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terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cineasta-indigenista ganha prêmio por filme sobre Corumbiara


O Diário de Pernambuco fez essa excelente entrevista com o cineasta e indigenista Vincent Carelli, que acaba de ganhar o Kikito de Ouro do festival de cinema de Granado, no Rio Grande do Sul.

Vincent Carelli tem feito de sua vida uma dedicação à causa indígena por meio de filmes e videos. Nos últimos 10 ou mais anos ele tem treinado muitos jovens indígenas em suas próprias aldeias na arte de filmar com capacidade etnográfica e jornalística.

Ainda não vi esse filme sobre o Massacre de Corumbiara. Sei que esse massacre aconteceu entre 1985-86, foi denunciado pelo indigenista Marcelo Santos, que foi à área e lá contatou os sobreviventes, mas nada foi feito a respeito. A direção da Funai não tomou providências. Estava-se criando então a Coordenação de Índios Isolados e deixar de lado essa questão foi um acerto entre as partes.

Os representantes do povo de Corumbiara são apenas nove e vivem buscando retomar sua vida com dignidade. Marcelo Santos e Vincent Carelli trabalharam juntos nesse filme por longos 20 anos. O Kikito é um prêmio ao esforço desses dois indigenistas.

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Índio quer respeito, se não der...
Rondônia // Vincent Carelli faz do documentário Corumbiara um grito de denúncia contra massacre ocorrido em 1995
Thiago Corrêa
Thiagocorrea.pe@diariosassociados.com.br


Gramado (RS) - A cerimônia de premiação da 37ª edição do Festival de Cinema de Gramado ainda estava para

Foto: Vincent Carelli/Divulgação
acontecer, mas o diretor Vincent Carelli já era um dos mais cumprimentados pelo documentário Corumbiara. O grito de denúncia do filme comoveu a plateia do evento, dando a ele uma expectativa na conquista de Kikitos que viriam a se confirmar com os prêmios de melhor filme, júri popular, estudantes de cinema, direção e montagem, este pelo trabalho de Mari Corrêa. Nesta entrevista ao Diario de Pernambuco, dada horas antes da cerimônia, Carelli explica como surgiu seu trabalho com as câmeras, relata suas experiências com os índios, interpreta algumas opções do filme, fala sobre a questão indígena no país e convida os envolvidos no massacre de Corumbiara a abrirem um processo contra ele.

Entrevista // Vincent Carelli

"Corumbiara não é etnográfico, é um filme político"

Como foi o início do seu trabalho com vídeo e essa relação com os índios?

O vídeo nasce de uma militância política. Em novembro completo 40 anos de indigenista. Minha fotografia já foi inspirada nesse trabalho com os índios, porque entrei em contato com eles aos 16 anos, e isso revolucionou minha vida. Já que tive esse privilégio, senti a necessidade de compartilhar. Depois fui procurado por um cineasta, o Andrea Tonacci, que fez Serras da desordem, para um projeto de usar o vídeo como elo entre os povos. Mas não vingou porque ainda era muito cedo, a tecnologia era difícil, cara. Quando saiu o VHS camcorder, comecei a revisitar os povos com quem já tinha trabalhado, com lideranças visionárias e projetos de resistência cultural, oferecendo minha câmera para seus projetos. Nessa trajetória, fiz uma série de vídeos que tratavam do videoprocesso das comunidades e serviram como meu braço de financiamento. Depois que comecei vi que, essa questão dos índios assumirem a produção, era um caminho já indicado em muitos lugares. Então começamos a implantar oficinas, de formação e captação de cineastas indígenas. Já estamos há 10 anos nessa linha.

Como é a relação dos índios com a própria imagem?

Tem uma série de tabus. A cultura é um processo dinâmico, o fascínio pela imagem é tão grande que esses tabus são revistos e reinterpretados. Nos oiampis, eles logo disseram que o perigoso era a imagem em preto e branco, mas colorido estava tudo bem. Eles aderem, esse jogo de espelho provoca uma revisão. Você sempre tem uma outra imagem de você, quando nos vemos, há o confronto com a autoimagem. Há um processo de ajuste, será que era assim que gostaria de me ver? Isso rebate, provoca reações, uma consciência do processo de mudança da cultura. Também reforça o discurso deles, estimulava essas comunidades a fazer um exercício de memória, de reencenar, atualizar seu rituais.

Corumbiara levou 20 anos para ser feito. Como foi o processo de edição, que envolveu horas de filmagem e diversas tecnologias?

Começamos pelo VHS, fomos parao super-VHS, passamos pelo high eight, Betacam, mini-DV. Em 2006 nem quis filmar em HD para não criar mais um problema. O Corumbiara acompanhou todo esse processo do Vídeo nas Aldeias, correndo por fora porque meu foco era a mídia com os índios. Minha perspectiva era justamente o contrário, queria fugir dessa visão miserabilista de que os índios estão acabando. Eu trabalhava no sentido da recuperação das coisas. O Corumbiara atravessou meu caminho, correu por fora, é outra linha, uma história arrasadora.

Corumbiara já surgiu como um filme? Quando você percebeu que esse material poderia se transformar em documentário?

Ele sempre foi pensado que, algum dia, daria um filme. Ao longo do processo, a imagem foi fundamental. A partir de 1995, quando fizemos o contato com esses índios e jogamos na televisão, no dia seguinte o juiz de Porto Velho assinou a interdição da área. A imagem serviu para resguardar os sobreviventes. Mesmo que não tivesse o filme, a filmagem cumpriu seu papel histórico. No ano seguinte, a gente descobriu que um fazendeiro, ao ver as imagens da televisão, decidiu acabar com o terceiro grupo de índios porque, se a gente descobrisse, ele iria perder uma parte da fazenda. Isso gerou outro massacre. A gente foi chegando tão perto das evidências, que cheguei a pensar que conseguiríamos pegar os caras. Mas não aconteceu, o caso nunca foi investigado. Eram horas de material, o filme ficou engavetado. Anos depois veio uma jornalista da Holanda escrever um livro sobre essa história e, de repente, veio me entrevistar. Fiquei emocionado ao lembrar. Então fiz a viagem de 2006 e parti para a edição.

Como tem sido a recepção ao filme?

Em geral, os gringos se interessam mais pelos índios do que os brasileiros. Mas nesse caso, o filme está sendo feito para o Brasil. Hoje percebo que pouco importa a impunidade. Contar essa história é mais importante, proporcionar esse testemunho, esse choque emocional. É um caso emblemático, raríssimas vezes se conseguiu documentar um massacre. Ficcionou-se, mas o documentário tem uma força além da ficção, porque é real, tem um impacto enorme sobre a plateia. Esse gesto de apertar o gatilho é o mesmo gesto do bandeirante caçando índio, uma atitude que se perpetua. O filme é uma reflexão para o Brasil sobre a dívida histórica com os índios.

Houve alguma reclamação por parte dos madeireiros e fazendeiros envolvidos?

Tive esse retorno recentemente quando voltei à área do índio do buraco, logo depois do filme passar no festival É tudo verdade. Quando o filho do fazendeiro percebeu que eu tinha feito o filme, começou a me xingar, quis me bater na hora. Todas as entrevistas foram consentidas, mas as imagens do fazendeiro que mandou atirar no índio do buraco foi uma câmera escondida. Em tese, ele poderia me processar, foi um risco que assumi. Acharia até bom, não só para o filme. Não acredito que ele tenha interesse em fazer isso, porque finalmente se abriria um processo judicial sobre o caso e teríamos que ir à questão do massacre. Eles devem estar uma arara com o filme, mas por enquanto está todo mundo quieto.

Por que a opção de assumir a narração em primeira pessoa, com comentários e reflexões?

O fim imaginado do filme era o julgamento e os caras indo para cadeia, mas não se concretizou. E também porque o filme é a história da minha vida, foram 20 anos, marcou minha vida. Só podia ser na primeira pessoa, não tinha como ser uma voz off. Em 2006, foi muito emocionante a maneira como eles nos trataram. Para mim, eles eram parte de minha vida e percebi que eu fazia parte da deles. Tem uma coisa de vivência, que acrescenta ao filme. Não foi um comentário de fora, foi uma das histórias mais emocionantes e tristes que já vivi.

O foco do filme é a questão fundiária, da reserva indígena, mas também tem a preocupação de registrar os rituais dos índios. Por que isso?

Primeiro quis transmitir a dificuldade de comunicação, foi algo muito doloroso estar ali e não conseguir falar com eles. Surgiu uma discussão aqui em Gramado de que esse filme era muito etnográfico e não deveria estar no festival.Corumbiara não é etnográfico, é um filme político. Claro, tem descrições, é importante você dar essa perspectiva de pessoas que vivem em outro mundo, dar profundidade a essa diferença. Acho que essa atitude de tentar enclausurar a questão indígena a antropólogos e especialistas, guardadas as devidas proporções, é a mesma atitude das autoridades que jogaram esse crime de genocídio para debaixo do tapete. A importância de trazer esse filme para Gramado é justamente de romper esse gueto e jogar ele para o público.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Geoglifos no Acre

Em diversas partes do Brasil há marcas de presença histórica e pré-histórica dos povos indígenas, seja de pinturas rupestres em itacoatiaras, seja de terraços e canais de escoamento de água.

No alto Xingu o arqueólogo americano Mike Heckenberger descobriu fortes evidências de presença de caminhos, canais e terraços que evidenciariam a existência, a cerca de 800 a 1000 anos atrás de uma sociedade hierarquizada, em forma de cacicato, naquela região onde hoje vivem os índios Kuikuro.

No Baixo Amazonas, especialmente na Ilha de Marajó e na região de Santarém, são grandes as evidências de sociedades densamente povoadas, com terraços construidos pelo homem onde se localizariam casas, possivelmente armazéns e templos.

Eis que, no Acre, há uns gigantescos geoglifos, de formatos diferentes, estimados em mais de 1.000 anos, sobre os quais se sabe muito pouco. Quem os teria feito? Onde estão as culturas que o fizeram? Quais os seus significados? Teriam sido feitos por inspiração ou influência da região andina, ou seriam de culturas autóctones na região?


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Marcas milenares deixadas por índios no Acre podem ser vistas pela internet

Globo Amazônia, por Iberê Thenório, em São Paulo

Círculos, quadrados e octógonos gigantes feitos há pelo menos mil anos marcam o chão do Acre. Desde a década de 1970, quando foram descobertos, eles intrigam os arqueólogos, que ainda não conseguiram entender para que eram usadas essas estruturas, chamadas de geoglifos.

Foto: Governo do Acre/Divulgação

Formas geométricas desenhadas há pelo menos mil anos. (Foto: Governo do Acre/Divulgação)

Os desenhos chegam a ter 100 metros de diâmetro, e sua borda é desenhada em grandes valas, de 12 metros de largura por quatro de profundidade. Por uma ironia, só se conseguiu descobrir esses desenhos por causa do desmatamento, que “limpou” grandes áreas, deixando evidentes as formas geométricas.

Geoglifos do Acre
O que são Formas geométricas, na maior parte círculos e quadrados, desenhadas no chão.
Que tamanho têm As linhas têm cerca de 12 metros de largura e quatro de profundidade. Os desenhos chegam a ultrapassar 100 m de diâmetro.
Onde estão No Acre, entre Xapuri e Boca do Acre.
Quantos são Até hoje, já foram descobertos cerca de 200, mas estima-se que haja dez vezes mais que isso.
Que idade têm Pelo menos 1000 anos.
Para que serviam Ainda não se sabe. Cientistas imaginam que eles poderiam servir para abrigar aldeias, plantações ou centros cerimoniais


Quando o primeiro geoglifo foi descoberto, não se sabia que as valas formavam um desenho, e que havia tantos ali. Hoje, com a ajuda de aviões e imagens de satélite, já foram identificados cerca de 200. “Acho que já descobrimos em torno de 10%”, estima o cientista Alceu Ranzi, integrante da equipe que descobriu os geoglifos.

Com a chegada dos mapas virtuais, que utilizam imagens de satélite em alta resolução, os desenhos ficaram evidentes, e até os próprios cientistas puderam encontrar mais estruturas desse tipo. Veja, abaixo, alguns exemplos de como os desenhos milenares se espalham pelo chão do Acre

Segundo Ranzi, ainda se sabe pouco sobre os geoglifos. Apenas um deles teve a idade investigada cientificamente, e descobriu-se que o desenho tinha 1250 anos. “Eles podem ser aldeias, plantações, centros cerimoniais...”, conjectura o cientista.

Uma das poucas certezas dos arqueólogos é que o povo construtor dessas estruturas tinha força de trabalho e tecnologia para fazer grandes obras, além de dominar as formas geométricas. “Nos geoglifos, há figuras compostas. Quando há um quadrado dentro de um círculo, ele é equidistante das paredes. Será que o conhecimento explode em regiões diferentes do mundo? Lá na Grécia e na Amazônia?”, questiona o pesquisador.

Turismo

A maior parte dos geoglifos descobertos está espalhada por pastos e plantações particulares. Segundo Ranzi, o Ministério Público do Acre está preparando uma resolução para que os agropecuaristas ajudem a proteger os desenhos, evitando criar gado ou passar tratores por cima das valas.

Foto: Governo do Acre/Divulgação

Muitos geoglifos são cortados por estradas. (Foto: Governo do Acre/Divulgação)

Para valorizar essas estruturas e estimular o turismo cultual, Ranzi sugere que sejam construídas algumas torres de observação na beira das estradas, onde as pessos pudessem subir e ver os desenhos de cima. “Há vários geoglifos que estão na beira do asfalto. Alguns são cortados bem no meio por estradas”, conta

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Sai filme sobre os Guató

Matéria da Folha Ilustrada fala sobre filme semi-comercial feito sobre os Guató, um povo do rio Paraguai que era dado como extinto até a década de 1970.

Lembro-me de que, como professor da Unicamp, conversei muito com a lingüista Aidar Cavalcanti, que estava estudando a língua dos Guató, e que ajudou muito a reuni-los em uma aldeia, numa ilha que antepassados deles haviam controlado.

Como presidente da FUNAI recebi por duas vezes lideranças dos Guató, especialmente um casal de idosos que viviam na ilha e buscavam condições para atrair mais jovens para viver com eles e fazer sua cultura renascer.

A sago do Guatá é dramática e sua volta por cima merece ser vista por todos.

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Pizzini encontra a tribo "extinta"

"500 Almas" mescla documentário e ficção para contar a história dos guatós, índios dados como mortos
Paulo José e Matheus Nachtergaele são alguns dos atores que participam do longa, que levou mais de dez anos para ser concluído

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Quando ainda era um adolescente, em Dourados (MS), Joel Pizzini ficou impressionado com os rumores que circulavam na região sobre o ressurgimento dos guatós, nação indígena que era dada como extinta até por antropólogos da envergadura de Darcy Ribeiro.

A redescoberta dessa cultura esquecida se deu lentamente, pelo trabalho de antropólogos, lingüistas e missionários. Pouco a pouco, com o encontro de alguns poucos índios que ainda falavam a língua da tribo, foram se reunindo os cacos dispersos e a nação guató se recompôs.

"Aquilo me soou como algo mítico: um povo renascido das cinzas", diz Pizzini, que hoje, aos 46 anos, lança finalmente seu longa-metragem sobre a saga guató, o documentário poético (na falta de definição melhor) "500 Almas", que estréia amanhã. Foi um longo percurso para chegar até aqui.

"Há 30 anos, o acesso aos lugares onde viviam os remanescentes guatós era difícil", lembra o cineasta. Só depois de cursar jornalismo no Paraná e retornar ao Mato Grosso do Sul, Pizzini, trabalhando então na Secretaria da Cultura do Estado, criou as condições para um contato com os índios.

O longa-metragem sobre o tema começou a surgir no início dos anos 90. Em 94, o projeto ganhou um prêmio de apoio da Fundação Rockefeller, dos EUA. Pizzini pôde se dedicar então à pesquisa e viajar à Europa, onde encontrou material guató no Museu de Antropologia de Berlim. Articulou também uma co-produção alemã para o documentário.

As filmagens começaram em 98, mas foram interrompidas devido à dificuldade de conseguir (e custear) um helicóptero equipado para filmar as imagens aéreas -captadas pelo legendário Dib Lutfi e essenciais ao filme, como qualquer espectador perceberá.

Às partes filmadas nos locais habitados pelos guató (as margens do rio Paraguai e seus afluentes, bem como as periferias de cidades como Corumbá e Cáceres) e em Berlim, somaram-se duas seqüências encenadas com atores e rodadas no Rio de Janeiro.

Numa delas, filmada no Palácio Tiradentes, Paulo José representa vários personagens (juiz, missionário, fazendeiro, militar) numa reconstituição do processo que investigou o assassinato de um líder guató em 1982, quando a tribo conquistava junto à União a posse da ilha Insua, no rio Paraguai.

A outra cena ficcional, rodada no teatro Glória, é um fragmento da peça "A Controvérsia de Valladolid", de Jean-Claude Carrière, em que um representante papal (Paulo José) interroga o frei espanhol Bartolomé de las Casas (Matheus Nachtergaele) sobre os indígenas da América.

"O [crítico] Ismail Xavier diz que esses trechos encenados são o momento brechtiano do filme", brinca Pizzini. O difícil, segundo o diretor, foi "enxugar" ao máximo essas cenas e integrá-las à delicada tapeçaria do documentário.

Co-autores

O material de arquivo inserido no longa inclui desde gravuras de Hercule Florence até cenas dos filmes "Terra dos Índios", de Zelito Vianna, e "Os Nibelungos", de Fritz Lang.
Para construir uma obra à altura de sua obsessão pelo tema, Pizzini contou com a colaboração, para não dizer co-autoria, de três profissionais de primeiríssimo time: o diretor de fotografia Mário Carneiro, a montadora Idê Lacreta e o compositor Lívio Tragtemberg.

"O Mário foi essencial porque ele é ao mesmo tempo um artista, com sólida formação em pintura, e um profundo humanista, o que impediu que o filme caísse na estilização estéril", diz o diretor. Idê Lacreta, por sua vez, deu ritmo e coesão ao mosaico de fragmentos que constitui o filme, num processo análogo ao da reconstituição da própria nação guató.

Em grande medida, a unidade e a fluência de um material tão heterogêneo (depoimentos, paisagens, objetos, cenas do cotidiano, imagens de arquivo, encenação com atores) é conseguida graças à música "fluvial" de Lívio Tragtemberg. Sua suíte dialoga com Haendel, Villa-Lobos e a música indígena e cabocla do Pantanal.

Uma das opções ousadas do diretor foi abrir mão do discurso narrativo/explicativo. As informações são dadas de modo fragmentado e, muitas vezes, indireto. É desse modo lacunar que ficamos sabendo, por exemplo, que a tribo guató escolheu um cacique -cargo que não faz parte da sua tradição- para realizar a interlocução com a Funai e com as outras nações indígenas. Mais que isso: descobrimos que o atual cacique se tornou evangélico.

"Seria irresponsável eu criticar uma escolha feita pelos próprios índios", diz Pizzini. "Quis deixar expostas as contradições e paradoxos de uma cultura em transformação."

O mesmo respeito radical aos guatós levou a uma decisão ainda mais controversa: a de dar igual tratamento à fala dos índios e à dos estudiosos brancos. A exemplo das conversas no idioma guató, também não têm legendas as falas do diretor do Museu de Antropologia de Berlim e as do antropólogo Claude Lévi-Strauss, talvez o mais importante intelectual vivo.

"Eu não quis estabelecer uma relação de autoridade, em que os índios são meros objetos do discurso dos brancos. Quis fazer o filme dos guatós", diz Pizzini, que nas matinês da infância, assistindo aos faroestes de John Ford, torcia sempre para os índios.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Festa do Mel, dos índios Guajajara

Os jornais do Maranhão só costumam fazer matérias negativas sobre os índios que lá vivem. Desta vez, o Jornal Pequeno traz uma matéria sobre o mais emocionante dos rituais guajajara, a Festa do Mel.

Vale a pena conferir essa pequena matéria pelo teor dado pelo jornal, inclusive com detalhes de proibição de uso de bebidas alcoólicas.

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Ritual sob sol a pino deixa índios em êxtase

Por volta das 15h de quarta-feira, com o sol a pino, atendendo ao chamados do cacique Vicente Guajajara, devidamente pintado com tintas de urucum e jenipapo, os índios se juntaram na entrada da aldeia, de onde, com ramos de árvores, começaram a se movimentar freneticamente de um lado para outro, como um verdadeiro enxame.

Essa parte do ritual, que levantou uma imensa nuvem de poeira, durou cerca de 20 minutos. Em seguida, os índios entraram na casa, onde por mais de um mês o mel da festa foi armazenado.

“Essa festa tem um significado muito grande para o nosso povo; é um momento mágico, resume o índio e servidor da Funai, Antônio Guajajara. Com cerca de 65 anos de idade, ele disse que havia anos não participava desse ritual.

No interior da “casa do mel”, com pouco espaço para se movimentar, devido à grande quantidade de participantes, os mais velhos da tribo (liderados pelo cacique Vicente Hamu) começaram a dançar em círculo, a entoar as “cantigas” da festa e a beber o mel, misturado com água. Alguns, embalados pela cantoria, uma espécie de mantra, entravam em êxtase. “É o espírito dono da festa chegando”, disse o índio Antônio Guajajara.

Além de beber o mel, os participantes tinham a cabeça molhada com a mesma mistura, seguros pelas orelhas e pelos cabelos, numa espécie de batismo. Em seguida, eram “benzidos” com um ramo de árvore e seguiam com a dança e os cânticos.

“Já disse que aqui não pode entrar bebida alcoólica”, gritou o cacique Vicente Guajajara, ao perceber que um jovem índio dançava com uma garrafa de cachaça. Por um instante, a cerimônia foi interrompida até que “o profanador” daquele espaço fosse retirado do local.

“É emocionante e estou muito feliz”, disse a professora Sônia Guajajara, 33 (formada em Letras pela Universidade Estadual do Maranhão), que nunca havia participado da “Festa do Mel”. “É mais do que importante se resgatar a cultura do nosso povo”, completou.

Imagem e meio ambiente – Não é somente com o resgate das antigas tradições que os líderes guajajaras estão preocupados. Entre eles há um sentimento muito forte pela preservação do meio ambiente e contra a imagem negativa que setores da sociedade ainda têm das comunidades indígenas.

“É muito bom que vocês estejam aqui para documentar esse momento, para mostrar à sociedade maranhense algo positivo do nosso povo. O que costuma ser divulgado, geralmente, é notícia ruim, coisa má. E, como você vê, temos muita coisa bonita para mostrar”, disse o cacique Tomás Guajajara, da Aldeia Tarumã, participante da “Festa do Mel”.

O ritual da festa foi precedido de uma festa profana, animada por pelo menos sete pequenas bandas. Uma delas, o “Som das Tribos”, formada por índios e mestiços guajajaras, é especializada em forró.

A lenda da 'Festa do Mel'

Há muitas lendas sobre a origem da “Festa do Mel”. A história varia muito, mas a essência é a mesma: o sobrenatural, o encantado, como os índios costumam falar.

Uma das versões é que a dança e as cantigas entoadas na festa foram ensinadas por uma onça encantada a um cacique chamado Aruwê.

Conta-se que Aruwê foi parar numa aldeia onde moravam onças que catavam mel na floresta. Lá, o índio se casou. Um dia, depois de muito tempo, Aruwê sentiu saudades de casa e decidiu voltar para sua aldeia, sendo recebido com festa por seu povo.

Quando quis retornar para a aldeia das onças, não conseguiu encontrar mais o caminho. Por isso, ele passou a ensinar a seus irmãos o que aprendeu no período em que viveu na aldeia encantada.

Os guajajaras são um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, sendo que a história deles tem cerca de 380 anos. Estão distribuídos em 11 áreas, todas no Maranhão. Grande parte das aldeias está na Reserva Araribóia, que vem sendo submetida a intensa devastação. Essa etnia integra, ao lado dos Guajá e Kaapor, o grupo Tupi dos índios maranhenses. No outro grupo, Timbira, estão os krikatis, gaviões e kanelas.
 
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