) a dirigi-la por mais tempo. Foram três anos e sete meses. Distante de Brasília, Gomes repete a quem quiser ouvir que a Funai precisa ser refundada. Também afirma que a presença de ONGs estrangeiras atuando nas reservas é proporcional à ausência do Estado brasileiro. As críticas não significam que o antropólogo concorde com o comandante militar da Amazônia, general Augusto Heleno, que classificou a política indigenista de caótica e criticou as ONGs. “Concordo com o general quando ele diz que a política indigenista não funciona na prática, mas discordo frontalmente que as terras indígenas sejam uma ameaça à integridade nacional. Temos terras indígenas nas fronteiras com todos os nossos vizinhos e isso nunca foi problema”, afirma na entrevista a seguir.

CartaCapital: O senhor esteve à frente da Funai por três anos e sete meses, com a perspectiva de quem a conheceu por dentro, qual balanço faz da instituição?

Mércio Gomes: À frente da Funai aprendi muitas coisas sobre as quais como antropólogo não tinha clareza, mas o principal aprendizado é que precisa existir uma instituição forte dentro do Estado brasileiro para, não somente dar proteção às terras indígenas, condições de sobrevivência econômica, crescimento demográfico e abrir as portas para que os índios possam se inserir no restante da sociedade, mas também para proteger os índios dos demais brasileiros que cobiçam suas terras e daqueles que têm preconceito contra esses povos. O Estado sempre foi o local onde os índios encontraram um ambiente seguro.

CC: A Funai tem cumprido esse papel?

MG: Bom, precisamos primeiro entender como foi fundada a Funai. Ela foi criada durante a ditadura militar para assimilar os índios em um curto espaço de tempo, mas a questão indígena é algo tão forte que em seu auge essa mesma ditadura não conseguiu fugir às obrigações inerentes ao Estado para com os povos indígenas. A Constituição de 1969 tem um artigo que está entre os mais bem redigidos sobre o tema quando afirma que “terceiros não têm nenhum direito sobre as terras que sejam reconhecidas como indígenas”. Já o Estatuto do Índio é de 1973. Ou seja, mesmo contrário aos seus interesses iniciais, este Estado sob o controle dos militares criou um arcabouço jurídico de defesa dos índios. Ao término do governo Figueiredo (o último presidente da ditadura) inicia-se na Funai o reino dos coronéis, com administrações que desejavam emancipar os índios para abrir suas terras à exploração. Era gente que vinha do SNI (o extinto Serviço Nacional de Informações) e achava que os índios eram um problema. Isto levou ao surgimento das resistências, por organizações que reuniam antropólogos, indigenistas, advogados e demais interessados. Eram o que naquele tempo chamávamos de entidades da sociedade civil. Veja, então, que as ONGs surgiram com um bom propósito. Com o tempo, elas foram se firmando e o Estado se deteriorando. Consolidamos a democracia, mas não consolidamos o Estado e a Funai ficou sem forças para manter uma tradição indigenista.

CC: O senhor afirma que as ONGs surgiram com um bom propósito, e hoje, como analisa as ações das diversas organizações que atuam nas aldeias nos territórios?

MG: As ONGs se profissionalizaram. As pessoas que estão ali vivem disso, não é um trabalho ocasional, idealista. Há ONGs com 150 funcionários, que empregam jovens que saem das universidades, oferecendo-lhes estágios, e possuem filiais em diversos estados brasileiros. Ao se profissionalizar, essas organizações criam sua própria dinâmica e seus próprios interesses e um dos principais é que a Funai seja fraca, porque quanto mais fraca for a Funai mais eles vivem bem. Eles recebem recursos do exterior para fazer coisas que são atribuições da Funai. Por exemplo, tem uma ONG que recebeu 2,8 milhões de dólares para supostamente demarcar terras indígenas, como se isso fosse possível.

CC: Qual ONG?

MG: Instituto Sócio-Ambiental e quem deu esse dinheiro foi a Fundação Gordon Moore (Gordon and Betty Moore Foundation). Qualquer um pode ver no site da fundação. Isso é um esbanjamento das possibilidades de atuação das ONGs. Elas deveriam, neste momento em que o Estado brasileiro toma consciência da importância da Amazônia, estar ao lado da Funai e ao lado das lideranças comunitárias, que tentam encontrar um caminho dentro da sociedade brasileira. Então, fazer a crítica da Funai é muito fácil, porque é um órgão que tem sofrido a perda de quadros, sem renovação, e não tem os elementos suficientes para fazer a defesa e a assistência aos índios.

CC: E outras instituições como a Fundação Nacional de Saúde (Funasa)? Qual tem sido o papel delas na questão indígena?

MG: No fim da década de 90, com o governo Fernando Henrique, período em que os índios já apresentavam um crescimento em sua população, a saúde, que era uma obrigação da Funai, foi transferida para a Funasa, que aumentou substancialmente seu orçamento. Só para a questão indígena chega a 300 milhões de reais. Mas ela não tem indigenistas, não tem quadros que saibam fazer a intermediação e o relacionamento com os povos indígenas. Além disso, os quadros que ela possui são de alta rotatividade. Um médico que não tenha um espírito indigenista não agüenta trabalhar mais do que seis meses, um ano... Então, as equipes médicas se renovam sem que o conhecimento seja transferido para os que vêm depois. Isso provoca todos os transtornos que temos visto da Funasa em relação aos índios. Para trabalhar com eles tem de ter vocação, a satisfação de trabalhar com uma cultura que é diferente, mas ao mesmo tempo é brasileira, e isso só se cria por um espírito corporativista, de pessoas que trabalham juntas. A Funasa não consegue fazer isso. A mesma coisa em relação à educação, que também retiraram da Funai, passaram para o Ministério da Educação e depois municipalizaram. A educação fundamental é dada pela professorinha daquela cidade do interior, cuja base fundamental é ser contrária aos índios. Isso nunca vai produzir um conhecimento, a partir dos índios, sobre o Brasil que seja razoável e equilibrado a respeito do potencial do País, suas coisas boas e ruins. Você só entende que o Brasil é uma coisa ruim, sendo ensinado por esses professores e professoras que não têm um comprometimento com os povos indígenas. Em resumo, os índios estão sendo socializados por pessoas que são contrárias aos índios.

CC: Comparando com as ONGs...

MG: As ONGs têm muito mais responsabilidade, muito mais sentido, mas são muito poucas e não estão lá dando aula, fazendo esse tipo de trabalho junto com o Estado. Como eu disse, eles sobrevivem da carcaça da Funai. Ela deve virar um órgão forte, determinado e voltado para a sua razão de ser, para o que sabe fazer, ou seja, a proposta de socialização e integração do índio à nação, sem tirar a sua cultura. Neste contexto as ONGs deveriam vir para ajudar e a profissionalização delas viria como um serviço auxiliar do Estado e não um serviço que substitui o Estado.

CC: Há 15 anos repousa no Congresso um projeto de lei para reformar o Estatuto do Índio, cujo principal teor seria a retirada da tutela do Estado sobre os indígenas. Ele precisa ser reformulado? Qual é a urgência dessa reformulação?

MG: Este é um tigre de papel que as ONGs têm criado desde 1994. Quando a Constituição de 1988, em seu artigo 231 valoriza de modo muito explícito as culturas indígenas, os seus costumes. Muitos intérpretes da Constituição consideram este artigo um salto além do Estatuto do Índio porque acham que, quando o Estatuto diz que o propósito é “respeitar e integrar harmoniosamente a comunidade nacional”, isto seria um desrespeito à valorização dos costumes. Minha interpretação é exatamente o contrário. Estão fazendo uma exegese errada. A Constituição brasileira também valoriza o índio como cidadão e parte da nossa cultura. Acho que ela apenas explicita algo que o atual Estatuto já tem. Os defensores da reforma acham que o termo “relativamente capaz” deve ser excluído. Considero isso perigoso. Se retirarmos a tutela dos índios todo o arcabouço jurídico sobre a questão indígena vai por água abaixo. No interiorzão do Brasil, se um índio cometer um crime, ele não terá a proteção da tutela. O jurista Dalmo Dallari diz que a tutela é só um instrumento a mais de proteção e que de modo algum tira direito civil dos índios. Tirar a tutela vai acabar com um instrumento fundamental de mais de 200 anos de tradição na cultura brasileira, vai prejudicar no dia-a-dia muitos povos indígenas e muitos índios sabem disso. Agora, há outras questões, como a regulamentação do parágrafo que trata dos recursos minerais e hídricos.

CC: O Projeto de Lei 1.610/96 sobre esta questão também tramita há bastante tempo no Congresso...

MG: Sim. De algum modo é preciso que haja uma lei que regulamente essa questão. Mas voltando especificamente ao tema do atual Estatuto, o considero uma grande peça jurídica. É tão bom que serviu de inspiração para a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (que trata sobre os povos indígenas). Em resumo, querer modificar o Estatuto é uma temeridade, é desnecessário modificar uma lei tão bem-feita e tão importante, que permitiu a demarcação de 13% do território nacional.

CC: Recentemente o general Augusto Heleno, comandante militar da Amazônia, afirmou que a política indigenista brasileira é caótica e precisa ser reformulada. O general tem razão?

MG: Há dois pontos mencionados pelo general que são importantes. Com um deles concordo, com o outro não. O que o general fala é que a Amazônia é o ponto focal, ou na linguagem deles o ponto alfa de defesa nacional, e de fato todos nós brasileiros concordamos. Essas mudanças climáticas, a pressão internacional sobre a Amazônia, a sua devastação para plantações ou para a retirada de madeira e a repercussão sobre isso nos preocupa a todos. Não só do ponto de vista do Brasil, mas também dos interesses que isso causa em outros países. Dizer que a Amazônia não é uma questão de soberania nacional é um engano. É claro que é! Concordo também que o Estado tem de estar presente. A única maneira de o Brasil garantir sua soberania naquela região é ter o Estado presente. O Estado significa uma Funai forte, com postos indígenas, com efetiva assistência aos índios, um Ibama forte, que defenda as terras do patrimônio da União e que regulamente as terras com retirada legal de madeira, um Incra determinado para regulamentar os processos de assentamento de terras, um Embrapa com força para descobrir e ajudar os povos da floresta a explorar os seus recursos sem devastação, e um Exército forte, que faça a proteção de nossas fronteiras.

CC: Para o general, o risco estaria justamente nessas áreas.

MG: Discordo frontalmente do general quando ele diz que terras indígenas na fronteira são um perigo para a soberania nacional. Isto porque o Brasil tem 17,5 mil quilômetros de fronteira territorial com dez países da América do Sul. Desse total, 5,7 mil são de terras indígenas. Temos terras indígenas com todos os países que nos fazem fronteira. Nenhuma dessas terras provocou sentimento de inviabilidade ou quebra da soberania brasileira, nelas o Exército está presente com seus batalhões e se tivesse mais força teria mais batalhões se assim achasse necessário. Os soldados que ali estão são soldados indígenas, recrutados nas aldeias. Passam dois, três anos como soldados. A Raposa Serra do Sol é só um ícone desse receio que não faz sentido. Nós vamos desfazer os 5,7 mil quilômetros de fronteira indígenas que já existem? O general está apontando o seu fuzil para o lado errado. Deveria apontar para o próprio Estado que precisa reforçar seus equipamentos e instrumentos de poder lá. E os principais são o Exército, a Funai e o Ibama.

CC: Quais são as verdadeiras ameaças na questão amazônica? As ONGs estrangeiras, a falência do Estado ou algum outro fator?

MG: O principal vazio que há na Amazônia corresponde a um fator: é o Brasil ter certeza de que a Amazônia pertence ao Brasil e que não é um apêndice do País, mas o próprio País. Quando nós tivermos essa certeza, através de um discurso que signifique esta certeza, a Amazônia não terá nenhum perigo de ser objeto de alguma cobiça internacional porque ficará evidente para todos. As manifestações de apreço e da importância da Amazônia para o Brasil são fundamentais. Essa fala do general trouxe este sentimento à tona porque muitos brasileiros se identificaram com ela, porque estão vendo a região ser comentada por todos os meios pela imprensa internacional, com manifestações de que o Brasil é irresponsável em relação ao papel da Amazônia na preservação do clima e das condições de sobrevivência na Terra. Se o povo brasileiro, a elite intelectual, política, militar e empresarial se der conta disso não haverá perigo. A presença de ONGs estrangeiras é proporcional à ausência do Estado. Se o Estado estiver presente, as ONGs não terão presença. É inversamente proporcional. Um Estado forte tornaria a presença delas ali circunstancial e os índios mais conscientes de seu papel dentro da sociedade brasileira.
 
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